Relatos de um Bolseiro

2 Uma Recepção Inesperada


Quem nunca ouviu falar do pequeno Bilbo Baggins?

O homem, de estatura normal para sua idade adulta, era pequeno porque era insignificante para os vizinhos, para as pessoas ao seu redor. Há tantas pessoas, tantos continentes, tantos países! Tantos planetas, tantas galáxias... quem diabos se importaria com alguém tão pequeno e insignificante como Bilbo em um lugar tão grande como o universo? Principalmente alguém doente como ele.

Bilbo Baggins vivia em uma toca no chão. Tinha esquizofrenia e não trabalhava; a mãe o cuidava quando Gandalf estava com outros pacientes. Porém o medicamento e o sempre auxílio do médico psicólogo custava caro para os Baggins; eles tiveram que abandonar a confortável casa no bairro de classe média Colina para uma casinha qualquer suja e úmida, cheia de restos de minhocas e com cheiro de lodo; também era seca, vazia e arenosa. Quase não havia cadeiras para se sentar, muito menos dinheiro para ter o que comer.

– Gandalf, é você? — Disse a voz de Beladona no telefone.

– Minha cara Baggins! Algo aconteceu? Estou no meio de uma consulta.

– Estamos sem água. Não posso sair de perto de meu Bilbo; não quero que ele tenha outra crise. Você pode passar no pequeno rio ao pé da Colina? Sim? Obrigada, obrigada!

Antes que Gandalf pudesse discutir, a senhora havia desligado o telefone. Beladona, embora dócil, era uma mãe de ferro; quem gostaria de ter um filho que vivia falando com um tal de Thorin que nunca existiu? E os remédios contra a esquizofrenia deixavam Bilbo solitário e deprimido. Ora, tinham que ficar por perto para o pequeno não acabar se matando, ora, tinham que ficar por perto para ele não começar a falar e rir macabramente enquanto tinha crises e destruía tudo ao seu redor achando que eram dragões. Os telefonemas eram, portanto, bastante comuns, e Gandalf e Beladona acabaram fazendo um acordo que ela dobraria o pagamento e ele cuidaria totalmente de Bilbo.

Gandalf se importava com Bilbo e com o dinheiro, mas não tanto quanto se importava com a felicidade de Beladona. Embora um pouco mais velha, o sorriso dela ainda fazia o médico se arrepiar.

E foi a partir daí que Gandalf se concentrava todos os dias em Bilbo, e todas as noites pensava em Beladona. Naquele dia, tinha acabado de chegar na toca com dois baldes cheios d'água, e o pequeno adulto estava tenso no lado de fora.

– Bom dia! — Falou Gandalf

– O que você quer dizer com isso? Está me desejando um bom dia, neste triste e cinzento mundo na qual vivemos... Mithrandir?

Mithrandir percebeu que ele havia tomado os medicamentos contra esquizofrenia aquele dia. "Mithrandir", pensou, "que coisa mais nostálgica".

Oh! Como sentia falta do amigo Tolkien!

Sentiu falta quando envelheceram e trocaram a Cannabis por anéis de fumaça nos cachimbos. Sentiu falta de quando passaram pela puberdade e contrataram uma dama da noite (se recordava bem, chamava-se Galadriel, loira, bom corpo, olhos azuis) para avançarem para a vida adulta juntos.

Lembrou se da última conversa com o amigo, onde este procurava tão desesperadamente um assunto para escrever sobre. E lembrou não da última conversa, mas uma conversa sobre isso também.

– Ok! Vamos criar algo mais interessante que significa coragem. Coragem é você ser tão pequeno neste mundo tão grande. Viver em baixo da terra, em uma toca. Isto é coragem!

– Ah, certo. E o que vive nesta toda do chão?

"Bilbo vive".

– Um... um hobbit!

– "Hobbit"? Você está inventando coisas.

– Pelo amor de Deus, Gandalf, estou! Eu vou fazer letras! Eu vou ensinar inglês e escrever livros, e, como futuro escritor, esta é a minha função! Inventar e coisas!

Bilbo!

Bilbo era um "hobbit"!

Mas o que era um "hobbit"?

Pegou o celular do seu bolso, e depois de quase um ano sem se falarem, enviou a mensagem para o amigo.

Numa toca do chão vivia um hobbit. Você não queria tanto escrever um livro, Tolkien?

Eu achei esta inspiração para você, e ela tem um nome; Bilbo Baggins!

Aqui está o endereço. É um lugar meio difícil de achar, mas venha neste fim de semana ainda, deixarei uma marca na porta. Beladona é uma ótima mulher! Fará uma boa janta.

Gandalf, o Mithrandir.

– Visitantes? Aqui? — Falou Beladona já no fim de semana, quando obteve tal notícia e olhava para Bilbo, já tristonho e logo, começando a ver anões; não tomaria o remédio aquele dia.

– Bela... — Enrubesceu-se — Dona! Beladona.

– Gandalf...? — Ela também estava levemente corada

– Ouça minhas palavras... Tolkien é um amigo confiável. Ele nunca fará mal a Bilbo. Oh! Falando no diabo, ele aparece! — Disse, após soar a campainha — Não, não se preocupe, amiga. Eu atendo, fique com o hobbit.

Não olhou para trás para ver a cara pensativa da mãe do enfermo tentando entender se elogiara ou xingara. A ansiedade o fez abrir a porta o mais rápido possível.

E ele abriu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.