Relatos de 11 de Setembro
20 Emily - capítulo final.
Notas iniciais
Meu irmão me ligou, e acho que agora estou com uma cabeça melhor para pensar sobre tudo isso que está acontecendo: o maior atentado terrorista do mundo levando minha mãe embora e ser destinada a espalhar tampinhas de garrafa por toda New York não era bem o que eu queria. Essa semana isolada de tudo e de todos em meu apartamento me deu um tempo para pensar em tudo isso, e finalmente atender o telefone quando meu irmão ligou. E aqui estou eu, esperando-o subir para chegar em meu apartamento depois de ter interfonado.
A campainha toca, e me levanto do sofá abrindo a porta que faz rangidos a qual eu iria chamar para concertar antes que duas torres fossem atacadas.
Meu irmão está suado, com cara de acabado e uma carta em sua mão.
– Posso entrar? — fala ele, esbaforido, para mim.
Abro caminho, fechando a porta quando ele entra. Ele olha para mim e fala rápido:
– Me desculpe por tudo, Emily, pelo tapa, meu descontrole, tudo. Eu sou um idiota, e faria exatamente a mesma coisa se fosse você. Pra falar a verdade, nunca mais me olharia na cara pelo resto da vida e...
– Deixa desse papo mole, David. — digo, interrompendo-o do discurso que ele faria.
Percebo que ele engole em seco. Mas ele somente estende o envelope na sua mão a minha frente.
– O que é isso? — pergunto.
– Eu terminei de colocar as tampinhas, e a última era em uma gaveta do quarto da mamãe. Uma delas ficava perto do WTC, mas eu coloquei o mais próximo possível que eu pude dos escombros, em memória a mamãe.
– E por que você não leu?
– Eu queria ler aqui na sua frente, e também me despedir.
– Despedir? — realmente não entendo o que o David quis dizer com isso.
Ele para um pouco, e volta o braço a posição inicial.
– A alguns meses eu mandei meu currículo para segurança da Casa Branca, e eu já tenho experiência, você mesma sabe que eu já fui segurança quando o Papa foi para o Rio de Janeiro e...
– Vai logo pro final, David.
Ele para, respira, e olha nos meus olhos:
– Acontece, que depois disso e de um dos aviões sequestrados por pouco não ter atingido a Casa Branca, eles precisam de mais um segurança, e falaram comigo. E estão pagando bem.
Fico parada. Preciso registrar a informação de meu irmão se afastar da única família que tem em um momento desses.
– Você comeu merda, David? — grito com ele. — Você quer tirar proveito da morte mais de duas mil pessoas, em que uma delas é sua mãe?
– Emily — ele fala, calmo, comigo. E segurando meus ombros faz eu me sentar no sofá. — Essa é a única vida que eu posso ter agora, e é isso que a mamãe ia querer, não é? Que a gente seguisse em frente e não deixasse nada nos abater? Pelo menos foi isso que ela me disse.
A mamãe me disse isso também. Mas eu já estou deixando escorrer as lágrimas dos meus olhos, antes de tomar a carta do meu irmão para dar um final pretexto para ele sair do meu apartamento em direção a Washington.
– Pode ler em voz alta? — pergunta ele.
O abuso que estou de David é imenso, mas pelo menos eu tenho consciência em relevar e saber que ele tem o direito de saber o que tem escrito. Afinal, ele é filho também.
Leio.
– Emily e David,
Se estiverem lendo esta carta vocês realizaram meu último desejo. Desejo que eu guardo desde o início da doença do pai de vocês. Quero esclarecer aqui que cada tampinha depositada em cada lugar famoso de New York vem de um momento especial nosso. Eu sou supersticiosa, e guardei cada tampinha de cada garrafa de Coca-Cola que tomamos em nossos momentos mais alegres juntos. Eu, seu pai, e vocês. Piqueniques, almoços em família, jantares em restaurantes ou até no McDonald's. Cada tampinha tem um significado especial, pois absorveu a alegria de cada momento especial da nossa família, que até onde foi, foi feliz. Podem achar isso uma besteira, mas para mim significa muito. O fato de vocês a distribuírem por New York é para espalhar esta áurea boa pela cidade onde eu nasci, cresci, e amo muito. Cada local é especial para mim, apesar de parecer somente mais um lugar qualquer para vocês. E juntos, olhados no mapa, formam uma forma de coração na melhor cidade do mundo. A cidade que nunca dorme e que abriga almas tão boas quanto a da nossa família. Quero que meu espírito remanesça aqui, e que vocês remanesçam em meu espírito.
Ruth Sylvemore.
As lágrimas de meus olhos caíram mais ainda, e saio de estado de raiva para a compreensão sobre meu irmão. Eu o amo, o amo tanto quanto a mamãe, e o amarei acima de tudo, guardado todas as lembranças felizes não em tampinhas, mas sim em minha memória lembrando a melhor pessoa que pude conhecer, em meio a melhor família que pude ter.
Não vejo o rosto de meu irmão, apenas me levanto do sofá e o abraço, com maior força, intensidade e amor que pude ter, sussurrado as palavras que melhor viam a minha cabeça:
– Nunca se esqueça.
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