Notas iniciais
Desculpem não estar postando com tanta frequência... Mas tenho passado por muitas coisas esses dias, espero que entendam...
A cena da estátua da liberdade foi constrangedora, mas foi bom para extravasarmos tudo que temos dentro de nós. Estou sentada agora no Central Park, ao lado do meu irmão e olhando para a fonte que foi filmada a abertura da série "FRIENDS". Foi nesta fonte que nossa mãe pediu para que jogássemos a outra tampa de garrafa, e aqui estamos nós, aproveitando para descansar nesta cidade em um luto eterno antes de jogar a tal tampa lá. Meu irmão está de olhos fechados deixando que o vento bata em seus cabelos loiros, já que sem as duas torres o vento por aqui circula melhor. Sei que isto é uma coisa horrível para se pensar quando se é filha de um vítima desses ataques horríveis. Só se pode ver flores ao redor da fonte a nossa frente, e as poucas pessoas andando nas ruas estão chorando. Realmente, não sei se esta cidade a qual foi considerada tão moderna e segura para o mundo poderá desta vez ressurgir das cinzas. Eu sei que eu não estou conseguindo ressurgir das cinzas, ainda por cima no pior dos climas para uma pessoa neste momento, onde um grupo de muçulmanos resolveu simplesmente explodir aviões em prédios e acabar com a vida de várias pessoas, e arruinar o psicológico de dez vezes mais pessoas.
Não sei ao certo se esta é a coisa certa a se fazer hoje, no meio de uma cidade em pleno luto, eu e o David brincando de colocar tampinhas de garrafa em lugares aleatórios.
– David — falo, acordando ele. Percebo que ele já estava dormindo. Afinal, não o culpo. Passamos o dia rodando a cidade colocando essas tampinhas de garrafa nos lugares mais aleatórios possíveis.
– Oi, Emily — diz ele, acordando e olhando para mim com sua cara de assustado.
– David, essa cidade ta sem futuro, e nós brincando de colocar tampinhas de garrafa em lugares, já viu que isso não tem futuro?
Ele olha para mim incrédulo.
– Emily, foi o último pedido da nossa mãe, precisamos atendê-lo.
– Eu sei, David. Mas é algo que não tem futuro, assim como essa cidade. Não tem futuro nenhum.
– Emily, nós precisamos terminar o que começamos.
Se tem algo que eu odeio no meu irmão é que ele é cabeça dura, que talvez possa ser algo bom algumas vezes, mas em outras vezes, é algo horrível. Como agora.
– David — me irrito, e percebo que estou gritando. — Você quer terminar o que terminamos? Ótimo.
Pego uma tampa de garrafa na sacola plástica velha que estão as outras, e me dirijo a fonte, até chegar ao seu lado.
– Você quer ver o que acontece? — falo, e jogo a tampa de garrafa na ponte. — Nada! Absolutamente nada! Não tocou "I'll Be There For You" e vieram a Rachel, Monica, Chandler, Ross, Phoebe e Joey para dançar nesta fonte. Estamos aqui fazendo uma coisa ridícula!
David olha para mim com um rosto enfurecido. Nunca o vi deste jeito.
– Emily! Qual seu problema? — fala ele gritando. Nunca o vi gritar deste jeito. — Você sente falta da nossa mãe? Eu sinto! E você não quer realizar seu último pedido?
– Você não percebe que isso é sem sentido, David? — falo, mais calma impossível. — Nossa mãe queria que nós fôssemos felizes! E...
Minha fala é interrompida pela mão de David na minha cara. Olho para ele de volta, e vejo que seu rosto enfurecido se amansa enquanto sinto meu rosto latejar do seu tapa.
– Emily... — vejo ele falar, enquanto as lágrimas escorrem dos meus olhos e dos deles também. — Me desculpa, eu...
– Tchau, David. — falo, e saio andando.
Sei que meu irmão não está atrás de mim, pois não ouço seus passos característicos pela terra cheia de folhas vermelhas do outono no Central Park. Simplesmente atravesso a outra rua ao lado do parque, e entro na primeira porta que vejo.
Um bar, um bar pequeno e sem ninguém dentro. Aqui ficarei e aqui irei me embebedar até esquecer por fim o que aconteceu comigo.
Sento-me numa cadeira e peço um, dois, três, quatro, cinco... E peco a conta dos copos de cerveja que eu bebo. As horas se passam, e a única coisa que consigo ver é um casal bonito entrando. Um homem alto e bonitão ao lado de uma galega linda. Não presto atenção neles, apenas choro. Mas meu choro é interrompido quando a galega bonita vem falar comigo.
– Você está bem? — pergunta ela.
Olho para ela com os olhos encharcados, e consigo ver a definição perfeita do seu rosto.
– Não — falo. Não estou afim de mentir que estou bem quando ela e seu namorado conseguem ver minhas lágrimas.
Ela me dá um abraço, e consigo ver o bonitão se derretendo por ela. Isso me faz bem, por um momento.
– July, precisamos ir — fala o bonitão — Já está ficando tarde e você sabe como é por aqui...
– Já vou, Jones. — fala a menina que pelo visto se chama July . — Fica bem, tá?
Balanço a cabeça em concordância. Não estou afim de ser grosseira de novo.
Vejo os dois sairem pela porta, junto com o meu último consolo que podem existir pessoas boas em New York depois de tudo isso.
Notas finais
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