Relatos De Troian Fields
1 Capitulo 1 - A menina na floresta
A mesma velha historia já contada antes se repetia novamente. Minha mãe, meu pai e eu seguidos por um velho caminhão de mudança. Uma placa avermelhada cobria o capim pouco antes de um aro de ferro enferrujado. A cidade iniciava-se aos poucos sobre o por do sol enquanto casas com quintais enormes surgiam ora ou outra, por fim, chegamos ao que parecia com bairros, casas grandes e decoradas com jardins vastos e árvores que cobriam a rua.
Um garoto cantarola uma velha canção que sai de seu celular enquanto caminha com o cachorro. O carro de repente para me pegando de surpresa.
–Chegamos? –Questiono á meu pai enquanto ele sorri para minha mãe.
–Sim. –Ele responde.
Sem pensar duas vezes desço do carro, a grama está recém cortada e eu começo a me perguntar quantos bancos meu pai teve que roubar pra comprar essa raridade. Acontece que mudamos por conta de um novo emprego que ele conseguiu na radio local, nada que pudesse suportar uma casa tão grande, dois andares separam o telhado do chão, uma varanda que segue da frente da casa até a lateral e janelas orientais dizem muito da família que morava aqui.
–Pai, estamos na casa certa? –Pergunto caminhando para a pequena escada que dá acesso a porta principal.
–Com toda certeza! –Ele responde.
–Isso é incrível. –Minha mãe fala.
Ouço o som do caminhão de mudanças parando e logo depois o borbulhar de vozes que saem dele, abro a porta e me deparo com uma vasta sala com direito a lustre e um corrimão enorme que gira até o segundo andar. Toco a mão na velha madeira banhada em mogno e percorro o breve caminho até um corredor anexo ao segundo piso.
O chão da casa é todo em marfim, quadros de flores decoram as paredes vazias e sem cor. As maçanetas das portas são feitas de algum cristal, talvez vidro, não posso afirmar, mas parecem caras.
No corredor central vejo uma pequena porta á direita e no restante do corredor, outras quatro portas aparecem.
–Pode escolher qualquer quarto. –Minha mãe grita.
Abro a menor porta e encontro um armário não muito maior que um banheiro, a lâmpada deve ser acesa ao puxar uma cordinha de metal, bato a porta e em seguida abro outra. Um escritório, as prateleiras estão cobertas por livros e tem uma mesa grande onde minha mãe pode voltar a escrever seus contos já publicados antes. Faltam somente três portas neste andar.
Na porta seguinte vejo a marca clara que deixa obvio a existência de alguma placa ali antes, talvez um “não perturbe” ou “caia fora” de um filho rebelde. Entro no quarto e me deparo com paredes vazias e uma janela aberta. Vou até ela e baixo enquanto encaro a floresta. Espere, a floresta? Por um segundo tenho quase a certeza de que lá, no meio de duas árvores... Alguém me encara, cabelos castanhos balançam ao vento enquanto um rosto não familiar fisga meus olhos.
–ETHAN. –Minha mãe grita.
–Oi? –Viro de frente para a porta.
–Venha aqui.
–Eu já vou, só um segundo. –Digo.
Volto a encarar novamente a floresta, não há ninguém lá, talvez nunca houve. Saio pela mesma porta pela qual entrei e desço os degraus pulando.
–Você pode cuidar daquelas caixas querido? Está anoitecendo e eu realmente espero que tudo esteja em seu devido lugar antes do jantar.
–Claro. –Respondo sorridente.
(...)
Duas longas horas se passaram, meu quarto fica onde estive antes e o do meus pais ficam após o outro. Um quarto nos separa. Por alguma razão, meu pai insistiu para que eu não ficasse no quarto vazio ainda que anteriormente ele tivesse dito que eu podia escolher qualquer um.
–Está gostoso querido? –Questiona alguém na mesa, mas eu mal posso saber quem foi.
–Ótimo. –Sorrio colocando mais uma garfada de macarrão com molho na boca.
–Gostou da casa? –Meu pai pergunta enquanto acaricia a barba mal feita.
–Ela é perfeita. –Digo. Por trás de minha voz consigo sentir o tom depressivo que sai, mas todos tínhamos que abrir mão de algo para continuarmos bem, o casamento de meus pais foi abalado por conta da crise que passávamos, ou nos mudamos ou teríamos nossas historias reescritas, como minha mãe costumava falar. –Eu só não entendo uma coisa... Como não tínhamos dinheiro pra manter a antiga casa e temos pra comprar essa nova?
Meu pai solta os talheres sobre o prato e encara minha mãe.
–O que foi? –Pergunto.
–Ele vai descobrir qualquer hora, é melhor que seja por nós.
–O que eu vou descobrir?
–Ethan, há algo que não lhe contamos. –Minha mãe começa.
–Uma garota morreu nessa casa. –Meu pai solta as palavras de uma vez.
–O quê?
–A família que morava aqui, era formada por um casal, um garoto e uma menina, ela tinha 17 anos como você. Os pais dela tentaram vender a casa por meses e não conseguiram, eles abaixaram o preço para que conseguissem se desfazer do imóvel mas ainda assim ninguém comprava.
–Então, seu pai necessitou mudar pra cá, e nós viemos junto, precisávamos de um lar e o dinheiro foi o suficiente. –Minha mãe termina.
–Como aconteceu? –Questiono.
–Isso não importa. –Minha mãe sorri. –Estamos aqui agora, isso passou...
–Ela dormia no quarto entre nós não é? –Pergunto.
–Eu não quero mais ouvir sobre isso. –Minha mãe levanta da mesa.
–Pai?
–Desculpe. –Ele levanta atrás dela.
Acabo minha refeição e sento no sofá esperando que o sono chegue, olho pela cortina e a rua está tranquila, somente postes de luz brilhando no decorrer da calçada.
Vou até a cozinha no primeiro andar, passando pela sala de jantar, pelo banheiro, por outro armário e um corredor maior que dá para a porta dos fundos. Pego uma maçã e volto para meu quarto. Fecho a porta atrás de mim e desligo a luz. O luar clareia o lugar através da única janela. Encosto a cabeça na cama e apago o abajur. Fecho os olhos por um segundo e de repente. “Tum”, “Tum”, “Tum”. Três batidas na parede ao lado me assustam.
Levanto da cama e toco na parede que faz barreira nos dois quartos. “Tum”, “Tum”, “Tum”. O som se repete exatamente onde minha mão está. Dou dois passos para trás e ao ranger de meus passos, me encaminho para o corredor, as portas estão todas fechadas... Chego na frente da porta do quarto vazio, toco na maçaneta, giro e abro. Não há nada!
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