Relatos De Troian Fields
2 Capítulo 2 - O que você quer me mostrar Troian?
Tic, tac, tic, tac, o pendulo do relógio balança da esquerda pra direita e depois retrocede o processo. As horas parecem passar vagarosamente aqui, o mais estranho é que mesmo com a porta aberta, eu ainda não vejo carros ou pessoas nas ruas. É um final de semana, normalmente as pessoas não se trancam dentro de casa. O que estou dizendo? Eu mesmo estou trancado dentro de casa agora.
-Querido, eu tenho que ir até o mercado com seu pai. –Minha mãe anuncia enquanto procura as chaves. –Quer algo?
-Um pouco de chocolate com castanhas por favor. –Falo balançando os pés no ar enquanto o macio tapete me aquece.
-Ok.
Volto a fechar os olhos e a me concentrar no tic tac do relógio. Levanto e começo a caminhar pelo corredor, aprecio os quadros, o papel de parede, o chão. Chego na cozinha e vejo marcas leves na porta pintadas com canetas azuis e vermelha. A vermelha para em “7 anos” e a azul para um pouco mais para cima, em “9 anos”.
-Quem eram vocês? –Me pergunto.
Ouço o som de passos no segundo andar e instantaneamente olho para o teto. Me pego andando em direção à escada ainda que por todos estes anos de minha vida, eu tenha gritado e brigado com todos os personagens que decide seguir o som de um assassino em filmes de horror. O estranho, é que é intrigante o fato de passos no segundo andar quando estou só em casa.
-Olá. –Digo.
Subo aos poucos os degraus e chego ao frio piso de madeira. As tábuas rangem embaixo do meu pé, abro a porta do meu quarto e sem sair do corredor, vejo o vazio nele. Continuo andando, toco na maçaneta do quarto sem móveis, tento girar e está trancada.
-Droga.
A campainha toca e me faz dar um pulo.
-Um minuto. –Grito.
Saio pulando os degraus e me agarro na porta antes do meu tempo acabar.
-Oi. –Falo encarando um garoto mais alto que eu, forte, pálido e com cabelos castanhos que estão totalmente desalinhados. Seus olhos são obscuros e azuis como o mar. Ele veste uma camiseta preta e calças jeans enquanto me aponta uma pasta marrom.
-Você deve ser o Ethan não é? –Ele oferece a mão, quando apertamos os dedos, ele continua... –Eu sou o Jason, eu morava aqui. –Complementa.
-Ah, claro... Entra. –Digo lhe dando algum espaço.
-Obrigado. –Ele começa a varrer todo o lugar com os olhos.
-Quer beber algo? Água? Suco? Vodca?
-Não, prometo ser breve. Só vim trazer uma documentação para a casa. Seus pais estão?
-Na verdade eles acabaram de sair, se você quiser... Pode deixar em minhas mãos.
-Tudo bem. –Ele diz sorrindo, o garoto aparenta ter uns dezenove anos, no mais tardar... Vinte.
-Eu acho que estou no seu quarto. –Digo rindo.
-Ele é seu agora. –Ele ri de volta. –Séria pedir muito, se eu quisesse dar uma olhada na casa?
-Sinta-se a vontade. –Respondo.
Ele começa a andar pela sala, e depois segue na sala de jantar, cozinha e armário, chega de volta onde estávamos e faz um breve elogio:
-Vocês conseguiram mudar tudo, sua mãe é ótima em decoração.
-Eu direi isso á ela.
-Posso ver os quartos?
Por dois segundos exito.
-Claro.
Subo a escada logo atrás dele, ele começa tirando imagens mentais do corredor e começo a me perguntar algumas coisas, uma delas acaba saindo espontaneamente pela boca antes que me dê conta.
-É a primeira vez que você pisa aqui desde que ela morreu?
Droga, até eu me assusto com as palavras de que acabo de soltar.
-Me desculpe, eu não...
-Sim. Eu não estava em casa naquela noite, quando voltei tive a noticia e meus pais não conseguiram mais pisar no lugar.
Ele abre minha porta, entra alguns passos e sorri para o lugar.
-Nossa, eu estou vivendo em um passado não tão distante. Isso era exatamente assim, só que tinha um pôster da Mags Colins nua na porta.
-Eu escondo meus pornôs. –Brinco.
Saímos do quarto e seguimos no corredor, Jason toca na maçaneta e antes que eu diga qualquer coisa... A porta abre.
-Isso não estava assim. –Digo me referindo á porta.
-Isso o quê? –Questiona ele.
-Ela estava trancada. –Afirmo.
Ele volta ao quarto me evitando completamente, passa os olhos pelas paredes e fixa na janela, eu me apoio ao lado de um quadro e continuo encarando enquanto ele está preso em seu Dejavu.
-Era o quarto de Troian. -Troian? –Ela costumava ficar horas sentada na janela enquanto encarava a floresta.
-Ela se chamava Troian? –Questiono.
-Isso, minha família não é muito de usar nomes comuns. Talvez o meu seja o mais pratico. –Ele ri.
-Você quer ir ao quarto dos meus pais? Lhe prometo que será constrangedor.
-Eu passo essa... –Ele sorri. –Já fiz o que tinha que fazer. –Ele está falando sobre entregar os documentos ou ver a casa?
-Então eu lhe acompanho até a porta.
Seguimos pela escada e eu fecho a porta assim que ele sai. Subo até o segundo andar e começo a foliar os documentos que foram entregues.
Páginas e mais páginas falando sobre o endereço, sobre a casa, sobre os pertences, descubro que os quadros e alguns dos objetos como o lustre e a mesa da sala de jantar são fixadas no chão ou na parede, portanto, tira-los seria mais trabalhoso e caro. Mais dados sobre a amplitude da casa e descubro que temos um porão e um sótão. Onde ficam estas entradas?
Familia Fields. Isso quase que se destaca no meio das outras palavras. Ligo o computador e entro no google. “Troian Fields” pesquiso. Vinte e sete resultados, Troian Fields é vencedora da equipe de natação, Troian Fields desaparece por quatro dias. Troian Fields é encontrada pela família. Clico no ultimo link.
O corpo de Troian Fields foi encontrado pela família em... nada de interessante... Desço mais para o fim da pagina... Nada.
“Tum”, “tum”, “tum”, ouço na parede. Fico paralisado por alguns segundos até que o mesmo som aumenta e eu saia de dentro do quarto.
-AH. –Grito enfurecidamente até que empurre a porta e não encontre nada novamente.
Olho para todos os lugares. Começo a temer o que está começando a acontecer na casa, Troian morreu, ela está enterrada, não há ninguém aqui. “Tum”. Mais uma vez o barulho, dessa vez, o único quadro de flores fixo na parede, treme. Dou leves passos até ele, noto que na beirada, uma maça cinza lhe prende no cimento, corro até o corredor e vejo os outros quadro. Não há nenhuma semelhança no material que está prendendo o quarto de Troian com os demais. Desço a escada dando pulos e volto ao quarto com uma espátula e uma faca de cozinha grande.
-O que você quer que eu veja Troian? –Pergunto para mim mesmo.
Começo a raspar a matéria cinza que cola o quadro na parede, tiro grande parte dela, raspo mais e mais e quando penso que o quadro está solto, ainda falta uma parte. Começo a soar e a criar uma explicação para o que estou fazendo, a tinta da parede ao redor está totalmente danificada. Arranco o quadro e ele cai no chão. Para minha surpresa... Não há nada ali.
-Droga. –Resmungo.
Olho para o chão e lá está o quadro. Levanto ele e noto o peso extra, viro o objeto e em sua costa, um caderno de brochuras e capa negra está totalmente preso envolto em fita adesiva.
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