Relatos De Troian Fields
10 Capítulo 10 - Ficha
Respiro fundo e encaro os olhos de Jhon me visualizando por cima do cardápio.
-Eu preciso que você confie em mim como nunca confiou em ninguém. –Digo.
-O que você está aprontando Ethan?
-Prometa que vai confiar em mim e não vai julgar minha sanidade mental mesmo que eu pareça completamente maluco.
-Ok, só... –Ele abaixa o cardápio e se aproxima. –Diga.
-Eu tenho algo da Troian em mãos... Eu preciso descobrir sobre o fim da história dela.
-Ethan isso é loucura.
-O que eu falei sobre julgar minha sanidade mental? Eu preciso da sua ajuda pra fazer algo que vai além de seus impulsos.
-Você está realmente parecendo um louco agora, no mínimo um maníaco. –Eu faço cara feia pra ele. –Ok, no que eu posso te ajudar?
-Eu preciso que você me ajude a entrar na delegacia do seu pai. Lá eu vou encontrar respostas para todas minhas perguntas.
-Você está louco? Não... Não responda.
-Eu preciso da ficha de Troian!
-Eu ainda não acredito que você está me fazendo fazer isso. –Diz meu amigo.
-Só abra e vá embora, eu tranco tudo depois e prometo te devolver a chave.
-Meu pai vai me matar se descobrir.
-Só abra e vá embora.
O silencio da noite escura predomina na frente da delegacia, a cidade é pequena, não se faz necessária a permanência de noite.
-Pronto. –Ele abre a porta.
-Valeu, agora vá embora. –Peço.
Escoro a porta atrás de mim e tranco, passo por trás do balcão e ligo o computador. Pede login e senha, procuro uma agenda e na primeira pagina tem os dados que preciso, digito rapidamente e procuro pastas de documentação fúnebre, digito o nome de Troian e não há resultado algum.
Entro na portinha para uma sala pequena que leva até um corredor, tem quatro portas cinzas, duas delas estão trancadas, a terceira é como em uma sala de interrogatório e a quarta dá em um longo registro com pastas.
Bato a porta e arrumo minha bolsa. Procuro nas prateleiras pelo ano, encontro 2012 e empurro uma portinha de vidro que me separa de caixas de papelão que contem os dados dos mortos naquele ano.
Procuro em Junho e não há nada de Troian, percorro por Julho e volto para Maio mas a pasta de Troian não está lá.
Ouço um ruído do lado de fora e me agacho ainda que esteja sozinho. Encaro a prateleira de desaparecimentos e abro a seção de 2012, encontro a caixa de Junho e logo vejo... Troian Fields.
-Achei. –Digo sorridente.
-O que você está fazendo aqui Ethan?
Minha mãe vai pirar, ela jamais teve que lidar com uma situação como essa, nunca fui do tipo de garoto que trás problemas para o pai, mas agora, estou na porta de casa ao lado do chefe de policia enquanto as luzes da sirene percorrem meu jardim e minha mãe atende a porta.
-Oi Donna. –O policial aperta a mão de minha mãe.
-Obrigado policial, prometo que não vai mais acontecer. –Minha mãe diz.
Permaneço calado.
-Ok, só cuide dele e não volte na minha delegacia sem minha permissão Ethan. –O pai de Jhon diz.
Entro e sigo direto para a escada.
-HEY. –Minha mãe grita.
Eu viro de frente para ela e vejo meu pai sentado no sofá ao seu lado enquanto aponta para uma cadeira na frente deles.
-Eu realmente não estou disposto a ser interrogado agora. –Respondo.
-Mas vai! –Minha mãe usa um tom ameaçador.
Eu volto, jogo minha bolsa no chão e sento na cadeira.
-Quem é você? –Ela quase soletra as palavras.
Respiro fundo.
-Ethan, eu sei que tudo tem sido confuso desde que estamos nos mudando direto, mas tudo isso é por você e por mais ninguém. –Meu pai se pronuncia.
-Mas desde que chegamos aqui você tem sido nem um pouco parecido com o garoto que era. Nós não lhe temos mais na mesa do jantar, você não conversa conosco, não dorme direito, suas notas estão horríveis e agora você é pego dentro do arquivo de uma delegacia? O que está acontecendo? Diga.
-Se eu dissesse... O próximo lugar que eu seria pego é em um hospício.
-São drogas? –Eu quase sorrio mas me contenho em respeito ao meu pai.
-NÃO.
-Porque você está mudando tudo? Isso é a adolescência? Puberdade? Achei que já tinha passado dessa fase.
-MÃE.
-O que está havendo? –Pergunta ela.
-Não é nada disso! Eu talvez só esteja cansado de ser tudo o que vocês querem, de seguir seus padrões medíocres e de ter que viver fazendo coisas perfeitas porque vocês querem, não por eu querer... Meu Deus, quantas vezes vocês me questionaram sobre o lugar onde iriamos morar? Nenhuma. Eu só estou exausto de ficar me readaptando em um lugar onde será passado em um futuro próximo, porque meu pai não tem a capacidade de se manter no emprego.
Todos ficamos calados por uma eternidade até que minha mãe abaixa a cabeça e diz:
-Vá pro seu quarto e considere-se de castigo.
Pego minha bolsa no chão e corro para meu pequeno espaço, tranco a porta e me jogo na cama. Dou um sorriso enorme quando pego a ficha de Troian de dentro de minha bolsa.
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