Relatos

1 A Maçã de Prata


Aqui, longe, não tenho notícia alguma de minha terra natal – salvo as que os espíritos humanos que ocasionalmente encontro carregam. Portanto, não sei o quão deturpados foram os fatos como a vocês chegaram, mas os contarei como me recordo que aconteceram, apesar de saber que Eles manipularam minhas memórias quando foi decretada a pena.

Talvez estranhem alguns pontos se já tiverem ouvido a história da boca de outros, mas eu apenas digo a verdade. A minha verdade.

Começarei, pois.

O ano era mil quatrocentos e cinqüenta e três, mas o tempo parece-me remoto e as datas fogem-me. Fazia parte do exército otomano, e era um mero soldado na guerra santa contra o Império Bizantino, que tinha então de Constantinopla, agora conhecida por vocês sob o nome Istambul, o último baluarte e a única parca esperança de restauração – mas este sustentáculo vacilou e estilhaçou-se com alta queda, e é exatamente deste fato que trato nesta primeira parte de meu relato.

As forças envolvidas na batalha eram desparelhas, e tanto nós como os bizantinos tínhamos plena noção disso. Ao que contávamos, calculo eu, com cem mil homens — sendo oitenta mil destes soldados profissionais — os exércitos de Constantinopla, somados aos soldados enviados pelo homem que chamam de Papa e por todos os outros reforços recebidos, mal perfaziam os sete mil.

E ainda tínhamos a Grã Bombarda. Naquela época, nosso grande canhão era uma maravilha da engenharia bélica. Um prodígio, como se diz. Arrasava montanhas e seu rugido era como o de mil tigres, e em uma semana a muralha da cidade – até então imbatível – começava a ceder.

Mas aconteceu de os ratos arrastarem-se para fora durante a noite e repararem como podiam a muralha, e Constantinopla ainda resistiu por um breve período. Para sua infelicidade, não o suficiente.

Em seu desespero, o Imperador enviou ao Sultão mensageiros para negociar algum acordo de paz do qual não tive conhecimento dos termos. Mas Mahmed II estava decidido, e os emissários foram empalados e expostos com a guarda enviada. Os corpos nas estacas foram posicionados de modo que os bizantinos pudessem vê-los da Cidade Agonizante.

E o pavor os corroía. E o pavor os envolvia. Eles sabiam que a execução dos emissários era uma prévia do que os aguardava.

A cidade conseguira resistir por tempo demais, e Mahmed impacientava-se.

Na época não soube, mas o espírito de um bizantino contou-me certa vez a situação da cidade naqueles dias, entretanto, a maior parte pareceu-me insignificante, e pouco me recordo daquilo.

Ao que parece, o próprio Constantino XI, comandava tropas e circulava pela cidade como se fosse apenas um general, e por instantes os soldados esqueciam que à sua frente estava o líder do Império Bizantino.

Os aparentes presságios também me impressionaram. Primeiro o eclipse, que os relembrou a antiga profecia de que a cidade apenas resistiria enquanto a lua no céu brilhasse. No dia seguinte, a imagem da mulher santa dos cristãos havia caído durante uma procissão, e depois a chuva veio farta, acompanhada de granizo, e inundou as ruas.

“E em toda Cidade comentava-se que o fim não tardaria, que a Lua e a Estrela nos esmagaria a todos, e que o Império não se manteria por mais um mês”, disse-me. Ao mesmo tempo, Mahmed também enfrentava problemas. Tarefa difícil era manter um exército de cem mil homens, e após os bizantinos por duas vezes terem nos rechaçado desde o princípio do cerco, um burburinho sem origem que crescia a cada dia punha em cheque a competência do Sultão.

Mahmed II decidiu-se por um ataque decisivo e fatal contra a Maçã de Prata¹. O dia extremo chegara, e um silêncio sufocante veio nas asas da aurora. Não se ouvia o som de tropas avançando ou dos canhões, e aquilo era pior que tudo, pois o silêncio aguça desmesuradamente os anseios e expectativas.

Até que os sinos da cidade soaram, e seu som ecoou pelo Corno de Ouro² durante o dia todo. Continuávamos lá, com as muralhas à frente.

Fui acordado na madrugada do dia seguinte – o exército estava sendo concentrado para o golpe decisivo à Constantinopla. Os pelotões principiaram seu movimento ainda com o céu escuro, mas o meu só partiria bem mais tarde. Entretanto, mesmo hoje não posso julgar se isso foi bom ou ruim.

Talvez em meio à frente do ataque eu tivesse me sentido menos ansioso, apesar de que com absoluta certeza o medo que senti enquanto aguardava o comando não se separaria de mim sob nenhuma circunstância — pois aquele era o momento final, o último fôlego antes do mergulho, e nunca há como prever com exatidão se voltaremos à superfície ou jazeremos no fundo.

Por sorte eu tinha Chaviv ao meu lado.

Não falei dele antes, e não o mencionarei em outros trechos de meu relato, apenas agora. O conheci em minha infância, e juntos apresentamo-nos com muitos outros à disposição do exército regular otomano, com a triste ilusão dos feitos heróicos de guerra e da glória, mas como devem deduzir, não foi bem assim.

Pois com a guerra não reside a glória – ao menos não a individual que buscávamos –, e o heroísmo fenece em meio ao sangue e ao aço. No campo de batalha só há sofrimento, o luto voluntariamente reprimido pelos que quedam ao seu lado e uma selvageria subumana, animalesca.

Mas eu tinha Chaviv ao meu lado. Ele me distraía, e me fazia rir enquanto todos estavam aflitos, e aquela longa campanha tornou-se mais suportável com sua presença.

– Será hoje. – disse ele de supetão, sem abstrair-se da visão da cidade.

E eu pergunto: – O quê Chaviv? O quê? – mas ele se demora em seus pensamentos, e volto a afiar meu sabre.

Por fim responde, com uma voz tão fina e baixa que aquilo parecia ser algo pesado e doloroso demais para seu corpo.

– Hoje iremos ao encontro de Alá, – e pronuncia meu nome – e eu Vos direi o que penso...

Uma gargalhada escapa de meus lábios, oriunda da estranha noção cômica que há no âmago da tragédia.

E desde aquele dia não tenho Chaviv, que tombou a meu lado vítima de uma seta covarde. E a ânsia de sua presença acompanha-me até hoje, aqui onde estou, longe do tempo e do espaço.

E mesmo com Chaviv fazendo-me companhia, meu pensamento frequentemente desviava-se de volta à minha terra natal, mas a única coisa que via era a imagem de Abida à minha frente, com seus olhos castanhos entre a burca. E eu recordava de nossos encontros secretos, e da culpa que ali residia, mas isso será tratado adiante.

O tempo passa, e ordenaram que meu pelotão marchasse, e eu marchei. Cruzamos a planície com um destacamento de cavaleiros à frente. Fomos enviados ao vale do rio Lico, onde o combate concentrava-se, mas a cidade permanecia intocada enquanto seus homens lutavam.

O pelotão foi conduzido à frente oeste do combate, e guerreamos bravamente por horas. Meu amigo tombou a meu lado, mas seu corpo permaneceu no campo de batalha, e não sei qual fim teve. Provavelmente foi pisoteado até ao irreconhecível, e esquecido ficou por todos os outros, pois Chaviv não tinha família, e apenas eu senti sua perda.

Em meio à insanidade e ao som do aço, caminho foi aberto à Bombarda, e a muralha foi finalmente perfurada. O Imperador em pessoa comandou seu exército e usou-o como distração enquanto a muralha era concertada.

Ainda assim Constantinopla resistia, e ao mesmo tempo em que a batalha desenrolava-se no Vale do Lico os bizantinos repeliam os janízaros que tentavam escalar a muralha. Aqui devo explicar algo sobre os janízaros, ainda que saiba apenas meias verdades.

Os janízaros eram a elite de nosso exército. Destros, fortes, rápidos e habilidosos, treinados à exaustão por caminhos desconhecidos pela maioria na qual estive inserido. Descobri na morte que eram crianças cristãs capturadas em campanha e convertidas ao Islã. Entretanto, não eram adeptos do Islamismo Sunita adotado pelo Império, e sim de uma variante onde se permitia mulheres sem véu e bebida.

Em seus estandartes deitavam-se imagens cotidianas, distintas para cada divisão, pois na época seu número era enorme.

Escutei um chamado — uma corneta, penso — em meio ao clamor, e parte de meu pelotão foi conduzido com urgência ao lado noroeste da cidade.

Aquele foi o momento decisivo, irremediável. Os bizantinos cometeram uma desatenção, e esse pequeno ato selou o destino da cidade, marcou o fim da Idade-Média e determinou que o Império Otomano emergiria e que o Bizantino jazeria no fundo, ainda relembrado por muito tempo nas canções.

Vi, quando aproximamo-nos. O portão noroeste foi deixado entreaberto e com ínfima guarda. Passamos como a tempestade de areia que tudo modifica. Varremos a entrada e o entorno, e outras tropas foram enviadas à nossa retaguarda enquanto avançávamos; a lança que procura o coração.

Na encruzilhada de uma viela, porém, uma dor fina e aguda infiltrou-se e subiu por minha perna, o que me levou a, furtivamente, adentrar uma pequena casa de portas abertas, e ninguém me seguiu.

Sentei, apoiei minhas costas numa parede, e só então analisei meu estado deplorável. A armadura havia sofrido pequenas avarias, nada notável, mas eu sangrava por vários pequenos cortes, e o plasma misturava-se com o suor quente que me escorria de todos os poros, mas a dor passou.

A sede arranhava minha garganta, e minhas pernas latejavam e contraíam como que queimadas por metal quente. Mas eu não podia fraquejar, fazia parte do exército otomano, ora, e aquilo teria que ser apenas um arquétipo tosco da fadiga.

Percebi do outro lado do cômodo um jarro com água e fartei-me, mas continuei recostado na parede por muito tempo, até que ouvi um som vindo lá de dentro — um pequeno ruído. Levantei-me, e em passos leves alcancei o último cômodo, onde havia uma porta.

Arrombei-a num só golpe, sem pensar, e lá estavam um casal e uma garotinha. O homem empunhava uma espada e um escudo triangular pintado em azul e branco, e interpondo-se entre mim e sua família, disse algo em latim, e me pareceu uma indagação. Nunca compreendi o que o homem disse. Sei que não era uma ameaça pelo tom que usou, e muito menos alguma barganha.

Pelo brilho de seus olhos e pelo movimento raso com a cabeça, hoje penso que ele pedia clemência para com sua filha e esposa, mas não para ele.

Nada para ele.

O que sucedesse seria lucro se a vida das duas fosse preservada. Acontece que naquela época eu era por demais impulsivo e a contemplação de qualquer espécie era uma realidade abstrata e distante... E me arrependo de todos os atos que decorreram daquele único, pois estou neste lugar quase exclusivamente por aqueles minutos.

Precipitei-me, apenas isso... Apenas...

Não. Não! Não irei narrar estes fatos, me recuso. Recuso-me!Mas agora já contei a ele, já contei tudo, em detalhes precisos o suficiente para que ele narre todos os acontecimentos de maneira completa. Ainda assim me recuso a contar. Duas vezes são suficientes, já relatei tudo a ele e também a ela.

Ela, ela...Eu não iria contar, mas ela já estava enredada em minha sina, vítima de minha desatenção e leviandade. Precisei contar a ela. Seria decente ao menos justificar meu ato covarde e tão necessário...

Sinto sua falta crescente, e tento esquecer, mas também sinto falta de meu amigo há muito morto, e como sua morte, a dela provavelmente permanecerá cravada tão fundo em minha mente que sua retirada traria meu fim.

O esquecimento é uma demanda inútil em alguns casos, e o meu é assim.

Vocês nunca saberão o que ocorreu! Nunca! A menos que ele abra a boca, ou faça o que agora faço, acrescentando à sua história a semivida nesse inferno escuro. Mas ele não me trairia dessa forma. Ele jurou...

Não devo me afogar em previsões errantes e pensamentos obscuros, desculpem-me. Continuarei.

Saí da casa pela janela, mas antes dei uma última olhadela involuntária para o leito. Um arrepio subiu-me a espinha, o futuro estava à minha frente.

Saltei à rua com uma insígnia sanguinolenta marcada em minha armadura, e como um cão que vai atrás de comida, segui os sons da batalha, agora dentro das muralhas da Cidade. Cruzei por combatentes caídos, destroços de pequenas construções arruinadas, quando algo saltou das sombras de uma casa e golpeou meu rosto com um escudo, derrubando-me ao chão.

Recompus-me de pronto, e à minha frente estava um garoto franzino, ridiculamente trajado com uma armadura demasiado larga e um elmo que a todo momento escorregava para trás e revelava encaracoladas melenas cor de cobre.

Os olhos eram cor de mel, como nunca havia visto, e ainda, por mais fraco que atualmente seja, temo e desgosto daquela cor.

O garoto me fitou longamente, com a espada à mão. Pela maneira que a empunhava, era claramente perceptível que não fora treinado como espadachim: seus dedos eram inseguros, e seu corpo fremia.

Ri, sim, ri alta e claramente para que aquele som fosse gravado em sua mente, mas não percebi que a Sorte estava a seu lado, e na sombra que cobria sua face o reflexo da Morte preparava a investida derradeira.

Um vento percorreu a ruazinha, o Vento da Fortuna, e meu nome ecoava distante nas correntes de ar. O garoto avançou com o escudo, mas saltei para trás e consegui escapar ao golpe. Contudo, minha panturrilha esquerda reclamou com uma dor que ignorei instantaneamente.

O bizantino tentou golpear meu rosto com uma estocada, e instintivamente tentei bloqueá-lo com o escudo que ainda não mencionei, e ergui meu braço, desprovido de armadura, á altura de minha face.

Mas o escudo não estava lá, e a arma atravessou pouco acima de meu pulso. Urrei de dor, pois mesmo cônscio de que aquela postura não era própria de um soldado otomano, o pensamento racional não me veio.

O rapaz puxou a espada assim que gritei, e o sangue jorrou farto de mim, empoçando no chão de pedra.

Talvez nesse momento me julguem tolo, mas mereço retratação. Há muito anos minha vida era o exército e as longas campanhas, e devido a isso o escudo era quase que uma parte de mim, pois com ele dormia, treinava, e também comia.

Acontece que o havia jogado de lado dentro da casa depois de... Não, ainda não contarei o que fiz, o remorso e a culpa obstruem-me a garganta. Contentem-se em saber que o larguei, e acostumado a tê-lo sempre em meu braço, o pensamento de pegá-lo de volta não me ocorreu em momento algum.

Após gritar, meu primeiro impulso foi desembainhar meu sabre, mas dei-me conta de que também o havia largado na casa. Entretanto, eu era prepotente, e aquele garoto pareceu-me inábil o suficiente para que eu o pudesse vencer a punhos nus.

Investi a toda velocidade com um soco preparado em meu braço ainda saudável. Infelizmente, o garoto era ágil — no último instante abaixou-se e jogou o corpo para o lado, de modo que soquei o nada.

O rapaz levantou-se e ainda evadiu de mais um golpe, mas como dizem, a terceira vez vale por todas.

O bizantino sussurrou uma provocação em latim, o que me aflorou um fogo sinistro. Ataquei novamente, e desta vez ele não recuou, mas com o escudo pintado acertou meu braço e o prensou contra a parede de uma casa.

Meu outro braço estava inútil, e, por cruel garantia, recebi outro corte a meia distância entre o meu pulso e meu cotovelo.

O aço é frio...

Alguma coisa sussurrada em latim escapou de seus lábios e chegou a meus ouvidos. O rapaz passou a lâmina em meu queixo com extrema serenidade, e mais de meu sangue molhou a folha.

Eu não iria implorar piedade, nunca, e mesmo com medo, lendo claramente o desfecho nos olhos cor de mel, não falei coisa alguma, mas cuspi em seu rosto de verme. O rapaz limpou o escarro nas luvas de couro que calçava.

— Qual seu nome? — para minha surpresa indagou-me num turco-otomano grosseiro.

Respondi verdadeiramente, movido por uma resignação e respeito nunca provados, mas hoje não sou capaz de recordar-me minha própria resposta — meu verdadeiro nome — pois este foi apagado de todo registro quando do Julgamento.

O rapaz não respondeu, mas puxou a espada atrás de sua orelha, e preparou-se, dizendo, em meu respeito, “amém”, uma das pouquíssimas palavras latinas que naquela época eram de meu conhecimento.

O aço é sedento...

E ele fez o que tinha de fazer, de uma só vez, uma decisão irrevogável, mas ainda que eu fosse um inimigo tomou o cuidado de realizar um golpe fatal que não me traria sofrimento além do que não se pode escapar.

Depois, as imagens afluem-me turvas e distorcidas, rajadas por um negrume sinistro. Que vaguei por um tempo — ou fui conduzido — tenho certeza, entretanto não me recordo por onde, mas quando dei por mim, novamente pleno em meu corpo, estava acorrentado à Cadeira de Mármore, e à minha frente, flutuando sobre o Abismo, sustentado por almas atormentadas e auras benfazejas, o Destino erguia-se.

Implacável.Inexorável. Onisciente.

No ar daquele local pairavam paradoxos sussurrados por entidades inexistentes — deidades esquecidas.

Mas o Destino fitou-me, e seus olhos eram com o Oceano Circundante. Quase me afoguei, mas no momento crucial fui libertado de seu encanto. Infelizmente.

Meu caso fora julgado e em função de meu ato vergonhoso, minha sentença foi decretada...


Notas finais
¹"Maçã de Prata" era um nome usado para se referir a Constantinopla.
²O Corno de Ouro é um estuário (zona transitória entre o mar e o rio) que marca os lados europeu e asiático de Constantinopla/Istambul.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.