Relato de uma míope: O dia que meu óculos quebrou
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Mais uma manhã em que a rotina de acordar, tomar banho, comer, se vestir e sair de casa para a faculdade se repete. Estou cursando letras porque eu simplesmente sou apaixonada por escrever desde que me entendo por mim.
Fiquei alguns minutos parada no ponto de ônibus, até que o qual me levaria a meu destino despontou lá em baixo. Quando ele se aproximou o suficiente, eu e mais muita gente fez sinal. O problema é que ele parou bem antes de onde eu estava, o que me obrigava a ter que dar uma breve corrida para chegar na porta dele. Até ai, nada de anormal, nada de estranho e nada que não acontece com quem pega transporte público diariamente.
Mas foi ai que a vida resolveu esticar o pezinho e me fazer tropeçar... Literalmente falando! (Só para não dizer que a vida resolveu me foder... E sem vaselina.)
Sempre tem um sonâmbulo matinal, que vem com a cama para o ponto e fica completamente desatento. A minha pressa também não me permitiu perceber que a bendita pessoa abençoada estava parada com um dos pés mais a frente do outro, com a coluna toda retorcida, e os braços cruzados, em uma posição esquisita. Mas enfim, a velocidade em que corri foi a mesma que eu dei de cara no chão. Sim, eu tropecei no pé do sonâmbulo matinal e contorcionista e tive um relacionamento mais longo com a calçada do que muitos casais por ai.
Espatifei-me e senti meu nariz estalar, mas sabia que não havia quebrado. Outro detalhe é que, bem eu sou míope e daquelas com grau bem alto, meus óculos resolveram decolar também e pousaram um pouco a minha frente.
Senti a dor e pude ver que alguns se preocuparam comigo e que outros correram para pegar outro coletivo que chegara. E nesse vendaval de gente, mais desatentos correram e um deles não notou, porém eu pude ouvir mais um estalo, só que dessa vez das minhas lentes e minha armação sendo pisoteadas. Chorei mais pelo óculos do que pelo meu nariz, admito! Foi tudo uma questão de segundos, não tive tempo para não ter outra reação a não ser chorar por dentro.
Uma moça me ajudou a levantar. Consegui olhar o rosto dela porque estava peto. Ela me deu um lenço de papel para que eu pudesse limpar o sangue que escorreu do nariz e indagou se eu estava bem. Disse que sim! Ela sorriu e seguiu o seu caminho, ou melhor, pegou o ônibus dela. Abaixei e fui avaliar o sobrou dos meus “olhos”... PT. (Perda Total)
Olhei a minha volta e parecia que estava em um mundo de aquarela, tudo em modo “borrões coloridos”. Vi o carro que pegaria sair e bem, o que eu poderia fazer? Esperar outro? Voltar para casa?
Tinha dois problemas. Primeiro, óculos destroçado. Segundo, como eu ia pegar outro ônibus sem conseguir sequer enxergar o número dele? Rapidamente me decidi: voltar para casa. Peguei o que restou deles para poder jogar fora e retornei. Como conheço de cor o caminho, foi bem fácil.
Entrei e larguei a bolsa no sofá junto comigo. Tinha o objeto que estava em meu rosto quando sai de casa em mãos. Se eu soubesse que seria nosso último passeio, teria me despedido. Joguei-o no lixo!
Procurei uma armação mais antiga e com grau mais fraco, contudo que dava para o gasto. Pelo menos para eu conseguir ver borrões mais nítidos. Liguei para minha mãe contando tudo o que houve e que ficaria em casa. Assim que desliguei, fiz uma ligação para o consultório da minha oftalmologista e consegui marcar uma revisão para daqui a dois dias. Menos mal!
Dei uma olhada no rosto para ver se me machucara, mas estava tudo de boas. Foi só o susto mesmo! Decidi que aproveitaria o dia em casa e adiantaria alguns trabalhos e assistiria alguns episódios do dorama pelo qual estou apaixonada.
Algumas horas depois, já a tarde, sentada enquanto estava distraída durante o comercial na TV, peguei-me pensando na coisa maluca que me aconteceu nessa manhã. Como aquilo era plausível? Cair e quebrar o nariz tá ok! Mas os meus óculos? Ah, cara, eles não! Chegam a ser mais importantes que eu. Sem eles, eu não sou ninguém. Sem isso em meu rosto, eu não consigo enxergar o mundo como uma pessoa normal. Sem eles, o mundo entra em modo blur. E no hardcore sabe?
Ainda não me desce pela goela a pessoa linda, maravilhosa, que simplesmente pisou neles sem a menor piedade. Doeu muito vê-lo se quebrar em mil pedaços. E foi com uma nitidez sem igual. Ele tava do meu lado! Sua pessoa sem coração!
Minha relação com os óculos já tem uns anos. Estava na pré-adolescência quando minha mãe percebeu que estava “forçando a vista”. Ela me levou ao oftalmologista e eu tive o veredito: Miopia. Três graus no direito, dois e setenta e cinco no esquerdo.
Poucos dias depois, o mundo se tornou mais colorido e eu via todas as letras do quadro no colégio.
De lá para cá, visitas anuais e um aumento de grau considerável em cada uma delas. Eis que chego aos meus atuais quase seis de grau.
O que eu acho de usá-los? Faz parte de mim já! Acostumei.
A única que não acostumei são as pessoas “engraçaralhas pra cadinho” que cismam de experimentar, se assustam e sentem uma dor de cabeça terrível. Depois soltam:
“Nossa! Como você enxerga com isso?”
“Porque os meus olhos são diferentes dos seus, QUE-RI-DA.” É o que me dá vontade de responder.
E tem a clássica: (Sim, para um míope isso é um clássico. Uma rotina. Um tormento. Chame do nome ruim que quiser.)
“Você está me vendo?” Isso depois de tirar seus óculos para ver como sou é sem eles, além de experimentar, como falei acima.
Eis o que eu tenho vontade de falar:
“Estou vendo uma ameba se contorcendo. Porra! Você acha mesmo que eu tiro os óculos e fica tudo preto.” Sou míope e não cega. Cacete! Sério, qual o problema das pessoas? (E nada contra os cegos viu? Mas é que não fica tudo preto quando tiro os óculos, mesmo que a crença popular acredite no contrário.)
O que eu respondo? Bem... Sou mais suave e educada, mesmo que a minha vontade seja de esgoelar a pessoa. Mamãe me deu educação! Resposta:
“Sim, estou vendo. Só não vejo nitidamente.”
Apesar disso tudo, a única coisa ruim é depender deles para viver. E ter que gastar uma nota para fazer lentes mais finas para que elas não fiquem feias com aquele troço grosso do lado. Mesmo que chegue em um ponto em que aquilo só faça pouca diferente, porque seu grau é forte e grosso, quer queira ou não.
Afinal, tô aqui falando de miopia e tal. O que essa joça, afinal de contas?
É quando seu globo ocular é maior do que o normal e a imagem acaba se formando antes da retina. Ou seja, o olho é grande demais e as imagens mais distantes acabam ficando embaçadas. Por isso que míopes usam óculos para longe e não para perto. Sem contar que eu tenho um pouco de astigmatismo também. Acho que também é meio “coisa de míope” tem esse problema na curvatura do cristalino.
No dia seguinte fui a faculdade, pegando o ônibus no mesmo lugar de sempre e o do desastre. Foi um pouco complicado de avistar os números, mas com um pouco menos de distância consegui e não peguei o errado.
Na faculdade, até me perguntaram porque eu usava outro óculos, tive que contar a história. Todos se apiedaram da minha situação! Sentei-me algumas fileiras mais a frente para poder copiar a matéria do quadro. E no outro dia foi a mesma coisa.
Como a consulta seria a tarde, pude ir a faculdade tranquilamente. Cheguei no consultório e aguardei um pouco a minha vez. Assim que fui chamada, entrei e a médica me perguntou o motivo do meu retorno. Expliquei o que houve e disse que aprovei a época próxima da revisão para fazer logo os óculos novos e ver se havia aumentado ou não.
Então, ela conferiu o meu último grau salvo no sistema e me mandou me sentar naquela cadeira, que é quase um instrumento de tortura. Todas as vezes em que me sentei ali, não recebi notícia boa.
Aquele braço ao lado que contém uma espécie de coisa que é “sei lá no nome daquilo”, mas que se coloca na frente do rosto e nele tem todos os valores de graus existentes na face da Terra e acredite, um deles será todinho meu!
Ela colocou meu “grau atual” e já me bateu um desespero, porque as letrinhas estavam um bocados borradas. Pediu-me para ler, só me restou dizer:
“Não consigo. Tá embaçado!” E chorando por dentro.
Tampou um dos olhos e foi alterando até que eu pudesse ler sem dificuldades as letras a frente. E repetiu o processo com o outro. E no final das contas, aquele mexe-mexe e gira-gira na máquina, ela colocou com os dois juntos, ouviu até uma música de glória
Deu-me um veredito, que ela contou de uma vez:
“Aumentou 0,25 em cada olho.”
“Só?” Pausa para ver se não estou sonhando, só não me belisco. “Que coisa boa!” Sorrio, mas por dentro estou: Ae caralho! 0,25 só! Obrigada, divindades!
Ela me entrega a receita para eu poder fazer os óculos. E começa um outro pequeno tormento, a caça a uma armação nova.
Fui na mesma ótica da outra vez e comecei a ver as armações. Como meu rosto é pequeno, fica quase impossível encontrar algo que fique decente. A moça até tentou me empurrar, acreditem, armações infantis. Socorro! Óculos da Hello Kitty não! Até gosto dela, mas já passei da idade de usar armação de personagem.
E não pode ser grande também por conta do grau ser alto e a borda fica mais grossa ainda. Então não restam muitas opções. Sem contar o detalhe que eu tenho quase que enfiar a cara no espelho para poder me ver.
E dessa vez cumpri a minha promessa de comprar uma armação com algo vermelho. Das outras vezes, sempre a rosa, porque incrivelmente era que a melhor ficava. Escolhi uma no estilo marinheiro, vermelho com listras azuis e brancas. Tão lindo!
Porém, o mais caro é a bendita da lente. Porque tem o antirreflexo, e tem aquela de lente mais fina e menos feia. Com um grau como o meu, não é lá tanta diferença. E eu sei que já disse isso. Minha memória é boa!
E como sempre, as lentes saíram mais caras que a armação. Nada além do normal!
Tive mais uma semana de tormento até finalmente os óculos novos ficarem prontos. Levei a oftalmo e ela deu o confere. E olá mundo brilhante e nítido!
Foi uma época de revisão muito estranha, talvez a mais traumática que tive. Trocar de grau faz parte, mas alguém pisa neles não é tanto assim.
Espero que da próxima vez, seja algo mais “normal”. Se é quer ser míope é normal.
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