Rekonvaleszenz
1 Único
Eram 3:30 da manhã, eu já não conseguia mais dormir, por que era tão difícil assim aceitar uma separação? Uma simples separação. Nada demais para um homem forte, psicologica e emocionalmente como eu. Não, eu não sou forte emocionalmente, às vezes começo a achar que sou meio criança... Realmente, nunca quis saber o porquê disso. Talvez eu tenha herdado o coração de manteiga da minha mãe, é, talvez. Meus últimos dias tem sido difíceis por que... uma certa garota, cujo nome não citarei agora, me faz perder o sono. Okay, sou homem, sou adulto, sou um astro de rock, tenho dinheiro, fama, sou lindo e as mulheres e algumas vezes os homens se jogam aos meus pés. Tenho tudo o que eu sonhava em ter quando tinha 7 anos de idade. Mas não me adianta ter tudo isso se eu não puder ter... ela. Vamos parar de chamá-la de ‘ela’. Soa meio banal. É, sou meio banal às vezes. Agnes. É um nome diferente, eu sei. Como descrevê-la? Bem, ela é um anjo. Ou quase isso. Nos conhecemos num show da minha banda, ela era uma das tais fans que visitariam o camarim após o show.. Foi esquisito. Depois que o show acabou, descemos do palco com Bert fazendo piadinhas sobre uma das garotas que tinha nos atirado um sutiã. Foi um show e tanto, como o próprio Jeph tinha dito. Sabíamos dessa coisa de fans depois do show indo nos visitar no camarim e tal, só que nesse dia eu tinha praticamente esquecido. Sim, esqueci. E quando entrei no camarim, retirei minha camiseta, que estava completamente encharcada. Os outros fizeram uma pequena confraternização a base de cerveja. Eu preferi beber água. Eu tinha suado muito, me sentia quase desidratato. Ok, não é pra tanto, mas eu estava com muita, muita sede. Ouvimos batidas na porta, e Bert que foi abrir, as fans haviam chegado e eu ainda estava curtindo minha água sossegadamente. Eram 6 garotas, todas meio ‘estranhas’. Mas tinha uma em especial. Ela, ela e ela de novo. Agnes. Ela chegou perto de mim, ficando meio corada ao me ver sem camisa. Tinha um rosto e um sorriso lindo, ela tinha covinhas man, acredite! Os olhos profundamente verdes, os cabelos um pouco longos, repicados, castanhos, lisos. A pele era suavemente branca. Ok, parei com os detalhes. Mesmo por que eu não sou um ‘homem de detalhes.’ Mas ela tinha algo que me chamava atenção, fora os olhos, cabelos, pele, o jeito de sorrir. Ela tinha algo que me acalmava e me fazia sorrir. Foi assim que nos conhecemos. Foi bem clichê eu diria. Começou numa conversa, depois trocamos telefones, marcamos de nos encontrar e começou assim, piegas. Os caras da banda ficavam me zoando. Principalmente Robert. Ele é um gordo, e eu falava isso na cara dele, mesmo que ele não gostasse de admitir. Fora tudo isso. Eu me apaixonei pela Aggie. Eu a chamava assim, Aggie. Estranho, mas ela gostava. Só eu podia chamá-la assim, e só ela me chamava de Quinny. Não, o Bert também me chamava assim. Mas só em casos raros, quando ele queria me irritar. Começamos a namorar... um namoro que durou dois anos mais ou menos. Noivamos... 3 anos de noivado. No primeiro ano, eu descobri que estava uma doença. Uma séria doença. Gangrena do pâncreas. Me causou Embolia. Robert tinha cancelado todos os shows que a banda faria, e eu fui internado por alguns meses. Por que meu sangue não circulava direito. Agnes morria de medo de me perder, me acompanhou no tratamento. Que dura até hoje, por que meu pâncreas se deteriorou. A doença foi se manifestando, e Agnes lutando junto comigo. A banda tinha arrumado um guitarrista substituto. Eu não podia continuar. Mas Aggie estava comigo. E isso bastava. Passamos mais dois anos juntos, altos e baixos. Estávamos prestes a fazer 3 anos de noivado... quando o que eu mais temia aconteceu..
— Quinn, eu preciso conversar com você... – Ela me olhou séria, com aqueles olhos verdes e amendoados, profundos. Era isso que eu sentia em seus olhos. Profundidade.
- Diga amor. – Sorria pra ela, mesmo com seu rosto sério, eu conseguia sorrir pra ela, era fácil... eu a amava.
- Nós... eu... Quinn, eu quero terminar. – Seu rosto era profundamente triste, eu a olhava de forma desacreditada, ela não parecia querer fazer o que estava fazendo.
— Como assim terminar Aggie? Está brincando comigo?
- Não, Allman, não estou brincando com você.
- Pára de me chamar assim, você nunca me chamou assim antes, amor!
- Mas agora eu estou chamando, e eu.. eu estou terminando isso. Semana que vem eu venho buscar minhas coisas. Adeus. – Fiquei na sala de estar, imóvel, sem saber o que dizer ou fazer diante da frieza dela. Senti algo dentro de mim, algo ruim. Uma sensação horrível, gosto amargo, eu já havia sentido aquilo antes. Corri pro banheiro, vomitando tudo, inclusive sangue. A doença havia novamente dado sinais. Me fazendo voltar ao maldito hospital. Me fazendo ter medo. Quando eu recebi o laudo médico, lágrimas pesadas caíram dos meus olhos. Me fazendo engolir seco. Eu estava morrendo. O sangue que já não circulava direito, agora estava sendo expelido pelo vômito. Agora eu tinha certeza que estava morrendo. Acordei no meio da madrugada, às 3:30 da manhã, havia tido um pesadelo horrível. Modos terríveis de se morrer. Estranhos e doentios. Ela estava tão perto... por que eu não poderia trazê-la de volta? Eu não estava mais aguentando aquilo. Peguei meu celular na cabeceira da cama e disquei os números da Agnes, meus dedos trêmulos e a voz tartamudeosa. Três toques, ela atendeu, a voz de sono, pesarosa.
- Alô.
- Aggie?
- Porque está me ligando a essa hora, Quinny?
- Eu estou morrendo, Agnes.
- Foi só uma separação e...
- Eu estou realmente morrendo, a doença se agravou e eu agora estou convalecente. – Ela ficou muda, ouvia somente o som de sua respiração ao telefone.
- Me desculpe Quinn.. eu te amo.
- Eu também te amo. Bem, era só isso. Até...
- Mas... – Desliguei, mas lágrimas pra eu chorar, eu estava morrendo e era só isso, o amor da minha vida perdido, minha vida se acabando, e tudo desmoronado. Tudo acabando. A vida se esvaindo... era só um pequeno pedaço... só isso. Só uma separação.
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