Rejeição

3 Capítulo 3: Vingança


Notas iniciais
Sebastiana procura Álvaro para ter sua vingança.

Ela entrou no quarto de Álvaro e ele estava lá. Sentado na escrivaninha do computador.


_Oi Álvaro, lembra-se de mim?


Álvaro virou-se na direção da voz e assustou-se. Sebastiana estava diante dele. Ela estava diferente e mais bonita, de um jeito gótico.


_Sebastiana, o que faz aqui?


_Vim visitá-lo meu amor. Afinal mal tivemos tempo de falar depois que me expulsou de sua casa.


_Eu não te expulsei. Eu apenas precisava pensar um pouco em tudo que estava acontecendo.


_Entretanto, de todos os convidados, eu fui a única escoltada para fora pelos empregados.


Enquanto conversava, Sebastiana circundava Álvaro. Ela podia perceber porque se apaixonara por ele. Era loiro dos olhos claros, cabelos ondulados, fartos. Alto de ombros largos e músculos definidos, como um atleta. E seu jeito sempre tão calmo, seguro de si, atencioso e amável, perfeito cavalheiro. Um verdadeiro príncipe. Era bom demais para ela. Talvez, se ela não tivesse se envolvido com ele, nada daquilo estaria acontecendo. Bastá-la-ia ter dobrado uma esquina, antes que o destino a fizesse atravessar o caminho dele. Pela primeira vez ela pensava que Álvaro não era responsável por sua infelicidade, pois ninguém pode escolher por quem se apaixonar. Ele não tinha culpa por não amá-la. Sebastiana hesitou em seu desejo de vingança. Afastou-se de Álvaro e aproximou-se da porta de saída do quarto dele.


_Sebastiana, não me leve a mal, mas meus pais são meio tradicionalistas. Eles sempre esperaram que eu me casasse com alguém do nosso nível.


Ela virou-se para olhá-lo. Já não o odiava mais como antes, mas se continuasse a ouvir aquela conversa, ficaria tentada a vingar-se.


_Por tudo que lhe é mais sagrado, Álvaro, cale-se.


Sebastiana virou-se e abriu a porta. Álvaro levantou-se e a alcançou. Ele segurou seu braço e puxou-a de volta, então fechou a porta.


_Eu não posso te deixar sair assim.


_Mas algumas horas atrás foi o que você fez.


_Eu fui um idiota.


Beijaram-se. Quanto mais o beijo se intensificava, mais Sebastiana sentia o sangue correr-lhe nas veias e tornar o seu corpo quente e desejoso de mais prazer. Logo estavam os dois nus na cama de Álvaro. Ela por cima, sentindo a força daquela paixão penetrá-la, enquanto miríades de sensações frenéticas e excitantes a engolfavam, em tons de púrpura, negro, rubi e verde musgo. Ela sentiu-se desfalecer sobre ele. Logo mais, estavam os dois deitados lado a lado, na cama. Álvaro estava fitando o teto, com o pensamento longe. Sebastiana tentava não pensar na caixa e nos cenobitas. Tentava entender por que se desentendera com Álvaro no dia anterior. Por que o almoço havia acabado tão mal.


_Sabe Sebastiana, eu te amo, mas não posso ficar com você, quero dizer, não podemos casar e constituir família. Mas podemos continuar nos encontrando e nos amando como agora. Eu não posso dispor do meu destino. Há muitas coisas em jogo. Minha família tem muitas responsabilidades e muitos compromissos dos quais eu não posso me esquivar. Infelizmente eles usam o casamento como um meio de fazer negócios. Não sou dono da minha própria vida Sebastiana.


_Sua família o mandou desfazer-se de mim? Como a máfia?


Álvaro sobressaltou-se. Sentou-se na cama no mesmo instante. Olhou seriamente para Sebastiana.


_Quem lhe disse isso?


Sebastiana ficou deitada na cama fitando Álvaro. Então riu, a princípio discretamente, depois despudoradamente, um riso sem fim, nervoso, que a fazia contorcerse e derramar lágrimas.


_Por que ri, ficou louca?


_Você me partiu o coração porque é da máfia?


_Fale baixo. Você não sabe do que está falando.


Sebastiana encolheu-se na cama. Ficou olhando Álvaro com um brilho no olhar. Álvaro estava sério. Levantou-se e começou a vestir-se.


_É bom que você não saiba nada Sebastiana, para sua própria segurança.


Sebastiana permaneceu nua na cama, enquanto Álvaro já estava completamente vestido.


_Sebastiana, é melhor que saia agora, antes que minha família perceba que está aqui. Sairei para distraí-los e assim dar-lhe tempo para escapar.


_Você quer que eu fuja para não morrer, é isso?


_Não somos bárbaros. Você anda vendo muita TV. Quero apenas evitar discussões.


_Você está sendo sincero? Digo, você está pensando em mim ou apenas evitando problemas para você mesmo?


_Que diferença isso faz? Arrume-se. Tente sair daqui, em 15 minutos.


Álvaro saiu do quarto. Sebastiana fechou os olhos. Ao abrí-los, estava de pé, totalmente vestida como cenobita, no meio do quarto de Álvaro, sozinha. Ouviu um ruído às suas costas. Não precisava virar-se para saber que era Cabeça de alfinetes. Ele aproximou-se por trás e colocou sua horrenda cabeça próxima ao pescoço dela. Então Sebastiana ouviu um sussurro em sua mente.


_Você desistiu de vingar-se?


_Não sei ainda. Talvez ele não seja culpado pelo que aconteceu. Talvez eu possa poupá-lo.


_Se você não tiver coragem, poderemos fazer em seu lugar.


_Não! A vingança é minha. Eu é quem decido quando e como fazer.


_Como queira, mas não poderá ficar nesta dimensão por muito tempo. Logo teremos que voltar para o lugar de onde viemos, e você virá conosco. A questão é se virá sozinha ou acompanhada.


Cabeça de alfinetes afastou-se lentamente, então Sebastiana percebeu que estava sozinha novamente. A última frase que cabeça de alfinetes lhe dissera ficou martelando na sua mente. Resolveu sair do quarto e conhecer melhor a família de Álvaro.


Sebastiana desceu as escadas sem pressa, foi até a sala de estar e à sala de refeições, não havia ninguém. Pensou em Álvaro e teve a sensação de que ele deveria estar na biblioteca da família. Seguiu para lá. Havia dois homens do lado de fora. Eles a olharam e se aproximaram ameaçadores.


_O que faz aqui?


_Sou amiga da família. Vim cumprimentá-los.


_Sinto muito, mas não fomos avisados de sua presença, terá de nos acompanhar.


Os dois capangas a seguraram fortemente pelo braço e a arrastaram para fora daquela sala, em direção à adega. Um deles falou pelo fone de ouvido Bluetooth. Então se voltou para Sebastiana e aplicou-lhe uma bofetada. Sebastiana caiu ao chão.


_O patrão diz que não a conhece. Quem é você?


Sebastiana levantou a cabeça e olhou os dois brutamontes com olhos púrpuros.


_Eu sou o seu pior pesadelo.


Então o ambiente ficou escuro e frio. Os homens olhavam em volta surpresos. Sacaram suas pistolas e um deles mirou Sebastiana com ela. Então vindas não se sabe de onde, correntes surgiram, e engancharam-se nas carnes dos dois homens, rasgando seus ternos e fazendo-os gritar. As correntes os transfixaram nos braços, pernas, tronco e cabeça. Tensas, forçando as carnes dos homens a se esticarem ao máximo, quanto mais eles esperneavam, mais suas carnes rasgavam sem, contudo, desprenderem as correntes deles. Os dois então ficaram gritando horrorizados.


Sebastiana levantou-se e voltou à biblioteca. Abriu as portas da biblioteca de uma vez. Lá dentro estavam Álvaro, seus pais e mais três homens que Sebastiana não conhecia. Todos estavam surpresos com sua presença. Álvaro parecia apavorado. O pai de Álvaro pegou o celular e deu um telefonema enquanto olhava para Sebastiana. Então ele olhou para Álvaro e deu um olhar de reprovação. Álvaro aproximou-se dela.


_O que você pensa que está fazendo Sebastiana?


_Vim conhecer melhor sua família Álvaro. Então o senhor é o pai de Álvaro? Prazer em conhecê-lo. Eu sou a ex-namorada de seu filho. — Disse Sebastiana em voz alta, dirigindo-se ao pai de Álvaro.


Álvaro estava em pânico. Tentou retirar Sebastiana à força da sala, puxando-a pelo braço. Mas Sebastiana virou-se para ele e lhe deu um olhar gelado, assustador, que fez Álvaro soltá-la e dar um passo para trás. Sebastiana então se voltou para os pais de Álvaro. Aproximou-se deles e cumprimentou-os com a cabeça, pois sabia que eles não lhe apertariam a mão.


_Chamo-me Sebastiana, sou humilde e não tenho valor nenhum. Isso não impediu seu filho de apaixonar-se por mim. Mas não o culpe, ele tentou obedecer-lhes as ordens, é um bom filho. Eu é que sou uma moça insistente.


Sebastiana parou de falar e abaixou a cabeça. Então as portas da biblioteca trancaram-se sozinhas. Ouviram-se movimentos na parte de fora da biblioteca, e alguém começou a esmurrar a porta, e a gritar pelo dono da casa. Sebastiana então ergueu a cabeça e sorriu para os pais de Álvaro.


_Não se preocupem, não seremos mais incomodados. Então me digam, por que tratam seu filho como moeda de troca?


_Eles não me tratam assim, Sebastiana. Eu que aceitei esse papel. — disse Álvaro.


Sebastiana virou-se para Álvaro e sorriu para ele.


_Sempre o amor filial. Você se preocupa muito com seus pais Álvaro.


_Meu filho é um tolo. Basta olhar para você para ver que seu lugar é a sarjeta. — Falou a mãe de Álvaro.


_Veja Álvaro, sua digna mãe tem língua. — Gracejou Sebastiana.


_Não fale assim da minha mãe, Sebastiana. — Reclamou Álvaro.


_Ok! Mas você aceita que ela me trate como uma ratazana. O que? Você concorda com a opinião da sua mãe Álvaro? — Provocou Sebastiana.


_Mamãe, por favor, componha-se. — Falou Álvaro dirigindo-se à mãe.


_Sim mamãe, componha-se, não baixe ao nível desta ratazana que vos fala. — Sebastiana insistiu na provocação.


_Isso já chega. — Um dos convidados dos pais de Álvaro sacou uma pistola e mirou em Sebastiana.


_Você não precisa fazer isso, eu posso resolver esta situação. — Álvaro tentava acalmar os ânimos.


_Resolver como? Esta desqualificada invade minha casa e nos trata como crianças, a nós que não toleramos nenhum desrespeito. Isto não pode ficar assim. Ela vai aprender uma lição. — O pai de Álvaro foi até o homem com a arma e a tomou em suas mãos, então ele se virou para Sebastiana e atirou sem hesitar, a sangue frio.


_Não! — Álvaro gritou impotente e desesperado.


Sebastiana permaneceu de pé. Ela olhou para o abdome e viu o buraco de bala na sua roupa escura; ainda saía fumaça dele. Perguntou-se intimamente por que não caiu ao chão morta. Então levantou a cabeça e encarou o pai de Álvaro. O altivo senhor incrédulo descarregou a arma em Sebastiana. Esta permaneceu de pé. Passou a mão em seu pescoço e na cabeça. Agora havia um ferimento de bala em seu pescoço e entre seus olhos, por onde escorria um sangue negro.


_Ora, pare com isso. Não pode me matar. — Sebastiana falou enfadada para o pai de Álvaro.


Ao mesmo tempo os outros convidados sacaram armas e já iam descarregá-las em Sebastiana. Ela os olhou com olhos negros. Os três homens viram-se envoltos em um miasma negro surgido do chão, que os sufocou. Eles se contorciam e tentavam falar alguma coisa, sem sucesso, até que caíram ao chão desfalecidos.


Ao ver aquilo, a mãe de Álvaro abraçou-se ao marido, e olhou aterrorizada para Sebastiana.


_O que quer de nós? — Álvaro perguntou à Sebastiana, fazendo-a virar-se para ele imediatamente.


_Só queria conhecer melhor seus pais. Mas não se preocupe, não vou matá-los. Embora seja o que eles mereciam.


Então Sebastiana abriu as portas da biblioteca e saiu da casa. Os empregados do lado de fora estavam todos caídos desacordados. Sebastiana uma vez fora da casa de Álvaro, fechou os olhos e viu-se novamente em seu apartamento. O ambiente onde estava escureceu-se e tudo ficou sombrio. Ela escutou o arrastar da batina de Cabeça de Alfinetes. Ouviu a voz dele em sua cabeça.


_Chegou a hora de partirmos para nossa dimensão, como cenobita você nos acompanhará.


Então Sebastiana ouviu ao longe gritos e urros, choro e soluços, maldições e pedidos de misericórdia. Teve a impressão de já ter escutado aquilo antes, então se recordou que ela mesma tinha feito aqueles mesmos sons. Sentiu o frio envolvê-la cada vez mais, enquanto mergulhava num abismo negro. As únicas sensações que ainda eram constantes era a da sua pele descascando do seu corpo, fazendo o sangue escorrer por seu ventre e pernas.


Alguns meses depois, um grupo de pessoas entrou no apartamento que uma vez foi de Sebastiana. Agora estava vazio, pintado de novo e com as janelas abertas para permitir a ventilação. Era um grupo de jovens universitários, três moças e um rapaz. Vieram ver o apartamento para alugá-lo. Inspecionaram tudo e decidiram ficar com o apartamento. O rapaz foi até a cozinha e olhou nos armários de parede para ver se havia alguma coisa neles. Viu algo interessante. Uma pequena caixa metálica, com ricos arabescos em estilo oriental. Ele a pegou e examinou. Achou que fosse um objeto esquecido pelo antigo dono. Resolveu entregá-lo ao senhorio que estava alugando o apartamento.


_Deve ter pertencido à antiga dona. Uma moça que desapareceu sem deixar vestígios. Simplesmente sumiu do mapa, deixando todos os seus pertences, documentos e dinheiro. A polícia achou que ela estava envolvida com uns mafiosos, e que talvez eles tenham queimado arquivo. Você me entende. — O homem fez um gesto com a palma da mão reta, no pescoço.


_Eu li sobre isso no jornal. A família mafiosa foi até processada, pelo que eu me lembro. — Falou o universitário.


_É, mas ninguém conseguiu provar nada. Sabe como é, muito dinheiro rolando. — Falou o senhorio.


_E então, o que fará com essa caixa, já que a dona deve estar morta? — o rapaz estava interessado na caixa.


_Acho que vou vendê-la. Parece valiosa. Não se preocupe, levarei isso em conta na hora de cobrar o aluguel. — O homem achou que estava sendo generoso.


_Obrigado. — O rapaz não o achou tão generoso assim.


O senhorio levou a caixa para casa e colocou-a na cabeceira da cama, enquanto foi tomar um banho. Sua esposa entrou no quarto para guardar algumas roupas passadas. Ela percebeu a caixa e a achou muito bonita. Sentou-se na cama e resolveu examiná-la. Percebeu que a caixa tinha alguns desenhos que eram móveis como um quebra-cabeça. Achou que deveria haver algo dentro da caixa, então tentou abri-la modificando seu encaixe. Ela tanto fez que conseguiu. Nesse momento seu marido saiu do banheiro com a toalha enrolada na cintura. Ele ficou irritado quando viu que sua esposa estava mexendo na sua relíquia. Já ia brigar com ela quando percebeu que o ambiente estava frio e escuro demais, sendo que a única luz provinha da caixa nas mãos de sua esposa.


_Clive, o que é isso? — Perguntou a mulher assustada.


_E eu vou saber? Você não se esqueceu de pagar a conta de luz, eu espero. — O homem suspeitou da esposa.


_Claro que eu paguei. — A mulher irritou-se com a suspeita.


Então das trevas que envolviam aqueles dois, surgiu uma mulher de aparência gótica, vestida de negro, com os cabelos armados em intrincadas tranças rastafári. Ela olhou para os dois e deduziu o ocorrido.


_Então, qual dos dois foi o curioso? — inquiriu Sebastiana.


Fim


Notas finais
Reconheço que o estilo mudou consideravelmente. Inclusive o final. Anteriormente imaginei fazer Sebastiana matar Álvaro e levá-lo consigo para o inferno. Mas aprendi a perdoar, por que Sebastiana também não?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!