Reit City - O Mundo Nunca Foi o Mesmo
1 Prólogo - Oliver
É noite, mas não parece, pois as dezenas de outdoors fluorescentes iluminam todo o quarteirão. É possível, de vez em quando, ver alguma moto ou carro passando na rua em altíssima velocidade, já que a estrada é uma reta bem extensa. As únicas pessoas que transitam são agentes do governo, que carregam enormes fuzis e ficam patrulhando, o dia todo, todo dia. Ao fundo, um pouco ofuscado pela névoa "natural" e também pela poeira, o maior prédio já visto estava com suas enormes e fortíssimas luzes azuis acesas; um "T" gigante e brilhante ficava no centro do prédio, o que aumentava ainda mais o brilho. Não sei como as pessoas conseguem dormir...Ou enxergar. Na verdade, não sei nem como eu enxergo até hoje.
O telhado é o melhor lugar para se ficar. Isso, claro, se você tirar os drones que ficam rondando de vez em quando, mas é só se esconder bem e nada dá errado. É bom passar o tempo atirando pedras para vê-los apressadamente identificar a origem do barulho, ou andar pela cidade, quando não se tem sono e quando você precisa pensar um pouco. É difícil acreditar que, pelo simples fato de estar acordado, eu posso ser executado. O toque de recolher deixou todos irritados, mas ninguém teve de coragem de fazer nada e, os que tiveram, hoje estão mortos. Ficar acordado até mais tarde, escrever e falar o que eu quiser, me opor à coisas que não concordo; tudo isso é inadmissível atualmente, se é que já foi admissível um dia. Na Terra, talvez.
Me divirto jogando pedras em lugares aleatórios, quando sou capaz de escutar uma espécie de gemido. Parece ser uma mulher, e vem da rua; é melhor dar uma olhada.
Chego bem perto da borda do telhado e posso ver claramente o que está acontecendo. Num beco, três agentes abordam uma mulher, que está usando roupas compridas e um casaco; presumo que não é, então, uma prostituta ou algo do tipo. É loira, e muito bonita, por sinal; não posso distinguir muita coisa, pois o beco — e logo o beco — é escuro. Ela está encostada na parede, com os braços envolvendo seu peito.
— O que a senhora pensa que está fazendo aqui, a esta hora da noite? — Disse um dos agentes. Era uma voz bem grave, mas, como quase todos usavam máscaras, foi o máximo que pude concluir. Talvez a voz grave seja consequência da máscara ou algo assim; vai saber. — Agente 31, execute o protocolo B-12.
Protocolo B-12? Que diabos é isso? Sei que esses agentes são treinados para fazer uma certa coisa caso encontrem uma situação específica, mas os únicos protocolos que conheço são A-9, que é para prender o indivíduo, e G-56, que é permissão para usar força letal. Não tenho tempo de pensar muita coisa, quando a mulher dá uma resposta:
— P-Por favor.. — Sua voz está falhando. — Me deixem ir! Eu estava voltando pra casa! Por favor, vocês tem q--
Ela foi interrompida por uma coronhada que o "Agente 31" deu em sua cabeça. A mulher caiu, inconsciente, e o outro agente — que estava encostado na parede, também, "vigiando" — começou a rir.
— Vamos logo com isso. Precisamos fazer o relatório dessa noite. — Ele disse.
Os outros dois não disseram nada, e o 'Agente 31' prendeu o fuzil na cintura e tirou sua pistola. Não tive nenhum tempo de reação, quando ele disparou contra a cabeça da mulher. O tiro foi extremamente alto, e deve ter acordado o bairro inteiro..Não que eles se importem; eles são os caras armados.
Minha primeira reação foi me esconder no telhado, longe dos drones e dos agentes. Se me pegassem eu teria o mesmo destino daquela mulher. Aqueles caras simplesmente...Atiraram. Não hesitaram, muito menos deram à vítima uma chance de dizer algumas últimas palavras, eles só...Atiraram. É como se não fossem humanos.
Espero algum tempo, uns 10 ou 15 minutos; eis que saio do meu "esconderijo" — peguei alguns papelões que estavam no telhado e fiz um "mini forte" pra mim, perto do duto de ar externo — e, como quase sempre, não tenho tempo de reação: caio imediatamente ao chão, com o corpo totalmente fora de controle. Meus braços e pernas dão espasmos constantes, e as faíscas percorrem o meu corpo.
Posso ver nitidamente um drone vermelho flutuando, com uma luz vermelha percorrendo meu corpo — me escaneando, imagino — e a última visão de que tenho é da máquina disparando algo que não é uma descarga elétrica, mas sim uma espécie de dardo, que crava na minha perna esquerda; logo depois, apago completamente.
Fui capturado pelo governo.
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