Reis e Bruxos

1 Íris - A cidade.


Íris se sentou no chão úmido da floresta, e encostou sua cabeça em um tronco caído. Havia poucas nuvens no céu e o sol estava no seu ponto mais alto, o que fez com que ela fechasse os olhos e deixasse as luzes solares banharem o seu rosto.

Ouviu alguns passos vindos em sua direção, mas não moveu nenhum músculo do seu corpo, até que um corpo magrelo se jogou em cima dela e ela se virou assustada.

― Íris ― gritou sua irmã mais nova, Nariel, empolgada.

Iris ia para a floresta sempre que alguém a incomodava, mas depois que sua irmã mais nova nasceu e aprendeu a andar, começou a segui — lá por todos os cantos e tem ficado cada vez mais difícil achar um lugar sossegado.

― Você ficou chateada porque o papai insistiu para que você se case? ― Nariel apoiou seus cotovelos na barriga da irmã e a encarou esperando alguma resposta. ― Você vai se casar com aquele menino feioso?

― Não, não vou me casar com ele.

― Mas o papai disse...

―Eu sei o que papai disse.

―Mas o ritual diz...

―Eu sei o que o ritual diz.

― Que bom. ― Nariel se levantou e começou a andar em cima do tronco ― Vocês teriam filhos feios.

Íris olhou para a irmã com olhar de desaprovação e ia dizer algo, mas a Nariel acabou desequilibrando, sorte dela que eram meados de outono, e havia muitas pilhas de folhas onde ela havia caído.

― Você está bem? ― perguntou Iris, preocupada e se esgueirou para olhar atrás do tronco, quando viu sua irmã se levantando de uma grande pilha, com folhas presas em seu cabelo e em no vestido, e caiu na risada.

As casas da vila, feitas de madeira e cobertas com palha, são dispostas em volta de uma grande praça, algumas ruas adjacentes levam até as casas mais distantes e algumas pequenas fazendas. Há um encanamento rústico que leva á água do rio até as casas, e as mulheres não precisam ir lavar roupa fora da vila e tem um grande pomar na colina, que dão frutas durante o ano todo.

Os habitantes são pessoas quase comuns, que por muitas vezes, trocaram sua vida na cidade para viver no meio da floresta e serem quem realmente são, bruxos e bruxas. A vida ali era tranqüila e todos tinham inteligência e boa magia o suficiente para driblar qualquer dificuldade, por menor que seja.

Iris havia pedido a sua irmã mais velha, Karina, que a levasse para vender trigo na cidade na frente de sua casa, pela madrugada. O sol não havia raiado quando as duas saíram pela estrada junto com Ítalo, esposo de sua irmã. Karina cantava músicas e mais músicas e a sua voz suave preenchia o silêncio que rodeava a mata ao redor, enquanto um burro pequeno e velho carregava a carroça.

Na carroça que eles carregavam, foi lançado um encantamento chamado de fundo falso, o espaço que havia nela era ampliada e assim dava para colocar o dobro de trigo, esse era a única magia que os bruxos usavam fora da vila.

― Com o dinheiro do trigo e o que temos guardado conseguiremos comprar um bom cavalo. ― Karina disse quando pararam para beber um pouco de água.

Quando as árvores deram lugar a enormes quantidades de casas, a estrada de terra deu lugar a uma larga rua feita de pedras e o silêncio foi tomado por uma multidão de barulhos, enfim tinham chegado à cidade, depois de duas horas de viagem.

As ruas eram tomadas de barracas, pessoas comprando e pechinchando, crianças brincando e correndo por todos os cantos e animais comendo restos que estavam pelo chão.

―Eu vou vender o trigo, olhe os cavalos no estábulo do Jessy. ―Ítalo disse para Karina e puxou o pequeno burro em direção a uma rua adjacente.

― Você que ir comigo Íris?

― Não, eu vou olhar as barracas.

― Tudo bem, mas não vá muito longe. ― disse e saiu andando no meio de algumas pessoas até sumir da vista da Irmã.

Íris se aproximou de uma das barracas da rua, a senhora que devia vender as flores estava ocupada demais brigando com uma criança de tinha esbarrado em uma das jarras e as deixado cair no chão.

― Lírio ou Rosas vermelhas? ― perguntou alguém.

― Lírio. ― Íris respondeu sem tirar os olhos da criança, que quase chorava enquanto recebia um sermão, e sem saber se a pergunta tinha sido direcionada a ela, mas mesmo assim ela amava Lírios, e sempre fazia eles florescerem fora de sua janela com um pouco de mágica.

Quando se virou avistou um jovem homem com cabelos castanhos e olhos claros que a encaravam e segurava um lindo jarro com Lírios. As vestes de Íris pareciam trapos perto das deles, e ele portava uma espada na cintura, Íris pensou que ele deveria ser um soldado da rainha.

― Eu espero que a senhora pare de brigar com a criança, senão perderá dois compradores em potencial.

― Ah, eu não vou comprar flores, só estava olhando. ― disse Íris envergonhada.

― Não seja por isso. ― O jovem rapaz tirou um pequeno galho da jarra de flor e ofereceu a ela.

― Obrigada. ―

― A senhorita é daqui? ― perguntou ele curioso.

― Não, não moro aqui.

― Íris? ― sua irmã a chamou do outro lado da rua. O burro que antes estava na carroça foi trocado por um cavalo e Ítalo segurava as rédeas, ele estava eufórico com a nova compra. Karina estava sentada ao lado de seu marido comendo uma maçã enquanto escutava e ignorava o que ele dizia ― Vamos?

― Obrigada de novo― disse se referindo a flor. Atravessou a rua e se sentou ao lado de sua irmã na carroça.

Ele e Íris trocaram olhares antes da carroça enfim andar, quando estavam saindo pela rua ele foi atendido pela senhora das flores que parecia muito feliz ao vê-lo.

― Quem era? ― Perguntou Karina cutucando ela e Íris se deu conta que não havia perguntado o nome dele, mas sabia que não o veria tão cedo, pois nunca saia da vila e provavelmente seria obrigada a se casar com um garoto feioso para completar um ritual idiota, segundo a sua irmã Nariel.

― Não é ninguém. ― Respondeu.

Notas finais
Eu espero que tenha gostado da história ♥