Notas iniciais
Continuação do conto da Lola. Ficaria no mesmo capítulo, se não fosse pelas regras do Nyah.


Desde que anunciamos nosso casamento, eu vinha ouvindo todo tipo de comentário. Meu pai só tinha um irmão e ele já tinha falecido, mas minha mãe tinha vários. E mesmo que eu nunca tenha sido muito próxima de nenhum dos meus tios e tias e muito menos dos poucos primos que tinha, eles todos me escreveram para me desejar boa sorte e felicidade. Claro que estavam todos convidados e nem precisaria disso. Mas era como se eles tivessem muito mesmo o que comentar e não pudessem esperar.
Durante o mês todo, eu ouvi repetidas vezes várias coisas deles. Em chás da tarde ou até mesmo por escrito, os ouvia falando de mim mesma como se fosse outra pessoa. E sempre concordava com a cabeça, agradecia, era tão cordial quanto devia ser em uma situação como essa. E nada que um me falou era muito diferente do comentário do outro. Era praticamente sempre a mesma coisa. As mesmas felicidades. A mesma festa enorme que esperavam. A mesma pena que tinham de mim.
Sim, eles tinham pena. Eles me diziam o quanto estavam felizes por mim, me desejavam boa sorte e depois, como se não fosse nada, eles ficavam com pena de mim. Pena de que minha mãe não estava ali para me ver casando. Pena de que ela perderia esse dia, esse momento com o qual ela devia ter sonhado tanto em sua vida.
Eu mesma nunca tinha sonhado com o meu casamento. A ideia não me incomodava tanto a ponto de realmente pensar em nunca me casar. Mas tampouco me era natural.
Talvez fosse por todas as vezes em que ouvi as pessoas discutindo com quem eu me casaria desde pequena. Era assunto desde que eu tinha nascido e ninguém fez muita questão de esconder isso de mim. Me lembrava bem de brincar com filhos de amigas da minha mãe e me perguntar se seria com eles que eu teria que me casar, só porque, enquanto nós brincávamos, as duas conversavam sobre meu futuro. Era normal falar sobre isso. Mesmo que eu tivesse seis anos, dez, quinze. Meu casamento era o segundo grande evento na minha vida, o segundo mais importante. E, para todos efeitos, questão nacional.
Mas mesmo que minha mãe e até meu pai tenham pensado nisso já antes, mesmo que o reino todo tenha imaginado esse dia, eu mesma nunca parei para sonhar com ele. Nunca tinha me emocionado em eventos assim, nem mesmo no casamento do Príncipe Charles de Illéa. Nunca tinha visto tanta graça em vestidos de noiva e me preocupado com o que eu falaria. Simplesmente nunca tinha sonhado, nunca tinha fantasiado com quando eu aceitaria passar o resto dos meus dias com o mesmo homem.
Mas ali, de frente para o espelho, eu sentia como se tivesse passado cada segundo da minha vida só esperando chegar àquele momento. Sentia que não havia mais nada no mundo que importava, como se o fim dos tempos estivesse chegando e o único jeito de fazer tudo ter valido a pena era olhar nos olhos de Reid e prometer que eu o amaria enquanto respirasse. E não sabia porque estava assim, porque, de repente, só conseguia pensar em entrar na igreja, em me casar com ele. Talvez fosse a proximidade do momento, talvez fosse o pouco de tempo que eu tinha passado com ele antes do almoço.
Ou talvez fosse o vestido à minha volta.
Ele era mais do que bonito. Pendurado do lado de fora de meu closet, ele era lindo.
Mas, em mim, ele era maravilhoso. Devastador. Eu não consegui passar nem alguns segundos o olhando no reflexo sem lacrimejar e era a pior pessoa do mundo para chorar.
Mas ele era grande, imponente. Era simplesmente impressionante. Não conseguia tirar meus olhos dele, do branco refletindo na minha vista. Não conseguia pensar em mais nada e nem precisava. Só de vê-lo, de vesti-lo, eu já estava feliz.
Clarissa se inclinou para mim com uma caixa de lenços na mão. Eu me senti idiota, mas até ri, me recusando a chorar de verdade.
Não era a minha primeira prova, eu estava sendo emotiva demais. Já o tinha vestido várias vezes, depois de vários consertos. Não tinha porque chorar naquele momento.
Mas talvez fosse o véu também, que se estendia atrás de mim. Ele foi preso rapidamente, só para ver se não atrapalharia o vestido. Mas seria praticamente impossível atrapalhar. Os dois combinavam perfeitamente e quase não precisavam de mim ali.
Eu estava tão...noiva! Nunca tinha me visto assim, nem achava ser possível me imaginar assim! Era tão nupcial, que me sentia como outra pessoa. Não de um jeito ruim, diferente só. Sabia que olhava em meus olhos, que eram meus ombros, minhas mãos que sentiam cada um dos detalhes na saia rodada e cheia. Mas apostaria que era um sonho. No meio de todas as coisas que eu tinha que fazer e planejar durante esse mês de noivado, as provas sempre me pareciam uma experiência única, quase fora de meu próprio corpo.
Era como se eu me visse mesmo de fora, como alguém completamente estranha. E, mesmo assim, mesmo sentindo que mal conhecia aquela que observava, não conseguia evitar de ficar feliz por ela. De sentir, no fundo do meu próprio coração, que ela sabia a sua sorte e a felicidade que a esperava.
"Pode tirar, Alteza," a costureira falou e eu olhei para baixo.
Não tinha movido os olhos do espelho até então e senti como se estivesse quebrando um encanto quando olhei para ela.
"Oh," soltei. "Está bem."
Uma olhada na direção de Clarissa indicou-lhe que podia vir me ajudar. E ela não hesitou por um só segundo, logo estava soltando cada um dos botões nas minhas costas.
Assim que o vestido soltou do meu tronco e eu avistei de novo pelo espelho o corset que usava embaixo, tive outra vez a impressão de que acontecia com outra pessoa. Era branco e continuava parecendo bastante nupcial. Era quase uma fantasia. Mas não era engraçada, era estranhamente intrigante.
Quando terminei de me trocar e amarrei o lenço com cara de turista de Londres no pescoço, Clarissa ainda ajeitava meu corset junto com o vestido e o véu na cama. A costureira falou para ela que tudo estava perfeito, que elas tinham arrumado tudo que precisava e que os acabamentos estavam impecáveis.
E eu acreditava nela. Olhava para o monte de tecido branco puro e não conseguia pensar em um só defeito que ele poderia ter.
Uma batida veio à porta, seguida de Liev entrando.
"E agora?", perguntei, antes que ela mesma tivesse chance de falar alguma coisa.
"Vamos dar uma últi-" Ela mesma se cortou para ouvir o que vinha de seu fone. Até levou uma mão a ele, olhando rapidamente para a prancheta.
E então se virou de costas, falando algo no microfone que eu não consegui entender.
Quando se virou de novo para mim, ela respirou fundo.
"Íamos dar uma última checada em todos os assentos e quem ficará perto de quem," ela começou.
"Si-im," falei, prolongando a vogal para que ela continuasse.
"Mas recebi um aviso que a família real irlandesa acabou de chegar. E está vindo para cá," ela até mordeu o lábio quando me olhou por cima da prancheta.
Eu abri os braços no ar. "Então eu vou recebê-los."
Ela respirou fundo, discretamente aliviada. "Ótimo," disse, abrindo a porta e falou algo no microfone.
Não, eu não gostava quando pessoas chegavam fora do horário marcado e eu tinha que revisar todos meus planos para recebê-los, pois eles tampouco aceitariam chegar sozinhos.
Já esperava tantos problemas naquele dia e nada demais tinha acontecido até então. Tudo ia tão bem, que nem me importei com esse mínimo desvio.
Eu me virei para Clarissa, que segurava meu trench coat para eu vestir. Deslizei meus braços pelas mangas e ela ajeitou a gola em volta do meu pescoço.
"Sua Alteza convidou todos da família real?", ela perguntou, sua voz tão baixa que, se não estivesse tão perto dela, provavelmente não a ouviria.
"Está falando por causa da menina que fugiu com o Príncipe Jack?", perguntei e ela deu com um ombro só. "Ela vem, se é isso que você quer saber. E Jack e Kyle também."
Clarissa sorriu, mas olhou para o chão.
"Você lembra de Kyle, não é?" Perguntei e ela concordou com a cabeça.
Claro que lembrava. Eu praticamente tinha crescido com os dois e Kyle hoje em dia usava Londres como sua válvula de escape. Qualquer momento em que ele sentisse que precisava fugir do castelo de seu país, ele vinha para o meu. E, em dias normais, Clarissa estava o tempo todo comigo. Era mais como uma amiga do que somente minha criada.
Olhei para ela, que ainda mirava o chão atentamente, suas mãos à sua frente. Quando era mais nova, nós éramos mesmo como amigas de infância e ela era só uma aprendiz para virar minha criada. Eu até a teria chamado para ser minha madrinha, mas seria estranho.
E, independente do quanto éramos próximas antes, desde que eu tinha começado a faculdade, nós passávamos cada vez menos tempo juntas. Só dava mesmo para ela fazer todas suas funções e eu já tinha que sair correndo pela porta para estudar. Nossas conversas, os conselhos que ela me dava, tudo isso estava ficando cada vez mais raro. Eu já nem saberia dizer o que acontecia em sua vida.
Mas nós ainda tínhamos uma história. Uma história até bastante intrometida por Kyle. E eu achava que ela gostaria de sair um pouco daquele quarto, fazer um intervalo em todas as suas tarefas.
"Venha comigo," pedi, fazendo-a me olhar curiosa. "Receber Jack e Kyle," expliquei. "Venha comigo."
Depois de algum protesto, ela acabou aceitando. Mas, quando nos posicionamos do lado de fora do castelo, ela foi ficar no final da fila dos criados que atenderiam aos convidados.
Meu pai só chegou quando o carro já passava pelos portões. Nós trocamos um aceno e eu dei um passo ao lado para lhe dar lugar. Até arriscava um olhar na direção de Clarissa, quando senti a presença de uma pessoa à minha direita.
Sorri quando meus olhos encontraram os de Reid e senti sua mão procurando a minha.
Mas meu sorriso morreu quando Skar se colocou ao lado dele.
Voltei a olhar para a frente, acompanhando o carro da família real irlandesa se aproximar, como todos os de ali faziam. Já podia imaginar o quão desagradável seria mais tarde ter que ficar ali para receber todos os outros membros da realeza de incontáveis países e cada um dos meus parentes mais distantes.
Skar não parava de se mexer um só segundo. Ficava constantemente tentando tirar a onda loira de cabelo que atrapalhava sua visão e insistia em voltar assim que seus dedos a deixavam. E ele ficava arrumando sua postura, pigarreando, respirando fundo, praticamente batendo os pés. E se ajeitando, do blazer até as mangas da camisa, depois voltando ao cabelo.
Era simplesmente insuportável!
E eu estava contando os segundos para ver Jack saindo da limusine e tudo aquilo terminando.
As primeiras pessoas que saíram foram o rei e a rainha. Eles vieram até nós e nos cumprimentaram, e eu tive a chance de apresentar Reid. Logo atrás deles, vieram Jack e sua mulher, que eu descobri se chamar Arya. Ela fez questão de me falar que estava muito animada, que minha roupa era linda, que era um prazer me conhecer, que sempre tinha me visto pelos jornais, e nossa!, aquilo que eu tinha feito de distribuir café tinha sido incrível. Falou tanto, que eu mal conseguia acompanhar. Mas ela foi obrigada a parar, pois Jack tinha uma mão nas suas costas que a empurrou para continuar até Reid e Skar.
Assim que Kyle saiu do carro, ele fez menção de vir na nossa direção. Mas deve ter percebido Clarissa com o canto dos olhos, pois desviou seu caminho até ela e lhe deu um abraço.
Ela parecia que ia se enterrar no chão, mesmo ele sendo feito de pedra.
Assim que Kyle se afastou e voltou a nos mirar, vi Clarissa esconder um sorriso. E até arriscou um olhar na nossa direção quando ele já falava com meu pai.
Assim que entramos no castelo, meu pai foi andando com o rei e a rainha, conversando sobre alguma coisa. Skar e Reid foram logo atrás. Eu até tinha parado para esperá-lo e poder falar com ele mais um pouco, mas ele só piscou com um olho para mim e continuou conversando com Skar.
O Príncipe Jack e a nova Princesa Arya vieram logo atrás, com ele explicando para ela coisas sobre o castelo e a nossa família. Eu fingi não ouvir e só esperei que Clarissa entrasse.
Mas antes que ela conseguisse chegar até mim, Kyle se colocou ao meu lado.
"E aí, Lola?" Ele perguntou, enfiando as duas mãos nos bolsos das calças que estavam levemente largas demais para ele. "Vai fazer despedida de solteira?"
Só a levantada de sobrancelha dele já foi o suficiente para eu lhe dar um tapa no ombro. "Tá louco?”
Ele riu. "E o noivo? Vai fazer? Estava querendo ir em alguma festa hoje."
Foi minha vez de rir, enquanto dava alguns passos para deixar que os criados entrassem com as malas deles.
"Você sabe que tem quinze anos, não é, Kyle?" Assim que falei, notei Clarissa entrando. "Clare, acredita que Kyle quer ir na despedida de solteiro de Reid?"
Ela olhou para mim um pouco assustada, depois franziu as sobrancelhas, parando do meu lado. "Não sabia que o Sr. Willard vai dar uma festa."
"E ele não vai mesmo. Kyle pode procurar quanto ele quiser pelo castelo hoje à noite."
Nós começamos a andar de novo.
"Por que vocês não fazem alguma coisa?", ele perguntou para mim. "Aproveita sua última noite solteira, Lola. Chama um guarda no seu quarto, ordene que ele tire a-"
Antes que ele terminasse, eu lhe dei um tapa na cabeça que o fez parar de falar.
"Eu mereço?!" Perguntei para Clarissa, que escondeu o riso atrás de uma mão. Quando olhei de volta para Kyle, estava balançando a cabeça. "Não. Não mereço." Vi Liev atrás dele e respirei fundo. "Agora, com licença. Eu tenho compromissos sérios a atender."
"Foi só uma sugestão," ouvi Kyle falar, apesar de eu já os deixar para trás.
Estava esperando que Clarissa viesse comigo, mas quando cheguei perto de Liev, percebi que ela tinha ficado para trás. Uma olhada por cima do ombro tinha me feito constatar que ela conversava com Kyle alegremente. E então eu me virei de volta para Liev.
"Princesa, eu vou ter que ir até a Abadia de Westminster agora," ela começou. "Não quero te alarmar, mas tem algumas coisas que eu preciso ver pessoalmente para ter certeza de que estão sendo bem feitas."
“Entendo."
"Tentarei voltar antes que os próximos convidados cheguem-"
"Não precisa," eu a cortei, do jeito mais educado que podia. "Só volte a tempo do ensaio e está bem."
Ela respirou fundo. "Okay," disse. Depois olhou para a sua prancheta. "Eu deixei a grade dos assentos na sala verde do Leste. Faça as modificações que lhe agradarem e eu tomarei conta de tudo depois."
"Ótimo," falei, mas ela ainda não tinha terminado.
"Pedirei para Clarissa te chamar quando os próximos convidados chegarem então. Qualquer coisa que precisar, pode mandar me buscar."
Eu assenti. E então ela fez a menor das reverências e deu a volta em mim, indo em direção às portas.
Quando olhei na sua direção, vi que Clarissa ainda falava com Kyle, mesmo sendo interrompida por ela. Não queria que ela achasse também que eu tinha algum problema com eles sendo amigos, então me virei e comecei meu caminho antes que ela voltasse ao modo profissional.
O primeiro corredor onde entrei estava estranhamente vazio, salvo pelos guardas sempre presentes. E, segundo seu relógio, eram duas e meia da tarde. Mas eu não tinha pressa. Sabia que aquilo era mais uma formalidade, um privilégio que tinha. Estava mais do que satisfeita com os assentos e aqueles que não me agradavam não podiam se afastar mais de onde eu ficaria por causa de título. Não tinha nada que eu precisasse mesmo fazer.
Assim que virei o corredor outra vez, avistei meu pai e seus convidados em uma sala que tinha a vista perfeita para a varanda até onde se estenderia a festa. Eles conversavam perto da janela, os dois reis e a rainha. E eu teria jurado que eram os únicos ali, mas, assim que cheguei perto da porta, percebi Skar e Reid um pouco mais escondidos da minha vista.
Parei na hora. Minha intenção era entrar e ir trocar algumas palavras com eles, que claramente estavam falando do meu casamento. Mas eu não queria ter que ouvir a voz de Skar, já que, mesmo sem ter conversado exatamente com ele sobre aquele dia, tinha certeza do que ele falaria.
Skar era filho do único irmão de meu pai. E, apesar de eu ter primos também por parte de mãe, ele era o meu único que tinha sangue real. Até mesmo sua única irmã nunca poderia ser uma herdeira, já que não era filha do mesmo pai que ele. Enquanto eu não estivesse casada, Skar era o próximo ao trono.
E ele era homem. Se eu nunca tivesse nascido, ele teria um caminho livre até se tornar rei. Ele não precisaria se casar, como eu. Pelas leis britânicas, ele poderia reinar sozinho e feliz. E dava para ver que era exatamente o que ele queria.
Eu sempre soube que era o que ele queria. Ele sempre foi grudado na minha mãe, fazia questão de mostrar para ela que era o filho que ela nunca teve. Eles nem eram ligados por sangue ou genética, mas eram bem mais próximos do que eu e ela. E, quando ela morreu, parecia que o mundo inteiro tinha morrido junto para ele. Mal tive a chance de sentir o que era perder minha mãe, pois ele roubava toda a atenção. E, desde então, tinha praticamente morado no castelo por cada segundo que podia, apesar de ter sua própria casa. E meu pai nem para bani-lo.
Sempre tive a impressão de que ele me culpasse pelo que aconteceu com ela. Estava longe do meu alcance, não era como se eu pudesse curar o seu câncer. Mas via em seus olhos que ele sabia o quanto eu não era próxima dela. E talvez, se eu tivesse sido um pouco mais, ele me odiasse menos.
Mas não importava. Eu também o odiava. Eu odiava o quanto ele andava pelos corredores como se o castelo fosse dele. Como ele me olhava como se eu nunca fosse ser boa o suficiente, como se tivesse roubado algo dele. Algo que ele nem merecia, para falar a verdade. E que nunca mereceria com o caráter que tinha.
Já podia imaginar o quanto estava sendo horrível para Reid ter que aguentá-lo, o quanto ele devia estar tentando diminuir o que Reid viraria. E definitivamente não queria ouvir aquilo.
Olhei para dentro da sala, buscando meu noivo com os olhos. Ele respirou fundo e se virou para Skar, o puxando para mais perto da porta. Eu corri para passar dela e não os deixar me verem. E nem ia escutar nada. Pelo contrário, não tinha a menor intenção de ouvir a voz de Skar. Preferia continuar em negação e fingir que ele não existia.
Mas assim que a de Reid chegou aos meus ouvidos, fui obrigada a ficar um pouco mais.
"Ela vem?" Foi o que ele perguntou.
E não tinha nada de errado com aquelas duas palavras. Eram simples. Provavelmente sobre sua mãe ou alguém de quem eles falavam antes. Nada de errado.
A não ser o tom dele. E o jeito que sua voz pareceu tremer quando ele falou. Reid não estaria tão interessado assim em saber sobre a mãe de Skar, não a ponto de me dar a impressão de estar segurando a respiração até receber uma resposta.
Foi por pura curiosidade que eu fiquei ali mais um pouco e até cheguei mais perto para ouvir a resposta de Skar. E sabia bem o que aconteceria. Eu estava ficando toda ansiosa e acabaria ouvindo que era uma pessoa qualquer e então me sentiria idiota de ter me importado.
Mas Skar bufou, como se lhe faltasse paciência. "De que importa?" Ele perguntou, parecendo realmente à beira de ficar irritado. "Ela me disse que vocês não tinham mais nada."
Senti meu coração começar a bater mais rápido, enquanto minha mente dava voltas, tentando se lembrar de cada ex-namorada de quem Reid tinha falado e porque alguma delas conseguiria vir ao casamento.
"Eu queria vê-la," ele soltou, respirando tão fundo que eu pude ouvir de onde estava. Mas abaixou a voz antes de continuar. "Eu preciso falar com Eva."
Assim que ele falou seu nome, minhas pernas fraquejaram e eu tive que me apoiar na parede.
Eva não era uma de suas ex-namoradas. Eva não era uma de suas amigas, parentes ou convidadas. Mas Eva vinha ao casamento.
Eva era a meia-irmã de Skar.
Me virei para a parede, fechando minhas mãos, como se conseguisse me segurar a ela assim. De onde Reid conhecia Eva? Como ele podia tê-la conhecido? E por que ele não me contaria? Ela era praticamente minha prima, apesar de eu só tê-la visto algumas poucas vezes na vida. Por que ele não me falaria que conhecia alguém da minha vida?
E Skar? Ele conhecia Skar?
Ouvi passos se aproximando da porta e corri para a próxima salinha, fechando a porta antes que alguém pudesse me ver. Ouvi a voz de meu pai passando e fiquei esperando a de Reid, mas nada. Depois de alguns minutos, abri de novo um pouco a porta.
Todos os cinco estavam no final do corredor, caminhando para longe de mim. E eu nunca ouviria o final daquela conversa de Reid com Skar.
Mas eu não precisava ouvir, pensei na hora. Não precisava. Tinha que ter uma lógica naquilo.
Fui me sentar na primeira poltrona que vi e laceei o lenço em volta do meu pescoço.
Reid fazia Ciências Políticas comigo na faculdade. Só que ele era mais velho. Mas não tão velho quanto Skar. E Skar só tinha estudado Direito.
Mas e Eva? Pelo que eu sabia, ela estudava...Relações Internacionais? Eu nem tinha certeza! Nem poderia dizer aonde. Não sabia nem se era em Londres.
Talvez fosse na mesma universidade que nós. É, talvez fosse isso, eles podiam ter algumas aulas juntos. Não tinha problema algum. Eles só se conheciam. E então Reid conhecia Skar por Eva.
E ele não tinha me contado porque ele não sabia. Ele simplesmente não sabia! Ele podia ter pensado que meu primo era outro Skar e ter rido alto da coincidência de ser o mesmo!
Eu respirei aliviada e me levantei. Estava com a mão na maçaneta, quando me toquei de uma coisa.
Não era possível que Reid só tivesse descoberto hoje. Ele tinha visto várias e várias vezes as minhas fotos com Skar. E nós fomos ao mesmo jantar três meses atrás. Eles podiam não ter conversado, mas foram apresentados. Ele viu seu rosto. Ele o reconheceu. Ele sabia quem Skar era.
Não. Não. Eu só estava com uma má impressão daquilo, pensei, me voltando para a sala e começando a andar para gastar energia. Era só uma má impressão. Era pela surpresa, o fato de que não esperava aquilo. Era só isso. Minha cabeça estava fazendo conexões erradas, suposições terríveis e descabidas. E eu não podia deixar aquilo acontecer!
Me forcei a respirar fundo. Não tinha nada de errado. Ainda teria uma explicação. E eu só precisava ir perguntar para Reid! Não daria a louca, não seria ciumenta nem paranoica. Pelo amor de deus, era Reid! Era dele que eu estava falando, não de um cara qualquer! Nós estávamos para nos casar! Não tinha nem porque eu o ficar interrogando!
Mas uma única pergunta e meu coração voltaria a bater calmo. Uma pergunta e eu poderia rir de mim mesma e acabar a conversa com um beijo dele. Uma pergunta e tudo ficaria bem.

Desde o almoço, os corredores tinham ficado estranhamente vazios. Mas não foi difícil de encontrar um guarda e pedir para que procurasse Reid e falasse que eu estaria em seu quarto, esperando por ele.
Praticamente corri até lá. Não estava pensando muito, mas talvez a velocidade fosse meu jeito de descarregar. Eu era pessimista demais. Nada tinha acontecido e já estava entrando em pânico! Sabia que Reid teria uma explicação completamente normal. E que eu riria no final do quanto tinha me preocupado.
Mas ainda não estava rindo. Cheguei no quarto dele e praticamente bati a porta.
Eu definitivamente não estava rindo.
Era Skar também. A culpa era dele. Se Reid não tivesse me contado que conhecia qualquer um dos meus outros primos, eu nem me importaria. Mas parecia que aonde Skar ia, ele levava problema com ele. E só podia ser por isso que minha mente estava trabalhando sozinha, criando suposições que eu insistia em ignorar.
Não era Reid. O problema não era ele. Era a presença de Skar. E eu precisava me acalmar antes que ele chegasse e achasse que sua noiva tinha enlouquecido de vez!
Fui até sua cama, que tinha uma vista direta para sua escrivaninha. Um segundo sentada e logo eu estava de pé, indo na sua direção.
Reid era extremamente organizado. Tinha uma gaveta onde guardava minhas cartas e o meu pequeno conto que tinha nos feito conhecer. Devia ser historicamente a coisa mais tonta que alguém já tinha escrito no mundo. Mas eu o tinha derrubado pela faculdade. E o feito correr atrás de mim para me devolver.
Me lembrava bem do momento em que ele tinha me entregado o bloco de folhas. Nossos olhares se cruzando, o resto do mundo parando pelos poucos segundos em que nossas mãos se encontraram.
Aquilo era loucura. Eu estava louca. Não importava como Reid conhecia todas as outras pessoas do Reino Unido e o que ele pensava delas. Só importava o que ele pensava de mim, como ele se sentia em relação a mim. E eu sabia bem como. Não devia nem estar ali.
Mas já estava. E ele não sabia o que tinha me levado a chamá-lo. Poderia aproveitar os poucos minutos que teria com ele.
Suspirei, olhando para a gaveta. Pensei em pegar a história, reler, a usar para me acalmar antes que ele chegasse. Mas meus dedos foram atrás de outro papel.
Um pequeno e amassado, rabiscado meses atrás, quando ele me disse que talvez tivesse que se mudar de cidade. E eu escrevi uma única palavra para tentar dizer tudo que eu sentia: fique.
Eu já não sabia mais viver sem ele. Não sabia respirar sem pensar nele. Não saberia olhar para outra pessoa sem a certeza de que ele estava comigo e que eu estava com ele. Reid era parte da minha vida. E não tinha porque eu questionar aquilo.
Levei a mão para a gaveta outra vez, tirando todas as cartas de dentro. Tudo que ficou foram seus documentos, passaporte, identidade. Ia deixá-los lá, mas me deu vontade de ver sua foto. Então enfiei a mão de novo na gaveta e tentei alcançar o passaporte bem no fundo.
Aquilo era estranho. Meus dedos pareciam ter balançado a gaveta, mas ela não tinha mexido do lado de fora.
Eu a fechei, depois abri de novo. E tentei empurrar seu fundo outra vez.
E ele balançou de leve de novo. Empurrei com mais força.
Era um fundo falso!
Não. Não, por que Reid teria uma gaveta com fundo falso? E no castelo?
Não, era tudo que eu conseguia pensar, mas meus dedos mexiam sozinhos, tirando todo o resto de dentro da gaveta e forçando o máximo possível para conseguir tirar aquele fundo fino de madeira para revelar o verdadeiro. Precisei da ajuda de uma caneta, mas não desisti até que ele estivesse no chão.
Respirei fundo assim que vi o que ele escondia. Era só uma pasta com alguns papéis dentro. Por um lado, eu já estava me chamando de idiota, já estava me xingando na minha cabeça, dizendo que eu era louca e que não deveria estar duvidando de Reid assim. Eram só papéis! E pareciam facilmente ser algo da nossa faculdade!
Mas meu coração discordava. Ele batia grave e pesado, como se contasse os segundos até que eu abrisse a pasta e visse o que cada um daqueles papéis falava.
Eu a tirei da gaveta e coloquei na minha frente. Respirei fundo. Os primeiros papéis eram basicamente os votos que Reid teria que fazer quando virasse rei. Eu mesma tinha lhe entregado aquilo. Era para ele ler e ter certeza de que era o que queria.
Mas por que ele esconderia aquilo? Será que ele estava tendo dúvidas?
Tirei os papéis dos votos de cima do resto da pilha. O próximo estava explicando minha árvore genealógica. Outro que eu tinha lhe entregado.
Mas, depois desse, vinha uma explicação da legislação sobre a coroação e a linha do trono. A primeira lei indicava que os regentes não teriam nunca controle absolutista sobre o reino. E a segunda dizia que uma mulher nunca poderia reinar sem um rei.
Folheei as páginas das leis, que eram muitas, até encontrar uma parte sublinhada.
"Uma vez firmado matrimônio com a herdeira do trono por sangue, o cidadão comum adquire título de soberano do reino. Em hipótese de posterior falecimento da rainha sem o advento de herdeiros legítimos, é imperioso que o soberano, de modo a cumprir os votos do cargo, firme novo matrimônio de forma a garantir o futuro do trono."
Senti como se tivesse levado um tapa. Ou algo mais forte, mais pesado, mais intenso, que me empurrasse para trás, mantivesse minha cabeça embaixo d'água, tirasse qualquer possibilidade ou habilidade que eu tivesse de conseguir respirar.
Ou sentir qualquer coisa.
Não sei quanto tempo passei olhando para aquela frase e as linhas duplas que Reid tinha passado embaixo de cada palavra, mas em algum momento, eu me levantei. Deixei os papéis em cima da mesa e lhes dei as costas.
Eu não conseguia pensar em nada. Não conseguia sentir nada. Não conseguia formar uma frase, encontrar a lógica. Era como se tudo que conhecia estivesse bloqueado na minha cabeça e eu já não tivesse acesso suficiente para conseguir pensar.
Me virei de volta para a mesa. E me sentei outra vez.
Meus dedos seguraram o bloco de papéis, passando para as próximas páginas, vendo que ele tinha sublinhado também partes em que explicavam o que uma pessoa precisava ter ou não ter para se casar com um membro da realeza. E depois vários papéis nos quais se explicava a história de morte de cada um dos reis que já haviam vivido no Reino Unido.
Me levantei e joguei todos eles no outro lado do quarto.
Curiosidade, repeti para mim mesma. Reid só queria entender como o reino funciona-
ARGH! Não, eu não conseguiria mentir! Não conseguiria mais fingir! Não dava, as peças estavam bem à minha frente. Eu as odiava! Queria pisar em cima delas, bagunçá-las a ponto de nem conseguir reconhecê-las, queimá-las se fosse possível.
Mas elas estavam claras demais.
Levei minhas duas mãos ao rosto, esfregando-o freneticamente, o mais forte que podia, várias e várias vezes, dos olhos para minha testa, até me forçar a segurar a respiração.
E então me virei para a mesa. Todas as cartas que eu já tinha escrito para ele, todas as vezes em que eu tinha guardado aquele sentimento dentro de mim, o deixado se tornar parte de mim, todas as frases que eu tinha reservado só para ele, me olhando, me debochando, rindo do quanto eu era ingênua.
Não consegui olhar para elas mais nem um segundo. Passei as mãos pela mesa, jogando tudo no chão, para o lado, contra a parede, para longe de mim. Mas não era o suficiente. Eu bufava de raiva, mais ainda não era o suficiente! Não consegui me contentar até que a mesa também estivesse virada e eu tivesse jogado a cadeira em cima de tudo.
E ela quebrou. A cadeira quebrou, e o som que fez pareceu ter rompido algo dentro da minha cabeça.
Cambaleei para trás, olhando para o que eu tinha acabado de fazer. De onde eu tinha tirado tanta raiva? Quando eu tinha virado aquela pessoa?
Quando eu descobri que meu noivo pesquisava jeitos de me tirar do seu caminho.
Assim que as palavras inundaram minha cabeça, eu me virei de costas, enterrando a cara na parede que estava a poucos centímetros de mim.
Quando me dei conta, tinha agachado ali mesmo, meu cabelo formando um ninho bagunçado. Mas eu não me importava. Me empurrava contra a parede com toda a força que tinha, como se aquilo tivesse alguma chance de parar os mil pensamentos que corriam dentro da minha cabeça.
Ele queria me tirar de seu caminho. Ele queria o trono? Era isso? Ele queria o trono só para ele? Ele queria me usar para tomar o trono e depois se desfazer de mim?
Não. Balancei a cabeça, tentando negar o que eu tinha pensado. Mas não adiantava mais. Mesmo que me forçasse a tentar distorcer tudo, eu já tinha entendido. No fundo do coração, eu já tinha entendido exatamente o que estava acontecendo.
Bati mais minha cabeça na parede. Eva, Eva, Eva, repeti a cada vez. Era isso então? Ele queria se casar com Eva? Ele precisava falar com ela. O que ele precisava falar com ela? Que ele já tinha tudo planejado? Que ia se casar comigo só por tempo o suficiente para ele virar rei? Só a tempo de se colocar no trono e garantir seu lugar lá?
Não. Não! Quem faria esse tipo de coisa? Era loucura demais! Era mesquinho demais! Não! Eu não conseguia imaginar ninguém fazendo isso, menos ainda Reid! Eu conhecia Reid! Meu deus do céu, eu conhecia Reid! Eu sabia quem ele era! Eu tinha me apaixonado por ele!
Eu girei, me sentando no chão. Os papéis dele não estavam tão perto de mim, mas assim que abri os olhos, percebi que um deles era escrito à mão. Corri para lá, mesmo sem ter me levantado, e enxuguei qualquer lágrima que podia ter aparecido nas mangas do meu casaco.
Tive que piscar várias vezes depois que peguei o papel para conseguir enxergá-lo.
Era uma carta dela, como se me faltasse mais alguma peça para encaixar em tudo aquilo. Só de ver seu nome assinado no final da página, tive que parar para amassá-la e bater minha cabeça mais algumas vezes no meu joelho.
Eva dizia que ele estava louco. Mas que ela gostava dele assim. Repetiu várias vezes que o esperaria, que sabia que o que ele sentia por ela era verdadeiro e que o que ele tinha comigo era puramente negócios.
Negócios. Meu casamento, todas as cartas que eu tinha mandado para ele, a promessa que eu estava planejando fazer na frente de todos os súditos do meu reino. Era tudo negócios para ele.
Lembrei na hora das palavras de meu pai. Ele acreditava que Reid queria muito se tornar rei. Até ele tinha percebido isso. Até ele podia ver que era isso que Reid queria.
Será que ele também sabia que ele não estava sendo verdadeiro comigo? Era por isso que ele quis me perguntar sobre Reid? Será que todos os outros sabiam? Que Skar sabia?
Argh. Skar sabia! Ele tinha que saber! E pensar que ele devia estar rindo de mim agora! Rindo de como eu era ingênua e fácil de se conquistar! Rindo de como eu era completamente dispensável.
Ouvi vozes se aproximando no corredor e me levantei, virando na direção da varanda. Não adiantava muito tentar me recompor, o resto do quarto parecia ter passado por uma batalha e eu precisava me segurar à parede para conseguir me equilibrar.
Assim que a porta se abriu, senti vontade de chorar. Minha garganta estava entalada, mal deixando ar passar. Mas as lágrimas só pioravam. Era como se tirassem toda a força que eu tinha e nem me deixassem pensar direito.
"Lola," a voz de Reid estava grave, seu tom respondendo sozinho já várias perguntas que eu tinha para ele.
Ele já devia ter entendido tudo, só pelo estado do que antes costumava ser o esconderijo dos seus planos.
Respirei fundo antes de me virar para ele, que me olhava sério. Mas não parecia pronto para se defender.
Pelo contrário, ele estava calmo. Como se tivesse aceitado seu fim.
Olhei para a carta na minha mão. "Eva?" Falei, seu nome fazendo meus lábios entortarem e meu nariz torcer. Eu nunca tinha desejado tanto na minha vida que alguém não existisse! Nunca tinha tido tanta raiva de alguém, uma raiva que parecia maior que eu, mesmo que enrijecesse e contraísse todos os músculos do meu corpo.
Ele não respondeu, só respirou fundo, fechando a porta atrás dele e fugindo do meu olhar por alguns segundos.
Ou então eu que fugia do dele, pois logo me virei de volta para a varanda.
O jardim parecia tão calmo. Ainda tinha gente trabalhando em fazê-lo apropriado para uma noite de inverno. Ainda tinha gente trabalhando no nosso casamento.
Me virei de volta para Reid, que tinha as mãos nos bolsos e a cabeça só levemente inclinada, esperando que eu continuasse com o que quer que fosse que tinha planejado para ele.
Talvez fossem os caras trabalhando no frio, ou as pessoas que estavam no portão, esperando para ver uma mínima parte do que devia ser um grande evento. Ou talvez fosse seu jeito superior e prepotente que me atingiu fundo.
Fechei minhas mãos em punhos, amassando ainda mais aquela droga de carta dele. E levantei o queixo, segurando minha respiração para não deixar que a palpitação de raiva que eu sentia nas minhas bochechas se transformassem em choro.
"Qual o plano?" Perguntei, tentando ao máximo não deixar que minhas próprias palavras me afetassem. "Se casar comigo, forçar meu pai a deixar o trono e depois me matar?" Minha voz quase fraquejou, mas o jeito que Reid olhou para baixo me deu ainda mais raiva. Dei um passo à frente. "Para depois trazer Eva para o trono?" Eu ri, completamente sem humor, parecendo quase desvairada. "Eva Seymour, rainha do Reino Unido." Balancei a cabeça para mim mesma várias vezes, pensando mais em quanto eu mesma não queria ouvir naquilo. "Isso existe mesmo?" Ele ainda olhava para o chão, o que me fez querer chegar mais perto dele e jogar a carta na sua cara. "EXISTE, REID? Existe mesmo o tipo de pessoa que faria isso? Que realmente planejaria se casar com alguém só para depois colocar outra qualquer em seu lugar?!"
Ele levantou o rosto para mim e apontou para o chão, dando um passo à frente. Tudo para acompanhar uma declaração que nunca veio.
Quando desistiu de falar, ele respirou fundo, me olhando como se não valesse a pena.
"Era esse o plano, não é?" Perguntei, sentindo os contornos dos meus olhos começarem a lacrimejar de novo. Tentei respirar, olhar para cima, lutar contra aquelas lágrimas. Mas quanto mais eu tentava evitá-las, mais fortes elas pareciam ficar. "Hein, Reid?" Perguntei, minha voz quase não saindo. "Era esse o plano."
"Sim," foi tudo que ele falou, mas eu senti aquela única palavra como um tiro.
Abracei minha barriga, me inclinando para frente. Não conseguia ficar de pé, não conseguia mais levantar o queixo. Sentia o chão fugindo dos meus pés, meu corpo se desprendendo de todo o resto do mundo. Cambaleei até estar apoiada na cama.
"Por quê?" Perguntei, as palavras pairando sozinhas no ar por alguns segundos. "POR QUÊ?" Gritei, até minha voz raspar na garganta e eu quase engasgar. "Por que eu?" Completei, com um sussurro que achei que nem Reid teria ouvido.
Mas ele ouviu. E respirou fundo, parecendo irritado. "Porque você não merece."
Levantei o rosto para tentar olhá-lo.
"Você não merece ser rainha desse país. Você não merece ser adorada quando pessoas como Eva não têm a menor chance!"
Pisquei várias vezes, tentando fazer meu cérebro funcionar. De todas as informações que eu tinha recebido naquele dia, de todas as coisas que já tinham bagunçado minha cabeça, aquela era a que menos fazia sentido.
Mas Reid não parecia precisar que eu perguntasse para ele se explicar. Abriu os braços no ar, parecendo guardar dentro dele tanta raiva contra mim quanto eu tinha dele.
"Olha em volta, Lola!" Ele praticamente gritou. "O que é que você faz? Além de gastar e reclamar cons-tan-te-men-te de absolutamente todas as pessoas que cruzam seu caminho?"
Eu balancei minha cabeça, mas não conseguia pensar em uma só palavra para começar a me defender. Só descontava na minha barriga tudo que eu não conseguia falar, a apertando sem parar.
"Ninguém suporta você, Lola. Ninguém. Eu não suporto você," ele rangeu os dentes, e me olhou como se tivesse guardado aquilo com todas as forças que tinha até então, até não aguentar mais. "Você tem ideia do quanto é fútil? Do quanto é arrogante? E incompetente? O Reino Unido todo vai ficar tão feliz quando você morrer e eles puderem ter outra pessoa no trono!"
"Não é verdade," falei tão baixo, que só eu mesma devo ter ouvido.
"Ninguém gosta de você."
"Não é verdade."
"É verdade," ele bufou uma risada. "Olha em volta. Quem você tem? Seu pai faz tudo para passar o dia inteiro o mais longe possível de você. Sua única amiga não sabe nem seu nome do meio! Nem Clarissa, que você acha que te admira tanto, gosta de você. Ela só te suporta porque é o trabalho dela." Na hora em que ele falou isso, eu me levantei para empurrá-lo. Mas ele ainda tinha uma última coisa para tentar acabar comigo. "Até sua mãe preferia Skar a você."
Parei aonde estava. Não cheguei nem um centímetro mais perto, nem mesmo para empurrá-lo. Ainda tinha vontade, ainda tinha a raiva que me fazia fechar os punhos e querer loucamente ir para cima dele.
Mas respirei fundo. E o mirei.
Chega, pensei.
Chega.
"Eu posso ser insuportável," comecei, juntando todas as forças que conseguia, "mas você não é nada. Nada, absolutamente nada. Tudo que você podia ter antes era por minha causa. E agora você não tem nada." Passei por ele e abri a porta. "Guardas," gritei, minha voz quase falhando. Engoli várias vezes o choro que ameaçava voltar antes de olhar de novo para Reid. "Na verdade, você tem uma coisa sim. Você tem uma cela, aonde passará o resto dos seus dias, pensando em como o Reino Unido tem sorte de ter se safado de ser reinado por você." Os guardas apareceram na porta, calmos a princípio, mas ficando sérios ao verem o estado do quarto. "Eu, Lola Farrow, acuso esse homem, Reid Willard, de tentativa de golpe de estado e assassinato a um membro da realeza. Prendam-no."

Nunca soube como era ser outra pessoa. Nunca tive a chance de estar na pele de outra pessoa, de entrar na cabeça dela. Não sabia como era acordar de manhã e não pensar em todo o país estar te esperando. Nem como seria ir dormir sem que vários guardas e criadas tenham se certificado de que eu estava bem, estava respirando, estava segura. Não saberia dizer como seria ser só eu.
Enquanto a vasta maioria das garotas da minha idade deviam parar e imaginar como seria se elas fossem da realeza, eu mesma gostava de considerar o contrário. Como seria poder simplesmente fazer o que quisesse sem ter que garantir que ninguém me atacaria? Como seria poder ir e vir, comer, cantar, dançar, sem que registrassem cada passo meu? Como seria poder encontrar uma pessoa na rua que não soubesse meu nome, aonde moro, o quanto odeio chá? Como seria ter uma ficha em branco quando eu conhecesse alguém, para poder sujá-la e amassá-la com hábitos e manias que a pessoa fosse descobrindo devagar? Como seria ser só uma pessoa?
Na maioria das vezes, eu gostava de fingir ser uma garota normal em meu próprio quarto. Imaginar como seria só me preocupar com o futuro de personagens em livros e séries, com o lugar para onde eu e minhas amigas sairíamos no final de semana. Mas agora queria saber outra coisa.
Queria saber como seria ser só eu mesma, como seria não ter amarradas às minhas costas milhares de coisas que poderiam ser usadas contra mim. Como seria ser alguém sem valor, sem título, sem nada que lhe pudessem roubar. Alguém que pudesse dar o salto que era se apaixonar e se dar ao luxo de se entregar completamente pois saberia que o máximo que perderia seria seu coração. Queria poder me sentir como alguém normal por pelo menos alguns minutos. Alguém que só tivesse o que carregasse dentro de si, as lembranças e os traços de personalidade que tivesse cultivado. Alguém que só pudesse perder a si mesmo.
Mas eu não podia. Eu não era normal, não era qualquer uma. Eu tinha mais do que coisas que poderiam usar contra mim, coisas que poderiam arrancar de mim. Tinha coisas mais importantes do que minha própria vida, tinha poderes e alcances que faziam cada segundo que eu respirava estar constantemente ameaçado. Um único título, uma única palavra colocada antes do meu nome, que fazia os outros se esquecerem de que eu era uma pessoa de verdade e só me verem como um jeito de conseguir o que queriam. Eu nunca estaria sozinha. Eu nunca seria só uma garota. Nunca poderia ter a chance de saber como seria inspirar e ter a plena certeza de que eu importava pelo que tinha dentro de mim e não pela coroa.
De todas as vezes em que tinha fingido ser outra pessoa, me escondido quando era pequena, tentado passar despercebida quando era adolescente, nunca tinha desejado tanto ser invisível como agora. Nunca tinha apertado tanto os olhos e abraçado meus joelhos e rezado de verdade para que eu acordasse no dia seguinte como ninguém. Irrelevante, comum. Eu queria muito, desesperadamente não importar. Queria que esquecessem meu nome, esquecessem quem eu era. Queria poder me misturar na multidão. Faria qualquer coisa para poder ser insignificante.
Mas não existia força suficiente para juntar e mudar a realidade. E todas as vezes que abria os olhos, eu continuava aonde estava. Ainda estava encolhida no canto da varanda do meu quarto. Ainda era a véspera do meu casamento. Ainda sentia o frio subir das solas descalças dos meus pés até as pontas dos meus dedos. Ainda abraçava meus joelhos e enterrava minha cara nos meus braços e voltava a fechar os olhos, pedindo que da próxima vez que os abrisse, eu fosse outra pessoa. E que nada daquilo tivesse acontecido comigo.
Tinha meu casaco comigo, mas ele não era nem perto de ser quente o suficiente para aguentar o tempo que eu passei ali. O sol parecia começar a se pôr, o que devia significar que já eram quase quatro horas. Mas eu não saía do lugar. Não queria sair. Podia morrer de frio, mas continuaria ali. Porque, talvez, se eu ficasse bem imóvel e quieta, talvez se esquecessem de mim. Talvez continuassem a viver sem mim.
Mas meu plano de não me mexer foi por água abaixo quando senti apoiarem uma mão no meu ombro. No susto, pulei para o lado, me afastando do que eu podia jurar que seria Reid.
Mas meus olhos encontraram os de Clarissa, que parecia ainda mais incomodada de ter me assustado do que eu estava.
Ela não disse nada, pegou um casaco que estava na sua mão e o colocou nos meus ombros, mesmo eu não tendo falado nada, mesmo eu tendo me afastado dela.
E aquele mínimo ato de consideração me fez voltar a chorar mais forte. Antes, era como se eu simplesmente não conseguisse parar, mas também não tivesse forças para chorar de verdade. Mas Clare tinha me feito voltar a soluçar.
Ela até se esticou para sair dali e me deixar sozinha, mas não continuou quando viu que eu mal conseguia respirar. Puxei o casaco com as mãos, tentando fazê-lo me cobrir inteira. Eu queria o frio! Queria que congelasse! Queria sentir qualquer coisa que queimasse minha mão e meus pés e que não tinha sido causado por Reid!
Mas meu corpo queria o casaco, queria sair dali. E assim que Clare se colocou na minha frente e tentou me levantar, eu não a contrariei.
Minha cama estava incrivelmente aconchegante e quente, mas aquilo era péssimo! Quando eu não estava tremendo de frio e inventando dores diferentes, só me sobrava pensar em uma coisa.
Assim que me sentei, vi que Clare tinha me trazido café e coisas para comer. Ela só se contentou quando eu estava coberta e com a bandeja na minha frente, me ajeitando como mãe. E então ela deu um passo atrás, se afastando de mim.
"Gostaria que eu lhe deixasse, Alteza?" Ela perguntou, abaixando a cabeça e olhando para o chão.
Me lembrei do que Reid tinha falado. Clarissa era de longe uma das melhores pessoas que eu já tinha conhecido na vida. Ela era gentil, humilde e sempre se achava dispensável. Mesmo quando ela me resgatava do frio e me acolhia sem que eu tivesse pedido, sem ter que me questionar, ainda achava que estaria melhor sem ela. Ela ainda não via o quanto fazia.
Tirei a bandeja de cima de mim e me estiquei para pegá-la pela mão e puxá-la para se sentar também na cama.
"Gostaria que ficasse," falei, segurando ainda sua mão e a mirando. Depois meus olhos foram até a porta.
Tinha muita coisa que eu queria perguntar. Queria saber aonde meu pai estava, o que ele estava pensando, o que tinham feito com Reid. Alguém mais sabia do que tinha acontecido? Eu teria que contar? Teria que repetir aquilo que eu mesma ainda custava acreditar? E Liev? Ela ainda corria atrás de tentar fazer aquele casamento ser perfeito?
Mas eu não sabia nem por onde começar! E minha boca não formava as palavras. Cada tentativa se transformava em mais lágrimas que eu tinha que enxugar na minha coberta.
"Ele foi preso," Clarissa respondeu, provavelmente percebendo que eu não conseguiria falar. Nossos olhos se encontraram e ela me deu um sorriso, que era bastante triste em si. "Vão investigar e mantê-lo preso enquanto isso." Ela continuou e eu concordei com a cabeça, apesar de agora mirar nossas mãos. "Seu pai disse que não tem pressa, mas que quer saber o que você quer fazer. Posso chamá-lo, se preferir, Alteza."
"Não," soltei sem pensar. "Não o chame e não me chame de Alteza," levantei o rosto para olhá-la. Clarissa tinha só dezesseis anos, mas me olhava como se fosse minha mãe e sentisse quase uma obrigação de cuidar de mim.
Soltei da mão dela assim que me lembrei de novo do que Reid tinha dito. Ela tinha mesmo a obrigação de estar ali, de cuidar de mim. Era literalmente a descrição de seu emprego.
Me virei para a bandeja, despejando um pouco de café na xícara e o adoçando. Mas não tomei, entreguei para Clarissa.
Ela olhou de mim para o café, sem entender o que estava acontecendo. Mas eu insisti e ela acabou o pegando de mim.
"Posso te perguntar uma coisa?" Arrisquei, enquanto ela ainda olhava a xícara sem saber se devia beber ou não.
"Claro, Al-" ela mesma se cortou. "Claro."
Eu respirei fundo, engoli a seco. Não queria chorar de novo, as lágrimas finalmente estavam começando a parar, mesmo que minhas bochechas ainda estivessem molhadas.
Mas talvez estivesse prestes a ouvir Clarissa confirmar tudo aquilo que Reid aparentemente via em mim. Tudo aquilo que eu esperava de qualquer pessoa, menos dele.
"Se você pudesse fazer qualquer coisa," eu disse, "o que faria?"
Clarissa me mirou, parecendo não precisar pensar muito. "Faria com que você nunca tivesse que chorar de novo."
Ironicamente, aquilo só me fez chorar mais. Como ela podia ser assim? Depois de tudo de cruel e inimaginável que tinha recebido de Reid, eu estava sensível demais para qualquer demonstração de bondade. Era quase doloroso poder ver que ainda tinha alguém no mundo com o coração como o dela.
Cheguei mais perto dela, buscando sua mão para segurá-la entre as minhas.
"Eu quero que você seja mais," disse. Ela franziu as sobrancelhas e eu continuei. "Quero que faça o que escolher. Não precisa ser mais minha criada."
"A senhorita não quer que eu seja mais sua criada?" Seu tom ofendido me apertou o coração e eu tive de chegar ainda mais perto dela, quase fazendo ela derrubar o café.
"Eu quero que você possa escolher," expliquei. "Quero que possa ser juíza se quiser, primeira ministra. E eu vou te ajudar de todas as maneiras possíveis. Não quero que se sinta presa a ser minha criada para sempre."
Ela desviou o olhar do meu, franzido a testa e parecendo procurar respostas para tudo aquilo pelo meu quarto. "Mas eu não me sinto presa."
"Não?"
"Não," ela voltou a me olhar. "Eu gosto de ser sua criada," completou, sorrindo, mas com suas sobrancelhas ainda tortas de apreensão.
"Mas se você pudesse fazer qualquer coisa, é isso que faria?"
Ela deu com um ombro só, timidamente. "Acho que se pudesse ser absolutamente qualquer coisa, gostaria de poder cozinhar."
Senti uma mínima pontada de decepção, só por me confirmar que ela não queria mesmo ficar ali para sempre.
"Gostaria então de estudar para virar chef?" Perguntei, esperando ver em seus olhos aquele brilho de quem sonhava, que ela já tinha usado para mim.
E ele apareceu, acompanhado de um sorriso. "Não sei se para virar chef, chef, mas gostaria de poder cozinhar, sim." Ela suspirou, depois seus olhos encontraram os meus, uma urgência clara neles. "Mas eu teria que deixá-la?"
"Como assim?"
"Se for para eu estudar para ser cozinheira, teria que deixar a senhorita?"
Foi minha vez de sorrir triste para ela. "Me chame de você, Clare. Me chame do que quiser, mas não me chame de Alteza. E nem senhorita."
Ela concordou com a cabeça, obediente. Depois a balançou. "Não quero deixar você," falou. "Não quero ter que sair do castelo."
"Você gosta daqui?" Perguntei e ela assentiu.
"Gosto de estar perto de você," disse, um pouco encabulada. Estava bem mais focada em olhar para o café do que para mim. "Você é a melhor pessoa que eu conheço, princesa."
"Lola," falei rápido. "E como eu posso ser a melhor pessoa que você, logo você, conhece?"
Dessa vez, seus olhos encontraram os meus. "Você é boa. De verdade, em seu coração. Eu posso ver. Mas sabe se impor. Eu queria tanto ser como você!"
Ela devia estar em uma missão de me fazer chorar, pois meus olhos lacrimejaram a ponto de eu não conseguir enxergá-la. Balancei a cabeça, discordando, mas ela apertou minha mão e continuou.
"É verdade," disse. "Você é forte e decidida, mas não lhe falta bondade. E é verdadeira. Eu realmente te admiro muito, Lola," quando falou meu nome, parecia ter medo de estar errada.
Mas eu tirei a xícara dela e deixei na bandeja para abrir um caminho livre até eu a abraçá-la.
"Eu admiro você," falei em seu cabelo, a apertando tanto que achei que reclamaria. "Eu queria ser mais como você."
Ela me empurrou para olhar nos olhos. "Mas por quê?" Perguntou. "Você é bem mais do que o suficiente."
Engasguei uma risada de deboche. "O suficiente para alguém casar, dispensar e trocar por outra."
Ela me olhou séria, parecendo ser a primeira vez que ouvia aquilo. Talvez não estivesse tão claro assim para as outras pessoas do castelo.
"Esquece," falei, mas ela balançou a cabeça.
"Não. Você não pode deixar que alguém como ele te faça duvidar do seu valor, Lola," dessa vez, ela falou meu nome sem hesitar por um segundo. "Você é boa demais para se importar com o que ele diga de você."
Eu dei de ombros, desanimada. "Eu o amo, Clare. Ou amava, não sei. Mas eu acreditava que ele me amava. Eu podia jurar..."
Ela se aproximou de mim, buscando minhas mãos com as dela. "Existem pessoas pequenas no mundo, que não conseguem ver gente como você, que é forte e incrível, sem tentar roubar isso. Tudo que ele viu em você, tudo que pode ter dito que você é, são defeitos dele, coisas que ele projetou em você. Não estava mesmo falando de você, pois nem tinha a capacidade de lhe enxergar de verdade. Ele só estava tentando compensar pelo buraco que tem dentro dele. E você conseguiu descobrir antes que fosse tarde demais."
"Foi tão fácil," falei, quase a interrompendo. "Tão fácil ele me enganar, me fazer acreditar que eu era mesmo a pessoa mais importante no mundo para ele."
"Mas isso não é defeito seu!" Ela me defendeu. "Pelo contrário, só mostra a pureza do seu coração, de como você estava aberta a amar alguém. Tem coisa mais bonita do que isso?"
Dei de ombros, os soltando com todo o desânimo do mundo. Aquilo ainda não valia nada para mim, mas é até um pouco reconfortante saber que valia tanto para ela.
"Mas e agora?” Perguntei, olhando rapidamente à nossa volta. “E agora, o que eu faço? O que eu falo? O que eu falo para todos aqueles que acreditaram junto comigo?"
"Agora, nada," ela disse, para minha surpresa. "Agora, você só respira."

Fazia muito tempo que eu não via o sol nascer, mas naquela manhã, quando ele começou a despontar atrás das árvores do parque St. James, eu e Clarissa já o esperávamos. Tínhamos passado a noite toda dentro do meu quarto conversando, chorando, trocando sonhos e decepções. E estávamos para dormir jogadas na minha cama, quando ela percebeu que estava quase na hora de ele nascer. Nós praticamente fizemos um forte na minha varanda, várias cobertas, chá e café, tocas e luvas, tudo que podíamos carregar. Só para não perdemos um segundo daquele acontecimento que, para mim, era histórico.
Era estranho pensar que aquele dia já tinha significado completamente o oposto para mim. Pensar que eu já o tinha esperado, contado os segundos para que chegasse, que até mesmo no dia anterior eu tinha marcado na minha cabeça quanto tempo faltava para chegar o momento do meu casamento. Parecia ser algo tão incrível e inalcançável, que só viveria em meus sonhos. E agora ali, enquanto eu abraçava minha caneca de café e assistia o sol mudar quase nada no céu de inverno, sabia que aquele dia era que tinha me esperado chegar até ele.
Eu não conseguiria explicar, mas era como se sentisse mesmo o dia amanhecendo. Mesmo que me escondesse embaixo de cobertas, podia senti-lo na minha pele, nas palmas das minhas mãos, acordando todos os meus sentidos. Sabia que o parque, o céu e tudo que eu via estava praticamente do mesmo jeito que tinha estado durante a noite toda em que nós tínhamos passado no meu quarto. A única diferença era que o sol tinha nascido.
Mas, para mim, tudo estava acordando diferente. Parecia que uma enchente tinha passado enquanto estava escuro e limpado tudo de ruim para longe de mim. De onde eu estava, o mundo parecia incrivelmente claro. E eu respirava devagar, precisando de pouco oxigênio para assistir aquele espetáculo tão grande e simples.
Ainda tinha milhares de coisas que eu precisava entender. Mesmo depois de horas de conversa, de litros de lágrimas, parecia que não tinha chegado nem um pouco perto de conseguir entender o que tinha acontecido, por que tinha acontecido, ou por que comigo. Era até estranho como eu podia saber de algo e mesmo assim não o compreender, quase duvidar da minha própria certeza de que aquilo era mesmo real.
Mas eu estava bem. Poderia voltar a chorar e soluçar a qualquer segundo, mas naquele momento eu estava bem. Naquele momento, a brisa gelada e o calor tímido em todos os lugares que o sol conseguia alcançar eram o suficiente para mim. Naquele momento, eu só precisava respirar.
Mais tarde, quando descia as escadas em direção às portas principais, resolvi pensar em tudo que eu tinha de bom. Vários exemplos estavam bem à minha volta. Como os guardas que dedicavam suas vidas para garantir a segurança da minha. As criadas que acordavam às cinco da manhã todos os dias para se certificarem de que cada cômodo daquele imenso palácio estava em perfeito estado. Os cozinheiros que nunca negaram um só desejo meu, mesmo que fosse por puro capricho.
E Liev, pensei, assim que a avistei no pé da escada. Ela tinha se desdobrado para conseguir fazer aquele evento ser tudo que eu queria que fosse e ainda mais para cancelar tudo depois. E Stan, que me olhava com toda a compaixão do mundo, só esperando para abrir as portas para mim.
E até Kyle, que me fez questão de dizer que eu era mesmo boa demais para Reid.
Até mesmo as pessoas que ainda estavam do outro lado do portão ou em suas casas, com a televisão ligada, esperando que eu aparecesse no pódio e explicasse o que tinha tentado me derrubar. E como não tinham conseguido. Aquilo era realmente algo do qual eu não podia me esquecer. As milhares de pessoas que torciam por mim, que talvez fossem me olhar diferente depois daquele dia, mas que nunca parariam de me apoiar.
E, é claro, meu pai, que tinha feito praticamente de tudo para conseguir que Reid permanecesse preso. E, mesmo sem ele conseguir encontrar provas o suficiente que conseguissem condená-lo sem uma confissão, eu ainda guardaria aquele seu esforço em meu coração. Porque, se tinha uma coisa que eu tinha aprendido naquela noite, era que coisas ruins aconteciam. Tragédias aconteciam, pequenas ou graves. O quanto ficávamos indignados, o quanto lutávamos contra elas era o que de fato importava. Porque elas estavam fora do nosso controle, mas nossa reação não. E eu precisava me lembrar de dizer ao meu pai que ele podia se esquecer de Reid, parar de tentar procurar uma explicação ou um sentido. Aquela batalha era minha. E que só de ele estar do meu lado já era o suficiente.
Cheguei ao final da escada e olhei à minha direita, na direção de Clarissa, que tinha vindo logo atrás de mim. Ela me fez um aceno com a cabeça, como se me incentivasse a continuar.
Do que eu mais precisava me lembrar era dela. Era por causa dela que eu ainda estava ali, de pé. Era por ela que eu ainda conseguia pensar no lado bom de tudo aquilo.
O lado ruim ainda vivia dentro de mim. E eu tinha a impressão de que estava prestes a embarcar em uma montanha-russa de confusões e decepções enquanto tivesse que relembrar o quanto Reid tinha significado para mim e o quão profundamente ele tinha me traído. Toda a tristeza do mundo, toda a sensação de que eu tinha sido roubada daquilo que tinha escolhido para o resto da minha vida ainda vivia dentro de mim. Eu conhecia muito bem o lado ruim de tudo aquilo. Sabia muito bem qual era a tragédia.
Mas, por pior que fosse, por mais horrível que tudo tivesse sido, tinha tido a chance de descobrir aqueles que realmente se importavam comigo. E principalmente Clarissa. Agora eu sabia, do fundo do meu coração, que ela não estava ao meu lado porque tinha que estar. E que continuaria lá enquanto eu precisasse.
Meu pai me deu um abraço e perguntou se eu não queria que ele fosse no meu lugar. Mas lhe garanti que era algo que eu precisava fazer sozinha. Liev me prometeu que, mesmo Reid estando livre da lei, ela faria de tudo para que ele nunca mais nem conseguisse comprar um café em Londres. Jack e Kyle me disseram que tinha um quarto me esperando na Irlanda para onde eu poderia fugir. E até Penelope sugeriu que ela começasse um rumor de que Reid tinha alguma doença infecciosa.
Estava tudo ali, bem na minha frente, tudo aquilo que eu podia contar e guardar para mim como razões para nunca deixar que uma pessoa como ele me destruísse.
Mas foi só quando eu olhei para Clarissa e vi sua boca formar a palavra 'respire' que eu senti do fundo do meu coração que tinha sorte. E, se me atrevia pensar na palavra, que era amada.
Quando olhei de volta para as portas e Liev me perguntou se eu estava pronta, assenti. E, enquanto as via abrindo e caminhava em sua direção, sentia um arrepio começar na minha nuca e se espalhar até as pontas dos meus dedos. Eu pensava no que ia falar, no que tudo significaria, percebendo devagar a magnitude daquilo. O casamento já estava cancelado, Reid já tinha desaparecido, eu já nunca mais seria a mesma. Mas falar as palavras em voz alta, as espalhar para o mundo todo era bem maior que isso. Era mais do que admitir que uma tragédia daquelas tinha acontecido comigo. Era declarar que eu tinha decidido lidar com ela, superá-la e crescer a partir dela.
E assim que vi o povo do outro lado do portão e a fila enorme da mídia entre nós esperando por mim, eu soube. Simplesmente soube.
Eu era adulta.

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