Reino em Cinzas
9 Soluço
Notas iniciais
O som da porta do salão sendo aberta o acordou. Por instinto e pelo trauma de ter sua última casa invadida e incendiada por Grimmel, Soluço sentou-se na cama em um salto e logo já estava com a perna mecânica encaixada em direção à porta do quarto. Teve tempo de ver no quarto à frente fechar uma fresta de supetão, como se alguém tivesse sido pego em flagrante.
— Astrid. — Chamou, com a voz mais alta. Ela também não demorou mais do que segundos para o alcançar. Sobre o teto, já podia ouvir os dragões se revirando e descendo pelas paredes. — Agora! Vamos!
Os dois dispararam para o lado de fora, onde encontraram a garota ruiva no chão com o dragão de Soluço sobre ela. Do outro lado do assentamento, Melequento já saía de sua cabana e também correu em sua direção. Astrid se adiantou à sua frente assim como seu primo, e a ele restou a tarefa de afastar o animal dali.
— Ei! Ei! Ei! Pra cá, rapaz! Sai daí, agora! — Ele gritava, colocando-se na frente do dragão e empurrando sua cabeça com cuidado porém firme. O dragão pareceu um pouco relutante e confuso. Soluço sabia que ele só estava curioso, mas podia imaginar o pavor da situação para alguém que provavelmente nunca viu nenhuma criatura dessas na vida. Mesmo ele, que os conhecia desde sempre, levou quase uma hora para se recompor do seu primeiro encontro com Banguela. Lembrar dele apertou o seu peito, assim como lembrar das palavras de seu avô. Quando alcançaram uma distância mais segura, o rapaz acariciou o queixo do companheiro. — Tudo bem, garoto. Eu sei que você não ia machucá-la.
O dragão emitiu aquele ronco fundo da garganta que tanto lhe parecia com o ronronar de um gato. Vento Veloz ainda estava sobre o telhado, observando-os com atenção.
— Vai lá com ela, mais tarde a gente passa mais tempo juntos, tudo bem? Vai lá — Soluço finalizou a frase com outro leve empurrão no queixo. O animal “ronronou” mais uma vez e subiu com sua companheira. Por um breve instante, ele se pegou pensando que precisava encontrar um nome para ele de uma vez antes de voltar sua atenção à confusão ao seu redor.
A garota ainda estava sentada no chão, fitando o vazio com uma expressão distante, as lágrimas escorrendo sem pausa pelo seu rosto porém, se não fosse por elas, nem pareceria que chorava, já que não exibia nenhum outro sinal comum do choro. Sua respiração já tinha se regulado, e agora ela só estava ali, paralisada. Não demorou para que outras pessoas acordassem e fossem ver o que acontecia.
— E então? — Soluço perguntou, indo até os três.
Astrid balançou a cabeça.
— Vai levar um tempo até ela sair do choque. Acho que eles realmente não veem dragões por aqui — enquanto falava, ela repousou uma das mãos sobre o ombro da jovem de forma consoladora, porém a menina imediatamente direcionou os olhos para a mão, tão afiados quanto facas. Ela murmurou alguma coisa em sua língua. Astrid não precisou entender as palavras específicas para apenas parar de tocá-la. — Ela só precisa de espaço agora.
Soluço assentiu e se sentou na frente deles. Ele observou o restante do assentamento, onde os outros ainda esperando por alguma resposta. Soluço apenas balançou uma das mãos, gesticulando que poderiam continuar com suas rotinas. Todos suspiraram e comentaram qualquer coisa em alguns murmúrios, mas logo se dispersaram e a maioria voltou para dentro de casa.
— E o que você está fazendo aqui, Melequento? — Astrid perguntou de repente. O rapaz pareceu ter sido pego de surpresa. — Só quem cuida de fazendas acorda tão cedo.
— Eu só estava andando. Eu acordo cedo mesmo todos os dias para treinar. Mas pelo menos eu me visto que nem gente antes de colocar a cara pra fora — ele zombou.
Soluço olhou para si mesmo e para a esposa. Só agora percebeu que ainda usavam as roupas de dormir, agora sujas de terra e suor. Ele riu baixo, atraindo o olhar da menina, que decidiu ignorar por enquanto. Sabia que ela tinha o direito de se sentir nervosa com a situação assim como sabia que ele próprio não fazia nada de errado.
— Soluço — Astrid o chamou. — Não vamos conseguir impedir que elas vejam os dragões mais cedo ou mais tarde. Ela com certeza vai contar para as outras. Vamos precisar de algum jeito de nos comunicar com elas para explicar a situação ou logo.
— Sim...
Ele olhou para as pessoas ao seu redor, as que continuaram por ali mesmo depois de tudo estar resolvido. Entre elas viu Hoffer, pai de Astrid, parado a alguns metros assistindo tudo de braços cruzados e uma expressão indecifrável. Ele fazia muito isso quando essas coisas aconteciam, e Soluço não gostava de admitir que aquilo o deixava levemente desconfortável. Era como se estivesse sendo sempre analisado. Só por encará-lo foi o suficiente para que o homem se aproximasse dos quatro.
— Hoffer, é... bom, bom dia.
— Bom dia — ele respondeu, com uma risada discreta no fundo da garganta. Hoffer voltou-se para a filha, seu sorriso já não mais disfarçado. — Oi, meu bem. — Ela sorriu de volta em resposta.
— Vá hoje até o assentamento de Hilde e dos outros jarls, menos Einar e os que acompanham ele. Pergunte qual deles já tentou entrar em contato com os locais ou conhece alguém que fale as duas línguas. Vamos precisar de uma pessoa assim por aqui — ele pediu.
— Claro. Ainda essa manhã farei isso logo depois de comer.
— Obrigado.
O homem assentiu e se afastou silenciosamente para a sua cabana.
Um grito agudo rasgou seus ouvidos, ecoando por todo o assentamento.
Soluço virou-se para trás para ver as meninas escocesas aglomeradas nos portões do salão, encarando os dragões sobre o telhado. Os animais chiaram em resposta. Os sons despertaram a ruiva do seu transe e o que se sucedeu foi um caos de vários acontecimentos ao mesmo tempo.
A maioria voltou às pressas para dentro, uma outra desmaiou, enquanto aquela ao seu lado tentou socorrê-la, assim como Melequento que foi até as duas e acabou assustando a menina ainda desperta. Ainda assim, ele continuou lá.
Outra delas disparou para o lado de fora tão rápida quanto o vento, berrando a plenos pulmões direto para a floresta. A ruiva gritou por ela, mas foi em vão. Em menos de um segundo ela estava de pé, perseguindo a moça pelas árvores, seguidas por Astrid e, enfim, Soluço.
Ele pôde apenas assistir enquanto as três se distanciavam cada vez, deixando para trás somente os sons de seus passos e dos gritos. Essa merda de perna! Mesmo assim ele continuou sem pausa, tentando acompanhar as imagens delas à sua frente. Em um momento conseguiu se aproximar o suficiente para entender melhor onde estavam, com Astrid quase do seu lado, a ruiva tentando ao mesmo tempo fugir dos dois e seguir a companheira, que não tinha diminuído em nada a sua velocidade.
Soluço sentia os galhos arranhando sua perna, seus braços e seu rosto, as pedras no chão machucando a sola do pé. Por um instante, achou que não fosse suportar o ritmo e quase tropeçou no meio de um aglomerado de vinhas e raízes, mas conseguiu se equilibrar no meio do ar. Alguma planta se enroscou na sua roupa, o que o atrasou pelo tempo necessário para ficar para trás de novo. E a corrida prosseguiu.
Mas ele viu uma luz.
Uma bola de chamas azul se acendeu a poucos centímetros de seu rosto. Soluço freou, quase caindo mais uma vez. O susto durou apenas um instante antes de a bola de fogo se dissipar no ar. Ver as garotas metros adiante deu um estalo em sua mente, impulsionando-o a voltar a correr.
E então, a menina tropeçou na traiçoeira plantação rasteira e caiu. Ele ouviu o som de um baque tão grotesco que sabia nas suas entranhas que uma tragédia acontecera. Quando a ruiva berrou e caiu ao seu lado já se engasgando e chorando foi quando teve certeza.
Ao se aproximar, viu a garota mais branca do que o normal, caída e convulsionando sobre uma pedra com uma poça de sangue se formando abaixo da sua cabeça e escorrendo para a terra. Os gritos de desespero da outra não se igualavam a nada que ele ouvira antes e estraçalharam-no por dentro.
Astrid estava paralisada ao seu lado, com uma mão sobre a boca e a outra sobre o estômago. Seu peito subia e descia em respirações rápidas, seus olhos estavam vidrados e lacrimejando em choque. Já tinham visto pessoas morrendo, mas nunca daquele jeito.
Os dois se abraçaram, ambos os corpos trêmulos como em um dia de inverno no norte, e, mesmo assim, nenhum dos dois conseguia tirar os olhos da menina no chão e da outra gritando sobre ela. As convulsões, por fim, cessaram. Estava morta. A ruiva soltou o corpo e sentou ao lado dela. Ela esfregava as mãos pelo rosto e pelos cabelos em movimentos nervosos, quase se arranhando, enquanto seu choro se transformou em um ruído sufocante e ainda mais doloroso.
— Nós temos que... tirar ela daqui, não sei — Astrid sussurrou com a voz embargada. — Enterrá-la... qualquer coisa.
Soluço assentiu. Nunca chegou a conhecer a garota, mas sabia que ela não merecia ficar ali daquele jeito, ainda mais depois de ter passado por tanta coisa. Ele soltou-se do abraço da esposa, agachou ao lado da ruiva e estendeu-lhe a mão.
— Ei...
A menina o encarou com um ódio fervendo em cada poro de sua face. Em menos de um segundo, ela pegou uma pedra do chão e jogou sobre o ombro dele e vomitou palavras incompreensíveis a ele aos berros. Soluço caiu para trás com o impacto. Sua clavícula queimava e a dor escorreu por todo o seu braço.
Um turbilhão foi se embrulhando dentro de si. Raiva, cansaço, tristeza, impaciência, decepção... uma prisão. Aquilo era uma prisão em um pesadelo sem fim. Sua carne ardia de tanta... tanta... Soluço sentiu apenas a respiração vacilando com força e lágrimas de nervoso escorrendo pelo seu rosto. Ele chutou alguma coisa que estava presa na sua prótese e cobriu o rosto com as mãos. Nunca tudo deu tão errado em tão pouco tempo. Ele sentiu a mão de Astrid sobre suas costas, e suspirou em desgosto.
— Eu não aguento mais... — murmurou.
— O quê? — Ela perguntou, sentando-se ao seu lado. Soluço levantou a cabeça e abaixou as mãos para que ela o ouvisse.
— Eu não aguento mais. Nem deveríamos estar aqui! Deveríamos... Por que estamos aqui, Astrid? Eu só queria... nunca ter vindo parar nesse lugar.
Astrid ficou quieta o encarando por alguns minutos. Ela ainda o afagava e o abraçou, puxando-o para mais perto enquanto refletia sobre tudo aquilo.
— Se não tivéssemos vindo... eles teriam matado os dragões e depois ido até a nossa casa nos saquear por não termos cooperado. Você lembra do que eles escreveram naquela mensagem, Soluço — ela lhe dizia, segurando uma de suas mãos e acariciando sua pele. — E... se não estivéssemos aqui... coisa muito pior teria acontecido com essas garotas, você sabe disso.
— Eu só quero ir embora, Astrid. Eu sei de tudo isso, eu sei! Eu sei... Mas... eu cansei disso. Eu cansei... Cansei... Eu quero ir para casa.
Astrid o abraçou e o acariciou, tentando em vão trazer-lhe conforto. Soluço continuou repetindo aquelas palavras em seu devaneio até que sua voz tivesse sumido e o sol queimasse o alto de suas cabeças.
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