Notas iniciais
Eu ouvi POV novo??? Simmmm, POV novo e quentinho. E já aviso a todos que semana que vem vai ter mais um capítulo! Dessa vez não é bait kkkkk Espero que gostem ♥

O dia começou com tudo, com a princesa parada de pé no meio do salão, arrumada, desperta e com uma expressão enérgica assim que Astrid tinha acabado de sair da cama. Ela hesitou por um segundo. Da última vez que Merida acordou antes dos outros e saiu perambulando por aí, as coisas deram muito errado.

Mas ela apenas balançou os cabelos e esfregou os olhos inchados, como se não fosse nada. Só quando interrompeu o gesto que notou o pedaço de pergaminho rasgado entre os dedos da jovem. Foi o suficiente para lhe despertar por completo e correr de volta para mandar Soluço andar logo. Alguma coisa quente com certeza estava prestes a acontecer.

Em um piscar de olhos, todos que viviam no salão – o Velho, as meninas, Sean – e os seus amigos se encontravam prostrados na mesa do café da manhã, aguardando pelo o que a princesa tinha a contar.

Bom, quase todos aguardavam. Melequento e os gêmeos não desperdiçaram um único segundo do seu tempo e se adiantavam com a comida. Astrid não hesitou em dar um chute nas canelas de cada um por baixo do móvel, mas ela os conhecia por tempo o suficiente para saber que isso não mudaria nada. Pelo menos tinha colocado a irritação para fora. Mas por pior que fosse admitir, eles ainda escutariam tudo de barriga cheia.

Merida respirou fundo em antecipação e todos os presentes inspirassem em sincronia. Então, ela despejou as palavras para fora ao mesmo tempo em que soltava o ar dos pulmões enquanto Sean traduzia todo o recado.

E que recado.

O ar se eletrificou como se uma tempestade de raios se aproximasse. Até os três destrambelhados interromperam a comilança, com os olhos arregalados correndo de um em um.

— Não podemos ir sozinhos — Astrid disse, enfim.

— Não — Soluço confirmou de imediato fitando o vazio.

— Não — Merida concordou em nórdico. Um mês e alguns dias ouvindo e estudando o idioma sem pausas fez a garota realmente aprender o básico bem rápido, mesmo que ainda falasse devagar. — É bom com... mais alguém.

— Temos a aliança com o Dagur e os berserkar, e agora vocês falaram da Hilde, não é? — Perna de Peixe raciocinou, rodando um dedo indicador sobre o outro. — Por outro lado, a aliança dela é muito recente. Não sei se podemos contar com isso. Será que só o Dagur seria o suficiente?

Ela pode se aliar conosco ou nos trair e contar para todos os outros que estamos “virando a casaca”, Astrid refletiu. De todo modo, nem mesmo a conversa com o rei estava garantida. Poderiam muito bem passar horas dialogando para então mandarem atacá-los, e ainda por cima enfrentarem os outros nórdicos depois, se saíssem vivos disso.

E seria quase impossível sobreviverem a essa situação sem usarem os dragões e acabarem matando mais pessoas do povo de Merida, talvez até mesmo um de seus familiares por acidente. Mas a dor que a princesa sentiria não entenderia tão fácil a questão acidental da coisa...

O silêncio os matava por dentro a cada segundo.

Os seus olhos encontraram os de Soluço. Pôde reconhecer o brilho nervoso, confuso, quase capaz de vislumbrar os pensamentos dele se embolando um no outro enquanto tentava encontrar uma resposta, junto com o tremor ao perceber que a resposta já estava diante deles, porém, era muito arriscada.

Astrid respirou fundo e assentiu com a cabeça. O peito dele subiu e desceu com força.

— Precisamos nos dividir. — Astrid começou a elaborar um plano. — Uns de nós vão falar com Dagur. A aliança dele é certa e seus guerreiros são bons, ferozes, poderão nos defender de uma emboscada de qualquer um dos lados. Isso unido com os dragões nos dá mais segurança, apesar de não ser uma certeza. Enquanto isso, outros vão precisar falar com Hilde. Ela é a única que se mostrou mais inclinada a nossa visão de ação e aos nossos costumes. Também não é certo... Acabamos de falar disso com ela e não sabemos se essa inclinação é forte o suficiente para se voltar contra os outros jarls. Ela também pode ter dito isso para nos desarmar perto dela. Já a vi analisando nossos dragões e armaduras por mais tempo do que me deixa confortável. Não podemos eliminar nenhuma possibilidade: seja de aliança ou de traição.

— Vamos esperar que tenha sido sincera mesmo — Soluço divagou.

— E, se não foi, vamos precisar ter um plano de defesa preparado — continuou.

— E se falarmos para o Dagur mandar uma mensagem para a irmã? — Melequento sugeriu, ainda um pouco distraído, ao menos aparentemente. — A Heather está liderando a ilha dos berserkar agora que o Dagur se casou com a Mala.

Soluço balançou a cabeça em negativa.

— Ela está a pelo menos duas semanas e meia de distância. Até um barco sair daqui, chegar lá, até a Heather preparar os guerreiros que restaram e voltar já passou muito tempo. Poderemos estar mortos até lá. E ela não pode deixar a ilha completamente desprotegida.

— Mas ela pode vir com a...

Astrid o chutou de novo por debaixo da mesa antes que pudesse completar a frase. Ele a encarou com raiva por um momento, até se lembrar do que quase disse. Melequento mexeu os lábios, como se dissesse “oh” e se calou. Ninguém mais poderia saber que Heather ainda tinha Tesoura de Vento, muito menos que o dragão guardião da ilha dos Defensores da Asa ainda estava lá, ou dos detalhes de como as Moças com Asas viviam, nem mesmo Sean ou as meninas escocesas.

Para o resto do mundo, Berk ainda era a única tribo que voava em dragões e eles foram embora, com exceção dos dragões selvagens espalhados por aí. Fim.

— Ela não pode vir! — Astrid confirmou com agressividade. — Vamos ter que nos virar com os aliados que temos aqui.

— Eu quero ajudar — Merida interrompeu. Suas palavras nórdicas ainda soavam inseguras, talvez incerta se usou os termos corretos. — Como?

Astrid suspirou e tentou se acalmar.

— Acho que vai poder ajudar mais quando formos até o seu pai. Com os outros, podemos nos resolver.

— Eu...

— Não acho que seria seguro te levar com a gente por outros assentamentos, não depois do que já aconteceu. — Astrid esperou que Sean traduzisse tudo fitando a menina nos olhos tentando transmitir o máximo de compreensão que pudesse. Mesmo assim, falou devagar, de forma que a menina pudesse ouvir suas palavras e como dizê-las. — Você me entende? Eu entendo que queira ajudar, mas não podemos arriscar te levar para outro assentamento, muito menos o da Hilde. Não quero que nada acabe te atingindo se as coisas derem errado. Se tudo der errado com a Hilde, vamos voltar para cá de imediato e vamos todos, nós e vocês, direto para o seu pai, tudo bem?

Merida engoliu em seco e ficou parada por alguns instantes. Dava para ver a frustração em seu rosto, mas, por fim, ela suspirou e assentiu, relaxando a expressão aos poucos.

— Então, esse é o plano — Soluço anunciou. Ele parecia decidido, firme, mas Astrid o conhecia o suficiente para sentir de longe o nó em sua garganta. — Perna de Peixe e os gêmeos vão até o Dagur. Eu, Astrid e o Melequento vamos até a Hilde. Ela já nos conhece, falou conosco, vai ser mais fácil que nós falemos com ela. E, se as coisas derem em briga, sei que vão conseguir causar um bom estrago. Não que vocês não consigam — ele olhou para os outros amigos.

— Relaxa, amigo perneta, a gente sabe que pode fazer o melhor do caos quando queremos — Töffe disse com orgulho. Foi o primeiro sorriso que deram no dia.

— Já que a gente decidiu tudo isso, que tal comer e depois mexer com isso de plano de defesa? — Röffa resmungou.

— Ideia perfeita! — Soluço riu, já com uma das mãos pegando um pedaço de pão.

Astrid tinha que concordar. Seu estômago já estava quase se revirando de fome, apesar de só ter notado isso quando a discussão terminou. Ninguém conseguiria planejar nada de barriga vazia.

Cada machadada nos bonecos de madeira descarregava uma porção de sua frustração. Astrid erguia os braços, imaginava que em sua frente estavam todos os seus problemas, todos os inimigos, e os descia com o máximo de força que conseguisse, até sentir seus ossos vibrando por debaixo da carne.

Primeiro, matou quem quer que tenha escrito a primeira carta que receberam em Nova Berk. A primeira chantagem. Os rostos variavam, de Agnar, a Hilde, a Ramond ou Einar, ou qualquer outro jarl que tenha visto.

O segundo golpe foi contra todos que riram dela e se calaram quando protestou contra a violência contra as meninas. “Precisa controlar mais a sua mulher”. As palavras de Einar ecoavam em sua mente e fervilhavam seu ódio ainda mais. Quando desceu o machado contra a madeira, o fez com um grito de fúria. Gostava de pensar que estaria enfiando a lâmina no rosto dele. Ou na virilha. Queria rasgar aquele sorriso indecente de um lado ao outro, se vangloriando de violentar quem não tinha nem como se defender.

Depois visualizou Grimmel. Aquele que os forçou a sair de casa, que queimou parte de Berk, que os fez fugir sem nem ter como voltar e pegar todos os seus pertences de novo, toda a comida, todo o outro que tinham de fato. Se pudesse traçar um ponto onde tudo começou, era nele que colocava o início. Ele já estava morto há meses, espatifado no mar e engolido pelas ondas, talvez todo comido por peixes agora, mas ainda era bom se imaginar matando-o mais uma vez.

— Astrid?

Ela parou o movimento no ar. O mundo clareou ao seu redor agora que saía do seu transe vingativo. Sua visão periférica captou a luminosidade ruiva refletindo o sol da tarde como um manto de chamas. Merida estava parada, cautelosa, a uma distância segura de um golpe acidental.

— Oh! Oi — abaixou os braços, agora com suavidade. O gesto delicado depois de tantos fortes fez seus músculos arderem em protesto e ela quase soltou o machado na terra. — Tudo bem?

Merida assentiu. Ela se aproximou com um sorriso amigável, as mãos, porém, balançando quase nervosas ao lado do corpo. Astrid não pôde deixar de ver a si mesma apenas alguns anos antes, quando tinha acabado de domar Tempestade. A mesma energia, o mesmo ímpeto para a ação que viu na reunião da manhã.

— Eu... Eu penso – pensei!— em algo. Pensei em... Em casa, eu lutava todos os dias, como você agora — Merida falou, gesticulando para o machado e o boneco de madeira.

— Treinava — Astrid sugeriu, falando som por som com clareza.

— Isso! Eu treinava todos os dias. Eu sei lutar, mas não fiz mais depois de... chegar aqui. E as meninas não sabem. Eu não quero mais ficar parada aqui e olhar, eu quero... como é “treinava”?

— Treinar.

— Eu quero treinar de novo e elas precisam de ajuda. É bom se elas... “podem” aprender como lutar, como proteger. Entende? Eu sei lutar e você sabe também. Podemos ensinar juntas.

Astrid sentiu o sorriso abrindo seu rosto. Era por isso então que Merida os assistia treinar todos os dias com tanta atenção. Na verdade, estava surpresa de nunca ter pensado nessa possibilidade por si mesma.

— O que você usa? — Perguntou. Apontou para o machado, ainda na mão direita. — Arma. Qual sua arma?

Merida não soube dizer, mas ergueu os braços, o esquerdo alongado à frente do seu corpo e o direito puxando uma corda imaginária.

— Arco e flecha.

— Arco e flecha — a princesa repetiu devagar várias vezes, a cada repetição aumentando o brilho no olhar e o sorriso. Então, ela lhe estendeu a mão direita, ainda com aquela expressão quase travessa. — Sim?

Ela nem ponderou muito a situação. Contudo, realmente achava muito importante que as outras garotas soubessem, no mínimo, como se defender ou ao menos segurar uma espada caso precisassem. Uma parte, pequena, numa voz sussurrada e longínqua, lhe queria alertar sobre possíveis perigos, emboscadas, novas tentativas de fugas.

Mas... O rosto de Merida lhe dizia diferente. A energia jovial com a qual lhe estendeu a mão, com a qual propôs a ideia se esforçando para fazer isso em um idioma que não o seu. Astrid apertou a mão até sentir os nervos firmes.

— Sim.

Astrid deu um suspiro longo junto com a porta se fechando. Ali, tinham o seu mundo próprio, isolados dos problemas de fora. Soluço se virou e sorriu fitando-a sentada na cama de pernas cruzadas. Estava lá já a algum tempo, depois do seu banho pós-treino, apenas esperando pelo marido e pelo sono. Ela o assistiu caminhando de um lado para o outro e puxando a túnica de si em movimentos lentos, como sempre fazia quando sua cabeça estava cheia de ideias.

Quando ele olhou de novo para ela, Astrid esticou a mão e o chamou para perto. Soluço não pensou duas vezes para corresponder e deitar-se no seu colo, com a cabeça sobre o coração dela.

— Soluço, eu estava pensando hoje — ela começou a dizer enquanto seus dedos acariciavam os cabelos dele de forma automática —, você reparou nas casas de Pirn? Tinham umas construídas diferente das nossas, meio redondas.

Ele resmungou baixinho.

— Não prestei muita atenção. Mas no que pensou?

— O que você acha de... Construirmos uma assim aqui, no assentamento, para as meninas? Elas podem se sentir mais à vontade tendo um espaço maior só delas e que se pareça com as casas que tinham antes.

Ele ficou calado por alguns momentos, com aquela sua expressão de quando ponderava: as sobrancelhas franzidas, os olhos fitando um ponto vazio na lateral, uma das mãos tocando suavemente no queixo.

— Ah — soltou, por fim. Deu de ombros. — Tudo bem, se é o que elas querem. Podem ficar mais relaxadas mesmo.

Astrid riu.

— Por que “se é o que elas querem”? — Ela perguntou imitando uma voz mais grossa só para provocá-lo. Soluço ergueu a cabeça para encará-la e riu.

— Não, não é nada! — Respondeu ainda entre risadas. — É que eu achei que depois desse mês elas já tinham acostumado com a gente.

— Ah, elas não me disseram nada que querem sair daqui ou algo do tipo, fui eu mesma que pensei nisso! Ainda nem perguntei se gostariam, só quis trazer a ideia para você antes.

Soluço ergueu as sobrancelhas, agora compreendendo melhor a situação. Então, se deitou novamente sobre seu peito e Astrid voltou ao seu cafuné.

— Acho que eu já estou me acostumando com as coisas aqui — ele murmurou. — O lugar, esse salão, essa casa, as pessoas aqui. Não sei... Ao mesmo tempo que sinto que esse não é nosso lar e que quero ir embora, parece meio estranho pensar em mudar.

— É... Acho que eu também, um pouco. É confuso.

E de fato, era. Astrid tinha nascido e crescido em Berk, e nunca foi para nenhum lugar a não ser durante os dois anos que passaram no Domínio do Dragão. Ainda assim, todos sabiam que aquela era uma base de exploração temporária, que sua casa estaria no mesmo lugar de sempre quando decidissem retornar. Os mesmos rios de sempre, os caminhos, colinas, florestas. E os dragões...

A raiva borbulhou em seu estômago. Amaldiçoar Drago e Grimmel se tornara rotineiro em seus pensamentos, ainda que não admitisse para ninguém o nível do seu ressentimento. Para todos, ela era a Astrid de sempre, determinada, firme, resiliente, e agora era a esposa do chefe que deveria transmitir segurança a todos.

Por mais que vivessem há meses na Nova Berk, ainda sentia falta da familiaridade que a antiga ilha trazia. O seu lar ancestral, onde a sua linhagem e a de todos viveu por quatrocentos anos. Nova Berk era sim seu novo lar, um lar que ainda precisava ser construído. E então, de repente, estavam em outra terra, ainda mais estranha do que a anterior e em guerra.

Respirou fundo devagar e levou sua mente para o quarto, para a luz amarelada das velas, para o calor e o peso do corpo de Soluço sobre o dela, numa tentativa de expulsar a raiva para fora de si. Sim, aquilo sempre funcionava. Em um piscar de olhos, sentia-se um pouco mais leve.

— Eu também queria conhecer as meninas melhor — ela disse. — Não saber a língua um do outro realmente tem sido um pé no saco.

Ainda em seu colo, Soluço balançou a cabeça em concordância com um “hm-hum!” veemente.

— Não sei se ficar aqui ou em outra casa vai ser o melhor, só... não quero que elas sintam que estão presas, porque mesmo que tenhamos falado que não estão, elas podem... sei lá. Se sentir assim. E eu me acostumei com a casa cheia — riu. — Hoje a Merida me pediu permissão para treinar no pátio e também que quer ensinar as outras meninas a se defenderem. Em parte, eu fiquei animada, mas... fiquei me perguntando se ela ainda sentiu que precisava da minha permissão. Então não sei se ainda estamos passando a ideia de... falta de liberdade.

Soluço a fitou diretamente mais uma vez durante o relato, atento a cada palavra.

— Ou ela só quis te deixar informada mesmo, não pedir permissão em si. Para não deixar abertura para interpretações erradas de quando ela buscasse as armas de treino.

Astrid sorriu, um pouco mais aliviada e ele a correspondeu de pronto.

— É, faz sentido.

— A ideia ainda é boa! Não vejo mal em ao menos propor essa opção.

— Certo — murmurou.

Ele sorriu mais uma vez para ela, reconfortante como um dia de verão. Com uma das mãos, tocou o seu rosto com delicadeza na bochecha.

— Agora vamos relaxar, combinado?

— Combinado — riu.

Soluço se ergueu para se aproximar mais da mesma altura de seu rosto. O primeiro beijo foi rápido, suave, um simples toque de lábios. O segundo durou um pouco mais, com mais sabor. Os próximos foram se fortalecendo, cheios de calor e energia.

De manhã, foram os dois que aguardaram no salão até que as meninas acordassem. Quando Merida chegou, lá estavam eles, com um pedaço de pergaminho e o lápis de carvão de Soluço. A menina mirou rapidamente dele e saltando para os rostos dos dois com uma das sobrancelhas erguida.

— Vamos responder sua mãe? Juntos? — Astrid finalizou com um sorriso.

Merida levou uns segundos para entender tudo, mas por fim sorriu e assentiu.

— Comer antes?

Os três não seguraram risadas.

— Com certeza.