Reino dos amaldiçoados
1 Testemunha da escuridão
Eu conseguia sentir uma poça se formando nos meus pés encharcando o carpete da grande sala. A som da chuva era alto e ecoava por todo o espaço porém não modificava de maneira alguma sua temperatura ou umidade. Essa... realidade... parece muito com o mundo que todos nós conhecemos, de onde eu vim e de onde espero que você esteja, porém não passa de uma imitação. A água da chuva te molha mas seca em alguns segundos, o frio não incomoda muito menos te faz mal e mesmo o calor do fogo não é capaz de esquentar, exceto quando Aquilo assim deseja.
Ao meu redor eu consigo ver algumas estantes, um sofá de couro médio e duas grandes poltronas decoradas, tudo próximo a uma lareira. A escuridão ao meu redor não ajuda minha visão e mal consigo distinguir objetos a mais de 3 metros de mim. Pelo ecoar dos sons, esta parece uma grande sala que pode estar conectada a algo maior e, conhecendo bem as coisas por aqui, com certeza está. Minhas mãos apalpam as paredes procurando por algum interruptor, mas não consigo achar nada. O fogo da lareira é fraco e mal ilumina alguns poucos passos alem dela mas não sei se quero chegar perto e ficar visível a qualquer coisa que possa estar me esperando nos cantos escuros dessa sala que sequer consigo ver onde as paredes estão, mas não creio que eu tenha muitas opções.
Começo a andar pela sala em direção à lareira e já não estou mais molhado ou sequer aparente ter estado. Ao começar a me aproximar noto uma mesa de centro no meio entre a lareira, poltronas e sofá. Há um candelabro na mesa, enfim um meio de enxergar.
Pego o candelabro rapidamente e me dirijo até a lareira para acende-lo com o fogo baixo que emana das toras dentro da mesma. Assim que a primeira das três velas acende, como num passe de mágica, todas as outras duas também se iluminam, o fogo da lareira aumenta consideravelmente e varias outras velas em candelabros pendurados nas paredes, pilares e lustres ganham vida, iluminando enfim toda a grande sala.
Finalmente consigo ver onde estou, pelo menos em partes. Parece como uma grande biblioteca de mansão aristocrática, várias estantes cheias de livros, uma escada que leva a um andar superior com mais estantes. Consigo perceber que a lareira é vazada para trás, como se esta ficasse no centro da sala, não em seu canto. Atrás da mesma consigo enxergar o que parece ser um balcão de bar com quatro bancos e varias bebidas nos displays atrás do balcão. Logo após esse há uma grande janela decorada com um vidro tão bonito e, que apesar de transparente, emite uma cor meio azulada e calmante, em contraste com todo o vermelho que ilumina a sala.
Agora eu sei onde estou mas ainda me pergunto que lugar seria este? Me aproximo da janela e tento me situar, porém uma névoa densa bloqueia quase toda minha visão, além disso, a escuridão do local é quase palpável de tão forte. Pra ser sincero, nunca experimentei uma escuridão tão escura como por aqui, quase que como se a escuridão em si tivesse forma e corpo, como se fosse viva e pudesse contornar a luz conforme sua própria vontade. E quase no mesmo momento em que fui me virar para explorar mais a sala ao meu redor, a escuridão começou a se mover. A névoa ainda era presente, porém lentamente começou a se dispersar e afinar, revelando abaixo de mim uma especie de floresta. Eu conseguia ver árvores, estruturas de tijolos, pequenas construções e um pequeno barraco. Alguns tentáculos de escuridão começaram a descer do céu até o chão daquele local e materializar algo, eu conseguia ver nitidamente cinco tentáculos descendo, quatro menores, mais finos e quase cinzas e um grande, formado por vários outros se enrolando no maior, bem escuro, como olhar no abismo e perceber que ele está olhando de volta. Enfim os tentáculos começaram a subir novamente e quatro formas médias humanoides se formaram e, um pouco mais distante dessas, uma grande forma horrenda se materializou. Eu sabia muito bem o que era aquilo, já tinha visto antes, ou melhor, vivido.
Logo eu percebi, pela primeira vez, eu estava assistindo, basicamente de camarote, a um dos julgamentos dAquele. Não havia o que temer, mas eu sabia que em breve o sangue dos inocentes ia começar a escorrer pelas terras da escuridão que ali embaixo estes estavam.
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