Reila
12 Reencontro
:: CAPÍTULO 12 — Reencontro ::
Por um momento, se perguntou o que havia feito. Um momento e não muito mais. Levantou-se rapidamente para ver o que estava acontecendo e começou a chamar por Ruki, sacudindo-o, sem resposta. Então, o desespero. E mais uma vez, a velha pergunta que rondou tanto sua mente... “O que eu fui fazer?”
Pegou o mais novo com cuidado nos braços. Sentia medo.
Lentamente, começou o caminho para o antigo quarto onde vivia; agora este era só de Takanori.
Seus pensamentos se confundiam durante o percurso que parecia muito mais longo que normalmente. O rosto corado do amigo o fazia querer apenas pedir desculpas e abraçá-lo, dizer que estava tudo bem. Mas não estava.
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Coisas devidamente guardadas, Kouyou, Yutaka e Yuu voltavam vagarosamente para dentro, carregados de coisas, a marcha liderada pelo loiro. Abriu lentamente a porta da frente, os outros ainda estavam bem mais atrasados no percurso.
Quando ia entrar, porém, viu uma cena que não esperava nem em um milhão de anos. Reita estava carregando o pequeno vocalista para seu quarto, numa cena que o fez, por um momento, esquecer a raiva que sentia do loiro da faixa. E então soube que simplesmente deveria deixar para lá... Tudo se resolveria. Tudo acabaria bem... Só precisavam de empurrõezinhos. E estes não faltariam.
– Kai-chan... Shiroyama... Ainda... Falta uma coisa lá atrás! – Começou a gritar para que os outros dois ouvissem. – Podem ir lá pegar?! – Ainda pôde ouvir um resmungo de Aoi quando os morenos jogaram as coisas no chão e deram meia volta. Fechou a porta e jogou as coisas que também carregava no chão. Apenas precisavam de um pouquinho de tempo.
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Com o máximo de cuidado que conseguiu, ajeitou Takanori na cama. O pequeno não deu nem sinal de vida. Respirava, tinha a pulsação constante, mas estava completamente apagado.
Habilmente pegou um edredom grosso e jogou sobre o mesmo. Não obstante, ainda o cobriu com seu próprio edredom que permanecia próximo, e passou a observá-lo, até que não resistiu e abaixou-se em frente a ele.
Mesmo não estando muito próximo, era notável que a atmosfera em volta do vocalista estava mais quente. Encostou sua mão sobre a fronte de Matsumoto, apenas para constatar o quanto estava quente. Talvez nunca tivesse visto uma febre assim tão violenta.
Via-o em sua frente agora e a mesma pergunta lhe martelando a mente. Por quê? Por que fez tudo isso para esta criaturinha tão doce que repousava culposa? Apenas começou a gritar com o menor sem motivo aparente... Sem motivo nenhum.
Afastava-lhe as madeixas alvas dos olhos e começava a se arrepender. Ruki não lhe fez nada. Era seu amigo... Não era? Não merecia isso.
Suas mãos traçavam caminhos pelo rosto do outro quando resolveu que era melhor parar com isso. Pensamentos repugnantes lhe vieram em mente, e lembranças de seu sonho o tomaram. Aquilo era nojento. Akira não era gay, tinha plena certeza disso, e deixou o quarto a passadas pesadas outra vez para voltar a seus devaneios conturbados.
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– Eu já disse que não tem mais nada, Kouyou! – Explodiu Aoi enquanto Kai recolhia apressadamente as coisas do chão. Estava garoando.
– Calma, Yuu... – Falou fracamente o baterista ao recolher uma última sacola.
– Estou calmo. – Completou, abrindo caminho por entre as coisas de Uruha e adentrando a casa, encontrando-a vazia e normal, do jeito que deixaram. Jogou as coisas num canto qualquer da sala e entrou em seu quarto, fechando a porta violentamente sob o olhar atento de Yutaka.
– Ele vai ficar bem... – Falou Kouyou de repente. – Vai lá acalmar ele... Não tô a fim de levar mordidas.
– Você vai...?
– Vou ficar aqui fora, Kai...
– Não, Kou... Assim você fica doente! Tá frio! – Respondeu o moreno manhosamente, lançando-lhe um olhar quase materno enquanto caminhava em sua direção.
– Tudo bem, vai lá. Entro em cinco minutos.
– ... Certo. Cinco minutos, senão venho te buscar. Estou falando sério. – E amarrou a cara, embrenhando-se na edificação.
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Mal haviam passado cinco minutos e novamente, Akira notara o quão idiota estava sendo. Isso era ridículo. Ele gostava muito de Ruki, era um bom amigo desde que se entendia por gente, precisava ajudá-lo. O pequeno sempre o ajudou.
Saiu novamente do quarto que agora dividia com Uruha, ainda podendo observar um Kai carregado entrando no próprio aposento. Foi até a cozinha. Rapidamente pegou umas bolachas salgadas, suco de maçã, colocou tudo numa pequena bandeja e voltou correndo para o quarto. Mal notou a cabeça que o observava pela janela da varanda.
Simplesmente correu até o dormitório e lá deixou a refeição improvisada, ao lado da cama onde Takanori repousava. Mas ao contrário de segundos atrás, seu sono parecia muito perturbado agora. Mexia-se. Não obstante, começou a babulciar algo. De início, era completamente ininteligível, mas com os segundos, as palavras foram tomando formas. Eram lentas, baixas, pausadas.
– Kimi ga... Tsurai toki wa hoka... N-no dare... Yori boku d-dake... Ni oshiete hoshikat-ta...¹ – O baixista caiu de joelhos quando ouviu. Eram precisamente as palavras que não precisava ouvir. As que tinha certeza que o orgulho de Ruki não o deixaria dizer, mas num estado destes, ele não pôde controlar. E nesse estado, só podia estar sendo sincero. Takanori só queria o bem de Akira... Não devia ter sido tão idiota com o menor. Mas nada poderia fazer agora, senão esperar e esperar mais.
E mais uma vez, os olhinhos amendoados acompanharam o caminho de Suzuki até seu quarto, desta vez cabisbaixo. Hora de entrar em casa.
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Após passar os últimos minutos observando o baixista, Kouyou só chegou a uma conclusão plausível: Ruki precisava de um médico. Oras, e por que não? O médico só ajudaria, não é mesmo?
Foi até o aparelho que repousava numa mesa ao lado do sofá, e sentando-se no estofado, começou a digitar uns números recentemente decorados.
Primeiramente, e por um bom tempo, só o som oscilante da linha chamando, mas logo a voz que ele esperava ouvir o saudou.
– Ah, olá! Sou eu, Kouyou... Está bem?
– ...
– Que bom... Erm... Eu queria te pedir um favor, se não for muito incômodo.
– ...
– Claro... Bem... É o Takanori... Ele está meio doentinho. Fico imaginando se você não poderia passar aqui pra, você sabe...
– ...
– Tudo bem, então. Obrigado... Te vejo em breve. – E postou novamente o telefone na base, um leve sorriso tomando conta de seus lábios. Sorriso que não durou muito. Foi só o tempo de Yutaka sentar-se ao seu lado e começar a falar.
– Pois isso não é nada bonito, Takashima Kouyou.
– Espionar pessoas também não.
– Olha quem fala... – O baterista desviou seus olhos para o teto. – Você não está ajudando em nada.
– Você quem pensa... As coisas não vão bem agora, mas Ruki só precisa de um médico. E Reita de um psiquiatra... – Esta última parte da frase fora sibilada só para si, mas ainda assim Kai a ouviu e não conseguiu deixar de sorrir, voltando a encarar o loiro.
– Confiarei em você. Desta vez.
– Já te dei algum motivo para não confiar em mim?
– Quer mesmo que eu liste? – Um risinho malicioso saiu de seus lábios, adornado pelas covinhas. Kouyou não podia perder a deixa. Pegou uma mão do moreno cuidadosamente, segurando-a por entre as suas.
– Então, por favor, pense nos motivos que tem para confiar. São mais que suficientes. – Seus orbes ocres quase perfuravam os negros de Uke. Quando notou que o menor estava ficando realmente sem-graça, soltou-o e prosseguiu com a fala. – Bem, agora eu tenho que cuidar do energúmeno. Ah... Crianças... – E sorridente, levantou-se, indo em direção a seu quarto, deixando para trás um Yutaka perplexo.
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– Olá, Akira. – Entrou no aposento, e assim que avistou o loiro mais baixo sentado em sua cama improvisada já tratou de saudá-lo. Claro que ainda teria sua vingança, e agora que tinha um plano em mente, o botaria em ação. Ou Suzuki realmente pensou que passaria a noite inteira falando idiotices e sairia impune?
– Hm. – O baixista limitou sua resposta a isso.
– Precisamos ter uma conversinha, Reita.
– Não tô afim... – Novamente, curto e grosso. O guitarrista não resistiu: andou até onde ele estava e agachou-se para sentar atrás do colega, colocando cada uma de suas pernas de um dos lados do corpo do mesmo. Por um instante, o menor pensou em recuar, sair, fazer qualquer coisa; entretanto, resolveu que ainda não estava em condição de discutir. Não agora.
– Então... Vamos ficar calmos... – Colocou as mãos grandes sobre os ombros do mais velho, que ficou tenso. Começou a apertar a região ali. – Ei, Aki... Tá muito tenso... Eu disse “vamos ficar calmos”...
– T-tá... – Vagarosamente, foi permitindo que seus músculos relaxassem, e logo estava recebendo uma massagem deliciosa. Ficaria calmo, não fossem os novos fatores da situação: Kouyou se aproximara mais e agora gemia baixo próximo de seu ouvido. E é claro que não parou por aí. Quando pensava que não iria ficar pior, uma das mãos do loiro soltou seu ombro tenso e começou a descer por seu tronco.
– Relaxe...
– NÃO, TAKASHIMA, PARA! – Reclamou. Má escolha. Ao tentar se levantar, a mão “livre” do guitarrista lhe segurou pela cintura e a outra passou a exercer movimentos com mais força em seu ombro, assim, um breve gemido escapou dos lábios de ambos.
– Parar? Mas não mesmo... – Parou com a massagem apenas para arranhar a pele do baixista por baixo de sua camisa, fazendo-o ficar com os pelos por todo o corpo eriçados. Uruha sorriu.
– Viu? Você gosta disso, safadinho... – E passou a distribuir leves selinhos pelo pescoço do loiro menor, até que ao escolher um lugar que julgara apropriado, aplicou-lhe um chupão que o fez gritar, acordar de seu “transe” e conseguir se afastar do colega, que já não fazia força para o prender, apenas ria baixo.
– Seu... Psicopata! – Acusou-o, pegando uma caixa que estava num canto e saindo correndo pela porta.
Takashima sorriu.
– Um à zero... Reita.
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– Parabéns Yutaka, ganhou um novo quarto! – Explodiu Reita ao sair de um dormitório para entrar no banheiro rapidamente. Kai, que continuava sentado no sofá, ficou sem entender por uns instantes. De repente, todos estavam ficando loucos. De novo. Passou pela sua mente a ausência de motivo para ter aceitado ser líder daquele bando de doidos. Mas ele gostava daqueles doidos, e começou a lembrar da formação da banda, de fatos engraçados... Passou um bom tempo imerso em lembranças, até que a porta por onde Suzuki entrara há alguns minutos se abrira. Akira saira e segurava algumas coisas.
– Yutaka, arruma suas coisas que eu vou dormir no seu quarto hoje.
– Mas e eu? – Perguntou, indignado.
– Se o Ruki está doente, é melhor dormir no quarto do Uruha, oras. Eu não quero mais ver aquele psicopata na minha frente, você que se vire com ele! – E terminando a frase, não deu tempo para o moreno responder, apenas marchou em direção à porta do quarto do mesmo, abrindo-a violentamente, assustando um Aoi distraído com seu violão.
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Depois disso, Uke não precisou ser nenhum gênio pra deduzir o que ocorrera. Uruha radiava de felicidade e sorria intensamente. Seu plano era só afastar o baixista e ainda ganhou Yutaka de brinde! Era maravilhoso!
– Então, Kai-chi, se quiser pode dormir na minha cama.
– A-ah... Não quero incomodar, Kouyou-san...
– Que isso... Eu que estou incomodando. Antes você tinha uma cama só sua, não é justo que a perca por causa de um arranca-rabo meu com o idiota do Reita. Vamos, sem discutir. – E então o loiro já jogava as coisas do outro sobre o móvel, em seguida jogando o próprio baterista, que sorriu ao atingir a superfície macia.
– Tá bom, tá bom, Kou... Eu fico aqui. – Aquele sorriso fazia Takashima querer mordê-lo, mas seguraria seus impulsos.
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Quinze minutos. Todos esses novecentos segundos ao lado do baixista mal-humorado o deixaram completamente doido, e igualmente “alegre”. Além de ter que aturar o sem-nariz, ainda teria perdido Kai, e pior que isso, teria o perdido para Uruha. Podia ser pior?
Estava na cozinha preparando um chá para si e já imaginando se haveria algum laxante para sem querer despejar na bebida de Takashima quando ouviu um barulho: alguém batia na porta.
Passou-lhe em mente que nem fãs nem vendedores deveriam sair procurando casas num dia frio como aquele, ainda mais no meio de um bosque próximo do marco histórico “Onde Judas Perdeu As Botas”. Suspirou e largou a colher que segurava, caminhando lentamente até a entrada da casa, abrindo sutilmente a porta. Sem nem ver de que se tratava, já disparou:
– Olha, nós não estamos interessados em comprar nada, e...
– Erm... – Interrompeu uma voz feminina. – Eu não estou aqui para vender nada... Aoi-san. – A garota abaixou levemente a cabeça numa reverência, fazendo com que Yuu fitasse apenas um emaranhado de cachos negros, mas logo reconhecesse a peça.
– Ah... Yamaguro-san... Me desculpe. Acho que já estou ficando doido com essas situações... – Reila entendeu isso como preocupação pelo estado de saúde do vocalista deles, então sem mais perguntas, ergueu-se. – Pode entrar...
– Obrigada. – A moça tirou os sapatos, fez mais uma leve reverência e adentrou lentamente o recinto, rapidamente se explicando:
– O Shima me ligou... Disse que o Takanori não tá bem... Isso é verdade? – Seu olhar era preocupado. Torcia a alça da bolsa que mantinha em mãos.
– É verdade sim... Não cheguei a vê-lo ainda, mas disseram que está mal... Com febre alta...
– Eu posso vê-lo?
– Segunda porta à esquerda. Deve estar dormindo... – E terminando isso, o moreno voltou para a cozinha onde terminaria seu chá. Precisaria de toda camomila do mundo para aturar Suzuki em período integral.
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Nas pontas dos pés, adentrou o quarto do doente, muito sorrateiramente. Havia duas camas ali, mas não demorou na tarefa de identificar em qual delas o rapaz estava. Ainda que de longe não julgasse “aquilo” nada mais do que um bolinho de cobertores enrolados, sabia que havia alguém ali, pois se movimentava, mesmo que de leve.
Ao aproximar-se, notou que ele tremia. Daí a movimentação. Abaixou-se ao lado da cama para fitar de perto um rosto corado, amedrontado e frágil. Dormia, mas era um sono inconstante.
Uma vontade imensa de abraçá-lo a acometeu. Queria protegê-lo, queria que tudo o que ele sentia de ruim passasse para si. Queria vê-lo bem para que pudessem conversar novamente. Sem notar, recostava a cabeça na ponta do colchão e algumas lágrimas superficiais lhe saiam dos olhos. Não tinha motivos para chorar, mas era simplesmente inevitável. Era uma sensação horrível de quase não ter controle sobre as próprias ações.
Sentiu, subitamente, algo em sua cabeça. Essa “coisa” se movia erroneamente, numa carícia sutil. Uma mão pequena.
– Ruki... – Sibilou, sem certeza se Takanori ouvira ou não.
– Olá... Reila. – E sorriu leve antes de apagar novamente.
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