Reila
3 Qual é o seu pedido?
:: CAPÍTULO 03 – Qual é o seu pedido? ::
Virou a maçaneta apressadamente e empurrou a porta com um pouco de violência. Não fitou nada em específico, sua vista opaca de tanta preocupação. Eis que várias pessoas deram um grito, sincronizado: “SURPRESAAAA!”.
Não fossem os gritos, Ruki provavelmente não teria notado aquele aglomerado ali. Estava muito mais angustiado para ajudar Reita naquele momento. Este, por sua vez, parou a encenação pulou em cima de Takanori, que só não caiu por que Aoi e Kai estavam do outro lado para segurá-lo. Logo depois, Uruha juntou-se ao grupo, em algo que se transformou num abraço coletivo.
No meio do tumulto, muita gente não notou. Na verdade, Akira falou com a intenção de que apenas uma pessoa escutasse... Praticamente sussurrou ao pé do ouvido do aniversariante soterrado de gente:
– Feliz aniversário... Chibi!
O pequeno nem sabia o que pensar. Primeiro, ficou surpreso. Depois, se repudiou por não se lembrar do próprio aniversário, mas logo se esqueceu, mediante o número de pessoas que queria agarrá-lo ou falar-lhe naquele momento.
– Muitas felicidades, Ruki-chibi-chan! – Yuu desejou-lhe animadamente.
– Vê se continua gostosinho assim ao longo dos anos, ok? – Disse Kouyou, zombeteiro.
E assim continuaram com os cumprimentos por um breve momento, até que reações naturais lembraram ao vocalista o quanto queria ir ao banheiro. Então esquivando-se de cada pessoa que entrava em seu caminho, ele finalmente chegou ao local desejado. Para sua surpresa, a porta do mesmo estava trancada, e ele teria que esperar mais uns minutinhos. Sem nem imaginar quem estava lá dentro, xingou mentalmente até sua 18ª geração.
Depois que várias palavras nada bonitas passaram por sua mente, começou a olhar à sua volta. Diversos amigos, conhecidos e pessoas da gravadora estavam lá: nenhum familiar de nenhum dos membros da banda. Isso não o surpreendia. Sentira falta apenas de seu irmão... Fazia tempo que não o via... Desde que começara a namorar Hana, pra ser exato.
Começou a observar cuidadosamente as pessoas.
Alguns colegas da gravadora com quem adquirira certa amizade, tais como Miyavi e Shou estavam presentes, parecendo felizes. Alguns ex-vizinhos e seus respectivos familiares. Uma mulher despojada que reconheceu como Akane, uma amiga de infância. E mais varias pessoas que perderia muito tempo enumerando, claro.
“Caramba... Nem com muito tempo essa japonesalhada muda, huh? Todos continuam com a mesma cara de sempre...” – Ia pensando isso quando notou um rosto diferente no meio da multidão. Uma garota... Estatura bem baixa, cabelos negros volumosos... Garotinha bastante sorridente, também. Vestia-se com um vestido vermelho não tão longo, porém não tão curto quanto as vestes de Uruha. Estranhamente, aquele rosto lhe parecia familiar. Ao mesmo tempo, tão diferente... Se pudesse vê-la mais de perto, poderia dizer. Entretanto, havia muita gente e uma grande distância no percurso até ela, impossibilitando sua visão.
Finalmente a porta do banheiro se abriu, e Ruki entrou correndo para “se aliviar”. Ao terminar a tarefa, ia fechando o zíper de sua calça quando a porta abriu, com um estrondo. O loiro assustou-se com a figura do pervertido que invadia sua privacidade, mas logo notou que se tratava de Takashima. O mesmo fechou a porta atrás de si.
– Hmm, Rukizinho... Que coisa mais sexy, hein? – E deu uma piscadinha para o menor, que fez uma cara de pouco caso e terminou de ajustar suas calças, indo até pia para lavar as mãos. Na frente desta, havia um grande espelho, onde ele pôde ver seu rosto... E Kouyou se aproximando por trás dele. As pernas descobertas do maior roçavam por entre as dele, e então o guitarrista passou os dois braços pela sua cintura, aproximando seu rosto ao do outro. Virou-se e cochichou em seu ouvido:
– Sabe, Taka... Você anda muito triste... E eu não gosto de vê-lo assim, chibi...
O menor desligou a torneira, um pouco trêmulo e com leves traços róseos em suas bochechas. O amigo, ele sabia, tinha costumes estranhos... Mas isso já era um pouco demais.
– Enfim... – Continuou. – Eu e os garotos estamos fazendo esta festa para que você se alegre... Esqueça aquela vaca imunda, era uma meretriz! – E ao dizer isso, passou a mover a perna que estava no meio das do outro, fazendo-o corar completamente. O pobre rapaz só teve forças para assentir positivamente com a cabeça.
Ali... Naquele lugar?! Estava acostumado com as carícias estranhas e brincadeiras ousadas de Kouyou, mas desta vez rendera-se, pois estava completamente despreparado. Afinal, ele só queria tirar a água dos joelhos, oras!
– Bem... Digo mais: eu tenho algo para você... – Neste momento, o corpo inteiro de Ruki estremeceu. Uruha foi abaixando a cabeça, esfregando seu nariz pelo pescoço perfumado do aniversariante. Logo, suas mãos percorriam o abdômen do mesmo.
Quando o menor já estava quase soltando um gemido suave, o maior afastou-se, segurando sua mão e o puxando para fora do banheiro.
Quando saíram (e ele ainda estava meio vermelho e trêmulo, o que atraiu alguns olhares); o vocalista pôde ver novamente aquela garota. Agora ela estava acompanhada de Kai e Aoi numa conversa bastante animada.
Uruha segurou-o pelos ombros com as duas mãos e fez uma cara séria.
– Escuta aqui, ô baixinho. – Sua atitude era completamente diferente agora. – Eu trouxe uma amiga minha para diverti-lo. Não, ela não é uma puta: é uma garota de respeito, e eu espero que você dê o devido respeito a ela. Ela não é tão gostosa quanto eu, mas... É uma ótima pessoa. Meio doidinha às vezes, e temperamental... Mas é só saber lidar. Então eu gostaria que, no mínimo, você fosse cortês com ela, sim?
– S-sim... – A voz saiu em tom ao mesmo tempo surpreso e aliviado.
Takashima começou a guiá-lo pela sala até que encontrassem o pequeno grupo que conversava num canto. O vocalista mirou o relógio na parede próxima, constatando que o ponteiro grande marcava o número doze. Nem se deu ao trabalho de olhar o ponteiro menor, pois já estava sendo puxado ao mesmo tempo em que Takashima cutucou a garota. Aquela garota.
Ela se virou para vê-lo, sorrindo. Ele ficou paralisado, e a garota também parecia surpresa.
– Bem, essa aqui é minha amiga...
– Reila... – Interrompeu Ruki.
– Taka... yuki?! – Perguntou Reila, desconfiada.
– Na verdade... – Interrompeu Uruha, pausadamente. – Este é o meu amigo e aniversariante, Takanori. Vocês já se conheciam?
Ambos ficaram quietos, até que ela se pronunciou.
– Bem, eu tinha quase certeza de que se chamava Takayuki, e nem sei como não o reconheci naquele dia. Talvez os óculos, eu acho. Sou uma grande fã sua. – Proferiu com um olhar de profunda admiração. O vocalista ficou corado de novo, e abaixou levemente a cabeça em uma leve reverencia de agradecimento. Gostava de ser elogiado... E não pela sua aparência ou qualquer coisa, mas pelo que fazia.
Não demorou para que Kouyou, Yuu e Yutaka saíssem de perto, deixando os dois sozinhos. Demorou alguns minutos para que Takanori se lembrasse de onde estava, e quando o fez, indicou o sofá para que a garota se sentasse, acomodando-se a seu lado.
– Me desculpe por mentir sobre meu nome para você, Reila... Estava um pouco nervoso naquele dia. Mas enfim... Fico muito feliz em te encontrar de novo. E muito mais feliz que esteja sorrindo desta vez. – E ao dizer isso, ele próprio sorriu também.
– Hmm... Eu entendo.
– De onde você e Uruha se conhecem? – Perguntou, para que o assunto não se extinguisse.
– Somos amigos desde bem pequenininhos, na verdade... Nossos pais eram sócios, e nós costumávamos brincar juntos.
– Ele era tão terrível quanto é agora?
– Pelo menos usava roupas compridas... – Disse ela, soltando uma suave gargalhada. Ele ficava a cada segundo mais encantado.
– Suponho que seus pais achem Kouyou bastante estranho... No mínimo excêntrico. Nem sei como te permitiram vir aqui com aquele doido!
– Na verdade.... – Por alguns segundos, ficou quieta. Depois criou coragem e prosseguiu. – Naquele dia em que você me viu chorando... Bem... Meus pais morreram naquele dia.
– Nossa, eu...
– Por favor... – Ela o interrompeu, cordialmente. – Não me diga que “sente muito”. Você não sente... Nem ao menos os conhecia! Sentiria se eu te desse um beliscão, isso sim! – E forçou um sorriso, que Takanori retribuiu, feliz com aquela reação.
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“Hmph...Que coisa mais...” – Reita observava a cena ao longe, e assim, virou mais um copo de bebida e encheu-o novamente com um líquido translúcido, saído de uma garrafa alta. Este era o 3° copo, porém ele ainda estava completamente sóbrio.
Kai e Aoi conversavam próximos do lugar onde Akira estava sentado.
– Reila-san é bem simpática, não é? – Dizia o baterista. O loiro pôde ouvi-lo e reconheceu o nome. Reila... Era a moça chorona da tarde anterior. Imediatamente, levantou-se e dirigiu-se aos companheiros:
– Quem é Reila?
Quem respondeu foi Shiroyama.
– Aquela moça bonita que esta conversando com o Taka... Uma gracinha, não? Uruha conseguiu arrumar alguém do tamanho do Ruki, afinal... – E começou a rir, junto com Kai.
O baixista apenas voltou para o lugar onde estava e bebeu o copo que abandonara, de uma vez. Depois outro... E mais um.
Como poderia ser a mesma pessoa? Isso é... Impossível!
Kouyou avistou-o sozinho, e não quis perder a oportunidade. Chegou por trás dele, passando as mãos em volta de seu pescoço:
– Támorrendo de ciúmes e por isso vai beber até cair? – Não obteve resposta. Assim sendo, continuou – Nesse caso, eu te ensino o caminho pro quarto... Pro MEU quarto, claro. – E dizendo isso, sorriu maliciosamente, abandonando o loiro com mais uma dúzia de dúvidas.
“Ciúmes? Hmph... Por que eu teria ciúmes de Takanori? Isso é patético.”
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Ruki continuava conversando com Reila, porém ele já estava meio desconcentrado. A garota não parava de falar de Uruha. Todo assunto que puxava acabava se direcionado para o mesmo... Não sabia por que, isso o irritava. Irritava profundamente.
– Hmm... Do que mais você gosta, Yamaguro-san?
– Ai ai, pode me chamar de Reila! – Falou, e depois sorriu.
– Ok... Reila-san.
– Só Reila... Por favor. Enfim... Sobre sua pergunta, eu gosto de... – Começou a pensar. – Puxa! Acho que já te contei quase tudo que precisava saber. Exceto sobre... Minha coleção.
– Tem uma coleção?! De que? – Procurou demonstrar-se interessado. Finalmente, um assunto sem o guitarrista. “A não ser que colecione as cuecas dele.” – Pensou, rindo mentalmente da imagem que se formara em sua mente.
– Não vai dar risada? – Disse ela, interrompendo seu devaneio maldoso.
– Claro que não...
– Eu coleciono chaveiros.
– Que fofo! Combina com você...
Ela corara um pouco. Sem saber mais o que falar, respondeu:
– Kou-chan costumava me dar muitos chaveiros! – Ah, Takashima, novamente... Claro... E ainda sob um apelido bastante íntimo. Agora Takanori ficara realmente perturbado com isso.
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Kai caminhou até o bar improvisado que haviam feito no balcão da cozinha e serviu-se com uma pequena dose de whisky. Ia começar a beber quando se virou para o lado e viu um rapaz loiro, com uma faixa no nariz e o olhar opaco, do mesmo jeito que estava mais cedo: sentado com um copo vazio em mãos. A esta altura, já devia estar levemente embriagado.
– Aki-chan, você tá bem?
Ele não respondeu.
– Não... Fique assim. Você devia conversar com ele... Dizer como se sente, sabe...
– Dizer como me sinto sobre o quê? – Perguntou nervoso. – VOCÊ ESTÁ MALUCO, UKE YUTAKA?
As pessoas que estavam próximas se viraram para ver o que estava acontecendo. Akira gritava descontroladamente.
– É melhor parar de beber. – Respondeu Yutaka calmamente como sempre, saindo de perto dele.
Muitas pessoas curiosas entenderam naquele momento por que ele era o líder da banda, e que não estava sempre sorrindo, como aparentava ser.
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Uruha e Aoi observavam Ruki e Reila a uma distância de onde não podiam ser notados. O loiro logo notou que havia algo errado: Takanori parecia meio desanimado nos últimos minutos. Pegou o moreno pelo braço e começou a arrastá-lo para algum ponto na sala.
– Vamos lá. Eu a levo, você fica com ele.
Apesar das palavras subjetivas, Yuu entendera perfeitamente o plano.
Caminharam até o lugar onde estava o belo casal de baixinhos. Kouyou veio por trás de Reila, tampando seus olhos. Ela sorriu e disse num tom super animado:
– Kou-chan?!
– Não... O homem dos seus sonhos, querida! – E tirou as mãos de seu rosto, ambos deram risadas. O vocalista sorriu, sem graça.
– Pode vir comigo um segundinho, Reila-chan?
– Claro! – E levantou-se. Olhou de modo diferente para o loiro menor e completou. – Já volto, Taka-chan. – E saiu andando atrás de Uruha. Assim, Aoi ocupou o assento dela.
Matsumoto sentia-se estranho. Ela falava só do “Kou-chan”... E ainda por cima o chamava de Taka-chan?! Que garota era essa, afinal? Quem ela pensava que era para fazer isso?
– Etto... Taka... tá tudo bem?
– Ela é... Estranha. – E dizendo isso, jogou o corpo no sofá, esticando-se inteiro.
O guitarrista notou que essas palavras saíram, mas apesar disso, os olhos diziam outra coisa. Cintilavam assim quando como conheceu a namorada de número onze. Sim... Era um dia de primavera... Que irônico!
– Você se interessou bastante por ela, não é?
– Ela possui algo que as outras não têm...
– Sabe dizer o que é?
– Absolutamente... Não. É misteriosa. Misteriosamente... Agradável.
Quando o moreno iria lhe dirigir a palavra novamente, Kai passou por eles, gritando e batendo palmas:
– Hora do bolo! Vamos lá! – E saiu puxando o aniversariante pelo braço até a mesa onde estava disposto o bolo. Tinha uma cobertura de chocolate bem espessa e 26 velas sobre ele. Shiroyama lhe sorriu e deu uma piscadela. Uke retribuiu da mesma forma, deixando para trás o que pareceu um Yuu meio abobalhado.
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Minutos depois, todos finalmente estavam reunidos em volta da mesa quadrada, com muito custo. Vozes e conversas paralelas eram facilmente detectáveis, mas um som fez com que todos de calassem. Uruha puxou um coro com sua “harmoniosa” voz:
“Parabéns a você.... Nesta data querida...”
Logo, todos cantavam em uníssono, ou quase todos.
Reita estava parado em pé, um tanto distante da mesa, e não acompanhou os outros naquilo que julgara ser uma canção estúpida. Takanori não prestava atenção nele ou em qualquer outra coisa: apenas enxergava Reila ao lado de Kouyou, e mais nada. Definitivamente... Queria aproximar-se dela. Desejava-a.
Nem notou quando as pessoas pararam a melodia tradicional, só ressalvou Kai empurrando-o para cima do bolo, dizendo:
– Vamos! Apague esse monte de velas e faça um pedido!
“Um pedido.... Hein?”
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