Reila

7 Onde está a música?


:: CAPÍTULO 07 — Onde está a música? ::


[...] Uruha continuou, entre um beijo e outro. – Porém... Desta vez você terá que merecê-lo. Existem duas maneiras de fazê-lo... Você quer saber?

O loiro menor respondeu que “sim” com a cabeça.

Kouyou prosseguiu.

– Bem... Quero que você escreva uma música. Algo novo... Diferente, e... Que seja bom. Muito bom. – Deu ênfase na palavra “muito”. Depois continuou, dando uma leve mordida na pele do menor. – OOOOU você pode ir agora mesmo para o meu quarto... – Sussurrou isso no ouvido do outro, soltando-o com um sorrisinho malicioso nos lábios. Virou para o outro lado e tornou a olhar o céu enquanto acendia um cigarro que tirara do bolso.

Matsumoto começou a rir baixo, entendendo o real sentido daquilo, e por dentro, suspirou aliviado.

– Ok, só vou ali dentro pegar a cinta-liga, tá? – Respondeu, num tom que até parecia realista.

Uruha passou por trás dele e bagunçou seus cabelos carinhosamente:

– Você tem até quarta de manhã.

– Mas... Já é... Segunda de noite, Kou! – Exclamou, surpreso.

– E é isso que faz do desafio tão divertido. Acredite, irá valer a pena... Ou você não quer vê-la novamente? – Essas palavras com certeza tiveram um efeito absurdo no vocalista, e Takashima apenas sorriu. De certa forma, parecia que o guitarrista estava brincando consigo, mas contanto que os resultados fossem proveitosos para si...

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Naquele momento, Kai ficara corado, e simplesmente não conseguia se mexer. E ficaram assim por alguns momentos: um deitado sobre o outro, há apenas alguns milímetros de distância. A única coisa que impedia o contato de seus lábios era o cotovelo de Yutaka, no qual o mesmo caíra apoiado.

Nenhum ousou se mover por vários minutos, até que Aoi resolveu arriscar-se a falar, cuidadosamente.

– Então você gostou tanto de ficar em cima de mim que não vai mais sair, não é mesmo? – Disse isso em tom zombeteiro, apesar de estar quase tão irrequieto quanto o outro; apenas procurava não aparentar. Sentiu um impulso de agarrá-lo ali, naquele mesmo momento, mas não queria que as coisas acontecessem daquela maneira. Aliás, por que estava pensando isso? Ele não queria nada com Yutaka... Queria?

– Me desculpe, Yuu... Eu... Já vou. – Estava nervosíssimo e atropelava as palavras. Finalmente conseguiu levantar-se dali, e o guitarrista moreno sentou-se no chão, forçando um sorriso.

A seguir, Ruki adentrou a casa, encontrando Uke recolhendo a vassoura do chão e Shiroyama sentado. Em outra situação, teria perguntado o que acontecera ali, mas estava um pouco distraído demais para notar qualquer coisa.

Foi até seu quarto, com os morenos seguindo-o com os olhos. Nem percebeu esse fato: entrou e fechou a porta cuidadosamente ao notar que todas as luzes estavam apagadas e que Akira estava dormindo em sua cama, todo desajeitado.

Sorriu levemente e aproximou-se com cautela. Poderia ficar olhando para o baixista a noite toda...

Como estava ficando frio e ele estava descoberto e encolhido, o recém-chegado pegou com delicadamente o edredom e foi puxando pelo corpo do maior. Já estava quase o cobrindo por completo quando viu suas mãos, na altura do peito, segurando algo. A curiosidade tomou conta de seu pequeno corpo, e ele abriu levemente os dedos finos de Reita, notando um objeto que parecia um triângulo vermelho, só que com as extremidades arredondadas. Logo reconheceu o que era e sentiu uma onda de remorso.

Aquilo era uma palheta que ele dera ao amigo alguns anos atrás, quando fizeram seu primeiro show juntos. De um lado, uma assinatura ilegível, que ele distinguiu como o próprio autógrafo. No dia que o presenteou, disse que um dia aquilo valeria dinheiro, o que arrancou vários risos entusiasmados do maior. Do outro, um gatinho precariamente desenhado com a mesma caneta da assinatura.

As lágrimas teimavam em vir, mas o vocalista segurava com todas as forças, com medo de soltar um grunhido e acordar o amigo. Simplesmente fechou novamente os dedos dele e retornou a tarefa de cobri-lo.

Terminando, ajoelhou-se ao lado de sua cama e ficou olhando. Observou-o por bastante tempo, não sabia determinar quanto. Era como se as respostas para seus problemas fossem transparecer no sono tranquilo de Suzuki. Mas não aconteceu.

Quando resolveu que era hora de levantar, deu-lhe uma última olhada, notando que alguns fios de cabelo cobriam seus olhos. Silenciosamente afastou-os dali, e em seguida, beijou-o levemente na cabeça, aspirando o doce cheiro que o cabelo dele exalava. Finalmente, levantou-se e foi para a cama. Ainda demorou uns bons minutos para adormecer.

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Horrível. Era a palavra que se passava na mente de Takanori enquanto ofegava e arfava freneticamente na cama. Acabara de acordar de um pesadelo horrível... Mas com o que era mesmo?

Reita estava lá. Só de pensar nisso, o coraçãozinho dele já bateu bem mais forte.

Alguém morria, também. Havia muito, muito sangue... E uma música. Ao longe, uma melodia, tocada num violão. Não se lembrava bem, pois estava muito mais preocupado com o sangue.

Passou a mão com os dedos entreabertos pela cabeça, acariciando seus fios descoloridos. Resolveu que, não importava que horas fossem, era melhor ficar acordado. Não iria conseguir voltar a dormir, de qualquer forma.

Ao se levantar, notou um barulho do outro lado do quarto. Akira observava silenciosamente o amigo, que parecia apavorado quando acordou. Mas quando o mesmo levantou-se, ele virou de volta para o canto da parede, fingindo estar dormindo. O menor apenas saiu do quarto, com cuidado, lançando um último olhar ao baixista antes de fechar a porta novamente.

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A sala estava pouco iluminada. O vocalista continuou a caminhada em direção a cozinha quando notou que já havia duas pessoas no lugar onde estava indo: Kai e Uruha preparavam ‘O Senhor Café da Manhã’ para aquele dia. Achavam que depois da noite difícil, isso melhoraria o ânimo de todos.

– Ohayo, Ru-chan! – Disse Kouyou, que estava quebrando alguns ovos. Yutaka, que misturava algo em uma tigela, repetiu o procedimento e desejou bom dia animadamente ao mais baixo dentre eles.

– Bom dia... – Foi a resposta desestimulante que obtiveram. Ruki sentou-se no balcão que estivera na noite anterior e ficou observando os dois trabalharem, em silêncio.

O guitarrista colocou o dedo indicador na mistura do moreno, molhando-o com uma substância pastosa de cor marrom. Assim, andou rapidamente até onde Takanori estava, ficando em pé por entre suas pernas e lhe oferecendo o dedo melecado com o que o menor reconheceu por calda de chocolate. Receoso, ele começou a lamber lentamente a ponta do dedo oferecido. O caldo estava um pouco quente, mas bastante gostoso. Continuou saboreando devagar, enquanto Takashima o observava sorridente. Este segundo começou a falar, um pouco depois:

– Dormiu bem, meu amor? – Ele apenas assentiu com a cabeça. O guitarrista prosseguiu. – Não parece... Sabe, ainda é bastante cedo... Você tá meio pálido e com uma olheira que quase chega na bochecha. Tá bem mesmo?

Desta vez, Matsumoto segurou a mão que o guitarrista mantinha erguida à sua frente, parando de lambiscar o dedo e fitando-o, incerto. Posteriormente começou a falar, baixinho, para que Kai não ouvisse.

– Não dormi muito... Fui dormir bem tarde e agora pela manhã acordei tendo pesadelos. Mas não estou cansado, não... Não se preocupe. – Forçou-se um pouco para sorrir, e em seguida, voltou a limpar o dedo do maior, ainda segurando sua mão. Este, por sua vez, com a mão livre, acariciou o rosto do outro.

– Você foi o primeiro a ir para o quarto. Não conseguiu pregar os olhos?

Ele não queria contar o que andou fazendo naquela noite.

– Ah, sim... Só que não consegui dormir mesmo. Fiquei pensando em algo... Pra música, sabe? – Foi a primeira desculpa boa que passou em mente. Pelo jeito, convenceu.

– Que bom que não se esqueceu! Realmente, vai valer a pena! – Terminou a frase ao mesmo tempo em que o pequeno tirava a boca de seu dedo, mas continuou segurando a mão, acariciando-a de leve, sem nem notar o que fazia.

– Quer soltar minha mão ou tá procurando as palavras certas pra me pedir em casamento? – Zombou Uruha, parando de acariciar o rosto do menor e levando a mão à cintura. Ruki imediatamente soltou a mão dele ao notar o que fazia, apressando-se em responder:

– Ah, não, não foi nada... Gomen... – E então abaixou o olhar para fitar os pés.

O mais alto continuou parado em frente a ele.

– Me diz logo o que você tem, chibi... Por favor...

– Eu não...

– É o Reita, né? – Interrompeu-o. E Takanori apenas ficou calado, o semblante mais triste que nunca. O maior continuou. – Ah, querido... Vocês dois, hein?!

– Nós dois... Não temos mais nada.

– Você devia tentar conversar com ele hoje. A ressaca provavelmente vai deixar ele rabugento, mas pelo menos, estará sóbrio. Já irá te ouvir melhor...

– Hmm... Tem razão. Depois eu tentarei...

– Melhor assim. – Dizendo isso, o loiro maior sorriu e afagou levemente os cabelos do menor.

Yutaka ouvia a cena silenciosamente, e um sorriso brotou em seus lábios ao ver como Uruha era doce e atencioso. De certa forma, e uma forma bastante estranha, sempre ajudava a todos.

Em alguns minutos, o guitarrista loiro e o baterista terminavam de preparar pratos deliciosos, e Ruki os ajudava a postar a mesa. Terminado o trabalho, o loiro menor foi chamar Aoi, Kai tratou de ir atrás de Reita junto com Uruha.

Dentro de poucos minutos, Takanori e Yuu vinham conversando pelo caminho e sentaram-se à mesa. Porém, com Akira foi bem mais complicado: ele veio praticamente arrastado. Shiroyama certamente não gostou de ver Kouyou e Yutaka trabalhando juntos naquilo, mas procurou manter-se calmo. Não sabia o motivo desse repentino desagrado. Sabia?

Por fim, o café da manhã estava oficialmente começado.

Sobre a mesa, toda a variedade de coisas gostosas que se pudessem imaginar. A calda de chocolate que o vocalista provara mais cedo estava agora cobrindo um bolo de cenoura. Frutas, pães, torradas, sucos, leite e vários outros itens que davam alegria só de ser vistos.

Por outro lado, os habitantes da casa não estavam nada bem. Nenhum ousava desviar o olhar de seu próprio prato. Assim ficaram por muito tempo, até que a voz do guitarrista loiro soou suavemente:

– Ah, modéstia a parte, tá tudo uma delícia! Bem, é claro que está, já que eu e o Uke-san fizemos com muito amor. – O comentário fez Yutaka sorrir, mas Aoi teve que se segurar para não lançar a faca que tinha em mãos contra o companheiro de instrumento.

Takashima logo notou o efeito que o que ele disse teve, e sorriu, vitorioso. Tirando esse comentário, mais nenhuma palavra foi proferida até que todos estivessem satisfeitos.

Yuu foi o primeiro a levantar. Sem dizer nada, foi para o quarto.

Depois Kai começou a falar:

– Beeeem pessoal, eu vou dar uma saída. – Com isso, levantou-se da mesa sorrindo e abandonou o recinto.

– Certo, certo... Eu fico com a cozinha desta vez. – Ao dizê-lo, Uruha lançou um olhar para Ruki, que logo notou ser esta sua deixa.

Reita foi o próximo a levantar-se, silenciosamente, e saiu para a varanda da casa. Takanori ainda continuou incerto, sentado por uns minutos. Sentiu, então, um toque em seu ombro. Nem precisou virar pra saber quem era.

– Vai lá falar com ele, vai...

Obedecendo ao conselho, o menor levantou-se e caminhou pesaroso até a porta, consciente de que um belo par de olhos ocres o seguia. A parte boa é que fugiu da louça.

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O dia estava feio, agora que Takanori o via do lado de fora. Ventava forte, o que fazia com que os cabelos de Akira voassem suavemente. Ele estava recostado à mureta que ali havia, o olhar fixo no nada.

Matsumoto passou um tempo observando-o, e finalmente, resolveu se aproximar. Foi devagar, caminhando cautelosamente até chegar ao lado do amigo, apoiando-se na mesma mureta que ele, que continuou olhando o além.

– Erm... Rei-chan... Tá tudo bem com você? – A voz do menor saiu meio chorosa, sem querer. O outro ignorou por um tempo, mas depois, sem se virar, respondeu-o:

– Tudo bem sim. Só vou me certificar de que nunca mais beberei tanto. Minha cabeça parece que vai explodir a qualquer instante. – Aquilo era um claro pedido para que o vocalista se retirasse, e ele logo notou.

– Que bom... Eu... Pensei que houvesse algo errado. Isso já estava me entristecendo um pouco... É ótimo saber que está bem. – Ele forçou um sorrisinho, e apesar de saber que o baixista estava mentindo, achou melhor não contrariar. Apenas desencostou-se do pequeno muro, passando a mão pelos fios loiros do mais alto e se afastou. Antes de entrar, ainda completou. – Espero que melhore logo...

Não pôde deixar de notar que estavam mais distantes que nunca... Mas talvez ele só precisasse de um tempo. Continuou a caminhada e entrou na casa, fechando a porta delicadamente. Era engraçado como há apenas um dia, ele quem recebia os carinhos e palavras estimulantes do maior. As coisas realmente mudavam rápido, concluiu.

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Depois de voltar para o quarto vazio, Takanori decidiu que precisava fazer algo para se distrair. E há alguma distração melhor do que gastar dinheiro?

Rapidamente, colocou uma camiseta negra com estampas brancas, uma calça jeans simples e saiu de casa enquanto colocava óculos escuros sobre os olhos castanhos. Resolveu andar pela cidade um pouco até achar alguma coisa onde gastar as notas que carregava em seu bolso traseiro.

Devido ao tempo ruim, as ruas não estavam muito cheias, para sua própria sorte, já que estava tão mal “disfarçado” naquela hora. Num dia de sol, provavelmente já teria uma fila de fangirls atrás dele.

Certo tempo passado, encontrou a primeira loja na qual entraria aquele dia: uma loja de doces. Para sua surpresa, saiu de lá com apenas uma pequena sacola, contendo duas tortinhas de maçã e algumas balinhas de menta. O motivo de ter tão poucas coisas consigo uma vez que gosta tanto de doces é que, ao entrar na loja, os doces de morango predominavam, fruta que ele não gostava. Assim, comprou logo qualquer coisa e saiu de lá.

Andou mais um bocado. Quando começou a sentir fome, manducou uma das tortas que levava. Nada o chamou a atenção, até que viu uma loja de CDs. Interessado, entrou ali.

Várias coisas atiçavam sua curiosidade ao mesmo tempo. Inclusive, avistou o último CD lançado pela sua própria banda... Era incrível como tantas músicas, tantos momentos e emoções cabiam em um objeto redondo com um furo no meio.

Continuou andando e viu um monte de outros disquinhos interessantes, sempre se interessando pelos que tivessem capas mais bem elaboradas. Observar a arte gráfica delas era um de seus passatempos estranhos. Mais ao lado, um bolo de pôsteres atraiu sua atenção. Começou a mexer lá... Geralmente achava coisa muito engraçadas.

Notou várias pessoas conhecidas fotografadas em papel pouco resistente. Encontrava com muitos daqueles andando ocasionalmente pela gravadora, conhecia e admirava tantos outros dali. E para as outras pessoas, aquilo parecia tão distante... Eram só pessoas.

Cavando dentre os papéis, achou um muito engraçado do Uruha, com grande parte das coxas de fora e sorriu. Continuou a escavar até que um ali lhe chamou a atenção. Um dos Sex Pistols... Todos vestidos de preto, carregando seus instrumentos, e o vocalista segurando transversalmente a base metálica do microfone com uma das mãos, a outra apontando para frente. Era bem atraente, e Ruki lembrou-se de uma pequena lacuna na parede do quarto, entre tantos outros pôsteres, onde esse se encaixaria perfeitamente.

Pagou por ele rapidamente antes que a caixa o reconhecesse e saiu correndo da loja. Não que não gostasse dos fãs, ao contrário: adorava quando pessoas apreciavam seu trabalho, mas naquele dia em específico só queria ficar só por um tempo.

Mais uns minutos de caminhada e Ruki encontrou uma daquelas feirinhas onde vendem de tudo. Não estava muito cheia, então ajustou os óculos escuros e adentrou.

Uma vez lá, viu que de fato havia realmente uma grandíssima variedade de coisas: cada barraca trazia uma nova coleção de bugigangas. Comprou lá algumas correntes finas para fixar em roupas e afins, um pequeno estojo de maquiagem, esmaltes pretos e quando já estava quase no fim do corredor de barraquinhas, viu uma que vendia chaveiros de biscuit. Imediatamente, seu pensamento foi voltado para Reila. Achou que seria legal aumentar sua coleção, nem que fosse um pouquinho.

Começou a vasculhar os montes de objetos em busca de um que fosse bonitinho. Demorou muito para achar um que o satisfez: um gatinho branco sorridente, com um laço cor-de-rosa amarrado no pescoço. Em sua pata direita, um pequeno passarinho amarelo, também sorrindo. Pagou-o também com a mesma discrição da loja anterior, fazendo o possível para falar o mínimo que conseguisse, com a cabeça baixa.

Satisfeito com sua sacola de compras, sentou-se em um banco perto de um pequeno conjunto de árvores para poder comer sua segunda tortinha de maçã... Quando um pingo de água caiu em seu nariz. Depois outro... Outro... E mais um. Logo, o que eram apenas uns pinguinhos transformou-se em uma chuva grossa.

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Agora Reita estava sentado no balcão da cozinha, comendo algumas uvas e observando Uruha terminando de lavar a louça depois de seu pequeno café da tarde.

– Hum... Rei... Você tá melhor da cabeça?

– Melhor da cabeça? Tá me chamando de doido agora é? – Dizendo isso, sorriu levemente e colocou outra uva na boca.

– Quis dizer da dor de cabeça, idiota.

– Bastante melhor depois daquele seu café horrendo e das aspirinas. Mas nem se eu comer um zibilhão de uvas esse gosto amargo vai sair da minha boca.

– Zibilhão? Não conhecia essa unidade. Deve ser legal. – Falou, meio distraidamente.

Ficaram em silêncio por mais uns minutos ouvindo apenas o som da forte chuva, até que Kouyou puxou uma banqueta e sentou-se de frente para Akira no balcão, pegando uma de suas uvas e olhando-a por uns instantes.

– Sabe, Aki... O que você fez com a Reila não foi nada legal. Ela é minha amiga e eu vou fingir que acredito que tudo aquilo foi por causa da bebida, tá? E espero que ela também acredite.

– Eu não. Com o álcool ou sem ele, eu não gostei daquela... Daquela... – Já ia dizendo algo muito pejorativo quando parou para pensar; então, completou. – Garota.

– Há uma boa possibilidade dessa “garota” voltar aqui em breve. – Mediante essa revelação, a face de desgosto de Suzuki foi notável.

– Pensei que ela não voltaria nunca mais. Não quero que volte.

– Na verdade, há uma possibilidade de ela não vir, claro. Eu andei fazendo uma aposta com Ruki... – Naquele momento, o desgosto sumiu daquele semblante pra dar lugar à preocupação.

– Uma aposta de que gênero?

– Ah, fique calmo, fique calmo... Eu só pedi para ele escrever uma nova música... – Enquanto conversava com o baixista, rolava a mesma uva que pegara momentos atrás por entre os dedos, fitando-a desatentamente. – Mas isso seria fácil pra ele. A parte desafiadora é que ele só tem até amanhã de manhã. Se ele ganhar, eu dou o telefone da Reila-chan pra ele. Simples assim.

Akira pareceu, ao mesmo tempo, tranquilizado e nervoso.

– Bem, espero que ela não volte, e não quero ter nada a ver com isso.

– É importante pra ele.

– Ele que se foda. – Depois das palavras tão ríspidas, levantou-se num salto e foi para seu quarto.

– Hmph... Infantil. – Dizendo isso, comeu a uva que manteve por tanto tempo em mãos.

Após essa, deglutiu mais uma, e foi as comendo sem consciência. Estava pegando uma quarta quando ouviu barulho de passos, correndo na varanda. Foi até a janela lentamente e encontrou um Ruki totalmente ensopado. Saiu correndo até o banheiro, pegou a toalha dele e novamente, correu até a varanda.

– Olá, Ru-chan.

– Koooooooooooooooooooou! – Prolongou o vocativo, manhosamente. – Tá chovendo muito... O Kai já voltou?

– Não... – Uma nota de preocupação repentina ficou visível em sua voz.

– Nossa, já é tarde... Ele não tem onde passar a noite, também... O que será que ele foi fazer?

– Não faço ideia...

Por um momento, ficaram quietos enquanto Takanori tirava os sapatos e meias molhadas. Um pouco depois, Kouyou lhe jogou a toalha.

– Se seca logo ou vai ficar doente... E, aliás, você só tem esta noite para escrever a música. Boa sorte... – Terminando a frase, entrou na casa, deixando um loiro confuso na varanda. Ele não tinha ideia do que ia fazer. Não havia inspiração, nada. Ele poderia fazer uma música de amor, mas no momento, não sentia amor. Poderia fazer uma música de ódio, mas tampouco o sentia. E assim foi descartando a maioria das possibilidades até que não tinha mais nada. Terminou de se secar o melhor que pôde e entrou em casa, indo diretamente ao banheiro para evitar molhar outros lugares.

Já no cômodo azulejado, tirou as vestes úmidas e colocou em um pequeno cesto de vime, depois apanhou um roupão felpudo e vestiu-se com ele. Feito isso, pegou as sacolas que levara para o banheiro consigo sem nem notar e foi andando lentamente até o quarto. Não havia ninguém na sala ou na cozinha, logo, presumiu que Reita estaria no cômodo.

Ao entrar, notou que o baixista, de fato, se encontrava lá; mas não teria problemas, pois ele estava dormindo. Tentou, o mais silenciosamente possível, colocar as sacolas sobre a sua cama, retirando delas todo o seu conteúdo. Guardou as coisas que comprara para si próprio, deixando de fora apenas o chaveiro e o pôster. Colocou estes dois sobre a mesa de cabeceira, e junto com eles, dois pequenos cartões que comprara no caminho de volta. Um tinha o nome de Reita, o outro, de Reila. Na hora que fora escrever os nomes, acidentalmente trocou os cartões e acabou por escrever o nome de Reila em ambos. Para sua sorte, notou que um “T” é nada mais do que um “L” cortado. Riscou a dita letra, mudando automaticamente seu destinatário.

Terminando de arrumar as coisas com cautela, abandonou o quarto, fechando a porta com um “clique” suave. Akira nem se movera.

Sua próxima parada foi a sala de música, de onde apenas pegou um violão negro que pertencia a Aoi, lápis e um caderno. Lá tinha uma quantidade realmente imensa de instrumentos, em geral, a maioria eram guitarras e violões. Abandonou o recinto antes que derrubasse algo que fizesse muito barulho, então, saiu novamente para a varanda.

Uma vez lá, acomodou-se confortavelmente em uma cadeira, apoiando o lápis e o caderno sobre uma mesa ao seu lado direito e o violão no chão, do lado oposto. Deste modo, passou a observar a chuva, agora protegido dela.

“O que eu faço agora? É como se eu nunca tivesse escrito nada na vida... E ainda por cima, Kou quer que seja algo bom e completamente diferente. tô ferrado.”

E seria apenas com esses pensamentos otimistas que ele iria contar a noite toda.

Notas finais
N/A: Sumiço do Kai-chi, gentem... CADÊ O CHINELO? D: Mas o ponto alto do capítulo ainda foi o Ruki lambendo calda no dedo do Kou! Enfim, enfim... Tudo isso em um capítulo só, hein! O que me faz querer fazer umas pequenas apostas com você *viciada* 1) Onde o Kai foi e o que foi fazer?/Miyavi.oi 2) Qual será a música que o Ruki vai escrever? (Essa é difícil *apanha*) Não deixem de dar seus palpites nos reviews, adoro saber as conclusões de vocês.