Reila
17 E como o tempo voa...
:: CAPÍTULO 17 – E como o tempo voa... ::
Caminhavam os dois morenos em silêncio. Desde o incidente com o pó de curry, Aoi só pensava em dar um jeito naquele maldito Kouyou. Como aquele rapazinho tão lindo poderia ter feito tantas maldades? Repreendeu-se por chamá-lo de lindo, mas não tinha como negar que ele o era.
As sacolas em suas mãos pesavam. Fez questão de pegar as mais pesadas das mãos de Uke, que só ficou bravo com isso. Alegou que era um homem e que não precisava dessas gentilezas vindas de Aoi. Mas Yuu apostava qualquer coisa que se fosse Uruha quem quisesse carregar, ele sorriria feito uma colegial.
Andava bem atrás, procurando não manter nenhum tipo de contato com o baterista, nem ao menos visual, mas olhou para Yutaka quando ele jogou todas as sacolas que carregava no chão. Então o garoto fortinho não aguentava carregá-las, huh? Não, não era isso. Ele tinha consciência de que Kai era bem mais forte do que si. Fazia muitos exercícios, caso contrário, não aguentaria fazer shows de três horas ou mais todos os dias. A bateria poderia ser muito ingrata.
– Algo errado? – Perguntou, por mera formalidade.
– Eu que pergunto, Aoi. Você tem agido estranho... Nem parece mais meu Yuu de uns dias atrás. Tudo bem? – Shiroyama jogou as próprias sacas no chão e olhou para o moreno a sua frente.
– Você também está diferente. Tem passado muito tempo com Kouyou...
E mesmo na sua inocência, Kai sorriu malicioso, entendendo pelo menos em parte o que era isso.
– Não me diz que está com ciúmes, Yuu-chan... – O mais velho sentiu o rosto ir ficando quente cada vez mais, já sabendo que isso denunciaria sua resposta. – Ah, o Yuu tá com ciúmes... Hey... Não precisa disso. Eu gosto muito de você Aoi, você sempre vai ser meu amigo.
O chão sumiu por incontáveis segundos. Amigo? Sempre? Então era assim que Uke o via?
Foi envolvido por um abraço que mal conseguiu retribuir, e lentamente, continuaram a fazer o caminho de volta. Yutaka ainda acenou para Reila que ia na direção contrária, Yuu limitou-se a um “tchau” sem emoção. Só queria fumar, mas o cigarro estava em casa. Certificaria-se de nunca mais andar sem seu maço.
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Quando a música parou, Ruki ainda sorria. O tempo estava esfriando um pouco, já deviam ser umas duas ou três da tarde. Resolveu entrar, considerando que ainda demoraria um pouco para Kai e Aoi chegarem.
Entrou lentamente no quarto. Agora o quarto era só seu. Era um quarto muito grande pra uma pessoa só. Deitou-se na própria cama e viu a cama ao lado, vazia. Yutaka estava dormindo no quarto de Uruha, poderia dizer que havia uma cama disponível ali. Se bem que considerando como as coisas andavam entre Uruha e ele, era melhor não se intrometer.
Agora eram só ele e as paredes brancas que o fitavam incansavelmente. Tudo parecia quieto demais, silencioso demais. Solitário demais.
E o que fazer agora? Akira não queria vê-lo de jeito nenhum, e ele compartilhava desse sentimento com o baixista. Yuu estava meio estranho de uns tempos para cá, tal como Kouyou, que estava ensaiando e provavelmente não gostaria de ser interrompido. O único que restava era Yutaka, que nem estava lá. Precisava de mais aliados... E a única vítima disponível era Takashima. Não ficaria bravo com uma visitinha do jeitinho certo. O guitarrista era manhoso demais pra negar um cafuné.
Pegou uma caixa de cigarros que estava ali por cima e saiu do próprio quarto, indo direto para a sala de música logo ao lado. Encontrou o loiro que procurava debruçado sobre um violão preto, segurando duas baquetas nas mãos e olhando fixamente para a bateria. Apesar de olhar tal instrumento, parecia não ver nada, a mente num lugar bem longe dali.
Takanori resolveu fazer algo que o mais alto fazia com frequência. Chegou silenciosamente por trás dele, aproveitando a distração que o envolvia. Cuidadosamente por causa do nariz que continuava inchado (mas bem menos intensamente do que mais cedo), colocou as mãos sobre os olhos do mais velho, que se sobressaltou.
Recostou seu corpo contra o dele, apoiando a cabeça em seu ombro e cochichou de maneira sexy:
– Adivinha quem é?
– Yukkun? – Falou, um sorriso infantil se mostrando nos lábios bonitos. Matsumoto destampou-lhe os olhos, abraçando-o por trás e fazendo uma leve carícia em seus cabelos.
– Não, é o Ruki. – Um leve muxoxo se fez presente, e logo Takashima se aconchegava melhor nos braços de Takanori, aproveitando a rara carícia que lhe era desferida.
Ainda assim, não soltou as baquetas ou parou de fitar a bateria. Os olhos estavam perdidos e a mente em um lugar bem longe. Ou provavelmente em um “lugar” moreno que se aproximava cada vez mais da casa.
– Ne, Shima... Você gosta do Kai, não é verdade? – Chutou o loirinho, quase certo do que falava. Não obteve resposta, por mais que esperasse. Mas já previra uma reação evasiva de qualquer natureza.
Sentindo a necessidade, deu um beijo leve na face do amigo, vendo-o apertar os pedaços de madeira que mantinha em mãos. Não precisava de mais nenhuma palavra. Deixou um dos cigarros do maço que pegara consigo num lugar onde Uruha fosse o achar facilmente quando “acordasse” e saiu, vendo Yutaka na cozinha guardando as compras.
– Bem vindo de volta, Kai. – Falou, um tanto quanto baixo. O baterista sorriu. – Precisa de ajuda com alguma coisa?
– Não, pode deixar... Já estou acabando aqui, vou fazer o almoço. Devem estar morrendo de fome, mas... Aconteceram uns imprevistos e a gente se atrasou... Sinto muito.
– Ah, não se preocupe, Yutaka. Mas... Falando nisso... Cadê o Shiroyama? Abandonou ele no mercado, foi? Ou a mente super ágil dele fez com que se perdesse mesmo?
– Não... Ele está lá fora.
– Ok, vou lá vê-lo... Se precisar de algo, sabe onde estou. – Não esperou resposta do moreno, apenas saiu pela porta da frente, encontrando o outro guitarrista num lugar que agora quase sempre ficava, numa pose igual a que sempre estava, olhando o mesmo ponto interessante que sempre parecia procurar. Respostas, talvez. Era o que todos eles estavam procurando naquele momento.
Com a mesma delicadeza que fizera há pouco, abraçou Yuu pela cintura, encostando a cabeça nas costas do amigo por não poder alcançar nada além.
O primeiro pensamento de Aoi é que Uruha estava, novamente, o agarrando. Não seria surpresa alguma, isso sempre acontecia. “Não nas últimas semanas”, pensou, inconscientemente pesaroso. Mas quando uma cabeça encostou em si, teve certeza de que só uma pessoa dali poderia ser tão pequena.
– Oi, Takanori.
– Olá, Yuu... Quer um cigarro? – Estendeu-o para o moreno, que aceitou e acendeu com o isqueiro que mantinha no bolso, guardando-o em seguida e levando o cilindro aos lábios fartos. Era só aquilo que precisava, não era? Um bom cilindrinho que diminuiria sua atividade pulmonar até que morresse. Perspectiva animadora.
Ruki permaneceu agarrado com força ao moreno, acariciando suas costelas delicadamente com as pontas dos dedos, sentindo a saliência entre cada uma delas. A verdade é que se sentia sozinho, também. Desde que Reila se foi estava um tanto carente. E isso não devia fazer nem uma hora...
– Yuu-chan... Você gosta do Yutaka, né? – Perguntou repentinamente ao maior, que ficou tenso e inclinou-se mais para frente.
– Hmph... – Essa foi sua resposta. O loiro sorriu e bagunçou seus cabelos brevemente. Aquilo era um problema. Tudo era um problema ultimamente. E a quem culpar, no fim? Ao aquecimento global? Nas coisas do coração nós não mandamos, concluiu.
Foi com sutil padecimento que soltou Shiroyama e voltou a passos lentos para dentro da edificação pouco aconchegante, por causa daquele clima tão... Mórbido. Fazia doze dias desde que foram todos morar juntos e já estavam daquele jeito? Talvez não fosse certo misturar o profissional com pessoal, fora uma péssima escolha fazer tal sugestão.
Dirigiu-se sorrateiramente à cozinha e abraçou Uke por trás, repetindo o procedimento. Yutaka sorriu.
– Todo mundo gosta de você, Kai... Eu também te amo, tá? – Deu um beijo nas costas do amigo, que se virou e fez um cafuné simpático no menor.
– Eu também gosto de você, chibi. Todos gostamos... – E viu o outro sorrir inocente por um momento. Antes de dizer “todos”.
– Nem todos gostam tanto assim...
– Ei, eu sou o líder do GazettE e falo por todos. E nós te amamos. Ele também ama você, só está com problemas. Se não amasse, não teria dado o remédio que te fez ficar melhor.
– Ele...? – O baterista provavelmente não sabia dos últimos acontecimentos.
– Sim sim... – Sorriu expondo as amáveis covinhas e voltou-se para as panelas que estava mexendo.
– Sabe... Ele quase quebrou o nariz do Kou hoje.
Ao ouvir tal declaração, o mais velho deixou cair a colher que segurava dentro do caldeirão fumegante de curry.
– QUÊ?
– O Shima foi me proteger quando ele queria me bater, então levou um soco certeiro no meio da cara.
– Suzuki tentou te bater? Você tá bem? Como tá o Takashima? Por Deus, onde ele está?
– Ele tá bem, lá na sala de música...
Assim, Uke saiu correndo como um raio, esquecendo de todas as outras coisas naquele momento. Como Reita pôde...?
O vocalista encarregou-se do almoço daquele dia.
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Rapidamente as agonizantes horas se passaram e se transformaram em dias. Três dias.
O fim de semana foi realmente deprimente, as pessoas quase não se olhavam entre si e quanto mais tempo pudessem passar afastadas, o fariam.
Takanori sentia falta de Reila. A garota estava, de fato, com algum problema na linha telefônica. Queria falar com ela para mostrar que ela não havia sido apensa mais uma que ele levianamente levou para a cama. Pelo menos ele queria acreditar que não era isso. Escreveu-lhe então uma carta e agora estava admirando seu trabalho.
Olá, Reila.
Nem faz tanto tempo que nós nos vimos, mas já estou com saudades. Em três dias, hein? Olha o que você fez comigo...
Bem, queria receber notícias suas.
Por aqui as coisas estão... Agitadas.
O nariz do Kou melhorou bastante, o Kai cuidou dele direitinho, não parava de perguntar se estava bem. Akira não saiu muito do quarto desde aquele dia, não o vi mais. Acho que se tivesse visto também, o próximo nariz a ficar gravemente torto seria o meu. Só não descobri bem o motivo ainda. E nem tô a fim de falar com ele. Mas isso não importa, né?
O Kai-chi mandou um oi. Disse que você é bem vinda aqui sempre que quiser. Uruha também mandou um beijo. Aoi anda desanimado, mas tenho certeza que se conversasse mais com você, não ia mais querer desgrudar. E eu definitivamente odiaria isso.
O quê mais dizer... Nem são tantas novidades, né. Só três dias (risos)...
Minhas férias estão acabando. Logo a gente volta pra gravadora malvada que não deixa a gente comer bem. Ah... Mas a gente vai voltar com tudo. Escrevi uma música nova e o Kou está muito animado com ela. Só que a gente não tocou com todo mundo junto por causa desses incidentes. Acho que ficaria boa.
Se algum dia estiver por perto, não se esqueça de vir aqui em casa. O Yutaka disse e eu repito: você é bem vinda. Sempre vai ter um espacinho pra você.
Enfim, espero que esteja muito bem.
Muitos beijos e abraços...
Matsumoto Takanori.
Era um trabalho satisfatório, ou no mínimo aceitável. Lentamente, dobrou o papel e colocou dentro do envelope. Quando ia pegar a cola para fechá-lo, acabou por olhar o relógio do celular que estava próximo. Quase dez horas da noite, não era tão tarde. Ainda dava tempo de passar no correio, talvez. E a carta ia demorar um pouco pra chegar. Quando chegasse, ele já ia querer mandar outra. Ela ia ter que atravessar o mar, isso pra não falar que nem sabia o caminho que faria depois disso. Se tivesse colocado pela manhã, talvez uns dois dias... Mas a essa hora, só amanhã; então seriam três, na melhor das expectativas.
Pensava muito enquanto colocava os selos no envelope. Terminando sua obra de arte, pegou os óculos escuros e uma touca. A carteira e o maço de cigarros o esperavam no balcão da cozinha. Teria que sair logo.
O correio não ficava longe, mas o porto sim. Entregaria a carta ele mesmo.
Notas finais
Mas já fazia um tempo que eu não postava, então está aqui. Espero que não joguem muitas pedras -.-
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