Reila
1 Dia da Mudança
:: CAPÍTULO 01 – Dia da Mudança ::
Era uma alvorada amena. Feixes de luz penetravam pelas janelas de uma casa bucólica no meio de um bosque pouco denso.
Naquela manhã, apesar de já ter passado das 10 horas, Kai e Aoi continuavam em seu quarto, com a porta trancada, provavelmente ainda babando de tão adormecidos. Reita estava sozinho, também em seus aposentos, porém era possível observar pela porta entreaberta que estava acordado e ocupado afinando seu baixo, que emitia sons graves ao ser dedilhado.
Ruki estava em uma sala bastante iluminada, sentado ao lado de uma mesinha. Terminava de tomar uma xícara de café enquanto segurava o jornal do dia com a mão livre, na altura dos olhos. Entrementes, Uruha saia de seu dormitório, pronto para viver mais um dia. Dirigia-se para a cozinha, lugar onde faria o desjejum, quando fitou o loirinho ainda em seus trajes de dormir. Desviou seu caminho, indo em direção ao mesmo com um belo sorriso estampado na face.
– Ohayo, Ru-chan!
– Olá, Kou... – Respondeu, com um inigualável desânimo que parecia contagiar toda a atmosfera ao seu redor. Porém, tal depressão não afetava o guitarrista à sua frente, que continuava a sorrir radiante. Voltou a fitar o jornal com um olhar falso de profundo interesse, o que despertou a curiosidade de Takashima. Este resolveu se aproximar para ver em que o menor estava tão compelido, e logo notou algo errado.
O sorriso diminuiu de intensidade enquanto um olhar fraternal nasceu em seus orbes de límpida cor ocre.
– Fica calminho, chibi... As coisas vão mudar de agora em diante. Eu sei que vão. – Ao dizer isto, Kouyou tomou o jornal das mãos de Takanori e virou-o carinhosamente para o lado correto, uma vez que estava de ponta-cabeça. Depois sorriu, afagou levemente os cabelos descoloridos do vocalista e virou-se para continuar seu percurso à cozinha. Takanori ainda tentou esboçar um leve sorriso em agradecimento, mas seus lábios pesavam. Algo simplesmente não o deixava fazê-lo.
Sem sucesso em sua “atuação de felicidade”, segurou o jornal com mais firmeza à sua frente para finalmente tentar ler. Agora fazia um pouco mais de sentido. As letras ainda se embaralhavam em sua mente, mas teve algo que conseguiu ler claramente.
"Dia 31/01. Então já faz uma semana desde que nos mudamos para cá...? O tempo vai passando.” – Pensou o loiro, melancolicamente.
Apesar de já fazer exatos sete dias desde a mudança, o cenário continuava cheio de caixas e mais caixas, todas empilhadas e desajeitadas, observação que não passou despercebida.
“Se ao menos ela estivesse aqui, poderia me ajudar... Ou apenas sorrir para que eu tivesse alguma motivação para seguir em frente.” – Os pensamentos estavam fora de seu controle, e apesar de evitar veemente pensar na ex-namorada, o simples ato de respirar a remetia. – “As coisas mudam rápido.” – Concluiu. Não tentou mais evadir-se quando os últimos eventos da própria vida começaram a passar em sua mente.
Tudo, semanas atrás, parecia perfeitamente estável. O relacionamento dele com sua namorada também estava ótimo, e, assim sendo, era natural que quisessem passar cada vez mais tempo juntos. Entretanto, o loiro jamais abandonaria a banda; algo assim parecia inconcebível. Além disso, também queria passar mais tempo perto dos garotos, uma vez que aquela amizade aprofundava-se a cada instante.
Uma solução formou-se em sua mente, e secretamente, foi elaborando seus planos. Certo dia e com muito esforço, consegui por fim convencê-los de que seria agradável se todos eles morassem juntos. Mas no fundo, esta atitude tinha mais de um sentido. Queria também poder vir morar mais perto dela, que residia tão longe do centro da cidade.
Naquele dia, falaram com seus responsáveis na gravadora que lhes concederam as férias que há tanto mereciam. Nos últimos dias fazia muito frio, então era melhor que cuidassem da saúde para não adoecer, e era um motivo importante. Se morassem juntos, teriam mais tempo para produzir, e no fim seria mais lucrativo.
Então Akira e Takanori saíram à procura de casas. O maior estava animado, e Matsumoto contou-lhe o desejo oculto de residir mais perto de Hana. Suzuki sorriu, incentivando a ação. Qualquer coisa que fosse fazer o menor feliz o faria feliz, também. E como o vocalista adorava aquele sorriso que lhe era desferido!
Depois de horas de procura, nada os parecia satisfazer. O corretor, num ato de quase desespero, sugeriu uma casa pequena e aconchegante, num lugar um pouco afastado da cidade. E o que atraiu os olhos do baixinho foi que ficava a apenas uns dez minutos de caminhada da casa da namorada.
Quatro quartos, um banheiro, duas vagas de garagem. Casa térrea, amplo quintal... A descrição parecia perfeita, e os preços acessíveis. Na mesma hora perguntaram ao corretor se poderia levá-los para visitar o lugar, e ele concordou, bastante feliz com a perspectiva de finalmente fazer uma venda.
Ao chegar lá, depararam-se com um lugar fascinante: uma construção de madeira sutilmente desgastada pelo tempo que tinha um tipo de “varanda-térrea” logo na frente. A casa toda era cercada por grama verdinha, parecia muito bem cuidada. Como vizinhos, apenas a natureza e seus sons calmantes, o que parecia demasiadamente propício.
Adentraram a construção, os olhos brilhando em expectativa. E internamente, eles pensavam, a casa parecia ter sido feita sob medida para o grupo.
A cozinha era delimitada por um balcão, no estilo cozinha americana, que fazia do ambiente algo agradável e interativo com o resto da casa. Dela, dava para ver o lugar onde agora se encontrava uma mesa de jantar, que acomodaria seis pessoas confortavelmente.
Logo atrás ficava a sala, que tinha apenas paredes imaginárias a separando da copa. Realmente ampla, a área tinha várias portinholas, que levavam aos quartos. O maior deles (que fora agraciado com a alcunha “Quarto 1”) tinha as paredes alvíssimas. A próxima porta ao lado direito levava a um cômodo de paredes em tom vermelho bem alegre, onde agora ficavam os instrumentos musicais e todo tipo de coisa que precisassem para trabalhar. Ao lado, um novo possível dormitório de paredes roxas, quase púrpura. O “Quarto 2”, como denominaram, era incrível. Ao entrar nele, os dois loiros trocaram olhares, e começaram a rir ao notar que seus pensamentos se sintonizaram: o quarto tinha a cara de Uruha, ou pelo menos a tinta na parede dele.
A terceira porta a direita levava a um banheiro. Muito ajeitado, havia nele uma pequena banheira. Pareceu-lhes afável. E a última entrada ali levava para o apelidado “Quarto 3”, que era de dimensões medianas e possuía uma extensa janela. As paredes azuis contrastavam com o piso de madeira marfim, que cobria o chão de quase toda a casa, exceto da cozinha e do banheiro.
A habitação em si não era grande, mas possuía ainda uma extensa área externa e lhes parecia ideal. O espaço não precisava ser grandioso, só o suficiente. Assim também teriam menos trabalho doméstico para fazer.
No mesmo dia, Yutaka, Yuu e Kouyou foram praticamente arrastados pelos outros dois até a citada residência. Bastou que os outros a vissem para que o negócio fosse fechado, e dois dias depois, os caminhões de mudança já estacionavam no bosque, quebrando o usual silêncio e afastando os animais pequenos da orla.
Assim que chegaram e descarregaram tudo do caminhão de mudança, a primeira disputa foi para ver com que quarto cada qual ficaria. O quarto número 2, por ser menor, teria apenas um habitante. Os outros teriam que ser repartidos.
A justiça deve prevalecer em um ambiente onde há cinco homens. Se há um jeito sábio, justo e infalível de fazer decisões, é tirando no palitinho.
Shiroyama, por qualquer motivo aleatório, carregava cinco palitos de dentes em seu bolso. Assim os garotos sentaram-se sobre as caixas que cobriam quase todo o assoalho e começaram a preparação para a disputa que sucederia: dois dos palitos foram deixados em seu tamanho natural; outros dois tiveram as pontas arrancadas e o último fora cortado ao meio. Quem tirasse os palitos grandes, ficaria no quarto maior, e assim sucessivamente. No fim dessa brincadeira, Ruki e Reita ficaram com o quarto 1, Uruha com o quarto 2, e os dois morenos remanescentes com o terceiro.
Ambos baixista e vocalista adoraram o fato de ter ficado juntos, eram muito próximos. A felicidade fora tanta que o menor destes esquecera-se de ir falar com Hana. Claro, queria fazê-la uma surpresa, então deixou para contar-lhe só depois da mudança.
Após uma discussão que tinha como base a frase “Ruki, seu irresponsável, venha nos ajudar a arrumar isso!”, Yutaka distraiu os outros para que o mais novo saísse. E assim o fez, caminhando a passos rápidos e ansiosos até a moradia de sua namorada número onze, levando consigo um buquê de rosas vermelhas, as quais a garota tanto adorava.
Chegando lá, a porta estava aberta. Não estranhou: o lugar era tão remoto que parecia ridículo alguém querer entrar ali. Aproveitou-se dessa brecha para entrar em seu quarto e ocultar-se nas sombras, cautelosamente. Não demorou para que passos pudessem ser ouvidos, e Matsumoto quase prendeu a respiração para não ser notado. E finalmente ela adentrou o cômodo. Em expectativa de surpreendê-la, o loiro abraçou-a por trás. E em sua mente, não haveria momento mais perfeito do que aquele em que ouvia os risos nervosos da amada. Mas... Por que nervosos? Estaria surpresa? Ou talvez fosse só impressão sua?
Apesar de certos detalhes, as coisas corriam bem. Após alguns momentos de carícias e palavras doces, a novidade sobre a mudança foi contada animadamente, e o sorriso no rosto de Takanori foi quebrado por um grito estridente.
– Eu sabia, seu tratante! Você e aqueles seus amigos... Especialmente aquele tal de Suzuki... Eu sabia... Sempre soube!!! SAIA JÁ DAQUI!!! – Ela dizia, e Ruki, sem entender nada, tentava explicar algo que não precisava de explicações. Ele tentava falar e ela o empurrava para fora.
Por fim o rapaz notou uma silueta pulando da janela do quarto dela. Naquele momento pôde enfim entender... Que ela era só mais uma interesseira. A décima primeira interesseira que aparecia na merda da sua vida. Só quis saber de sua fama... Ela é quem era a tratante, afinal. Eram todas umas vadias... Todas elas!
*~—–—–——–»..x..«–——–—–—~*
Agora Reita se encontrava curvado na frente de Ruki e o sacudia com alento. Este, por sua vez, estava completamente perdido em seus devaneios. Os olhos estavam bem longe... Porém, cheios de lágrimas doloridas, que libertara inconscientemente.
– MATSUMOTO TAKANORI!!! Você está bem?! – O tom da voz do loiro maior era quase um grito. Se havia alguém dormindo antes disso, já não dormia mais.
– Akira... – Respondeu baixinho, como sinal de vida. O baixista sorriu levemente, secando as lágrimas do outro antes que ele próprio notasse que estava chorando. Se alguém sabia da dor de Takanori, este alguém era Suzuki. Sempre fizera das dores dele, suas.
– Hey, Taka... Venha cá... – Dizia isso em quanto tomava de suas mãos o jornal e a xícara de café vazia, colocando-os na mesa e ajudando o pequeno a se levantar, apoiando-o no próprio corpo, tarefa que mostrou-se complicada, já que Akira era bem mais alto.
– Tudo bem, Aki, posso fazê-lo sozinho. – E falando isso, colocou-se em pé, desencostando-se do amigo em quem era apoiado.
– Eu acabei de desencaixotar as coisas do nosso quarto... Arrumei-o todinho! Quer ver como ficou? – O mais velho começou a falar alegremente, tentando fazer o amigo esquecer o que estava pensando, qualquer que fosse o pensamento.
– Estou indo... Te ajudar a arrumar...
– RUKI! Acabei de dizer que já arrumei tudo! Acorde, menino!
Assim, Takanori tentou deixar os pensamentos de lado. Foi como se tivesse acordado de um sonho ruim para ver algo agradável. E este “algo” lhe sorria agora, aquele sorriso que ele adorava. Por outra vez, tentou retribuir e não conseguiu.
– Acho melhor você ir tomar um arzinho, viu? O dia está lindo... Quer ir dar uma volta? – Propôs o maior, sempre sorrindo para tentar amenizar a dor do outro.
Matsumoto demorou um pouco para responder, analisava a sugestão cuidadosamente para ver se realmente lhe faria bem. Uns segundos depois, finalmente proferiu:
– Bem... Talvez esse “dia lindo” que me descreve tenha poder de me distrair. Vou tirar o pijama, então. – O sorriso do amigo pareceu triplicar o tamanho, de forma que até fechou os olhos por causa da contração dos músculos do rosto. Mediante isso, Takanori apenas assentiu com a cabeça e caminhou pesarosamente até seu quarto, fechando a porta assim que a atravessou.
*~—–—–——–»..x..«–——–—–—~*
Poucos minutos depois, já saia do quarto. Estava com um sobretudo jeans que lhe batia nos calcanhares (nem parecia lhe pertencer, tal era seu tamanho). Uma calça preta cobria suas pernas, e na cabeça, uma touca da mesma cor. Cachecóis e luvas adornavam as respectivas partes pertencentes, no mesmo tom negro que a touca. Apenas as pontas de seus cabelos quase alvos eram visíveis. Nas mãos, segurava um par de óculos escuros. A mudança de roupas, porém, não afetou muito seu humor. Parecia até pior do que quando adentrou o quarto, pensou o baixista, mas resolveu não questionar. Apenas foi em direção ao menor.
– Que bom que está pronto! Podemos ir? – O sorriso permanecia teimosamente em seu semblante, tentando cortar o clima de enterro.
– Erm... Rei-chan... Eu vou sozinho desta vez. Preciso me acalmar um pouco. – E sem mais nada dizer, virou as costas pra o preocupado amigo e saiu pela porta da frente, fechando-a atrás de si enquanto colocava os óculos sobre a ponte do nariz, ajeitando-os.
Akira acompanhou seu percurso com os olhos atentos, e assim que ele saiu, seguiu seus passos. Ia tocar na maçaneta da porta quando ouviu algo. Alguém tentava falar, sem muito sucesso, pois estava com a boca cheia de algo. Ainda pôde compreender vagamente.
– Ê meolor deixor êle ir. – Era Uruha, que ainda saboreava o desjejum. Antes de continuar, engoliu o conteúdo da boca. – Acho que ele precisa ficar sozinho por mais um tempo.
– Mas é seguro deixá-lo só?
– Ele já é maior de idade e vacinado... Além disso, ainda há muito que desencaixotar por aqui. E também precisamos limpar... Não pense que vai fugir tão facilmente, senhor Suzuki.
Depois disso, o “senhor Suzuki” apenas deu um muxoxo de desaprovação enquanto Kouyou terminava de saborear suas torradas.
*~—–—–——–»..x..«–——–—–—~*
Takanori começou a caminhar, completamente sem rumo. De que isso lhe importava a essa altura?
O farfalhar das árvores e barulhos naturais, geralmente tão bem-vindos, agora o irritavam. Procurou o caminho mais curto para a civilização, longe de qualquer coisa que o fizesse lembrar sua namorada.
“Ex-namorada.” – Corrigiu a si próprio mentalmente.
Caminhou por uns bons quinze minutos até que os sinais florestais se dissipassem, finalmente chegando à grande selva de pedra que era aquela cidade. O único resquício de natureza ali era uma praça, que chamou a atenção de seu olhar no meio de tanto cinza. Havia apenas uma pessoa ali. Estava sentada em um banco, debruçada sobre algo que parecia uma grande bolsa. Ruki ficou parado por um tempo, apenas observando... E então resolveu ir ver se a pessoa estava bem. Afinal, aquilo era um pouco incomum... Talvez estivesse passando mal e precisasse de ajuda.
Conforme foi se aproximando, pôde notar que era uma garota. Quanto mais se aproximava, mais detalhes iam se revelando. A segunda coisa que notou foi que a garota estava chorando. Depois dessa observação, foi acelerando o passo: nem notou quando parou de andar e passou a correr. Bastaram alguns poucos segundos de corrida para que chegasse ao ponto que queria.
Sentou-se no banco ao lado dela. Com a cabeça abaixada, os cabelos negros lhe caíam no rosto, e era tudo o que o loirinho podia ver. Juntando coragem para o ato e se perguntando se ela o teria notado, tocou levemente a cabeça da moça.
– Você está bem? – Perguntou em um tom excessivamente doce e gentil, o máximo que pôde fazer.
– Acho que... – Ela nem mesmo teve oportunidade para terminar a frase: outra torrente de lágrimas invadiu seus olhos, lutando bravamente para abandoná-los.
Sem nem saber se devia ou podia, Takanori passou um braço sobre os ombros dela, aproximando-se. Tão fragilizada... Precisava de um assunto que a fizesse parar de chorar, pelo menos.
– Qual é seu nome? – Não era bom, mas foi o mais criativo que conseguiu.
– Reila... Yamaguro Reila. – Respondeu entre soluços, e levantou levemente a cabeça. Ainda não era o suficiente para que o rapaz pudesse vê-la com clareza.
– Bem, Reila... – Tirou cuidadosamente o braço do ombro dela, e usou a mão deste para levantar seu rosto carinhosamente com as pontas dos dedos. Com a outra mão limpou-lhe as lágrimas que escorriam. – Você... É muito bonita, sabe... Mas tenho certeza que ficaria bem melhor... Se tivesse um sorriso no rosto ao invés de lágrimas.
Naquele momento, se esqueceu de tudo. De todas suas dores, de toda sua vida... A única coisa que lhe importava era a tristeza da garota Reila. E sem pensar, sem notar, sem nem saber como... Ele sorriu. Um sorriso gostoso, carregado de boas intenções. Esperava que aquele sorriso afetasse a bela garota, tal como o riso de Akira o afetava, de certa forma.
De fato, agora que podia ver melhor seu rosto, notou que ela era realmente magnífica e encantadora. Seus cabelos, outrora provavelmente bem arrumados, estavam levemente fora de ordem, mas não perdiam a beleza. Eram ondulados e profundamente negros, o que contrastava com sua pele completamente alva. Os olhos eram escuros como a noite, tão profundos que não pareciam ter fim... E estavam cintilando, não de alegria, mas por causa das lágrimas que ainda caíam deles.
E o garoto observava seu rosto refletido naqueles olhos... Aquele sorriso patético... O que estava tentando fazer? Melhor que isso... Por que estava tentando fazer? Nada do que fez parecia ter resultado, pois ela não cessou o choro. Finalmente, resolveu que estava sendo completamente inconveniente e levantou-se, apto a ir. Quando ia dar seu primeiro passo, porém, foi detido. Algo segurou seu pulso. Algo macio e delicado... E ele já imaginava o que era. Nem se deu ao trabalho de virar-se, apenas proferiu mais algumas palavras em tom triste.
– Apenas... Não chore mais. Gomenasai, Yamaguro-san. – Quando ia se desvencilhar das mãos dela, ouviu uma voz fraca e tremida.
– Q-qual é... Seu nome? – Ao ouvir isso, o loiro virou abruptamente, levemente surpreso.
– Erm... Taka... – Fez uma pausa. Não queria revelar sua identidade... Não queria mais uma vadia atrás de si. – Takayuki. Me chame de Takayuki.
– Muito obrigada.... Takayuki! – Ao dizer isso, meio timidamente, ela sorriu. Ao fazê-lo, as lágrimas que repousavam em seus olhos foram expelidas. Uma cena adorável. Ruki apenas sorriu de volta.
Finalmente se virou e começou a andar, deixando Reila para trás. Pensava estar delirando, mas jurou ter visto o número doze estampado na testa da moça.
“O que... Foi isso?”
*~—–—–——–»..x..«–——–—–—~*
Em casa, Uruha lavava a louça do café enquanto Reita o ajudava secando-a. Aoi arrumava algumas coisas no seu próprio quarto, e Kai estava varrendo o chão da sala.
– A casa fica meio quieta sem Ruki por aqui, não é, Akira? – Concluiu Kouyou enquanto enxaguava o último prato.
– Aquele baixinho problemático... No fim, ele é o elo que nos une, eu acho...
Uma vez que sua tarefa estava finalizada, o guitarrista passou por trás do outro, fazendo questão de roçar suas coxas despidas nas dele. Assim, Suzuki afrouxou o pano que estava em mãos, o que gerou oportunidade para que o guitarrista o apanhasse e secasse suas mãos úmidas.
– Mesmo tristinho assim, aquele baixinho ainda faz coisas que nem eu seria capaz... – Então devolveu o pano nas mãos de quem retirou, que por sua vez, corou violentamente com os contatos. Reita definitivamente não conseguia imaginar algo que aquele loiro seria incapaz de fazer, mas resolveu não questionar, uma vez que ele já ia saindo da cozinha, para seu alívio.
Estava quase na porta quando encontrou uma câmera em cima do balcão onde outrora comia.
– O que isso está fazendo aqui, Aki-chan?
– Ah, eu tirei ela de uma das caixas que estava ali no canto da sala e não sabia onde colocar... Estava pensando em algum lugar quando você me obrigou a vir secar os pratos.
– Okkei, querido... Bom serviço, então. – Falou em tom irônico, sorrindo. Finalmente, abandonou a cozinha. Já ia encaminhando-se para seu quarto quando se deteve antes mesmo de alcançar o centro da sala. Ouviu um barulho... Alguém cantava.
“Furishikiru kishimu ne ni furue ga yamanu”
Era Yutaka. Takashima aproximou-se um pouco, só o suficiente para poder vê-lo bem. E foi então que viu...
O moreno estava dançando uma dança doentia, acompanhado da mais bela dama da casa: Dona Vassoura de Piaçava, e continuou cantando animadamente.
“Nou de rikaishi tsuzukeru itami ni zetsuen wo...”
O último verso foi tempo suficiente para que o loiro ligasse a câmera que tinha em mãos.
“Die for me... For me… You cant save it! Is it wrong? Kotaete misete…”
Ele e sua companheira davam um show na sala. Logo, Uruha notou que eles tinham mais um expectador: Yuu o olhava da porta de seu quarto, entreaberta.
“Hora yura yura yura to sono me yurashite...”
Para cada vez que repetia a palavra “yura”, uma nova remexida arrebatadora de quadris. E assim, guitarrista continuou a gravação, sem que ninguém notasse... Até que Kai se normalizasse. Notou que o guitarrista moreno estava quase com falta de ar, de tanto que ria. Porém, era uma risada discreta e silenciosa, a qual o dançarino, tão distraído e encantado com sua dama, nem ouviu. Apesar dos risos, ele admirava cada movimento que o baterista fazia, minuciosamente...
“Isso vale ouro.” – Concluiu Takashima, sigilosamente.
Fale com o autor