Reign On Fire
1 Prologue
Notas iniciais
BROOKE EVERN
Sangue e podridão. Esse era o cheiro que a vida após a morte tinha. E em um lugar como aquele, um sempre vinha acompanhado do outro; alguns até putrificavam antes de terem suas almas tomadas. Por isso, em momentos como aquele — em que o punho descia certeiro em sua direção, acertando em cheio seu rosto, Brooke amaldiçoava o fato de ser uma alma humana em meio a tantas sobrenaturais naquela arena infernal. Já havia perdido a conta de quantos ferimentos havia conseguido durante sua estadia, o que levantava a grande questão que a deixava tensa e alerta o todo tempo todo: qual seria o estado de sua alma quando por fim perdesse a disputa na arena?
Brooke cambaleou, tonta pelo soco. O gosto de sangue invadiu sua boca e ela cuspiu no chão, erguendo os olhos furiosos para o espanhol de sorriso cínico em sua frente. E então avançou contra ele, desviando de seu bloqueio e o acertou uma cotovelada na cabeça seguida de uma rasteira que o derrubou em um baque surdo.
Gritos entusiasmados ecoaram vindos da plateia, lembrando a morena de que aquele era um jogo insano de sobrevivência após a morte — o que chegava a soar irônico.
Foi a vez da Evern sorrir, embora o sorriso não tenha durado muito. Três segundos depois, o espanhol já estava de pé novamente e a luta prestes a continuar. Os dois se encararam.
— Você não cansa de ter esperança, Bruja? — Indagou ele, a rodeando como um caçador faminto.
— E você não cansa de perder para uma garota, León? — retrucou Brooke, o convidando a avançar com um gesto de mãos.
León rosnou, mas aceitou o convite. O vampiro avançou contra a Evern, bloqueando seus golpes e desferiu um chute no estomago dela, a deixando sem ar. Aproveitando-se disso, ele a agarrou pelo pescoço e a derrubou no chão, montando por cima e a mantendo imóvel.
— Sua hora chegou, Bruja — Cantarolou, sendo acompanhado pelos gritos eufóricos da torcida embaixo do ringue. Seu sorriso aumentou quando ele inclinou o rosto mais perto do da morena e resvalou seus próprios lábios nos dela, provando do sangue que fluía neles por conta dos golpes: — Diga adeus.
Brooke ofegou em busca de ar ao mesmo tempo em que sentia a fúria preenchendo cada poro e artéria sua. E como sempre acontecia, ela revidou. Poderia ter morrido e estar em algum lugar do outro lado da vida, sozinha e sem planos ou expectativas de um futuro remotamente tranquilo, mas ainda era Brooke Evern e não iria jogar a toalha e ter sua alma tomada por aquele lugar, muito menos por um babaca narcisista como León.
Assim sendo, Brooke reagiu por instinto. Enquanto o vampiro aumentava a pressão em seu pescoço, a sufocando, ela enrijeceu o pescoço e moveu a cabeça com precisão e rapidez na direção dele, mirando seu nariz no olho esquerdo dele e o acertando. Foi uma cabeçada tão forte que ela escutou os próprios dentes batendo e quase se quebrando no processo — embora tivesse certeza quanto ao seu nariz.
León gritou, soltando a morena para cuidar do rosto golpeado e essa foi a deixa da Evern. Embalada pelo choque da plateia e pela raiva percorrendo suas veias, ela mal se recuperou e já foi se lançando contra o vampiro, o derrubando no chão e caindo por cima dele. Brooke desferiu três socos seguidos no rosto de León antes de puxar uma adaga presa no cós da calça e pressionar contra a garganta dele.
— Prefiro dizer que você é um babaca que vai continuar perdendo para essa garota aqui até eu decidir o contrário — Grunhiu ela, tomando a mesma proximidade que ele havia tomado antes: — E se encostar em mim novamente sem a devida permissão, eu mato você. Definitivamente, dessa vez.
Rosnando baixinho, León apenas a fitou com ódio e desprezo duelando em seu semblante enquanto Hildegard, o locutor dos torneios, anunciava com sua voz trovejante capaz de se sobrepor ao alvoroço instalado na arena:
— Temos uma campeã esta noite: La Bruja! Tome o que é seu por direito.
Mas ela não tomou; ela nunca tomava. E o duelo daquela noite se encerrou como todos os outros em que a Evern havia participado: sem sacrifícios de almas. Então, ela apenas virou as costas para Hildegard frustrado e para León ainda caído e abandonou a arena sob aplausos que rapidamente se tornaram vaias e xingamentos direcionados a ela.
Brooke cambaleou adiante sem olhar para os lados, sem parar para rebater os palavrões, sem ao menos respirar. A dor em seu nariz era lancinante e as lágrimas já se formavam em seus olhos como se ela ainda tivesse o direito de chorar. Era intrigante o fato de como um coração humano ainda poderia se fazer valer, mesmo parado.
A morena cravou os dentes no lábio inferior, se recusando a derramar qualquer lágrima que fosse na frente de qualquer criatura daquele lugar. Dessa forma, ela visou as portas duplas de madeira logo a frente que rangeram assim que ela passou, sendo agarrada pelo braço no mesmo instante.
Brooke virou bruscamente e puxou a adaga do cós da calça, mas não rápido o suficiente. Ela observou sua lamina ser lançada longe enquanto era empurrada contra a parede de uma forma nenhum pouco gentil. O rosto zangado de Peter apareceu em seu campo de visão, a fazendo relaxar.
— Quantas vezes terei que repreender você até que aprenda? — O vampiro praticamente rosnou no rosto dela.
— Eu ganhei de novo — Rebateu ela, ouvindo o desprezo em sua própria voz enquanto fitava Peter e segurava as lágrimas, sua respiração irregular se sobressaindo no silencio daquele corredor protegido pelas pesadas portas: — E ainda assim todos me odeiam e querem minha alma, então me perdoe se não escuto suas lições.
Peter a soltou com mais gentileza do que Brooke esperava e apoiou as mãos na cintura, tornando-se tenso.
— Este lugar é um jogo perigoso que você está jogando errado, criança — advertiu ele. — Você se recusou a tomar a alma de León, novamente. E é exatamente isso que nos faz sobreviver aqui. É exatamente o que aquelas criaturas lá fora esperam que você faça ou então será o que elas farão com você.
Um sorriso ácido se abriu vagarosamente nos lábios da morena.
— Estou cansada de jogos estúpidos, Peter. Estou morta há três meses e minha alma foi tudo o que me restou e não estou disposta a corrompe-la apenas porque é o que esperam de mim.
— E enquanto isso você vai se quebrando aos poucos, presumo — Debochou Peter, estreitando os olhos para o nariz quebrado da morena. — Está na hora de parar de se punir e começar a jogar direito, criança.
Brooke simplesmente suspirou e jogou a cabeça para trás, sentindo a aspereza e a frieza das pedras, assim como sentia o desconforto latejante em seu nariz, mas ela não ligava; era um bom sinal. A dor significava que ela ainda era capaz de sentir algo, mesmo que seu coração estivesse parado e ela fosse apenas um corpo vazio em movimento.
Porque ela nunca parava. Se parasse, pensava. E se pensava, voltava a sofrer e ser miserável, características que podiam custar sua sobrevivência naquele lugar onde todas as criaturas procuravam por fraquezas e pontos fracos para destruir uns aos outros. A Evern havia aprendido uma coisa ou outra sobre estratégia contra o inimigo com os Volturi, então tinha alguma vantagem sobre aquelas criaturas, ainda que mínima.
Então, ela andava na linha que havia estipulado na primeira semana que chegara ali, mesmo que fosse difícil algumas vezes — principalmente quando León se envolvia. No geral, Brooke estava se saindo bem. Mas, eram em momentos como aqueles... quando o caos das lutas e a crueldade diária ficavam do lado de fora, que se tornava difícil seguir com tudo aquilo. Quando tudo parava, incluindo ela, as coisas se tornavam mais claras e tudo entrava em foco, principalmente os últimos acontecimentos que dilaceravam seu cerne ao relembrar. E aí a morena voltava a ser a garota de luto e quebrada que era... e odiava isso.
Por conta disso, Brooke Evern havia se reinventado. A cada golpe sofrido e osso quebrado naquele lugar, ela havia aprendido a se levantar com mais ódio e sede de vitória, ainda que não existisse premio. Brooke havia aprendido a ser como aquelas criaturas e ao mesmo tempo ser diferente, usando isso para se manter de pé entre aquelas almas condenadas. Mas no fim, ela sabia que também era uma. E que Peter estava certo, de alguma forma... porque ela sempre iria se punir pelas coisas que poderia ter controlado e pelas que não.
— Mais cedo ou mais tarde, todos aqui vão descobrir quem eu sou e aí sim irão querer minha alma, dentro da arena ou fora dela — disse Brooke, fitando Peter com um sorriso cínico ao mencionar o espírito da Descendente de Drácula, que de alguma forma, havia desaparecido quando ela se sacrificara. — É um jogo perdido, você sabe.
O vampiro se moveu e no segundo seguinte já estava ao lado dela, se apoiando também contra a parede enquanto cruzava os braços e observava a garota destruída a sua esquerda. O tempo ali havia sido injusto com ela, sugando os traços de vida e esperança que um dia ela deveria ter tido.
— O jogo só acaba quando o último peão cai do tabuleiro e de acordo com o que aprendi sobre você nesses três meses, você é dura na queda — Falou Peter, imóvel. — Seus inimigos serão os meus e se alguém tentar tomar sua alma fora daquela arena e longe de todas as nossas regras, terá que levar a minha primeiro.
As palavras do vampiro chegaram até a Evern como uma promessa selada, uma promessa de paz que ela não ousava mais sonhar. Ainda assim, o gesto a arrancou um ínfimo sorriso que alcançou os olhos estreitos e brilhantes dela.
— Por que está me ajudando?
— Porque se eu tivesse uma filha como você, eu gostaria que alguém fizesse o mesmo por ela — Elucidou Peter, soando sincero. — Você ficará bem, criança.
Brooke ficou confusa com a declaração, mas assentiu mesmo assim, incapaz de formular uma resposta para aquilo. Por regra, Peter era um cara inexpressivo. Sua personalidade taciturna e fechada, somado ao fato de que era ele o campeão das disputas da arena há bastante tempo e todos ali o temiam por isso, o fazia ser uma ameaça por natureza. Mas não para a Evern. Ainda não havia ficado claro o porque, mas Peter a acolhera desde o primeiro momento e a salvara de muitos ataques durante sua estadia ali.
Seria loucura confiar nele e talvez ela estivesse cometendo o mesmo erro que havia cometido com Kian, mas não parecia um erro daquela vez. Parecia ser a coisa certa a fazer e, nos raros momentos em que Peter se esforçava e abria um sorriso para ela, como naquele instante, Brooke tinha certeza. Era como se pela primeira vez em sua vida, ela se sentisse protegida por um breve momento. Como se conhecesse o vampiro de longa data e tivesse afeição por ele, mas não no sentido romântico. Era uma sensação... familiar, embora fosse loucura já que toda sua família estava morta.
A morena se negou a deixar que os pensamentos tomassem aquele rumo. Balançando a cabeça, ela limpou a garganta, engolindo o nó terrível que havia surgido nela e revirou os olhos para Peter.
— Nosso papo motivacional já acabou?
— Vejo que sua língua é o nosso maior problema — Rebateu Peter, erguendo as sobrancelhas escuras. Instantes depois, a máscara inexpressiva retornou ao seu rosto: — Da próxima vez que sentir que vai perder o controle, respire fundo e lembre-se que o premio deste lugar não é o título de campeão ou a coleção de almas que você reivindica.
— Então o que é?
— É a esperança que você mantém. Esperança de sair daqui e de ser alguém melhor. Respire e lembre-se disso.
Embora houvesse achado poéticas as palavras do vampiro, Brooke se limitou a chacoalhar os ombros e balançar a cabeça, encerrando ali o momento dos dois bem no instante em que as portas duplas foram escancaradas e a balbúrdia se alastrou pelo corredor em forma de criaturas sobrenaturais em uma aglomeração excitada que envolvia a nata das espécies do mundo sobrenatural — desde vampiros, logos e feiticeiros até zumbis e etc — após as disputas na arena. E o fato principal que a Evern não poderia esquecer: a maioria a odiava.
— Nariz bonito, Bruja — Zombou León, enquanto desfilava pelo corredor abarrotado com uma linda feiticeira á tira colo. Anisa era o nome dela e, a julgar pelo olhar mortal que ela lançou para a morena na parede, parecia fazer parte da maioria.
— Guarde suas provocações para a próxima vez que nos encontrarmos na arena, querido — Disparou Brooke, abrindo um sorriso ferino para León. — Se você conseguir falar enquanto estiver levando uma surra, é claro.
Risos ecoaram pelo corredor, arrancando um rosnado do vampiro espanhol que se deteve na caminhada e deu um passo em direção da morena, fazendo Anisa se desequilibrar e quase cair com a brusquidão. Porém, Peter se colocou entre os dois.
— Quando eu disse para deixarem as diferenças no arena, não era um pedido. Era uma ordem, uma que aparentemente os dois não entenderam — Grunhiu Peter, intercalando o olhar entre o vampiro e a humana: — A primeira luta amanhã é de vocês e só sairão de lá quando resolverem seus problemas. Ou quando um acabar com o outro. Até lá, se mantenham na linha. Agora, saiam todos da minha frente!
No mesmo instante, a multidão de criaturas se dispersou como fumaça, cada um para o lado. León saiu resignado, lançando olhares de puro ódio para a Evern, que se manteve no lugar como uma estátua revestida de sarcasmo e impaciência.
— Você não pode mesmo controlar sua língua? — Indagou Peter, virando-se para a morena.
— Assim que aquele cara controlar a babaquice dele. Até lá, não conte comigo — Ela revirou os olhos e sem cerimonias, o deu as costas, seguindo na direção contrária da multidão depois de apanhar sua faca jogada no canto.
Peter ficou a observando se afastar, um pequeno e discreto sorriso orgulhoso nascendo em seus lábios ressecados.
***
A passagem de tempo era estranha na arena. Não existia o raiar do sol para indicar a manhã, muito menos as constelações de estrelas para anunciar a noite, mas de alguma forma, todos que ali viviam tinham a percepção do tempo. Então, quando Brooke se esgueirou pela porta do dormitório em direção a ala da cozinha para beber um copo de água, ela soube que era madrugada.
Talvez fosse pela baixa temperatura mais intensa do horário ou pelo fato de sua insônia estar presente, mas ela sabia. E gostava daquele momento do dia, porque era o momento em que não era incomodada e poderia desfrutar da quietude que a cozinha proporcionava, já que era a única humana da arena e os lobos e feiticeiros tinham uma preferencia maior por álcool.
Silenciosamente, ela adentrou no grande cômodo e foi em direção a torneira da pia. Seja lá quem fosse que tivesse criado aquele lugar, não foi generoso o suficiente para pensar em uma geladeira. Haviam poucos assentos distribuídos pelo lugar e um armário velho que servia como dispensa para os alimentos... praticamente inexistentes.
A Evern se contentava com a água. Sendo assim, ela se abaixou até ficar na altura da pia e girou a torneira, absorvendo a água de procedência duvidosa da bica. Ela tomou alguns goles até se dar por satisfeita e desligar a torneira. A H2O desceu quente por sua garganta, mais do que o normal, mas ela não se importou. Ainda mais silenciosa, a morena caminhou até um dos assentos de frente para o buraco perfeito na parede do cômodo que dava vista para a ala das disputas, dois andares abaixo.
Brooke fitou o ringue da arena das almas condenadas, pensando no quanto o odiava. No quanto odiava o papel que interpretava todos os dias. No quão frustrante era viver a mesma rotina todos os dias e sustentar suas própria mentiras. No quão solitário era. E ela odiava. Odiava tanto que chegava a arder em seu interior, como ondas de calor que iam se espalhando por seu corpo, cobrindo sua pele e carnes até chegar em seus ossos e derrete-los um a um.
Brooke arquejou, sentindo-se daquela forma, literalmente. Ela estava queimando, de dentro para fora. Era como se fogo vive se alastrasse em seu interior e as chamas a devorassem, a sufocando vagarosamente. Ela acabou despencando do assento, caindo no chão em um baque surdo enquanto agonizava em desespero. Ela quis gritar, mas a única coisa que saiu de seus lábios foi sangue quente e espesso, tão viscoso e escuro que a deu certeza que havia algo errado.
Era como se estivesse morrendo novamente. Dessa vez, de uma maneira aterrorizante, como se estivesse sendo puxada em direção ao verdadeiro inferno. Brooke engasgou com o próprio sangue, sentindo todo o corpo convulsionar e queimar lentamente e soube que não precisaria lutar mais para proteger sua alma.
Ela pensou na mãe. E em Penny. Pensou em Gaz e nos Cullen. Em cada Volturi e Quileute que havia aprendido a amar como membros de sua família. Pensou em Alec e em como ele poderia salva-la se estivesse ali agora. Pensou até em Peter, o aliado mais improvável que um dia imaginara conquistar. Todos aqueles nomes, aquelas pessoas... a faziam ter esperança de algum dia conquistar a paz que tanto almejava.
Brooke tentou respirar pela última vez.
— Que carajo...
A morena rolou os olhos para a entrada da cozinha, observando o par de botas avançando em sua direção. O rosto desfocado de León entrou em seu campo de visão enquanto ele se abaixava ao lado dela e a segurava firme, perto o suficiente para suja-lo com seu sangue.
— Que porra aconteceu? — Perguntou ele, a olhando apavorado.
Brooke tentou lhe dizer que não sabia, mas não conseguiu encontrar a voz ou qualquer outra coisa que não fosse o fogo vivo que a consumia, a fazendo pensar com amargura que finalmente o vampiro espanhol havia conseguido o que tanto queria desde o primeiro dia que ela chegara ali.
Seu reinado em chamas.
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