Regrets
1 Único
Notas iniciais
Bang!
O som do tiro o fez abrir os olhos.
Kamui rapidamente reconheceu a nave em que estava, voando pelos céus da Terra.
Pois ele jamais esqueceria daquele lugar, daquele dia, e o que aconteceu.
Principalmente agora, quando a cena era revivida diante de seus olhos.
O que fez seu coração parar:
O seu eu dez anos mais jovem, sorria como ele fazia até hoje.
E sem remorso algum, havia apontado sua sombrinha para a pequena princesa à sua frente.
Atirando bem em seu coração.
Kamui recordava muito bem desses acontecimentos e – embora nunca fosse admitir em voz alta – hoje agradecia a Okita Sougo por ter impedido sua bala.
Mas no que ele via agora, haviam apenas ele e a pequena Soyo.
Sem nenhum sádico para impedir a bala, que seguia em câmera lenta até seu alvo.
Como se o estivesse provocando, lhe desafiando a para-la ante que perfurasse a princesa.
Porque sedo ou tarde, ela seria atingida.
E iria morrer.
Esse simples pensamento fez Kamui recuperar seus movimentos e tentou correr para afastá-la, se jogar na frente ou segurar a bala.
O que fosse preciso para salvá-la.
Mas foi dar o primeiro passo, para perceber que já era tarde demais:
Soyo já havia sido atingida em cheio.
Aquilo não fazia sentido, a bala ainda estava longe, deveria ter dado tempo de alcança-la!
Mas Kamui sequer se importou com isso, pois a visão dos olhos amendoados que tanto amava, arregalados e perdendo a vida pouco a pouco, ocupavam toda sua atenção.
Ela começou a cair.
Ele correu até ela na tentativa de segurá-la – que pelo menos morresse em seus braços ao invés de no chão.
Ergueu uma mão.
E por um segundo, Soyo pareceu corresponder o gesto; pedindo-lhe ajuda.
Mas ele não conseguiu alcança-la.
O corpo sem vida da pequena princesa bateu contra o chão; o buraco em seu peito formando uma poça de sangue.
Kamui sentiu os olhos arderem, de raiva e pelas lágrimas que queriam ser derramadas.
Por que tinha que ser tão idiota? Por que ela deveria pagar por isso?!
Justo ela: o amor de sua vida, a sua princesa, a sua...
— SOYO!! – O grito desesperado não pôde mais ser contido.
E o sentimento foi tão grande que o fez acordar, sentando na cama, suado e ofegante.
O susto foi passando aos poucos, enquanto ele olhava ao redor e reconhecia seu quarto.
Ou melhor, o quarto deles.
O alívio invadiu seu peito ao notar a mulher de cabelos negros ao seu lado, dormindo profundamente.
Ele ainda pegou em seu pulso para confirmar que ela apenas dormia.
E ao ver que sim, suspirou aliviado.
Mas com o coração ainda a mil.
Sem se importar com mais nada, abraçou com certa força o corpo diminuto, descansando a cabeça em seu peito.
Os batimentos de seu coração o tranquilizavam e o embalavam para voltar a dormir.
E pensar que ele próprio poderia ter dado um fim nisso...
Apertou-a um pouco mais contra si.
Se arrependimento matasse, Kamui já estaria a sete palmos debaixo da terra há tempos.
— Hmm... Kamui? – Ele ouviu a voz rouca pelo sono antes de sentir uma mão pousar em seus cabelos, afagando-os. – O que foi?
—... Só um pesadelo. – Declarou sem culpa ou vergonha.
E essa declaração foi o suficiente para que ela o abraçasse de volta, oferecendo todo o conforto de que precisava.
Ela sempre oferecia.
Sempre estava ali pra ele, fosse para repreendê-lo, reconforta-lo ou simplesmente ama-lo.
Tokugawa Soyo era seu mundo.
... E ele quase o destruiu.
De novo, se arrependimento matasse...
Mas é bom que não mate.
Pois assim ele poderia passar o resto de seus dias tentando recompensa-la.
E tendo ela ao seu lado, não seria algo tão ruim.
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