Notas iniciais
A partir do próximo capítulo, eles se tornarão maiores. Média de 3000 palavras.

Após ter dormido por algumas horas, acordei, sendo beijado de leve no rosto. Abri os olhos e vi uma mulher, que aparentava ter uns vinte e três anos de idade. Branca de cabelos escuros e muito bonita. Ao acordar assustado, lhe perguntei, puxando o lençol de seda sobre meu corpo:

— Como você entrou aqui?

— Pela porta! — Exclamou ela. — Onde mais?

— E o que você está fazendo aqui?

— Vim lhe fazer uma visita!

— Mas você estava me beijando!

— Eu sei! Qual é o mal?

— Tenho só nove anos! Você é mais velha do que eu!

— E o que tem isso?

— Na Terra, quem se beija são namorados!

— E o que isso tem a ver?

— Eu estou pelado e você é mulher!

— Você não está pelado! E mesmo que estivesse, qual seria o problema?

— Qual seria o problema! — Admirei. — Eu sou homem!

— Não! Você é um menininho! E muito bonito por sinal!

— Quer me levar no bico!

— Nada disso! Você é bonito mesmo!

— Obrigado! Você também é muito bonita! Mas não precisava me beijar!

— Eu te amo muito!

— Ama mesmo? — Me inibi, sentando-me sobre a cama e cobrindo minha cintura com o fino lençol de seda. — Você quer me namorar?

— Não é bem esse amor! — Riu ela. — Sou mais velha!

— Então não pode me amar!

— Claro que amo! Como um filhinho talvez!

— Quem aguenta tantos pais? — Esbocei leve sorriso desconfiado.

— Vamos mudar de assunto! Quer tomar um banho?

— Quero sim! Está muito calor aqui!

— Você já conheceu o banheiro?

Levantei-me e a acompanhei àquele estranho banhei-ro, ali mesmo, dentro do quarto. Ao adentrar, em uma ante-sala, a qual na Terra se chama Closet, onde havia um grande armário com cabides, roupas e toalhas. Ela me ordenou:

— Pode tirar o resto da roupa!

— Com você aqui? — Admirei.

— O que tem isso?

— Muita coisa! Eu sou homem e você é mulher!

— Deixe de ser bobinho! Você não é homem e eu preciso te ensinar a usar este chuveiro.

— Eu sei usá-lo!

— A sabe, é?

— Claro! Eu tomo banho todos os dias!

— Não neste banheiro! Tire a roupa logo, senão vou tirar pra você!

— Não posso tomar banho de cueca?

— Claro que não! Pode tirar!

Acanhado, me recusei com a cabeça. Ela riu dizendo:

— Não sei por que essa timidez toda!

Continuei calado.

— Tudo bem! — Riu ela. — Vamos pro banho!

Entramos juntos, em outra parte do banheiro: era todo forrado e não se via nenhum chuveiro, apenas meia dúzia de braços mecânicos sobre a parede, alem de quatro botões junto à porta. Permaneci no centro do banheiro e ela próxima à porta, onde, apertou um botão e começou a jorrar água de todas as paredes em mim; apertou outro botão e os braços mecânicos, começaram a se movimentar, me esfre-gando e assim, dando banho em mim, como mamãe fazia quando eu era pequeno.

Após alguns minutos, a mulher apertou outro botão e as mãos pararam. A água, ainda jorrou até ela apertar um último botão.

Assim que saí do banho e voltei ao tal closet, ela abriu o armário, tirou uma toalha verde, grande e muito bonita, me entregando.

— Como você se chama? — Perguntei-lhe, enquanto me enxugava.

— Leandra!

— Eu me chamo Regis!

— Bonito nome!

— Não acho muito bonito!

— Mas é! E você é mais bonito ainda!

— Sabe: Na Terra, eu não gostava de uma coisa.

— Do que?

— De ficar pelado perto das pessoas.

— Por quê?

— Tenho vergonha!

— Por quê?

— Tire a roupa pra eu ver! — Pedi-lhe.

— Eu não!

— Por quê? Tem vergonha?

— Não! Eu sou muito mais velha do que você! Você é só uma criança e isso não seria certo!

— E por que quer que eu fique pelado perto de você?

— Porque você é só uma criança e isso não tem nada de mal! Desde que haja respeito por minha parte. Não vejo porque esta timidez em se despir para tomar banho!

— Porque sou gente também! Não sou como um boneco pra se brincar! E tenho vergonha também!

— Ainda bem!

Ela seguiu até o armário, apanhou algumas vestes, iguais às deles e me entregou dizendo:

—São suas! Pode vestir!

Apanhei as belíssimas vestes de cor prateada e ela, demonstrando que respeitava meus sentimentos, afastou-e da saleta, me deixando só, para que pudesse me vestir.

Tirei minha cueca molhada e me vesti alegre: primeiro uma linda cueca branca e a seguir, um lindo macacão; depois uma botinha tipo sete léguas, feita de um material tipo tecido, muito confortável.

Ainda ali no tal closet daquele banheiro, me penteei, depois fui para o quarto, onde reencontrei Leandra. Ela me entregou um pequeno aparelho, que seria um controle remoto, me dizendo:

— Devido o calor de nosso planeta, fomos obrigados a criar também um tal de condicionador de ar. Você poderá ligá-lo com isto!

Quando ela ia se retirar, chamei-a:

— Muito obrigado pela ajuda. Tá!

— Foi um grande prazer!

— Desculpe-me ter sido chato!

Ela voltou; deu-me outro beijo na face, dizendo:

— Você não foi chato! Pode descansar agora!

Retirou-se, enquanto eu esfregava a mão no rosto, como a limpar o beijo recebido; fui até a entrada do quarto, fiquei parado, olhando-a. Quando ela desapareceu por outro corredor, também resolvi sair, por outra direção. Andei até a sala do computador gigante, virei à esquerda e segui até a entrada da residência, onde saí e fui até um belo jardim, o qual ficava no mesmo ambiente externo. Havia algumas árvores e enorme quantidade de flores, como margaridas, rosas, jasmim, Hortência e outras, as quais não sabia distinguir, por serem desconhecidas na Terra; pelo menos para mim. Havia também, alguns bancos, construídos em acrílico em cor rosada. A temperatura continuava em torno de trinta e cinco graus. A Estrela Brina, já estava quase na metade do céu, que era muito azul, quase sem nuvens. Sentei-me em um dos bancos e fiquei pensando em mamãe, papai, minha casa, meus cinco irmãos, amigos, colegas de escola... Beth...

Pouco tempo depois, percebi que estava novamente chorando: chorando de saudades; chorando por saber que estava a bilhões e bilhões de quilômetros de casa... Não! Trilhões. Chorando por perceber que estava perdido no Universo e que talvez, jamais regressaria para minha família.

Talvez fosse bom viver ali: passaria centenas e até milhares de anos e eu seria sempre um garotinho, aparentando nove anos de idade. Ali eu era amado, pelos mais de três bilhões de habitantes susterianos. Mas de que me adiantava àquelas vantagens, se não poderia ver a meus pais; se não tinha nem mesmo uma garotinha de minha idade para brincar de namorar; se não tinha um menininho de minha idade, para me fazer companhia e brincar...

De repente, apareceu o senhor Rud. Sentou-se a meu lado, me perguntando:

— Quem bateu em você?

Não respondi. Só limpei os olhos com uma das mãos e me levantei. Ele insistiu:

— Por que todas estas lágrimas?

— Quero voltar pra casa! — Disse-lhe bravo.

— Mas já? Você acabou de chegar!

— Não importa! Quero voltar pra casa!

— Nada disso! Dentro de duas horas, você vai aparecer na televisão.

—Televisão! Aqui tem televisão?

— Claro! Tudo o que tem na Terra, nós temos aqui! Só que em um sistema muito mais avançado!

— Tudo?

— Não! Eu minto! Há muitas coisas em seu planeta, que aqui não tem!

— O que? — Levantei-me e segui até o arvoredo, sendo seguido pelo senhor Rud.

— Guerras! Crimes! Exploração! Devastação e muitas outras coisas ruins! Velhos e crianças abandonadas!

— Aqui não há velhos nem crianças! — Lembrei-o.

— É verdade! — Riu ele. — Então será por isso?

— Por isso o quê?

— Que eles não ficam abandonados! — Riu Rud.

— E a televisão? Como é?

— Igual às suas: só que com um sistema que abrange todo o planeta simultaneamente, com bom som e boa imagem digitais, em cores.

— E eu vou aparecer em sua tevê?

— Sim! Vai! Como pode ver, já está ficando famoso.

— Isso não me interessa!

— Outra coisa: Você está elegante com estas roupas!

Levantei-me e sorrindo, desfilei pra ele ver.

— O senhor acha mesmo? — Perguntei-lhe.

— Claro! Até parece que ela foi feita sob medida. Aliás, foi mesmo.

— Foi nada! Ninguém tirou medida em mim!

— Porque você não viu!

— Foi enquanto eu dormia? Há poucas horas?

— Não! Já faz muitos dias!

— Como assim? — Tornei a me sentar. — Se eu cheguei hoje, ou ontem! Não sei bem!

— Foi quando você ainda estava na Terra! Eu nem tinha ido te buscar ainda!

— Mas como?

— Através de um sistema que chamamos tape-ondas.

— Fiquei na mesma! — Dei de ombros.

— É o seguinte: na sala do computador, o senhor Frene, através de um tipo de televisão, te observava trinta e duas horas por dia; desde a hora em que você nasceu.

— Me observava? — Admirei. — Me via ao vivo? Mesmo eu estando na Terra?

— Isso mesmo!

— Mas como pode?

— Nós somos milhares de anos, avançados em relação aos terráqueos! Nosso sistema é superior! Nós somos imortais!

— Mas ele me via a todo o tempo?

— Trinta e duas horas por dia!

— Mesmo quando eu estava pe...lado, tomando banho?

— Mesmo! Se você estivesse rindo, chorando, apanhando, dormindo, estudando, pelado, vestido, fazendo o que devia, ou o que não devia, ele te observava.

— E ele não dormia?

— Claro que sim! Suas imagens ficavam gravadas em nossos tapes. O senhor Frene tinha outras coisas pra fazer; inclusive dormir!

— Vou entrar agora! — Disse-lhe, me levantando. — O senhor não vai?

— Daqui a pouco! Pode entrar! Você precisa descansar.

Despedi-me, tornando a entrar.