Regis Um Menino do Planeta Terra
13 A eterna morada
E assim, as horas e dias foram passando devagar, sem ter muito o que se fazer naquela nave grande, porém pequena para três meninos aventureiros, em idade (pelo menos na aparência), de quem gosta mesmo é de queimar muitas energias, brincando, saltando e fazendo grandes estripulias, em atividades constantes.
Brincávamos de pega-pega, no grande hall de entrada da nave; de esconde-esconde por todos os compartimentos, se amoitando até mesmo dentro dos armários e embaixo do painel de controle, sob a segurança do robô Luecy, que às vezes, até se juntava a nós, com apenas uma vantagem (para ele): ele sabia onde cada um de nós estava escondido, sem sair de seu lugar, no posto de comando. Brincávamos de escrever e aprender; de falarmos na língua de Suster e Arthur em língua terrena; víamos e revíamos meu álbum de fotos da Disney, me fazendo ficar exibido com tal privilégio e triste, ao ver as fotos de mamãe, Paulinho e Henrique.
Depois cansados, algumas vezes acabávamos dormindo rapidamente, outras, íamos para a cabine, onde permanecíamos horas, observando o famoso espaço sideral, o qual, às vezes se tornava muito escuro, em verdadeiras trevas, outras, com chuvas de luzes de diferentes tonalidades de cores e brilhos e às vezes, até podíamos nos deslumbrar, com o presente de uma passagem bem próximo de nossa nave (algumas centenas de milhares de quilômetros), de um grande cometa brilhante, com sua cauda que pode atingir mais de cem milhões de quilômetros de extensão.
Muitas vezes, sozinho com Luecy, gostava de desafiá-lo em perguntas escabrosas, mesmo sabendo que jamais conseguiria derrotá-lo.
— Luecy, no horário da Terra, quando pousaremos em Malderran? — Perguntei-lhe.
— Valendo a aposta de nadar peladão? — Ironizou ele.
— Chega dessa bobeira! — Reclamei sério.
— Não é bobeira! É aposta!
— Se você perder. Você nada peladão? — Desafiei-o.
— Já estou peladão! Robô não usa roupas!
— Mas vai nadar se perder?
— Não posso. A água queima meus circuitos.
— Sem apostas! — Fiz careta — Sei que você é competente. Quando chegaremos à Suster?
— Às dezesseis horas, cinquenta minutos e vinte e um segundos, do dia vinte e nove de junho, do ano dois mil e quarenta e um.
— Como você consegue calcular isso?
— Simples: Tomo a distância exata entre o ponto inicial e final de nossa viagem, programada no computador de bordo da nave: Oitocentos e vinte e três trilhões, sessenta e seis bilhões, seiscentos e trinta e dois milhões, setecentos e oitenta mil e quatrocentos e quarenta e sete quilômetros, divido pela velocidade da nave: cento e trinta e quatro milhões, trezentos e oitenta e seis mil, trezentos e sessenta e três quilômetros por segundo no vácuo e descubro quanto tempo teremos de viagem: seis milhões, cento e vinte e quatro mil, seiscentos e vinte e nove segundos, tomo o dia e horário em que saímos do ponto de partida, dezenove horas, trinta e três minutos e doze segundos, do dia dezenove de abril, do ano dois mil e quarenta e um, calculo com o tempo da viagem e concluo que serão setenta dias, vinte e uma horas, dezessete minutos e nove segundos e com isto chego à resposta final; levando em consideração que o mês de Maio tem trinta e um dias.
— Cruz credo! — Fiz careta — Nunca saberia resolver isso!
E assim, quase certeza de que na hora exata, após os quase setenta e um dias de viagem, que para nós na nave, se pareceram apenas dez, através do complicado espaço sideral, atrelávamos nossa nave, no gigantesco campo de pouso, em Malderran.
Já na descida, dava para perceber outra nave semelhante a que estávamos, já estacionada graciosamente sobre o campo.
— Engraçado — lembrou Erick. — O senhor Tony e Rud, estavam em nossa frente, mas ainda não chegaram.
Só então me lembrei, de que os susterianos tinham três naves iguais a que usávamos, apesar de que uma delas, eu a fiz cair de uma altura de uns duzentos metros e se incendiou; porém foi reconstruída, ao passo de dois longos anos, de noventa e nove dias susterianos; em torno de quatrocentos e setenta dias terráqueos, no total.
— Provavelmente eles tenham pousado em Merlin. — Justificou Arthur.
Realmente, aqueles dois viajantes do espaço, estavam, desde quando eu ainda vivia em Suster, morando na distante cidade de Merlin.
Pouco depois, já em solo firme, eu com minha caixa de roupas nas mãos e Erick, com os restos alimentares e lixo terráqueo, alem de poucos pertences, caminhávamos sozinhos, em direção à entrada daquela grande e bela residência do senhor Frene.
Fomos recebidos na entrada, apenas pelo próprio senhor Frene, que abriu um grande sorriso, dizendo:
— Vejam só que grande surpresa! Com exceção de Mark Três e Erick, jamais esperava ver meus dois Regis, de volta a meu mundo!
Abraçou a Arthur, beijando-lhe o rosto demoradamente, depois, com um pouco menos de afago, fez o mesmo com Erick; em seguida, tomou a caixa de minhas mãos, entregando-a à Arthur e me abraçou feliz, beijando-me também, demoradamente no rosto.
— O que lhes trouxe aqui? Já que eu estava convicto, de que vocês dois permaneceriam na Terra?
— Por favor: — pedi com lágrimas. — Me leve de volta.
— Mas como assim? — Se surpreendeu ele — Pelo que sei, você veio porque quis! Ninguém lhe obrigou a vir! Agora, acabou de chegar e já quer retornar?
— Quero voltar senhor Frene! — Continuava triste — Mas não só pra Terra. Quero voltar a meus nove anos de idade. Pra minha família e meus amigos. Me leve, por favor! Vim aqui só pra lhe pedir isto.
Ele ficou triste e preocupado, abaixou-se diante de mim, permanecendo na minha mesma altura. Os outros dois meninos e o robô adentraram à residência, inclusive levando meus pertences:
— Sinto muito! — Pediu ele — Você sabe que não sou capaz de fazer isso. Não consigo lhe conceder este desejo. Não tenho tanto poder.
— O senhor consegue! — Aleguei convicto — Li em um livro, que se algo conseguir atingir velocidade maior do que a da luz e girar na órbita da Terra, em sentido contrário, é possível realizar a viagem através do tempo, pro passado. Pois bem: o senhor me leva até lá e como sua nave viaja muitas vezes alem disso, me devolve a meu mundo, me fazendo acordar deste terrível pesadelo, que insiste em não terminar.
— Isto não é real, Regis! — Insistiu ele, tão triste quanto eu — Quem me dera se pudesse refazer isto! Pode ter certeza que te devolveria ao dia e lugar de onde lhe tirei. Devolveria com certeza, sua infância simples e feliz.
— O senhor pode senhor Frene! Eu li sobre isso!
— Em primeiro lugar, a nave atinge uma grande velocidade no vácuo, onde não há atrito, mas não na órbita terrestre, onde sua velocidade sofre com o atrito. Depois, mesmo que eu conseguisse fazer esta viagem, em sentido contrário ao da rotação ou mesmo translação da Terra, em alta velocidade, pode ter certeza de que, mesmo que rodássemos em volta de sua Terra, dez... cem... mil vezes, quando parássemos, estaríamos no mesmo tempo atual. Mesmo que fizéssemos isto em volta contrária do Sol. Sinto muito meu filhinho: a viagem ao passado, ou ao futuro é impossível. Jamais ninguém vai conseguir te devolver à sua infância verdadeira.
— Eu sei que o senhor pode senhor Frene. Por favor! Sei que o senhor me ama e essa seria a maior prova de amor que o senhor me daria.
— Quanto senhor, Regis! Em uma única frase.
— Me ajude, por favor! Meu coração dói muito.
— Se alguém conseguir voltar ao passado destruirá o mundo.
— Não! Só me devolverá ao meu lugar real. Como está agora é irreal. Este não é meu mundo. Esta não é a minha vida!
— Na verdade, se alguém fizer uma viagem por dezenas de vezes, em sentido oposto, ao redor de seu Sol, ou da Terra, em velocidade acima da que a luz faz, quando resolver parar, lhe parecerá ter viajado por apenas alguns segundos, mas na Terra terá se passado dezenas de anos. E não é porque ele terá viajado ao futuro e sim, porque o tempo dentro da nave irá passar muito devagar.
— Não entendi nada!
— Se alguém pudesse voltar ao passado, Regis, com certeza um justiceiro já teria o feito. Sabe pra quê?
Dei de ombros.
— Por exemplo, executar a Hitler e salvar milhões de judeus, vítimas do holocausto.
— Conseguiria tal justiceiro chegar até ele? Seu exército era poderoso.
— Não voltaria na época da guerra. Voltaria no começo do século dezenove, quando ele ainda era uma criança inocente. Concorda que tal justiceiro estaria mudando completamente o rumo da história?
— Se um justiceiro voltasse na infância de Hitler, não deveria executá-lo e sim, transformar sua mente para o bem.
— De qualquer forma, estaria alterando a história na Terra. Quantos milhões de novos habitantes, filhos dos que morreram no holocausto, estaria vivendo hoje em seu mundo?
— O senhor mudou o rumo da minha história — continuava triste. — Eu deveria ser feliz...
— Apesar de sua idade cronológica ser a de um adulto...
— Velho! — Interferi — Idoso pra ser educado.
— Sua aparência... Seu físico... Sua mente... é a mesma do menininho que saiu da Terra a dezenas de anos.
— O que vai ser de mim? — Perguntei com os olhos marejados de lágrimas.
— Fique conosco por algum tempo. Procure curtir a companhia de Erick e Regis daqui.! Vão passear, viajar em meu mundo e procure ser feliz. Quando você perceber que está sentindo falta, prometo levá-lo de volta à sua Terra, onde você continuará sua vidinha, sempre protegido por Deus.
— Deus, senhor Frene? Onde está Deus?
— Como assim menino? — O estranhou — Justo você, um menininho bom e sentimental, questionando a presença do Deus Supremo?
— Se realmente existisse um Senhor Supremo, que rege nossa vida e nosso destino, onde Ele estava quando permitiu que o senhor me sequestrasse na Terra, alterando pra sempre meu triste destino?
— Regis: — se entristeceu ainda mais o senhor Frene — Acha que o que fiz à você foi tão terrível assim?
— Eu deveria me sentir o homem mais feliz da Terra! — Insinuei tristemente — Tenho setenta anos de idade, mas como o senhor mesmo disse, meu corpo é de um menininho de nove anos. Não tenho nenhum tipo de doença ou cansaço físico. Posso brincar como qualquer criança pequena. Mas como sentir feliz em um mundo solitário? Todos aqueles a quem amei na vida, já se foram. Não tenho mais ninguém por mim, senhor Frene! Meus pais, irmãos e amigos de infância já foram levados pelo Deus que o senhor diz acreditar que existe.
— Você tem muitos sobrinhos e filhos deles.
— Não tenho contato com nenhum deles. Realmente vivo em uma infância eterna e solitária. Acho que se eu voltasse pra lá, iria voltar à escola fundamental, só pra poder conquistar amigos crianças.
— Nada disso é culpa de Deus — negou ele.
— Sei que vai dizer que faz parte do tal livre arbítrio. Acho que Deus deixou o livre arbítrio, pra poder lavar suas mãos para as maldades do mundo.
— Que isso menino! — Se espantou o homem — Sei que alterei seu destino pra sempre, buscando-o em sua Terra. A gente precisava tanto! Mas quanto às coisas de Deus: não deves pensar assim. Deus não faz nada pra alterar o destino das pessoas. O homem é livre pra escolher.
— Por que Deus permite? Por exemplo: ele deixou o senhor usar seu livre arbítrio para alterar meu destino. Mas o que Ele fez pra garantir o meu livre arbítrio?
— Por favor, meu querido filhinho, não tenha esse rancor em seu coração.
— Dizem que quando Jesus nasceu em Belém, um tal rei Herodes decidiu matá-lo. Pra salvar seu filho, Deus mandou um anjo avisar o pai José, pra tomar a criança e Maria e tirá-los dali. Mas meu protesto é: Deus sendo tão poderoso, por que não mandou que o anjo matasse a Herodes, ao invés de deixar que para salvar Jesus, sacrificassem em modo cruel, quase trinta outros meninos!
— Como falamos, Rei Herodes tinha seu livre arbítrio: poderia amar a Jesus, ou matá-lo.
— De novo eu lhe pergunto: E como ficou o livre arbítrio, de todas as crianças que morreram inocentemente?
— Foram levadas aos Céus e com certeza, se transformaram em anjinhos Sagrados.
— E como ficou os pais dessas crianças?
— Menino! Não se revolte com as coisas de Deus!
— Não entendo estes caminhos confusos e cruéis, os quais Ele permite a seus filhos, inclusive crianças!
— São caminhos complicados.
— Lembra da história de um tal Jó? — Questionei.
— Não conheço tudo sobre a Terra! — Negou o senhor Frene — Meu mundo se chama Suster! Lembra?
— Pois é: Jó era um servo muito fiel e temente à Deus e Ele permitiu ao diabo que o pusesse à prova. Sendo assim, o diabo tirou tudo do tal Jó, que era um homem muito rico. Ele perdeu todos seus bens, ficando na miséria. Mesmo assim, ele continuava fiel, então o diabo tirou-lhe sua saúde, enchendo seu corpo de lepra. Jó ainda continuou fiel. O diabo tirou-lhe todos os seus dez filhos e ele continuou fiel. Como o diabo se viu derrotado pela fé do homem, Deus lhe concedeu tudo novamente.
— Puxa! — Riu o senhor Frene — Que exemplo de fé! Valeu a pena!
— Valeu? — Me surpreendi — O senhor acha?
— Claro! Ele foi ressarcido de suas perdas!
— E os dez filhos que o diabo levou?
— Deus lhe deu outros!
— Outros! Concordo! Mas e o livre arbítrio daqueles dez que Deus deixou o diabo matar? E se um deles fosse eu? Ou o senhor?
— Regis, não sou expert em explicar os complicados caminhos de Deus!
— Quando saí da Terra, a muitos anos, conhecia um menininho, que tinha apenas quatro anos de idade e tinha uma doença cruel, chamada epidermólise bolhosa e o que ela faz é terrível: o menininho sofria muito, pois tinha feridas por todo o corpo externo e até interno e precisava fazer curativos doloridos todos os dias. Fazer xixi, ou cocô, para ele era algo terrível. Dá pra imaginar? Por que Deus permite que isso aconteça a um menininho inocente?
— Regis, sei de quem você está falando — alegou o senhor Frene. — Eu o conheci! Você sabe sobre os pais do menino?
— Como assim? Nem sei se ainda vivem!
— Os pais do menino eram primos legítimos! Pessoas de mesmo sangue não podem gerar filhos!
— Concordo! O senhor tem toda razão quanto a isso.
— Ou seja: A culpa do menininho sofrer tanto, não é de Deus, como você queria insinuar. A culpa é dos próprios pais, irresponsáveis!
— Está certo! — Dei leve sorriso.
— Novamente o livre arbítrio! Deus não proíbe primos de se casarem e terem filhos! São livres para fazerem do jeito que querem! Porém arquem com a responsabilidade e a culpa do mal que fizeram a seus próprios filhos! Se um pai resolver engravidar a própria filha, ou uma mãe se engravidar do próprio filho, Deus não irá interferir!
— E quanto a mim?
— Faça o que eu lhe propus! Curta seus amigos daqui de Suster e procure ser um menininho feliz.
— Seria confortante e lindo, se minha família e meus amigos estivessem do meu lado — comecei a chorar mais forte. — Sabe quem acabei de ver morrer, poucos minutos antes de embarcar nesta viagem pro seu mundo?
Ele triste, simplesmente acenou negativamente.
— Elizabeth! A mesma menina que não quis me acompanhar pelo caminho do aeroclube, no dia em que o senhor alterou minha vida pra sempre.
— O que eu posso fazer pra lhe compensar esta grande perda? Pra que você possa me perdoar e ter-me como a um grande amigo?
— O senhor se lembra, de que uma vez me propôs certa cirurgia?
— No cérebro? — especulou-me ele sério — Com certeza!
— Ainda é possível realizá-la?
— Não é o que você quer! Não seu coração!
— Eu quero senhor Frene! Por favor!
— Mas Regis: Você sabe das consequências!
— Ela é perigosa?
— Não! É totalmente segura. As consequências que eu falo são outras.
— Os médicos da Terra, sempre falam que qualquer cirurgia traz algum risco. Eu sou médico. Lembra?
— Claro! Mas eu garanto que é segura! Não há cortes, apenas a introdução de um pequeno cateter, com câmera microscópica em uma de suas narinas, seguindo até o cérebro, onde a gente vai desabilitar alguns de seus neurônios.
— São neurônios! — Adverti-o — É o cérebro! Um erro e eu ficarei paraplégico para o resto dos séculos que ainda tenho de vida.
— Não há nenhum perigo! Toda a cirurgia é analisada e realisada com ajuda de computador.
— Me lembro de um caso, de um menininho de seus sete anos de idade, meu paciente, entrou em sala de cirurgia pra realizar uma simples operação de fimose e saiu de lá dentro de um lindo caixão branco.
— Grande erro médico — se preocupou o senhor Frene. — Foi você quem o operou?
— Imagina! — Dei leve sorriso — O conselho de medicina da Terra, só me autorizava exercer atividades de medicina, como assistente.
— Como assim?
— Veja o tamainho do doutor! Será que algum pai confiaria seu filho a mim, com um bisturi nas mãos?
— E o que aconteceu ao médico que o matou? — Especulou-me o senhor Frene, com certa revolta.
Ele sempre se revoltava, quando sabia de algum caso em que crianças sofriam. Claro! Para ele, crianças são frágeis e extintas, pelo menos em seu mundo.
— A mídia caiu em cima, houve processo, mas ao final, acabou ficando por isso mesmo.
— Cruel! — Fez careta ele — Mas quanto à cirurgia que eu havia lhe proposto no passado, garanto que não há riscos. Só que seu coração não quer fazê-la.
— Ele quer mais do que eu — insisti. — Meu coração está doente. Seu planeta não tem doença. Mas a doença que aqui não tem é a física. Meu coração que está doente é o coração alma, embora esta dor reflita também no coração de carne.
— Sei exatamente o que você está sentindo — o alegou. — É a mesma dor em que senti, no dia em que você foi embora de meu mundo pra sempre. Naquele dia, eu sofri muito e continuei sofrendo durante muitos anos. Acreditei que Regis Primeiro...
— Chame-o de Arthur, senhor Frene — interrompi-o. — É mais fácil.
— Acreditei que ele substituiria você, mas me enganei completamente. Embora a gente passasse a amá-lo muito também, ele acabou foi me fazendo sentir ainda mais a sua falta. Por isso sei o que você está passando.
— Posso fazer a cirurgia?
— Você sabe que se fizermos a cirurgia, você se esquecerá da Terra e de seus familiares para sempre? E que tal cirurgia é irreversível?
— Os neurônios que o senhor disse que serão desabilitados, na verdade serão excluídos.
— É bem por aí — advertiu-me ele.
— Não tenho mais ninguém na Terra! Todos me deixaram.
— Marcarei a cirurgia.
— Pra quando?
— Sei lá! Quando você quer?
— Agora!
— Que agora? — Riu ele — Você acabou de chegar! Está cansado.
— Cansado de que?
— Da viagem! Foi longa.
— Só pro senhor ter uma ideia, até a questão de meia hora atrás, eu estava dormindo.
— Preciso providenciar a equipe médica... Preparar o hospital... a sala de exames e cirurgia...
— Que sala de exames?
— Precisamos realizar uma tomografia e criarmos um mapa de seu cérebro. Só assim saberemos quantos e quais neurônios inibirmos.
— Quando deverá ser?
— Vá pro seu quarto se acomodar. Tomar um bom banho. Depois eu te aviso.
— Tudo bem!
— Quer que eu o acompanhe, ou sabe ir sozinho?
— Meu quarto ainda é o mesmo?
— Bem! Com sua partida ele foi cedido ao Ré... Arthur! Mas você poderá compartilhar com ele, se preferir. Ou... Posso lhe arranjar outro, caso queira privacidade.
— Não! Prefiro ficar com Arthur! Caso ele me aceite. Ele é meu amigo. Gosto muito dele!
— Creio que ele concorde. Já até levou sua caixa de pertences com ele. Depois mando acrescentar mais uma cama.
Entrei no hall da grande residência e tomei o caminho do corredor, sentido dormitórios.
— Regis... — interrompeu-me ainda o senhor Frene.
Parei, me virando a ele.
— Seja muito bem vindo a nosso mundo. Faço votos de que seja sempre muito feliz conosco.
Fiz um gesto de esperança com a cabeça e com os lábios, depois concluí:
— Cure meu coração dolorido e creio que serei muito feliz!
Caminhei até o mesmo quarto, de onde saí a mais de cinquenta anos terráqueos no passado. Como naquela época, a porta se abriu sozinha e eu entrei. Tudo parecia ser o mesmo, com praticamente a mesma mobília.
Ouvi barulho de água caindo do chuveiro ligado e pude saber que Arthur estava no banho.
— É você Regis? — Gritou ele, lá do chuveiro.
— Sou eu! — Respondi meio que assustado. — Posso repartir este quarto com você?
— Deve! — Gritou ele em tom animado.
Em poucos segundos, ele desligou o chuveiro se embrulhou na toalha e voltou para o quarto, enxugando os cabelos com outra toalha.
— Que tal está o quarto? — Riu ele.
— Do mesmo jeito do que era no passado As coisas não evoluíram por aqui?
Ele fez gesto de que “quem se importa”, com os ombros.
— Vou tomar banho também.
Despi-me por completo, já que nem usava cueca e segui para o chuveiro. O sistema ainda era idêntico ao de antigamente, com um monte de braços mecânicos, dispostos a esfregar a gente, mas eu achava aquilo uma idiotice, criado para alguém muito do vagabundo, já que no banho, o divertido é a gente mesmo ter o prazer de sentir o próprio corpo. Felizmente era possível ligarmos a água, no sistema tradicional, igualzinho sempre foi na minha Terra.
Quinze minutos depois, já estava vestindo roupas, de volta ao quarto, com o então meu parceiro, que bem sabia, seria companheiro de artes e outras aventuras diversas.
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