Refúgio Quentinho - CIP

1 Capítulo Único - Refúgio Quentinho


Davi estava se esforçando para não andar de um lado para o outro do quarto enquanto esperava ouvir três batidas baixas na porta, como esperava todas as noites nos últimos meses. Todas as outras vezes o deixaram animado, ansioso e até meio excitado, mas naquela noite em especial essa espera era uma tortura.

Meia noite e doze.

Meia noite e treze.

Meia noite e quatorze.

Meia noite e quatorze e meio.

Meia noite e quatorze e três quartos.

Meia noite e quinze.

Finalmente as três batidas suaves soaram na porta e Davi correu para ela, fazendo uma pausa para respirar fundo antes de abri-la.

Daniel também estava com os nervos à flor da pele quando bateu na porta, porém assim que ela foi aberta e seus olhos encontraram os de Davi, os dois esqueceram de tudo que estava bagunçando suas mentes e sorriram.

O judeu o puxou para dentro pela camiseta e o beijou enquanto fechava a porta de volta com a mão livre. Daniel retribuiu com vontade, levando as mãos a cintura de Davi e aproximando mais seus corpos. Sem parar de se beijar, eles foram andando até cair na cama.

Por um tempo os dois ficaram assim, se beijando e trocando carinhos quentes, embora só por cima da roupa. Mas logo Davi sentiu um volume pressionar sua bunda e sua própria cueca ficar, digamos, mais apertada. Então eles decidiram parar um instante para respirar e não acabar passando dos limites.

— Como vão ficar as coisas entre nós a partir de amanhã? — Daniel perguntou enquanto acariciava suavemente o cabelo de Davi, tentando não desmanchar os cachos.

— Eu não sei. Meu pai tá tão feliz com o casamento. A gente não vai conseguir esconder pra sempre que a gente também se gosta. — ele respondeu, enquanto fazia círculos com a ponta no dedo na barriga dele.

— É, a minha mãe também tá bastante animada. Imagina o climão que vai ficar na mesa de jantar depois que eles ficarem sabendo de nós? — comentou, bufando uma risada nervosa.

— Total. — Davi riu com mais amargura do que humor de verdade. — Só que as chances de eu te ver todos os dias e conseguir ficar sem o seu beijo somam um total de zero vírgula zero por cento.

— E somando com as minhas chances de resistir a você, ainda dá zero. — Daniel brincou, também dando o mesmo tipo de risada triste. — Mas vamos tentar pensar positivo, meu gatinho lindo. A taxa de divórcios no Brasil é, tipo assim, enorme. Vai que os nossos pais estarão no meio dessa galera daqui uns três ou quatro anos?

— Se a gente for levar em conta a porcentagem dos casais que se separam, temos que pensar também que a maioria dos namoros termina. Podemos não durar pra sempre também e assim estamos torcendo pra que a sua mãe e o meu pai deem errado por nada. E aí é só maldade, Dan. — o judeu respondeu, fazendo um estalo baixo com a língua.

— Tem razão, me desculpa. — ele murmurou, o apertando mais forte em seu abraço. — Quer saber? Nós quatro estamos felizes por enquanto. Amanhã vai ser um grande dia que vamos nos vestir bem, brilhar de alegria e festejar o amor. Vai ser lindo. Não precisamos pensar no que vai acontecer depois se o agora tá tão bom. Um dia as coisas vão ficar estranhas e vamos ter que lutar pra continuar juntos. E eu vou lutar com unhas e dentes quando precisar. Mas agora ainda não é a hora pra pirarmos com isso. Vamos só vamos curtir o momento.

— Eu posso tentar, só que... É tão chato essa sensação de aperto no peito por esconder algo do meu pai. Claro que tem sempre um lado divertido em fazer uma coisa proibida, mas ele e eu sempre fomos tão unidos que esse lance de ficar mantendo um segredinho e escondendo a minha felicidade tá acabando comigo. — Davi confessou, dando um suspiro soturno no fim. — O que sinto por você é uma das melhores coisas que eu já senti. Precisar guardar isso só pra mim faz parecer que é errado, mesmo eu tendo a perfeita noção de que não é.

— É só por enquanto, depois a gente conta e as coisas vão ficar esquisitas por um tempo, mas se nós podemos ficar felizes por eles, vão ficar felizes por nós. — Daniel assegurou com um sorriso otimista. — E mesmo que não fiquem, a gente vai lidar com isso juntos.

— Você tem razão. E quer saber de uma coisa? Desde que eu tenha seus braços pra me abraçar forte e seu peito pra ser o meu refúgio quentinho, eu posso lidar com qualquer coisa no mundo. — o judeu respondeu, conseguindo sorrir também.

— Você vai ter isso pra sempre. Porque eu amo você. — Daniel se declarou, erguendo o queixo de Davi para beijar seus lábios com ternura.

— Eu também te amo.

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