Refém... ou não?
7 O segredo de seus olhos
Notas iniciais
Acordei e já é de manhã. "Ele" está deitado ao meu lado, acho que está dormindo, esse é um bom momento para ler o livro. Começo a ler do início.
"Este é um novo diário, um novo começo. André está me ajudando na recuperação, não sei o que faria sem ele. Ele sempre esteve aqui quando precisei, e eu não poderia pensar em uma pessoa melhor para me ajudar neste momento. Estou tão triste, a pessoa que eu amava me traiu e me deixou no estado que estou hoje, uma aberração."
Ao ler isso olho para o lado. Já sei a quem pertence... Eu estou com o seu diário, isso é errado, mas já está feito, não tem como reverter isso. Preciso beber água. Me levanto calmamente para não acorda-lo, acho melhor que "ele" pense que acordou primeiro que eu. Desço as escadas com o diário em minha mão e chego na cozinha, procuro por um copo. Quando encontro um encho-o de água, mas ao me virar percebo que "ele" está na entrada da cozinha, simplesmente parado. Estou imóvel, "ele" vai ficar uma fera quando me ver com seu diário. "Ele" dá alguns passos lentos, abre uma porta do armário e pega um remédio. Simplesmente parece que não estou aqui. Movo minha mão no ar, como se estivesse mandando um um tchau. Não entendo, "ele" não expressa nada. Deixo o copo cuidadosamente em cima do balcão e me movo com cuidado para trás, para a saída da cozinha. Continuo olhando seus movimentos de longe. "Ele" passa a mão sobre o balcão e encontra meu copo de água, o segura por um tempo, acho que deve estar desconfiando, cheira, bebe um golo e termina bebendo o resto com o remédio. Continuo observando-o. "Ele" senta em uma cadeira e segura a cabeça com as mãos, acho que está na hora de eu dar as caras.
– Oi. — "ele" levantou uma das mãos e balançou-a — Tudo bem? — "ele" fez um ok com a mão.
Sentei-me em sua frente e comecei olha-lo. Fiz uns movimentos com a mão para ver se "ele" via isso... Nada. É difícil de acreditar, definitivamente, "ele" não enxerga!
– Você não parece estar muito bem, precisa de algo? — "ele" começa a escrever em uma folha de seu caderno, me entrega-a e continua com a cabeça baixa
"A quanto tempo você está acordada?"
– Acordei a poucos minutos. Você está bem?
"Estou, como acordou hoje?"
– Ótima! E você?
"Melhor impossível"
– Ah, é? Você não está com uma cara muito bem hoje.
"Camila, estou de máscara, como sabes se estou de cara boa? Aliais, minha cara nunca está boa, é sempre essa porcaria queimada de sempre"
– Você está agindo de modo deprimente hoje. E, se gostaria de saber, adoro seu rosto, é bem sexy, sério. — vejo-o rir — Então o que te incomoda?
"Só você para me fazer rir a essas horas da manhã. O que está me incomodando são somente umas lembranças do passado, coisas que eu já deveria ter superado a anos. Então, como quer seus ovos?"
– Pode deixar o café-da-manhã comigo, você já fez demais para mim nos últimos dias.
"Tem certeza? Não me vá colocar fogo na cozinha. Acho não vou encarar o fogo pra te salvar... eu acho" — ri ao ler isso
– Pode deixar, sua cozinha vai sobreviver e você não vai precisar superar seus medos para me salvar.
"Vou alimentar os animais, volto logo... não se mate!"
– Hahaha, pode deixar.
"Ele" sai para fora da casa, não sei exatamente quais animais "ele" vai alimentar. Começo a fazer o café-da-manhã. Ovos, leite, café, Nescau, torrada, pão e manteiga, isso é tudo que minha criatividade consegue criar. "Ele" ainda não voltou, acho melhor ficar aqui, mas como eu sou rebelde... vou procura-lo.
Chego a porta da frente, qualquer um em meu lugar fugiria, se caso fosse um sequestro. Essa seria a porta da liberdade, porém aqui, nesta casa, com "ele", eu me sinto mais livre do que nunca. Finalmente abro aquela porta. Vejo o enorme campo a minha frente, tão lindo. Olho para o lado e vejo um celeiro, vou até lá. Chego e encontro "ele" colocando ração para vários cavalos, fico surpresa, a muito tempo não vejo cavalos.
– Cara, sério, o que mais você me esconde?
"Existem tantas coisas que você ainda precisa descobrir"
– Como por exemplo? — chego mais próximo dele e toco em seu peito
"Descubra e descobrirá"
– Nossa, que poético! Nunca vi uma frase tão filósofa assim! — pude ver o seu sorriso através de sua máscara. "Ele" levantou-se, foi até uma baia e me chamou com a mão. Chegando lá pude ver uma égua branca, deitada no chão forrado de feno com seu filhote branco de pintinhas pretas, que, presumo, acabara de nascer.
"Ele acabou de nascer. Gostaria de toca-lo?"
– Lógico! — cheguei mais perto, olhei para a mãe daquele pequeno animal, ela continua deitada de cabeça baixa, e passei a mão sobre a cabeça do potro. Ele ainda está atordoado. Percebi que iria se levantar e senti a mão dele tocar pegar a minha.
"Ele vai dar os primeiros passos, melhor você afastar-se um pouco."
Demos alguns passos para trás, mas continuamos de mãos dadas. O potro começou a levantar-se e, todo desengonçado, deu seus primeiros passos. Depois de um tempo, com suas pernas ainda trêmulas, ele começou a correr de um lugar a outro. Isso é magnífico, nunca vi algo assim de perto.
"Que nome você gostaria de por nele?"
– Sério? Posso mesmo?
"Ele é seu, decida o nome dele"
– Meu? Nossa... obrigada! Que tal... Chuvisco?
"Okay, então o nome dele é Chuvisco"
– Você ta falando sério?
"E quando não estou? Não sou muito de presentear com jóias ou roupas"
– Okay, não sei o que falar. Muito obrigada?!
"De nada"
Observei-o pegar um pequeno cabresto e coloca-lo no Chuvisco
– Isso servirá para quê?
"Não queremos um animal agressivo, teríamos que doma-lo quando mais velho. Domar um cavalo pode ser complicado e até mesmo doloroso"
– Certo — fiquei vendo-o fazer o que achava melhor para o pequeno Chuvisco.
"Gostaria de beber leite direto da fonte?"
– Quero?
Depois de cuidarmos do Chuvisco, fomos ordenhar uma vaca. Cara a quanto tempo eu não faço isso? "Ele" estava ensinando-me como ordenhar, porém não consegui nem meio copo de leite. "Ele" teve toda a paciência comigo, e, aos poucos, conseguimos uma quantidade aproximada de 1 litro. "Ele" pegou um copo, encheu-o de leite e me deu.
– Descobri o porque de o leite ter o gosto estranho. Pessoas da cidade, que são acostumadas a beber leite de caixinha, nunca se acostumariam com o gosto.
"Então você não vai se acostumar"
– Posso tentar. Já me acostumei a não ouvir sua voz, mas ler suas palavras.
"Então tentaremos"
– Tentaremos?
"Tentarei me acostumar de que não estou só, novamente"
– Novamente?
"Digamos que eu tive a infância e a adolescência difíceis"
– Agora eu estou aqui, não se preocupe.
"Não me preocupo. Independente do que aconteça, você também sempre terá a mim para ajuda-la. Não irei mais desaparecer. Okay? Agora me abraça."
Demos um longo abraço apertado. Voltamos para casa para comer o café-da-manhã que eu preparei.
– Acho que já esfriou.
"Não tem problema, temos leite... Inventamos algo diferente."
– Como por exemplo?
"Vamos tomar o leite ao invés de café... Você falou que tentaria."
– Irei beber, não se preocupe.
"Estou brincando, não é necessário. Mas se quiser, pode misturar o leite com o café, mudará um pouco gosto."
– Ah, claro!
"Se quiser, compramos leite de caixinha para você."
– Não precisa, mesmo, quero me acostumar com tudo que há aqui.
"Acostumar? Você sabe que não precisa ficar aqui, se quiseres, podes me pedir que levo-te de volta"
– Não quero. Vou ficar aqui... com você
"Agradeço, mas não precisa se sacrificar por mim."
– Não estou me sacrificando por ti. Gosto daqui, é bom, me sentido diferente, mais calma.
"Tudo bem, mas saiba que você sempre estará livre."
– Eu sei. Sinto-me livre como jamais senti antes.
"Fico feliz por isso!"
– Mas, e você? Como se sente?
"Estou feliz, como a muito tempo não estava. Camila, você tem o dom de levar a felicidade para onde quer que esteja."
– Não é bem assim. Você precisa de mim assim como eu preciso de ti, por isso que estamos felizes, um precisa do outro.
"Verdade"
Finalmente fomos comer o café da manhã. "Ele" escreveu-me dizendo que estava ótimo, mas acho que foi por bondade, pois não gostei. Depois fomos assistir televisão, isso me lembra de sua possível cegueira. O que será que pensa quando está sentado assim comigo?
Quando "ele" me disse que não vê a beleza, ou a aparência, ou a roupa das pessoas, inclusive a minha, mas sim a alma, "ele" realmente não vê nada disso. Se "ele" gostar de mim, não será pela minha beleza. Quando "ele" não memorizou o quarto, queria dizer que não poderia andar sem bater em algo. Imagino como deve ser difícil viver sem ajuda, em um lugar grande como este, cuidar de animais, de si próprio e, ainda mais, de mim... seria dessa a ajuda que "ele" precisa? Não importa, estou mais decidida do que nunca em ajudar-lhe.
Fomos para o campo em frente a casa. Simplesmente andamos por uns 5 minutos e deitamos no chão, nem mesmo assim consigo ver o fim, chega a ser impressionante, estranho e lindo. Fico olhando para o seu azul até perceber uma filha de papel estendida
"Como você estava indo no quesito educação?"
– Faculdade, mas voltei a me tornar uma dependente de meus pais quando me formei.
"Quais suas matérias preferidas?"
– Humanas
"Sério?"
– Sim, por quê?
"Odeio humanas!"
– Ué, por quê? É melhor do que usar uma folha inteira de contas. Mas não vá me dizer que gostas de exatas
"Ficar com todo aquele pensamento humano não é para mim, e só para constar, amo exatas!"
– Odeio escrever, porém amo ler.
"Adoro escrever e ler, mas isso me deixa triste."
– Ao menos algo temos em comum. Por que isso te deixa triste?
"Sinto que no fundo você sabe o porquê"
– Talvez, mas nada concreto.
"Não posso ler"
– Era bem o que eu imaginava, você não sabe ler! — começamos a rir.
"Deduzo que se eu não sei ler, então não sei escrever. Todas essas palavras escritas para ti foram todas alucinações."
– Era exatamente o que eu pensava!.. Não, brincadeira... você não enxerga, estou certa?
"Sim, você está."
– Como me escreves?
"Prática, treinei muito para chegar aqui. Aliais, um amigo me ajudou com tudo que sei."
– Um amigo?
"O nome dele era André, é uma longa história."
– Quem foi ele?
"Além de um grande amigo, ele foi dono desta casa, foi médico e foi um grande homem."
– Hum... Você é gay?
"O quê?!"
– Você e o André já tiveram algo?
"Ora, Camila! Ele só me deu auxílio quando precisei."
– Achei que vocês tivessem tido algo.
"E o que diabos isso tem a ver com eu ser gay?"
– Vocês poderiam ter tido algo...
"Mas isso me tornaria gay? Camila, e se eu não for homem?"
– Então vou seria uma mulher muito atraente. — nós dois rimos deste comentário.
"Camila, se eu fosse mulher, isso mudaria algo?"
– Como assim?
"Você ainda iria dar em cima de mim como uma lunática maluca?"
– Não sei, acho que sim. Gosto de você. Gosto de você como nunca antes gostei de alguém. Acredito que, independente de quem sejas, não deixaria de gostar assim de ti.
"E se eu for alguém que você nunca iria querer algo? Ou se este seu sentimento estiver errado?"
– Eu sei o que sinto. Você é a pessoa que deve ser, eu devo aceitar isso.
"Okay"
– Posso fazer uma pergunta?
"Sim"
– Você enxerga tudo escuro?
"Na maioria das vezes sim, em lugares com pouca iluminação. Mas em lugares bem iluminados como este, ainda consigo ver silhuetas e vultos."
– E como eu sou?
"Da maneira como eu sempre te imaginei"
– Isto seria?..
"Perfeita, do jeito que és"
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