Refém da Paixão
14 Flecha Lançada
Notas iniciais
As festas de aniversário de Vitória eram muito visadas pela mídia, sempre aparecia alguém importante, e era um dos assuntos mais comentados da cidade de Miami por semanas.
Eram verdadeiros eventos, na verdade. Extravagantes, luxuosas e cheias de surpresas.
A festa daquele ano fora montada no tema Cassino, e ao descermos as grandes escadarias do salão de festa da casa de Victória, acreditei por alguns segundos estar dentro de um salão de apostas, daqueles mais luxuosos que ficam em Las Vegas.
Flores vermelhas estavam espalhadas por todos os quatro ambientes do salão. Cortinas douradas iam do chão ao teto na área de recepção. Na sala de jantar as mesas redondas estavam perfeitamente postas com taças grandiosas e talheres que reluziam.
O salão de baile tinha o piso mais lindo que eu já vi na vida. Era um mármore branco todo rajado de dourado que refletia tão bem quando um espelho.
Ao lado ficava a ala de jogos, e era ali onde a maioria dos convidados estavam, todos fazendo suas apostas. Slot Machines, Poker, Blackjack, estavam entre os variados jogos disponíveis ali.
Aquilo tudo fugia tanto da minha realidade que foi impossível não ficar vislumbrada com tanto luxo em uma só festa. Acho que foi isso que me fez ficar alienada perante ao fato de que Edward e eu, éramos a nova atração da festa.
—Estão todos olhando para você. – murmurei diante a chuva de olhares curiosos.
Edward sorriu com o canto dos lábios e e negou com a cabeça.
—Estão olhando para você. – me corrigiu com uma piscadela voltando a me guiar por entre as pessoas.
Já tinha quase dois meses que estava trabalhando com Edward e ainda não havia me acostumado com toda aquela atenção que ele chamava. Ou melhor, que nós dois chamávamos.
—Ah, vocês vieram! – a voz de Victória ecoou contentamento. Sorrindo grande ela veio até nós, estava extremamente maravilhosa dentro de um vestido justo, longo e tão vermelho quanto seu cabelo.
—Feliz aniversário! – a desejei recebendo seu rápido abraço.
—Obrigada, Bella. Você está linda! – me elogiou após analisar cada detalhe do meu vestido.
—Você também. – e realmente estava. A maquiagem impecável deixava todo o destaque para os olhos verdes, que naquela noite estava mais brilhante do que nunca.
Edward soltou minha cintura para cumprimentá-la com um abraço rápido. Achava a relação que eles tinham muito bonita, sem contar é claro, o modo com que começaram a se relacionar.
—Olá, boa noite! – a voz masculina chamou nossas atenções, virei a cabeça a tempo de ver o homem loiro, alto e muito bem vestido se aproximar.
Soube quem ele era muito antes de vê-lo abraçar e beijar a boca de Victória. James fora um dos primeiros a ser investigado, e eu tinha decorado muito bem cada um dos seus traços.
Quieta o vi cumprimentar Edward, o sorriso no rosto era largo e convencido. Aparentemente Victória gostava de homens com o ego inflado.
—Você. – apontou para mim e me encarou com certa curiosidade. —Você deve ser a destemida domadora de feras que laçou meu grande amigo.
Edward rolou os olhos, Victória soltou um riso baixo e eu não soube exatamente o que responder.
—Acho que sou. – proferi com certa timidez. Ele estendeu a mão e apertou a minha com gentileza.
—É um prazer, Bella.
—O prazer é meu.
Edward se postou ao meu lado, passou o braço por minha cintura e me puxou para ele mais uma vez.
—Vamos ir receber os convidados. Fiquem a vontade. – Victória foi educada como sempre e voltou a desfilar pelo salão com James ao seu enlaço.
O garçom passou e nos serviu champanhe. Lamentei por não poder beber, ele tinha um aroma maravilhoso.
—O que achou de James? – cerrei os olhos diante sua pergunta. —Gosto de saber sua opinião sobre as pessoas que me cercam.
—Não posso opinar ainda. Só trocamos um oi. – dei de ombros mantendo a voz baixa. —Mas estamos de olho. Em todos.
Edward arqueou as sobrancelhas e gesticulou com a cabeça aceitando minha resposta.
Andar ao lado de Edward era sinônimo de chamar atenção. Por onde íamos as pessoas se viravam para nos olhar, algumas torciam o pescoço, outras até se levantavam.
Felizmente havia recebido um belo trato antes da festa, afinal, Edward não podia estar acompanhado de uma mulher mal arrumada. Gael e sua equipe sempre arrasavam quando o assunto era me arrumar, mas naquela noite eles haviam superado todos os limites.
Minha maquiagem estava perfeita, ao melhor estilo das Kardashians, com contorno bem marcado, cílios postiços e lábios levemente aumentado pelo batom vermelho.
Ele escovou e ondulou meu cabelo para prendê-lo em um rabo de cavalo lindíssimo, já que queríamos deixar em destaque o belo colar de diamantes em meu pescoço.
O vestido preto era de um tecido macio e confortável, e apesar de seguir justíssimo por todo meu corpo, eu havia amado o corte sereia.
Aquela noite eu estava perfeita, como Edward fizeram questão de repetir inúmeras vezes.
A família Cullen estava toda reunida ao redor de uma das mesas. Carlisle, Esme e Jasper me receberam com a mesma simpatia de sempre, já Rosalie, que se mantinha pendurada em Emmet não escondeu a infelicidade ao me ver.
Aquela implicância sem fundamento estava começando a me irritar.
—Boa noite, Bella querida, você está linda! – Esme foi doce ao me elogiar. Sorrindo retribuí seu abraço maternal.
—Obrigada, Esme. Você está maravilhosa! – e realmente estava, o tom rose do vestido justo e midi, fora feito para sua pele alva. Seu cabelo dourado fora modelado em ondas perfeitas que ao mesmo tempo pareciam super naturais. A maquiagem estava impecável, desde os olhos esfumaçados com sombra rosa chá, ao batom nude.
Em um ato pleno de cavalheirismo, Carlisle, Jasper e Emmet se levantaram para que eu pudesse me sentar.
—Esse colar maravilhoso é uma de suas criações? – Jasper perguntou em uma tentativa clara de puxar assunto.
—Sim. – respondi diante os olhares tensos de Emmet. —Um dos meus primeiros projetos.
—É lindo! – Carlisle elogiou tomando um gole de seu whisky. Já sabia de quem Edward havia herdado aquela paixão pela bebida âmbar.
—Lindo mesmo. – Esme concordou com um sorriso grande.
—Já viu a Victória, Edward? – Rosalie fez questão de mudar de assunto. Contive a vontade de rolar os olhos.
O que é que eu tinha feito para aquela mulher?
—Já, a vi assim que cheguei. – Edward afrouxou um pouco a gravata em seu pescoço e pousou a mão sobre a minha que repousava sobre a mesa. Fingi tomar um gole do champanhe estranhando sua mudança de postura. Ele estava visivelmente incomodado e eu não demorei a encontrar o motivo.
Sentado em uma mesa do outro lado do salão e com os olhos bem fixos em mim, estava ele Jacob Black. Eu precisava assumir que ele era muito mais bonito pessoalmente do que por fotos. Mesmo de longe pude perceber o quão negro e profundos eram seus olhos. Ele sorriu quando percebeu que eu também o olhava e correu a mão pelo cabelo preto.
Pigarreei abaixando a cabeça. Minhas bochechas queimavam.
—Que merda foi isso? – Edward se inclinou para esbravejar em meu ouvido.
O encarei fingindo não entender o que ele havia dito e vi a ira fervilhar em seus olhos heterocromáticos.
—O que?
—Não se faça de sonsa. – rolou os olhos com o maxilar cerrado. —Quero que fique longe do Black.
Aquilo não tinha sido um pedido, tinha sido uma ordem. A qual eu teria que descumprir, por mais que Edward ficasse puto comigo.
—Carl, aquele homem parado perto do corrimão não é o Patrick? – Esme era educada demais para apontar com o dedo, aquilo dificultou um pouco o trabalho do marido para achar a pessoa indicada.
—Sim, é ele mesmo! – o pai de Edward sorriu feliz e se levantou. —Se nos dão licença, vamos conversar com um velho amigo.
Ele puxou a cadeira para que a esposa levantasse e lhe estendeu o braço. Os dois formavam um casal tão lindo, tão encantador, que era difícil não querer ter uma relação assim.
—Então, rapazes... – Emmet chamou nossa atenção após beber de uma vez o resto do champanhe que havia em sua taça. —O que acham de irmos jogar um pouco?
—Vamos lá! – Jasper concordou animado como sempre.
Edward estava pronto para negar com a cabeça, quando Emmet falou novamente.
—Ou você tem medo de que eu te derrote no poker novamente? – os olhos de Emmet eram puro desafio e deboche, justamente o tipo de coisa que Edward mais odiava.
Ele conhecia bem o amigo. Sabia onde ir para conseguir o que queria.
—Rose, você faz companhia a Bella? – Edward pediu antes de se levantar, ela deu de ombros com a maior indiferença do mundo. —Não demoro. – me lançou uma piscadela e beijou minha boca rapidamente antes de se levantar.
Quieta eu os vi se afastarem enquanto tentava ignorar o clima pesado que se instalara na mesa.
—Gostando da festa? – perguntou me pegando de surpresa. Eu realmente não esperava que ela fosse puxar algum assunto comigo.
—Sim, está tudo muito lindo. – ela concordou com a cabeça mantendo um sorriso cordial no rosto, mas por mais que ela sorrisse seus olhos não conseguiam me enganar, eles deixavam claro que ela não gostava muito de mim.
—Não é estranho para você?
—O que? – eu realmente não sabia onde ela queria chegar.
—Vir na festa da ex do seu... Namorado? Noivo? Marido? – fingiu-se de confusa. —O que vocês são exatamente, por que está morando com ele, não está?
—Somos namorados, estou apenas passando um tempo aqui. – me esforcei para controlar minha voz. Minha vontade era de dizer que aquilo não era da conta dela. —E não, não é estranho. Eles estão separados há muto tempo, estão bem resolvidos. Não há o que estranhar aqui.
Ela mordeu o lábio inferior visivelmente surpresa com minha resposta. O ranço que ela sentia de mim estava começando a ser reciproco.
—E quanto a Tanya?
—O que tem? – me fiz de desentendida.
Ela sorriu com o canto dos lábios exibindo certa maldade, tomou o resto do champanhe que havia em sua taça e a deixou sobre a mesa.
—É melhor perguntar a Edward.
Cobra. Venenosa. Cascavel.
Minha mente gritava, e era péssimo não poder transparecer aquilo.
—Se me dá licença, vou ao toalete. – me lançou uma piscadela, pegou sua bolsa e se afastou sem nem mesmo esperar minha resposta.
Respirando fundo e contando até dez, massageei minhas têmporas. Deus tinha que me dar muita paciência, caso o contrário, eu ia acabar explodindo.
Não conseguia acreditar que aquela cobra venenosa tinha saído de um ser de luz como a Esme. Emmet já havia garantido sua passagem para o céu somente por conseguir aturar Rosalie.
—Com licença. – a voz grave me sobressaltou. —Me desculpe, não quis assustá-la.
Todo meu sangue gelou quando ergui a cabeça e me deparei com Jacob parado ao meu lado. Ele sorria como antes, e agora estando mais próximo, eu podia ver mais detalhes do seu rosto. Como as covinhas que enfeitavam suas bochechas.
—Está tudo bem. – lhe garanti arrumando a postura.
—Posso? – gesticulou para a cadeira que antes estava ocupada por Edward. Demorei um pouco para assentir. Por mais que aquele fosse meu dever aquela noite, sabia que Edward odiaria aquilo. —Você é...?
—Você sabe quem eu sou. – tomei cuidado com o tom da voz, não queria ser grosseira. Não podia afastá-lo, mesmo estando sem a menor paciência para joguinhos. —E eu sei quem você é.
Ele sorriu grande e maneou a cabeça em consentimento.
—Claro. Vamos pular essa parte. Para que fingir, não é mesmo? – assenti com a cabeça. —Me diga, Bella, o que é que uma mulher tão linda faz aqui sozinha?
Seus olhos escuros me estudavam com tanto interesse que me sentia encurralada.
—Esperando meu namorado. E você, o que faz aqui sozinho?
—Gosto de andar sozinho. – deu de ombros. —Mas então é verdade o que estão dizendo? – não respondia a sua pergunta. —Edward Cullen está mesmo namorando.
Foi impossível conter o riso. Porque aquilo parecia tão surreal para as pessoas?
—Sim, estamos juntos. – concordei molhando minha boca com o champanhe.
—Os anos passam e o Cullen nunca aprende. – chacoalhou a cabeça em negativa. Cerrei os olhos sem entender.
—Como assim?
—Não se deve deixar um mulher tão linda assim sozinha. Outra pessoa pode vir e roubá-la. – jogou chame abaixando a voz e inclinando o corpo em minha direção.
Completamente envergonhada eu me afastei, pigarreando e encarando todos os cantos da festa.
A música suava que era tocada pela banda fora interrompida para o cantor chamar todos os convidados para a pista de dança.
—Me concede uma dança? – Jacob pediu estendendo a mão em minha direção.
Engoli a seco sem saber exatamente o que fazer. Eu queria sair dali correndo, mas não podia. Eu tinha que fazer meu trabalho.
Ainda receosa aceitei seu pedido pousando minha mão sobre a sua. Jacob me conduziu até o salão de baile, e felizmente não avistei nenhum integrante da família Cullen. Não queria nem imaginar o que pensariam de mim se me vissem com Jacob.
—Você é amigo da Victória? – perguntei tentando não pensar muito no fato de que estava praticamente agarrada ao maior “inimigo” do meu namorado.
Namorado de mentira.
Meu subconsciente fez questão de me corrigir.
—Há muitos anos. – ele sorriu ao responder me guiando nos primeiros acordes da música calma. —Ela é uma mulher maravilhosa.
—É sim. – concordei rapidamente.
—Vamos falar de você. – pediu em meio a uma volta completa. —É bem diferente do tipo de mulher que anda pendurada no Cullen. – analisou. —O que você faz?
—Desenho joias. – proferi sem conseguir deixar de refletir sobre suas palavras. —O que quis dizer ao citar que sou diferente das mulheres que andavam com Edward?
Ele sorriu, lubrificou os lábios com a ponta da língua e me girou com calma.
—O Cullen costuma estar acompanhado de mulheres mais...
—Bonitas?
—De jeito nenhum. Você é linda. – sua voz foi firme e sincera. —Mulheres mais artificiais. – completou.
Maneei a cabeça aceitando sua resposta. Conhecendo Tanya, era impossível não concordar.
Jacob firmou a mão em minha cintura nos unindo ainda mais enquanto nos rodopiava ao compasso da música.
—Ainda não sei o que uma mulher tão maravilhosa está fazendo com o Cullen. – inclinou a cabeça para falar ao pé do meu ouvido.
Sua proximidade me incomodou um pouco, mas não era hora de recuar. Eu precisava saber mais.
—Edward é um pouco difícil, mas é um homem incrível. – Jacob soltou um risinho debochado guiando-me no compasso da música calma.
—Tem quem ache. – deu de ombros. —Particularmente, acredito que mereça algo melhor.
Maneei a cabeça mantendo o sorriso cordial nos lábios. Ele soltou minha cintura e me ajudou a dar o rodopio perfeito.
—Porque não gosta dele? – questionei finalmente assim que voltamos a ficar cara a cara.
Jacob me estudou por longos segundos. Seus olhos negros eram profundos e ilegíveis.
—Digamos que ele tirou algo importante de mim. – foi vago, por sorte eu já sabia a história.
—E você quer dar o troco. – supus e vi um sorriso indiferente se abrir em sua boca.
—Já quis. Hoje em dia eu só gosto de provocá-lo mesmo. – assumiu, mas não tive certeza se aquilo era verdade. —Mas é claro que eu amaria roubar você dele. – me lançou uma piscadela divertida.
Sua afirmação me deixou sem jeito. Desviei os olhos de seu rosto vendo os outros casais darem os passos finais da dança.
—Só que pelo jeito isso é impossível. – analisou atraindo novamente minha atenção.
—Como assim?
—Estou vendo que está apaixonada. – respondeu tranquilo.
Suas palavras me pegaram de surpresa.
Apaixonada.
É claro que eu não estava apaixonada. Eu só estava fingindo estar apaixonada. Aquilo era apenas fingimento... não era?
—Será que você pode devolver minha mulher, Black? – a voz de Edward se fez presente assim que o último acorde da música soou.
Ainda confusa pela afirmação recente, me afastei de Jacob. Edward passou os braços por meus corpo e me puxou no mesmo instante.
—Foi um prazer, Bella. – Jacob gracejou segurando minha mão e beijando meus dedos, aquilo fez Edward praticamente rosnar de raiva. —Nos vemos por aí. – me lançou uma piscadela antes de se afastar.
Não consegui lhe responder, ou se quer pensar algo coerente. Tudo o que passava por minha cabeça em um loop sem fim era alegação de Jacob.
Estou vendo que está apaixonada.
Eu deveria me sentir feliz com aquilo. Deveria estar satisfeita por estar representando bem. O problema é que eu não sabia até que ponto era mentira. A farsa e a verdade estavam começando a se mesclar e eu estava me perdendo naquela bagunça.
—O que estava fazendo com Jacob? – o tom irritado de Edward me sugou daqueles pensamentos conflitantes. —Te disse que era para ficar longe dele. – podia ver o quão irritado ele estava. Seus olhos flamejavam ódio e seu rosto estava vermelho, mas mesmo estando diante de um vulcão que estava prestes a entrar em erupção, só conseguia pensar no que Jacob dissera.
—Eu preciso ir ao banheiro. – na verdade eu precisava de um espaço.
—Eu quero ir embora. Agora.
—Eu preciso ir ao banheiro. – bati o pé olhado dentro de seus olhos. Eu precisava tomar ar, respirar, por os pensamentos em ordem.
—Assim que sair do banheiro vamos embora. – informou com toda sua postura mandona de sempre, mas mal consegui lhe responder.
Eu precisava me afastar. Eu precisava respirar um ar puro daquele aroma viciante que era seu perfume. Era difícil manter a coerência estando próxima a ele.
Encontrar os banheiros naquele salão imenso não era uma tarefa fácil. Eram tantas saídas, tantas entradas que em meio a toda confusão da festa, e a confusão que acontecia em minha cabeça, acabei entrando até na cozinha.
E que vergonha ver que todos os cozinheiros pararam para me encarar. Querendo me enfiar no primeiro buraco que aparecesse, desisti de achar o banheiro e me contentei com o jardim vazio.
A brisa fria correu pela extensa área externa até se chocar em meu corpo deixando eriçado cada um dos meus pelinhos.
—Hey, Bella!
Apertei os olhos praguejando mentalmente quando a voz conhecida me chamou.
Porque era tão difícil ter um momento de paz e sossego?
—Bella?
—O que você quer, Mike? – me virei para encará-lo. Arfante, tentava afrouxar a gravata borboleta do pescoço, naquele noite ele era o garçom que servia as bebidas a família Cullen.
—Estou tentando falar com você desde que chegou. – sua voz saiu falhada. —Você está tão linda...
Rolei os olhos diante o elogio.
—O que você quer? – repeti a pergunta. —Fala logo, preciso entrar.
Era melhor que eu entrasse e fossemos embora, já que ter um momento de paz naquela festa era impossível.
—Quero falar sobre nós...
—Nós não existimos mais. – o interrompi para lembrá-lo. —Porque é tão difícil aceitar que acabou?
—Porque até pouco tempo atrás você dizia que me amava, que queria ter uma família comigo... Não sei como isso mudou tão depressa! – a inconformidade brilhava em seus olhos e fala.
—Mike, já tem quase três meses que terminamos... – abaixei a cabeça tentando manter a calma. Eu realmente não estava disposta a discutir sobre aquilo naquela noite.
—Ninguém deixa de amar tão rápido! Se me amasse de verdade iria lutar por nós dois e não teria desistido...
—Você desistiu primeiro quando praticamente me obrigou a escolher entre você, nossa possível família, e meu trabalho. – acusei com o dedo em riste. —Ou você se esqueceu?
Ele apertou os lábios e recuou o corpo. Respirando fundo mandou a cabeça em negativa.
—É, acho que me esqueci ao te ver assim. Está tão linda. Nunca te vi tão arrumada.
Bufei alto diante suas palavras idiotas.
—Ah, me poupe... Isso aqui é só um disfarce. Eu não sou assim. Não se iluda.
Lhe dei as costas e estava pronta para me afastar quando suas palavras me prenderam.
—Não sou eu que estou me iludindo, e você sabe muito bem disso.
—O que está querendo dizer? – cruzei os braços para encará-lo.
—Estou vendo o jeito como o Edward te olha. Todo mundo já percebeu que há algo a mais entre vocês. – sua voz saiu fria e dissimulada. —Mas como você mesmo disse, essa Isabella é só um disfarce. Quero ver se ele vai continuar interessado quando voltar a usar os jeans surrados e as camisetas desbotadas.
Suas palavras foram mais cruéis do que eu estava esperando. Engoli a seco ainda digerindo o impacto delas.
—Nem todo homem é um babaca como você!
Arqueei o queixo me forçando a permanecer firme. Jamais iria demonstra o quanto suas palavras me feriram.
Não lhe dei tempo para respostas, voltei para dentro do salão o mais rápido que pude. Caminhar com aqueles saltos altíssimos e extremamente desconfortáveis era uma missão complicada, tanto quanto controlar aquele turbilhão de sentimentos que aconteciam dentro de mim.
Edward me recebeu tão irado quanto antes e não trocamos uma só palavra durante todo o percurso de volta para casa. Aquela festa tinha sido um completo desastre, pelo menos para mim.
—Eu quero saber o que você estava fazendo com o Black. – Edward deixou transparecer toda sua raiva em sua voz.
Desci dos saltos e respirei fundo. O que eu menos precisava naquele momento era brigar com Edward.
—Emmet pediu para eu me aproximar dele e tentar descobrir algo...
—E você fez isso de bom grado? – perguntou ao fechar a porta do quarto com certa brutalidade. —Ficou se esfregando com ele na frente de todo mundo!
—Eu não estava me esfregando em ninguém. Estava apenas fazendo o meu trabalho! – fiz questão de corrigi-lo tendo de aumentar a voz para ser ouvida.
—E dançar agarrada em outro homem faz parte do seu trabalho? – ele me encarou com os olhos brilhando de raiva.
—Se for necessário, sim. – dei de ombros e aquilo o irritou ainda mais. —Sinceramente, Edward, eu tive uma noite péssima, não quero brigar...
—Deveria ter pensado nisso antes de ficar pendurada no pescoço do Jacob. – praticamente cuspiu as palavras puxando a gravata com extrema agressividade. —Eu não aceito fazer papel de idiota, principalmente em público!
—Foi só uma dança! – exclamei começando a fixar impaciente com aquela insistência.
—O caralho que foi só uma dança! – sua voz subiu uma oitava e aquilo acabou com o último pingo de paciência que restava em mim.
—Abaixa o tom de voz. Homem nenhum grita comigo. – fazia tempo que eu não precisava lembra-lo daquilo. Fazia tempo que não nos exaltávamos tanto.
—Claro, você está acostumada a fazer o que quer com os homens que te rodeiam. – rolei os olhos diante sua fala absurda. —Mas já te aviso que comigo isso não funciona. Não vou aceitar que minha mulher fique dançando agarrada por aí...
Cobri o rosto com as mãos na vaga tentativa de me conter, contudo, já não conseguia mais. Era muita coisa sobre os meus ombros.
—Meu Deus, Edward, quantas vezes vou ter que repetir que eu estava fazendo o meu trabalho? Que eu estava seguindo ordens? – minha voz saiu mais alta do que eu queria. —Tudo o que eu venho fazendo desde que nos conhecemos faz parte do meu trabalho. – disse as ultimas palavras pausadamente para ver se ele entendia. —Eu não sou sua mulher. Não estou apaixonada por você. Eu não sou assim. Isso que você está vendo... – gesticulei para mim mesma. —É só um disfarce. Nós dois somos um disfarce. Uma mentira.
Assim que terminei meu desabafo o arrependimento me preencheu por completo. Vi a surpresa deixar os olhos heterocromáticos e dar lugar a decepção, mágoa... Havia algo mais, contudo, ele se recompôs muito rápido. Assumiu aquela postura fria e impessoal que eu não via há muito tempo.
—Ok.
A palavra pequena fora dita com a maior indiferença do mundo. Me afogando no arrependimento o vi sair caminhar até a porta e sair do quarto. As vozes alteradas deram lugar a um silêncio ensurdecedor.
Dizem por aí que existem três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida. E desses três itens, a palavra é a que mais estragos faz!
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