Reflexão
1 Capítulo 1: Reflexão
O salão do refeitório da pousada era simples e rústico, mas o local estava cheio de camponeses, viajantes e soldados ocupando mesas abarrotadas de comida e bebida.
Zed estava ali a algum tempo, remexendo a bebida no copo e, ao mesmo tempo, observando disfarçadamente todas as pessoas ao seu redor. Esperava pacientemente conseguir ouvir uma informação relevante no meio do fluxo de vozes tagarelando. Porém, o intelecto mediano dos soldados noxianos apenas proporcionava conversas triviais e mesquinhas.
— Tanta estupidez. – ele pensou desviando o olhar, entediado.
— Olha só quem chegou.
Um dos noxianos avisou com entusiasmo, seguido de um longo assovio.
Curioso, Zed levantou os olhos. Ele tentou não deixar transparecer a surpresa em seu rosto ao ver Syndra em pé perto do balcão. Ela era a última pessoa que ele esperava encontrar naquele lugar. Porque Syndra não saía do seu templo a quilômetros de altura do solo ioniano por coisas fúteis e banais, suas aparições sempre eram raras e extremamente pontuais.
Ele se perguntou por qual motivo ela se enfiaria em um lugar no meio do mato com tanto homem? Por um momento, passou pela sua cabeça que ela tinha se aliado ao exército noxiano. Aquilo fez o seu sangue ferver de ódio, depois, congelar de medo. Mas ele descartou a possibilidade quando reparou na expressão dela de descontentamento por não conseguir encontrar quem procurava.
— O que você acha?
— Vai ser legal se ela vir com a gente.
A voz dos noxianos ressoou venenosa em meio às risadas.
Zed ouviu todas as coisas sujas e repulsivas que os noxianos planejavam fazer com Syndra. Era desagradável como eles falavam sobre ela. Tão nojento! Que o estômago de Zed começou a embrulhar e uma ânsia subiu queimando pela garganta seca. A sua mão agarrou a borda da mesa, soltando lascas e pó entre os seus dedos. Ele estava visivelmente desconfortável, incomodado e irritado. Então, veio em seu corpo um impulso estranho, uma vontade súbita de proteger Syndra, como um instinto protetor enterrado há muito tempo.
Entretanto, ele não queria desenvolver qualquer interesse por ela. Foram poucas as vezes em que eles se encontraram e sustentaram uma longa conversa. Não existia um motivo coerente para ele estar perdendo o juízo por causa dela. Chegava a ser exaustivo lidar com as sensações desconhecidas. Ela estava arruinando a pouco paz que existia na vida dele. Por causa de uma situação que ele não poderia deixá-la resolver sozinha, pois o estrago mágico que causaria seria tão grande a ponto de iniciar outra guerra com Noxus.
Quando os dois noxianos se levantaram, Zed também se levantou rapidamente da cadeira. Ele caminhou despercebido por entre as pessoas que estavam em pé. Assim que ele passou por Syndra, discretamente, agarrou o pulso dela, a fazendo segui-lo pelo salão até passarem pela porta onde haviam entrado.
— Ei! – chamou Syndra, sendo arrastada em direção a floresta. – Me solta!
— Qual é o seu problema, garota!? – Zed se virou abruptamente. – O que você está fazendo? Está tentando se matar?
— Quem estará prestes a morrer será você se não me soltar!
— Por que está aqui? – exigiu uma resposta.
— Eu não tenho por que te dar uma explicação. Agora, tire a sua mão imunda de mim.
Apesar da hostilidade de Syndra, Zed parecia não estar pronto para soltá-la. O queixo dele permanecia rígido. A sua respiração irregular. Seus olhos âmbar ardiam como brasas, consumindo as chamas acesas de uma ira que a muito tempo queria queimar dentro dele. E com um humor sombrio, ele soltou ela. Tomado por um ódio repentino, feroz e irracional. Sem conseguir controlar o que estava sentindo, ele tentou se esquivar da sensação fechando os dedos dentro da palma da mão e atingindo com força o tronco da árvore atrás de Syndra. O seu punho parou a centímetros do rosto indecifrável dela. Ele não conseguia ficar ali parado olhando ela sem querer matar alguém.
— Droga! Não era para você estar aqui! É perigoso! Há soldados por toda a parte! Quantas vezes eu tenho que te avisar para ficar longe dos noxianos? – sua voz saiu severa, mais áspera do que pretendia. – Não sabe do que eles são capazes de fazer para te destruir! Você não pode vir aqui!
Syndra encarou Zed por um tempo. Era impossível entender aquele homem. Ela não conhecia ele o tempo suficiente para conseguir adivinhar os motivos ou o que poderia ter provocado tanta irritação nele, embora ela conseguisse sentir o pânico, o desespero, transpirando através do corpo dele. De qualquer forma, era difícil ignorar ele com toda aquela tensão quando estava tão perto. Mas algo incomodava ela… O som apático do coração dele batendo ecoava dentro da sua cabeça igual a um cronometro. Um chiado cada vez mais forte, mais rápido, e ainda mais rápido. De repente, um aperto angustiante tomou conta do seu peito ao ter a sensação de que, no segundo seguinte, o coração dele ia explodir na sua frente.
— Está bem! Está bem! Eu não vou! – ela respondeu rápido, revelando o seu nervosismo. – Não irei vir mais aqui. Então, você pode, por favor, fazer esse som irritante parar?
Zed respirou fundo e abaixou a cabeça soltando o ar pela boca, deixando a tensão em seus ombros se esvair. O alívio foi instantâneo. Sua mente finalmente parecia ser capaz de pensar com clareza novamente, logo, fazendo ele se questionar de que som irritante Syndra estava falando? Afinal, não escutava nem o ruído dos pássaros.
— Ei, se sente melhor agora? – perguntou Syndra, sem hesitar em colocar as mãos na máscara de ferro no rosto de Zed, virando para a direita e depois para a esquerda, tentando descobrir pelos olhos dele qual expressão escondia atrás da armadura. – Quer me contar o que aconteceu?
— Não. – Zed respondeu se afastando, ajeitando a postura. – Eu jamais deixaria você ouvir algo tão terrível.
O tom tranquilo e cheio de autoridade não ocultou a gentileza que existia no fundo das palavras de Zed. Com isso, Syndra sentiu o coração palpitar de forma estranha. Foi a primeira vez que alguém impediu ela de ouvir um discurso odioso.
— Ah, aí está você!
Ahri se aproximou atraindo a atenção de Syndra e arrancando um risinho irônico de Zed.
— É por isso... Você conhece a maldita raposa. – deduziu Zed, cruzando os braços. – Não tinha outro bueiro com vermes melhores onde pudesse se alimentar, vastaya?
— É bom te ver também, Zed. Não esperava por uma recepção tão calorosa. – Ahri sorriu com um olhar arisco. – Sinto muito por fazê-la esperar. – disse para Syndra. – Não queria que tivesse o desprazer de conhecer esse ogro. Eu pensei que você ia me esperar lá dentro.
— Ah, eu estava, mas… – Syndra fez uma breve pausa ao reparar que Zed continuava desprezando a presença de Ahri. O clima entre eles parecia apreensivo demais para ela contar a verdade. – Está muito cheio lá dentro. Fiquei sufocada.
— Esquisita. Mas de um jeito fofo. – se apressou em corrigir a fala ácida. – E você? Por que ainda está aqui parado?
Zed não respondeu a Ahri. A expressão no rosto dele mudou imediatamente após ouvir o barulho da porta do estabelecimento se abrindo. Quando dois soldados noxianos saíram pela porta, Zed instintivamente puxou Syndra, a mantendo escondida atrás da altura do seu corpo. Em seguida, ele projetou suas sombras nos galhos das árvores ao redor, esperando os adversários se aproximarem.
Naquele momento, Ahri entendeu por que Zed vigiava Syndra. Ela sentiu no ar o odor das emoções perturbadoras exalando dos humanos. No entanto, foi a intensidade das emoções vindo de Syndra que arrepiaram todos os pelos das suas nove caudas. Os seus olhos se arregalaram assustados vendo Syndra separar os lábios e entortar a ponta dos dedos, prestes a manifestar o poder sombrio correndo pelas veias. Então, Ahri tocou na mão de Syndra e a puxou em sua direção.
— Ei, o que acha de ir a outro lugar? – ela sugeriu outra vez sorrindo, empurrando as costas de Syndra, sem deixá-la olhar para trás. – Conheço uma taverna ótima aqui perto. Você vai adorar a comida de lá! Tem tantos doces! Aposto que não provou nenhum deles…
Ahri falava descontroladamente sobre comida enquanto andava desajeitada encarando Zed, emitindo um sutil sinal com os olhos para que ele se livrasse rápido dos noxianos. Zed assentiu com a cabeça. E Ahri prosseguiu distraindo Syndra.
— Argh! Já chega!
Syndra elevou a voz irritada, se virando com os olhos escuros e brilhantes, irradiando poder. Só que a cor incandescente em seus olhos desapareceu ao notar que Zed e os soldados noxianos não estavam mais lá. Confusa, ela franziu o cenho entre as sobrancelhas, vistoriando o local.
— Onde ele foi?
— O Zed? Nunca saberemos. – Ahri cruzou os braços. – Ele vive desaparecendo. Estranho mesmo é ver ele parado aqui conversando com você. Aliás, o que há entre vocês dois? – questionou curiosa.
— Do que está falando?
— Ele estava bastante preocupado com você.
— Não acredito que isso seja possível. – desinteressada em prolongar o assunto, Syndra voltou a caminhar.
— Aham. – um som de desdém saiu da garganta de Ahri antes de seguir Syndra. – Desde quando se conhecem? Essa não foi a primeira vez, isso eu tenho certeza. Me conta, vai! Como foi?
— Não. Não há nada de interessante que precisa ser contado.
— Você já está caidinha por ele, não é? Até que vocês ficam bem juntos. Sério. Inquietos e caóticos.
Um longo suspiro cansado saiu dos lábios de Syndra.
— Eu devia fazer um casaco de pele com as suas caudas...
— Ele é tão rude e arrogante! Desconheço um humano mais estoico! – Ahri continuou comentando, ignorando os protestos de Syndra. – Mas o mistério tem seu charme. Da próxima vez, anda logo e chama ele para sair.
— Nunca. – avisou. – Assim que o sol se pôr, eu pretendo voltar para casa e estender ao infinito o meu período de solidão.
Houve um longo minuto de silencio.
— Tudo bem. Então eu vou chamar ele para você. – Ahri recuou alguns passos e berrou em direção ao céu: – Ei, Zed!
— O que!? Não! Não! Não!
Syndra se jogou em cima de Ahri, colocando as mãos na boca dela, porém, as duas começaram a se debater e caíram sobre a grama.
— Me solta, sua bruxa ranzinza!
— Ora, sua raposa intrometida!
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