Reflexo
1 Reflexo
Reflexo
Eu estava perdida no escuro.Tremendo enquanto sentia as incessantes lágrimas molharem meu corpo, a dor cortava o ar e chegava ate mim...ela chamava o meu nome.Meus olhos pesaram dentro do vazio e a dor pareceu dissipar...mas no fundo eu sabia...era só mais uma ilusão.
Dor, angustia e tristeza.
Andei vagarosamente ate o espelho do banheiro e como poderia prever me deparei com o mesmo deprimente reflexo horrível.Pousei a mão sobre o espelho...eu era minha maldição e aquele objeto cheio de frustrações,julgamentos,culpas,desejos e raiva me mostrava isso.
A raiva.Ela se apossou de mim então fechei o punho e golpeei o espelho.Rapidamente pude sentir a dor de meus sonhos sem valor e ver o sangue escorrer como o pouco tempo de vida que me resta.
A tranqüilidade do saber... e eu sabia que tudo não tardaria a acabar.
Com a mão cuidada e enfaixada desci as escadas e pude admirar-me com a visão do corpo semi-nu daquele que ajudara a me criar...meu maldito pseudo-pai.O desejo flui leve pelo meu corpo logo depois fazendo correr em minhas veias o ódio que eu nutria por mim mesma e por minha genitora.
A culpa era minha...é minha e será minha.Por desejar tanto o amor que jamais poderei alcançar.Nos momentos em que flutuo livremente pelos lugares obscuros da minha mente sua voz me faz retornar.
- Laura você esta bem ? – perguntou com suas belas expressões a tomarem um ar de preocupação – Você esta pálida.
Senti uma leve tontura e uma dor na cabeça,coloquei a mão sobre a tempora esquerda e fechei os olhos.
Minha cabeça latejava contra a faixa que estancava o sangue que deveria vazar da ferida que tinha nela.Varios lugares do meu corpo doíam.
- Oh filha você acordou – ela fitava a mim com os olhos vermelhos de choro recente- fiquei tão preocupada.
Ela colocou a mao sobre a minha e acariciou-me.Ele também estava lá...sentado na cadeira ao meu lado parecendo aliviado por eu não ter morrido desta vez.
O medico adentrou o quarto e começou a falar sobre minha situação.Eu havia melhorado com o tratamento...mas não era suficiente.E para mim a melhora seria uma tortura colossal.
Na mesma tarde eu voltei pra casa.Estava fraca e cansada demais para subir as escadas, simplesmente joguei meu corpo no sofá.
Ele veio ao meu encontro e acariciou meu cabelos.E como se o sangue em minhas veias fosse vidro, senti o corpo doer quando seus braços me envolveram.
Ferida pela falta de amor, machucados e cicatrizes tão profundos e delicados.Ah você me mata com essa tortura.
- Deixe me cuidar de você – ele me puxou do sofá para seu colo,como se eu fosse uma boneca frágil e leve.No meu quarto ele me deitou na cama.
Seus lábios se aproximaram perigosamente do meu rosto.Senti o corpo tremer e fechei os olhos. Sei que mereço o inferno por não conseguir curar esta doença...este inoperável amor.
Todas as minhas lembranças acerca dele pareciam estar flutuando à nossa volta.Quando nos conhecemos...aniversários..natais ...meus chiliques adolescentes ...brigas...conversas...meus tombos...
Tudo estava ali...quase tocável ...os momentos que eu esqueci e os que permaneceriam em minha mente ate o momento de minha morte.
- Pseudo estou com fome...- talvez eu devesse lhe chamar pelo nome ...talvez parecesse infantil te chamar assim ...mas algumas coisas com as quais eu me acostumei jamais mudariam...eu te amava...eu te amo...coisas como essa ficam gravadas na alma de um jeito profundo...ate mesmo na minha maculada alma.
- Quer algo em especial ?- perguntou sorrindo novamente
- Não ...- oh sim ...eu gostaria do seu amor, só isso poderia matar a minha verdadeira fome.
- Vou fazer um macarrão, esta bem ? — o que desejas com toda esta atenção e com todo este seu carinho se nada mais me resta ?Somente as lagrimas são minhas ...deseja arrancar me o fôlego ? Quem sabe desejas o meu resquício de vida ?
Mesmo de costas você percebeu minha insistente lágrima se derramar ...meu amado observador...meu odiado padrasto...meu sonho inalcançável...maldito companheiro de minha mãe.
Entorpece-me com seu odor...e eu aceito seu abraço e meu sofrimento...ou minha morte romântica e inevitável.
- Eu não demoro...descanse por favor – seus desejados lábios pousaram sobre minha bochecha.Senti meu rosto enrubescer..
Cretina,abominável,repugnante,nojenta,asquerosa.
Meus pés se arrastaram ate o banheiro e novamente meu reflexo,em vários pedaços quebrados de o que outrora fora um espelho.Abri o armário atrás daquele odiado objeto e então meu destino caiu na pia quase sem fazer barulho...
Vi meu reflexo na lâmina e ele chamou por mim...sentei abaixo do chuveiro aberto e passei com firmeza e força sobre meu pulso aquele pequeno pedaço de morte.Repetindo os movimentos diversas vezes intensificando a pressão contra o meu corpo.
Fechei os olhos apreciando a dor intensa que pareceria tão pequena se comparada a dor que eu carregava dentro do meu coração.
Logo veio o medo...bem depois o frio ... então enfim a escuridão.
A morte não foi tão ruim quanto eu imaginava ... mas é uma pena que eu vá para o inferno...gostaria tanto de ver os anjos.
Fim.
Notas finais
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