Reflexo
1 Único
Notas iniciais
Estava sonhando?
Hyuuga Hinata perguntou-se pela terceira vez, após esfregar com força os olhos perolados, encarando o que parecia ser sua própria imagem refletida no espelho... Porém, já idosa, falando consigo.
— O que significa isso?! – Indagou, começando a ficar assustada. – Estou ficando louca, só pode!
— Não está, não – Disse a mais velha.
— Estou cansada, é só isso – Fechou os olhos inchados de tanto chorar por causa de seu rompimento com Shikadai, o novo namorado de apenas 20 anos. – Meu psicológico está abalado, nada mais. Respira, Hinata. – Sussurrou como um mantra, esperando aquilo acabar.
— Você perguntou tantas vezes ao Universo, queria saber se estava fazendo o certo, não foi? – A Hinata idosa sorriu com carinho. – Também não entendi quando me vi tão jovem refletida no espelho. – Tentou explicar.
A Hyuuga idosa esperou com paciência a crise de riso histérico da mais nova passar.
— Eu pedi uma resposta, não uma dose de loucura aos 32 anos!
Ao passo que a risada anormal teve fim, iniciou-se um choro tão dolorido, vindo do fundo da alma, que até mesmo a idosa chorou. Ela sabia que dor era aquela. Lembrava-se muito bem de quando sentiu dúvidas sobre seu futuro ao lado do namorado, Nara Shikadai. Sua dúvida não era apenas sobre o namoro recente, havia se separado de seu marido narcisista perverso, com o qual vivia um relacionamento tão abusivo que chegou a destruí-la por dentro. A idosa lembrou-se que naquele tempo se sentia num misto de culpa por ter traído Toneri (mesmo sabendo que seu casamento já estava tão devastado quanto seu psicológico e seu amor próprio), e insegura pelo pedido brusco de divórcio.
Achava que era culpada de tudo, que era a causa de todo mal existente na vida do ex-marido. Via-se tão feia, burra, incapaz. Não era boa esposa, não tinha uma profissão importante... A verdade era que se via pela ótica de Toneri, que a desprezava e fazia questão de dizer essas atrocidades, dia após dia, para manter a Hyuuga em um estado emocional lastimável.
Conhecer o alegre e gentil Nara Shikadai foi como ver terra firme depois de anos à deriva num mar revolto e perigoso. Entregou-se aquele porto seguro de corpo e alma, sem muito pensar no futuro. Não era para ser mais que uma aventura, mas o amor e carinho que recebeu do rapaz a cativou profundamente. Ele era único em seu jeito meigo e atencioso.
Seu coração destruído começou a se recompor.
Não sem que as garras do passado recente tentassem puxá-la de volta para o mar de destroços.
— Acalme-se, querida – O sorriso e o olhar doce naquele rosto enrugado eram tão sinceros e firmes que fez a mais nova se convencer que estava mesmo falando consigo do futuro, de alguma forma que não compreendia.
Nem queria compreender, na verdade. Queria apenas saber...
— Eu vou... Quer dizer, nós vamos ficar bem? – As lágrimas grossas rolavam pelo rosto alvo. – Tudo parece fora do lugar, eu não sei o que fazer... Estou com tanto medo disso, do desconhecido.
— Eu sei como se sente. E, sim, ficaremos bem.
— E Shikadai? E Toneri? – Sua voz subiu um tom, estava angustiada com todo aquele turbilhão de coisas. – Se eu não for boa o bastante pro Shikadai como não fui capaz de ser pro Toneri?
A idosa negou com um menear de cabeça. Tocou o próprio peito e segurou um pingente redondo e dourado diante do rosto, mostrando para a outra. Abriu e mostrou que dentro havia uma foto. O dedo indicador cobriu metade da imagem, impedindo a outra Hyuuga de ver quem estava ao lado dela.
— Vê isso? Vai ganhar do homem de sua vida. Então saberá qual caminho seguir.
— Você não me ajudou em nada! – Bravejou a Hyuuga mais nova, irritada por se sentir ainda mais confusa. – Quem vai me dar isso? Eu não quero voltar para Toneri por causa de presentes, eu vou morrer de tristeza ao lado dele. Não acredito que você está feliz por essas coisas!
Com paciência, a idosa ouviu os impropérios da outra até que se calasse.
— Não fomos compradas nem nada do tipo, escolhemos com o coração, acredite. Não tenho motivos para mentir para mim mesma, querida. – Guardou o colar para dentro da blusa azul marinho que usava e continuou falando: – E, justamente, por não mentir... vou te dizer algo. – Suspirou e piscou os perolados marejados, aquela conversa também mexia consigo, apesar de saber de todo o caminho até ali, em seus 70 anos. – Não será tão fácil, você ainda vai chorar, se questionar, tropeçar... Mas você terá um homem incrível ao seu lado, que vai te respeitar e amar, incondicionalmente. Vai segurar sua mão quando você achar que vai cair, vai secar suas lágrimas e crescer ao seu lado.
— Eu vou melhorar, então? – Perguntou chorando, novamente. Não conseguia acreditar direito, tamanha era a dor em seu peito e a confusão em sua cabeça. – Eu quero tanto ficar bem, não aguento mais essa vontade de chorar incessante...
— Preciso ir, foi bom te ver de novo – Disse ao virar o rosto para o lado, olhando algo que a mais nova não conseguiu ver. – Nossa netinha está esperando. – Sorriu de um jeito que aqueceu todo peito dela. Das duas.
— N-neta? – Seu coração palpitou dolorido. – Eu não consigo ficar grávida, você sabe disso! Quantos anos sofri por isso casada com Toneri, esqueceu?! É isso, então? Eu fico velha e gagá?!
— Vai superar isso também, bobinha... – O reflexo no espelho redondo de seu quarto ficou desfocado e a imagem tremeluziu. – Adeus.
— Espera! – Gritou em vão, já com seu próprio reflexo jovem, choroso e descabelado. – Volta aqui, eu preciso saber!
Com raiva, pegou o frasco de perfume e jogou com força no espelho, espalhando cacos por todo quarto. Deu alguns passos vacilantes para trás e caiu sentada na cama. Deitou e encolheu-se no canto, chorando. Sentia-se como se tivesse passado um longo período em luta, sua cabeça estava latejando e as dores em seu corpo refletiam seu estado de espírito. Adormeceu enquanto se questionava sobre a visão estranha de si mesma, mais velha. Sentiu medo de estar ficando louca.
Despertou com batidas na porta, parecia distante o barulho. Abriu os olhos sem pressa, sentiu-os inchados. Sentou-se na cama e comprimiu as têmporas, sua cabeça ainda doía muito. A sensação de vazio e tristeza em seu peito estava lá, como sempre. Olhou em volta e viu os cacos de vidro, lembrou-se de ter quebrado o espelho.
— Ah, céus... Que bagunça – Murmurou sem se lembrar do motivo exato de ter feito aquilo. As batidas na porta ficaram mais urgentes. – Já vou... – Disse baixo, vencida pelo desanimo.
Levantou e caminhou até a sala, abriu a porta sem perguntar quem estava batendo. Seus perolados se abriram um pouco mais pela surpresa.
— Shikadai... – Era seu namorado. Ou ex-namorado. Não sabia de mais nada. – Ainda está em Konoha... Achei que ia voltar para Suna hoje. – Falou incerta, dando um passo para trás, permitindo a entrada dele.
O rapaz estava lindo como sempre, apesar do rosto abatido e os olhos avermelhados contornando os orbes verdes. De braços cruzados e tentando manter a postura desinteressada de sempre, ele disse:
— Vim apenas entregar algo – A voz magoada dele cortou o coração da Hyuuga. – Comprei ontem, mas você não me deu oportunidade de te entregar. – Acusou o Nara, se referendo ao termino repentino. – Tome. – Enfiou a mão no bolso da calça jeans e puxou uma correntinha dourada. Estendeu o colar a Hyuuga e ela pode ver o pingente redondo. Era de colocar foto dentro. – Não tenho porque ficar com isso...
Encararam-se por um instante até que um lampejo atingiu a memória da Hyuuga, que levou as mãos à boca, assustada. Seu coração acelerou e ela não soube o motivo. Lançou-se nos braços do Nara, ele a recebeu no abraço mesmo sem entender aquilo.
Deu de ombros, era Hinata, não precisava entende-la, afinal.
— Shika, me perdoe, eu amo você – Sussurrou ela. – Eu não sei o que nos espera, mas quero enfrentar com você ao meu lado.
— Está tudo bem, vamos enfrentar, sim, ok?
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