Reflexões De Uma Futura Rainha

1 Reflexões de uma futura Rainha



Arthur não a amava.

O primeiro sinal que comprovava esta verdade veio anos antes dela perceber aquele garoto loiro mimado como sendo algo mais do que o príncipe que ele era, o herdeiro do trono. E agora, remetendo ao passado, a lembrança apenas confirmava as suas suspeitas. A memória de um rapaz recém-chegado à cidade, pálido, febril sobre o colchão de feno e murmurando incoerências enquanto vozes discutindo o que fazer flutuavam ao seu redor ainda estava na sua mente. E então, o príncipe mimado tomou uma decisão que mudou os conceitos de Guinevere sobre a sua pessoa: ele decidiu salvar o criado. Se foi por teimosia, gratidão ou qualquer outro sentimento que somente Arthur poderia esclarecer, ela nunca soube dizer, mas quando ele partiu na escuridão da noite a galopes, a jovem rezou para que ele fosse bem sucedido.

Arthur não a amava.

Deveria ter percebido isto pelo simples fato do príncipe ser extremamente suscetível a feitiços de amor errantes de jovens tolas encantadas com a sua beleza e a sua posição. Percebeu isto quando na maior parte das vezes o responsável pela quebra dos feitiços era aquele rapaz de jeito desengonçado, abusado, que fazia os olhos claros do loiro brilharem em uma mistura de raiva e contentamento diante da falta de bom senso de seu criado. Claro que houve Lady Vivien, claro que houve o beijo na tenda, o beijo de conto de fadas que quebrou o feitiço e que a deixou extasiada. Mas, agora, avaliando a situação de maneira mais racional, percebia que aquele que a incentivou a cometer tal ato ousado, algo que ia contra a sua natureza passiva, foi aquele que estava tornando-se a fonte de suas incertezas.

Arthur não a amava.

O pensamento veio quando viu-se sob poder de Heingst, fingindo ser a sua senhora, e com o coração aos pulos viu a figura familiar de Lancelot entrar na arena e depois visitá-la em seu calabouço. Quando viu que Arthur veio ao seu resgate, acompanhado por ele, e que ao fugirem pelo túnel as olhadas que o príncipe dava por cima do ombro não eram para se certificar de que ela estava bem, mas para saber onde ele estava.

Arthur não a amava.

Soube disto quando Camelot caiu sob o domínio de Morgana e Morgause e em sua fuga com Sir Leon encontrou Arthur e seu grupo escondidos nas cavernas aos arredores da cidade. Soube disto quando após um discurso acalorado do príncipe cada um ao redor da távola redonda ergueu-se, inclusive ela, e jurou sua fidelidade ao futuro rei. Cada um menos ele. Não até que Arthur lhe chamou o nome e informou que ele não teria escolha a não ser segui-lo, o que ele prontamente concordou enquanto trocavam sorrisos cúmplices.

Arthur não a amava.

Atestou quando a semana de luto devido a morte de Uther passou e Arthur adentrou o grande salão do castelo vestido em seus melhores trajes, com os ombros eretos e cabeça erguida e ajoelhou-se em frente a Geoffrey, repetindo com ênfase o juramento que o velho homem pronunciava. E então, quando foi finalmente coroado rei, os seus olhos claros percorreram o local com apreensão até prenderem-se na pessoa que estava ao lado dela, a pessoa que ela ouviu dizer com desmedido orgulho para aquele que quisesse ouvir: “Vida longa ao Rei!”

Arthur não a amava.

Deveria ter repetido tal mantra com mais insistência em sua mente, talvez assim não teria cometido o erro de aceitar o pedido de casamento do rei. E enquanto o anel deslizava em seu dedo e o monarca sussurrava palavras doces em seu ouvido, elogiando todas as suas qualidades que o fizeram se encantar por ela, Guinevere percebeu com horror que as mesmas qualidades que Arthur tanto apreciava poderiam ser encontradas em outra pessoa, em um criado que lhes era bem conhecido.

Arthur não a amava.

E foi por isso que ela não resistiu ao encanto daquele sorriso ao ver o mesmo no rosto bonito de Lancelot. Não resistiu ao seu coração pulando no peito de pura alegria ao perceber que ele tinha voltado. Não resistiu aos galanteios, aos longos olhares daquelas inebriantes íris escuras, aos toques discretos e cheios de promessas, ao simples fato de que ele estava ali, e ele a amava.

Porque Arthur não a amava.

Mas Lancelot sim.

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