Refém da Paixão
6 Dama de Vermelho
Notas iniciais
Aquele simples arranjo de flores mudara todos os planos para aquela tarde. A reunião fora adiada, e não pude descer até o salão do hotel para me arrumar. Não podia correr o risco de deixar Edward sozinho, fora por isso que Kim subira com algumas ajudantes para me arrumar para o importante e estressante coquetel.
—Qual programa especial para essa noite? – a voz de Kim chamou minha atenção após longos minutos de silêncio.
—Vou acompanhar Edward em um coquetel. – me esforcei para parecer entusiasmada, quando na verdade estava tremendo com a tensão. —Vou aproveitar para tentar encontrar algum cliente.
—Isso aí, garota! – respondeu deslizando o pincel por meu rosto. —Que sorte a sua, hein? Edward Cullen não é para qualquer uma.
—Realmente. – concordei rápido demais e senti meu rosto aquecer. Felizmente estava com os olhos fechados, não queria ver a expressão no rosto de Kim, após aparentemente eu ter me “gabado”.
—Vocês estão juntos?
—Namorando. – sabia que pareceria rápido demais para as outras pessoas, já que tínhamos nos conhecido ontem, mas era essa a resposta que deveria ser dada. —Sabe como é, não posso deixa-lo escapar. – ela riu de minha piadinha de mulher desesperada. Odiava fazer aquele papel, mas não tinha escolha.
—Te entendo completamente. – soltou um suspiro longo. —Pronto. Está linda, como sempre.
Suas palavras foram o comando que precisava para abrir os olhos e enquanto Kim soltava meu cabelo, eu me surpreendia com a maquiagem bem feita. Não havia imperfeições em minha pele, a base, o corretivo e pó compacto estavam muito bem aplicados. A sombra dourada em meus olhos era hipnotizante e os cílios postiços eram curvilíneos e grandes.
Kim soube delinear meus lábios muito bem com o batom vermelho, deixando-os cheios e desenhados. Ela terminou de soltar meu cabelo que caiu em ondas sutis, em um ar natural lindo, como se os fios chocolates realmente fossem assim.
Quando coloquei o vestido vermelho, os brincos de ouro e as sandálias douradas, me encarei no espelho. Não conseguia me reconhecer naquela mulher refletida, mas estava gostando muito do que via.
—Uau. – a voz de Edward quebrou meu momento de autoadmiração. Pelo o espelho o vi parado na porta, o smoking preto de corte fino se ajustava muito bem ao seu corpo forte, e fazia com que seu cabelo cobre tivesse todo o destaque. —Você está ainda mais linda essa noite. – galanteou com um sorriso torto extremamente sexy.
Me virei com cuidado, os saltos daquela noite eram ainda mais altos e desconfortáveis. Esperava que não fosse necessário correr aquela noite, já que desabotoar os fechos da sandália eram tão difíceis quanto correr com elas.
—Obrigada. – agradeci evitando o sorriso.
Edward soltou um risinho baixo, mordeu o lábio inferior e estendeu a mão em minha direção. Cerrei os olhos encarando seus dedos longos sem conseguir entender o porquê do gesto.
—Vai precisar de apoio com essas sandálias. – explicou com a voz mais baixa.
Ergui o queixo. Sabia muito bem o que ele estava fazendo. E eu não cairia, de novo, em seus joguinhos de sedução.
—Não preciso me apoiar em você, posso andar muito bem sozinha.
Edward arqueou as mãos e deu um passo para trás.
—Tudo bem, dona onça! – rolei os olhos com suas palavras. —Porque tem que ser tão arisca?
Ignorei sua pergunta enquanto caminhávamos para fora da suíte. Claro que tive de me esforçar para manter o equilíbrio, mas jamais daria o braço a torcer. Edward não me venceria de novo, não tão fácil.
Quando o elevador chegou no andar do restaurante, tive de passar o braço pelo seu, quando as portas de metal se abriram éramos um casal de namorados apaixonados.
O restaurante havia sido fechado para aquele coquetel, mas mesmo assim, havia gente demais ali. Por mais que Alice, Erick, Mike e mais dez agentes estivessem espalhados pelo salão, ainda me sentia insegura. Sabia que as flores eram sinal de alerta e a queimação que sentia no estômago me deixava ainda mais inquieta.
—Edward, finalmente! – Nahuel, o futuro-ex-dono do hotel, praticamente saltitou em nossa direção. —Estava ansioso por sua chegada. – seus olhos brilharam ao encarar Edward. —Senhorita. – se voltou para mim com um sorriso, o qual retribuí meramente.
—Estou aqui, podemos começar a festa. – Edward não demonstrou muita animação em suas palavras. E se manteve igualmente desinteressado por toda a noite.
Por onde quer que andássemos, havia alguém para lhe bajular, e podia sentir que aquilo o irritava um pouco. Mas ele já deveria estar acostumado, aquele era o mundo dele, e ele deveria saber que, quanto mais dinheiro se tem, mais atenção você recebe.
—Tudo certo por aqui, senhor Cullen? – Ângela se perguntou com Alice ao seu enlaço. As duas demonstravam bastante preocupação, mas obviamente por motivos distintos.
—Tudo certo. – concordou sem ao menos olhá-la tomando um grande gole do whisky, e então Nahuel voltou a se autoelogiar a nossa frente.
Ele era um verdadeiro pé no saco. Só sabia dizer como foi difícil manter aquele hotel funcionando diante das inúmeras crises financeiras que tivera, e que Edward estava fazendo um negócio excelente. Dava para sentir seu ego inflado a quilômetros.
—Como vai senhorita Swan? – Ângela me cumprimentou com um sorriso ameno o qual retribuí prontamente. Imaginava o quanto ela sofria nas mãos de Edward, ele não parecia ter muita paciência ou delicadeza com ela.
—Muito bem, e você Ângela?
—Bem. – seus lábios carnudos se abriram um pouco mais quando alargou o sorriso. —Não sei se já foram apresentadas, mas essa é Alice, nova assistente do senhor Cullen.
Alice se aproximou com um passou grande, as mãos unidas a frente do corpo e o mesmo sorriso doce de sempre. Sorri com o canto dos lábios me lembrando de quando nos conhecemos, há mais de dez anos, ela pouco havia mudado.
—Já fomos apresentadas. – proferi mudando o pé de apoio, aqueles saltos estavam me matando. —Você está bem, Alice?
—Ótima, e a senhorita? – era cômico ouví-la me chamar de um modo tão impessoal.
—Me chamem apenas de Bella, por favor. – intercalei os olhos entre as duas tomando o último gole do meu daiquiri de morango e no mesmo instante minha bexiga protestou. Contive a careta ao pensar no trabalho que teria para sair daquele vestido justo, mas precisava ir ao banheiro.
Aproveitei a aproximação de Alice para poder me retirar, Emmet havia deixado claro que não era para eu me afastar de Edward enquanto não houvesse um agente por perto. Meus pés protestaram de dor a cada passo que dei em direção ao banheiro. Era incrível como aqueles saltos aparentemente inofensivos machucavam. Ignorei a presença de Mike que conversava com um dos convidados na porta dos toaletes. Naquela noite seu dever era observar quem entrava e saía do banheiro, principalmente quando Edward estivesse nele.
Descer o zíper daquele vestido fora trabalhoso, mas nada que superasse o desafio que foi subi-lo.
Estar bem vestida dava trabalho.
Me assegurei que minha aparência estava perfeita antes de sair do toalete, não podia sair daquele papel de milionária-vaidosa nem por um segundo.
—Você está linda nesse vestido. – Mike murmurou assim que saí do banheiro. Olhei-o de cima a baixo e forcei um sorriso. Seu elogio já não surtia efeitos consideráveis dentro de mim, e não sabia exatamente o porquê daquilo. —Está gostando, não é?
—Como? – estava prestes a lhe das costas, mas sua pergunta me soou prepotente demais.
—Está gostando de desfilar por aí com esse senhor do ego inflado. – suas palavras me fizeram rir ironicamente. —Posso ver o quanto está se divertindo com isso.
—Só estou fazendo o meu trabalho. – respondi com os dentes cerrados. —Da melhor maneira possível, como sempre fiz.
—É. Eu sei o quanto você é competente. – mexeu a cabeça alongando o pescoço. —Mas é que me incomoda te ver com outro.
Me esforcei para não sorrir. Ouvir aquilo me contentou muito. Não por saber querer que Mike sentisse ciúme ou algo do tipo, mas por saber que ele estava incomodado.
—Principalmente quando está gostando tanto... – rolei os olhos. —Não adianta negar, Bella. Estou observando vocês o tempo todo. Posso ver o jeito que vocês se olham.
—Aí, Mike, me faça um favor, nos poupe disso....
—Algum problema aqui? – a voz potente de Edward calou a minha. Engoli a seco quando ele se colocou atrás de mim, as mãos pararam possessivamente em minha cintura e me puxaram para mais perto. —Tudo bem? – reclinou a cabeça para me olhar com aqueles orbes que brilhavam tanto quanto estrelas.
—Tudo sim. – sorri e de soslaio, vi Mike contorcer o rosto em uma careta.
—Vamos, o jantar vai ser servido. – segurando em minha cintura ele me girou e me guiou para longe dos banheiros. Edward demonstrava seu controle e possessividade em cada toque. Ele não pedia, ele mandava. E aquilo me deixava bastante irritada.
—Você poderia ser mais delicado. – bufei enquanto nos aproximávamos da mesa, Alice caminhava atrás de nós mantendo uma distancia casual.
—Delicadeza não é o meu forte. – rolei os olhos diante sua resposta. Ele amava transitar entre a figura de príncipe e ogro.
O garçom puxou a cadeira para que eu me sentasse e Edward logo se colocou ao meu lado. O semblante endurecido deixava claro que algo não estava lhe agradando. Dei de ombros aproveitando a maravilhosa sensação de não estar sobre aquele saltos infernais.
A entrada do fora servida e o humor de Edward piorou consideravelmente entre os pratos. Não entendi muito bem o porquê de todo seu descontentamento quando ele deveria estar feliz por estar praticamente certa a compra do hotel, mas evitei fazer perguntas.
Nahuel não parava de tagarelar, não havia uma pessoa na mesa que não estivesse de saco cheio de sua falação sem fim. Nem mesmo comendo ele calava a boca.
—E convenhamos que a vista daqui é maravilhosa, não é mesmo? – contive a vontade de bufar diante sua repetição de elogios para o hotel. —Meus concorrentes tentam superar a beleza do Melb Plaza, mas é impossível. Esse é o melhor hotel de Melbourne.
Os garçons recolheram as taças das sobremesas e uma onda de alívio correu meu corpo ao ver que o café iria ser servido.
Felizmente aquilo estava acabando!
—Agora que vou passar essa grande maravilha para meu amigo, Edward. – Nahuel fez uma pausa para encarar um Edward verdadeiramente rabugento. —Vou poder dedicar minha vida ao meu aras.
Eu tinha pena da esposa dele. A coitada parecia um robô, só sabia sorrir e dizer as mesmas frases cordiais. Aliás, a maioria das esposas de homens poderosos eram assim. Se escondiam atrás dos maridos, se anulavam, só existiam para fazer companhia, dar herdeiros e mais tarde, serem trocadas por mulheres mais jovens.
—Com licença. – maneei a cabeça quando garçom deixou a xícara de café a minha frente. Ergui o rosto para lhe agradecer, contudo, meus olhos pararam no café entregue a Edward.
Uma leve espume flutuava pelo líquido preto, uma espuma que não havia no meu, ou no de Ângela, que estava sentada a minha direita. Meu coração pulou uma batida e com o estômago gelado me perguntei como iria pegar aquele café sem que ninguém percebesse.
—Edward. – toquei seu rosto ao chama-lo. Sua barba pinicou meus dedos ao tempo em que sua atenção se voltou para mim. —Ao meu sinal, troque nossas xícaras de café. – sussurrei vendo seu semblante se ascender com dúvida.
—O que? Porque?
—Só faça o que eu pedi. – ergui a postura e esticando o braço, empurrei o grande arranjo de flores. A confusão se armou ao nosso redor assim que água caiu sobre a mesa e molhou alguns dos convidados.
Felizmente, Edward fizera o que eu pedi.
—Perdem-me. – pedi fingindo uma vergonha que não existia. —O arranjo estava mais perto do que pensei...
—Está tudo bem. – Nahuel sorriu fingindo naturalidade. —Quem é que não comete um deslize as vezes?
Forcei um sorriso em sua direção e chamei pelo garçom.
—Pode me trazer um martini com uvas frescas e raspas de limão? – especifiquei sabendo que Erick entenderia o recado.
Ainda nervosa encarei o café que já havia se naturalizado. Sabia que havia algo errado com ele, minha intuição raramente falhava.
—O que está acontecendo? – Edward perguntou com os olhos fixos em mim.
—No quarto. – proferi sorrindo. Ele bufou alto e afrouxou a gravata no pescoço.
—Com licença. – soltei um suspiro aliviado quando Erick se aproximou. —Seu martini, senhorita.
—Obrigada. – soei verdadeiramente agradecida. —Pode devolver o café, está frio.
Erick intercalou os olhos entre a xícara branca e eu, não demorou muito para entender o recado. Maneando a cabeça, colocou a xícara sobre a bandeja de prata e com certo desajeito, se afastou da mesa.
Tomei um grande gole do martini, que não passava de água com sabor, enquanto tentava me acalmar. Sabia que aquele coquetel era uma péssima ideia, principalmente depois dos lírios recebidos.
Se minha intuição estivesse certa, havia algo a mais naquele café, e quem o entregara a Edward sabia muito bem o que estava fazendo.
Tirar as sandálias não me causou alívio tão grande quanto voltar para o quarto, que obviamente inspecionei cuidadosamente, antes de saber que estava tudo bem. Edward puxou a gravata do pescoço e desfez o nó com força. A fita prateada fora lançada no chão com certa brutalidade.
Apertando os pés no carpete o observei caminhar de um lado para o outro pelo quarto.
—O que foi aquilo lá em baixo? – seus olhos se voltaram para mim, ele estava furioso.
—Tinha algo errado no seu café, uma espuma diferente, mas vou avisar Emmet e tenho certeza que vão mandar o líquido para o laboratório e...
—Não estou falando disso, Isabella. – me interrompeu com a voz dura. —Estou falando de você ficar de papinho com seu ex.
Suas palavras me pegaram verdadeiramente de surpresa. Recuei o corpo encarando-o perplexa. Como assim ele estava irritado com aquilo? Provavelmente alguém tinha batizado, ou coisa pior, o seu café, e ele estava irritado por eu ter falado com Mike?
—Eu não estava de papinho...
—Estava que eu vi. – me interrompeu se aproximando uns passos. —Ouça bem, não vou admitir que fique de gracinhas com seu ex enquanto está comigo. – sua acusação me deixou verdadeiramente puta.
—Primeiro de tudo, abaixa essa voz para falar comigo. – ergui o queixo para encará-lo diretamente nos olhos. —Segundo, eu não estava de gracinhas com ninguém. Você não sabe sobre o que estávamos falando, então não ouse me acusar. – precisei parar para tomar fôlego. —E terceiro, eu não estou com você. Isso é só trabalho.
Um brilho diferente correu por seus orbes e me senti satisfeita por ter atingido algum ponto fraco dele.
—Só trabalho? – questionou com o maxilar cerrado. —Então quando nós quase transamos hoje de manhã era só trabalho? – sua voz destilara raiva e seus olhos provocação. —Bom saber que presta esse tipo de trabalho também, pode ser muito útil para mim já estou preso a você por um tempo...
Não esperei que ele terminasse sua frase, arqueei minha mão no ar e a lancei contra seu rosto. O tapa estalou no quarto pegando-o de surpresa.
—Presta bem atenção, Edward. Sei muito bem o tipo de mulher você está acostumado, e te garanto que sou bem diferente. – minha voz tremulou um pouco. —Jamais vou aceitar que me trate como uma prostituta. Não estou aqui por você, nem para ficar perto de você. Não quero e nem pretendo ter algo com você. – fiz questão de deixar claro. —E é bom que você me respeite. – engoli a seco precisando fazer uma pausa para respirar. —Porque se falar assim comigo de novo, eu mesma te mato.
Puxei o vestido que se arrastava no chão e marchei até o banheiro. Sentia a raiva fervilhar dentro do meu corpo, minhas mãos tremiam e o suor já brotava em minha testa.
Homem babaca! Quem ele achava que era para falar comigo daquele jeito?
Deveria ter deixado ele tomar o café, pelo menos estaria livre daquele ogro insuportável e machista.
Bufei alto espalmando as mãos na pedra de mármore. Minha vontade era socar toda aquela cara harmonizada dele.
—Babaca! – soltei com os dentes cerrados abrindo a pia e molhando o rosto. A maquiagem começou a se desfazer e aquilo me irritou ainda mais. Todo aquele trabalho, aquele esforço, para ser desrespeitada.
Puxei os lenços umedecidos do recipiente de porcelana sem a menor paciência. A vontade que eu tinha era de sair quebrando tudo começando pela cara de Edward. Tomei fôlego pela boca na vaga tentativa de controlar minha respiração e, consequentemente, minha raiva.
Ele não iria me desestabilizar daquela maneira. Não mesmo. Iria fazer o meu trabalho, iriamos encontrar a pessoa que estava por de trás de todos aqueles atentados, e então eu me afastaria daquele homem bronco e grosseiro.
Seguiria minha vida com as minhas merecidas férias.
Fiz questão de repetir aquilo como um mantra enquanto tomava banho. Era só focar nas férias, e tudo ficaria bem.
Saí do banheiro e ignorei sua presença sobre a cama. Recoloquei as armas nos pontos estratégicos, tranquei a porta, e me sentei na poltrona que passaria as próximas horas.
Mais uma noite. Uma longa noite. Das várias que ainda viriam.
—Quer ver um filme? – de olhos fixos no celular, fiz questão de ignorar a voz dele. —Bella? – chamou diante meu silêncio. —Será que você pode me responder?
—Não. Não quero falar com você, respeite meu espaço. – minha voz saíra dura e impaciente, exatamente como eu sentia perante sua presença.
—Você vai agir assim? – contive a vontade de rir diante sua pergunta. Sem tirar os olhos do celular, o ouvi bufar alto, sabia que nada o deixava mais irritado do que ser ignorado. —Amanhã cedo tenho uma breve reunião, apenas para assinar a compra do hotel, e Emmet virá nos buscar ao meio dia. – informou e esperou por uma resposta minha, a qual não lhe dei.
De soslaio o vi entreabrir os lábios algumas vezes, acho que procurando alguma coisa para me dizer, mas preferiu ficar em silêncio. Agradeci mentalmente voltando a prestar atenção no jogo que havia baixado.
Ignorar a presença de Edward era uma coisa difícil. Ele era para ser notado, principalmente quando desfilava pelo quarto apenas de boxer preta. Seu corpo parecia ter sido esculpido de tão perfeito, e exalava um perfume pós-banho delicioso.
Me firmei na poltrona relembrando de suas palavras duras. Obviamente a raiva estava indo embora conforme as horas passavam, mas eu jamais me esqueceria do modo como ele me tratara. Já tinha passado por muita coisa na vida para deixar um homem arrogante, mandão e mimado me desrespeitar daquele jeito.
Aquela madrugada demorou muito para passar, e quando o relógio apontou seis em ponto, Edward saltou da cama. A cara estava amassada, mas eu sabia que ele não havia dormido bem. Foi impossível não me contentar com aquilo, era bom saber que eu o afetava de alguma forma, nem que fosse ignorando-o.
Ele ficara quase uma hora no banheiro e não tentou mais falar comigo, o que deveria ter me agradado, mas me deixou levemente incomodada. Dei de ombros enquanto guardava todas as armas na mala de mão, aquela era uma tarefa que as camareiras não podiam fazer.
Alice buscou Edward para a reunião e aproveitei para ir ao salão uma ultima vez, onde Kim me deixara, mais uma vez, impecável. Sentiria falta daquela mordomia, com certeza sentiria. Era tão bom chegar destruída e sair renovada!
Foi impossível não me sentir aliviada quando sentei na poltrona de couro branco do jatinho particular de Edward. Aquele fim de semana tinha sido mais longo do que eu pensei que seria, e felizmente, tudo dera certo!
—Posso me sentar do seu lado? – ergui os olhos até Edward, um pouco surpresa por sua pergunta. Ele não parecia o tipo de homem que pedia para fazer alguma coisa. Ele simplesmente fazia.
Dei de ombros ao subir a persiana da janela. Contive o suspiro ao ver o imenso hotel desaparecer no horizonte quando alcançamos o céu de Melbourne. Sabia que, se voltasse ali mais uma vez, seria apenas uma hospede comum.
—Ainda está brava? – Edward voltou a quebrar o silêncio, a voz estava contida, mas era envolvente como sempre.
—O que acha? – o olhei rapidamente e quando encontrei o arrependimento em seus orbes, todas minhas barreiras foram ao chão. Como eu podia acumular raiva dele quando aqueles olhos eram puro remorso?
—Me desculpe. Eu sei que exagerei ontem, que passei de todos os limites. – correu a mão pelo cabelo que permaneceu no mesmo penteado perfeito de sempre. —Não quero que pense que sou um babaca...
—Eu já acho que você é um babaca. – o interrompi, mas minha voz estava limpa de qualquer acusação. Edward sorriu torto antes de morder o lábio inferior, um gesto muito, muito, muito sexy.
—Acho que mereço isso. – encolheu os ombros por breves segundos. —Eu prometo que jamais falarei com você daquele jeito e não voltarei a te desrespeitar. – ele era pura sinceridade, e vê-lo daquele jeito realmente me surpreendeu.
Edward estava livre toda sua postura machista, controladora e prepotente. Sua voz era calma, carinhosa e verdadeira. Era incrível como ele variava entre personalidades tão distintas.
—Tudo bem, eu desculpo você. – concordei por fim. —Mas se voltar a insinuar algo sobre...
—Não voltarei. – arqueou as mãos em sinal claro de paz. —Sua mão é pequena, mas é pesada....
Tentei conter o riso, mas fora impossível. É, eu sabia como estapear um rosto. Arqueei o queixo sem conseguir esconder o sorriso orgulhoso.
A porta da cabine do piloto rangeu um pouco ao ser aberta e quando Emmet a atravessou, a paz já estava selada entre Edward e eu. Emmet se aproximou e intercalou os olhos entre nós dois enquanto se sentava a nossa frente.
—Tudo bem por aqui?
—Tudo. – nós concordamos juntos fazendo-o cerrar os olhos.
—Ok. – maneou a cabeça. —Vocês sabem que de agora em diante tudo vai ficar mais difícil, não é?
Engoli a seco, mas não deixei transparecer minha preocupação. Sabia muito bem que o grau de dificuldade tinha quadruplicado. Aquilo fazia minha gastrite atacar com força total.
—Edward eu preciso que colabore o máximo possível. – pediu fitando-o fixamente. —E Bella, toda atenção é pouco. Não há espaço para erros.
—Eu sei. – afirmei com a postura reta. Sabia que era uma tarefa difícil, mas eu dava conta.
—Você já infiltrou seus agentes na casa dos meus pais? E a babá da Melissa? – Edward questionou e sua voz entonou certo grau de preocupação. Ele não ligava muito para a própria segurança, mas quando se tratava de sua família tudo mudava.
—Já está tudo certo, todos muito bem instalados. – Emmet o tranquilizou. —Ninguém está desconfiando de nada, e espero que continue assim. – nos olhou com firmeza, e sabia muito bem o que queria dizer. —O laboratório ficou de mandar o resultado da análise do café ainda hoje. – estava ansiosa para aquilo, queria saber o que tinha no café, porque eu sabia que tinha alguma coisa. —E Bella, a reunião que era para ter sido ontem será amanhã à noite, na minha casa para que ninguém desconfie. – completou antes de se levantar. —Acho bom darem uma revisada nas fixas que entreguei a vocês, tenho certeza que serão bombardeados de perguntas quando chegarmos em Miami.
Emmet nos lançou uma piscadela e voltou para a cabine, para todos os efeitos, ele era o piloto particular de Edward.
—Não vai revisar minha fixa para saber mais sobre mim?
—Já sei tudo sobre você. – nem precisava ver os documentos, muito bem detalhados, que Emmet me entregara, bastava jogar o nome dele no google e receber a enxurrada de informações. —Sei até quanto calça.
—Uau. – soltou um tanto quanto surpreso. —Então me fale sobre você.
—Você não leu minha fixa? – o encarei abismada. —Edward, você sabe que isso não é um brincadeira...
—Eu li sua fixa. – rolou os olhos ao me interromper. —Mas não quero saber sobre a personagem que vende... – maneou a cabeça. —Desenha joias. – corrigiu rapidamente. —Quero saber sobre você.
Mordi meu lábio inferior enquanto estudava sua feição bonita. Edward era sedutor até quando não queria. E aquilo era um risco para minha sanidade.
—De onde você é, como seus pais se chamam, se tem irmãos. – continuou diante meu silêncio.
Aquilo não me parecia uma boa ideia. Era intimo demais e não nos levaria a lugar nenhum. Edward também poderia confundir as informações e por tudo a perder.
Maneei a cabeça em negação.
—Isso não é importante. Não é isso que precisa saber.
—Mas é isso que eu quero saber. – retrucou me interrompendo mais uma vez.
—Edward, qual a relevância disso se quando te perguntarem sobre mim você terá que responder o que está na fixa, e não a verdade?
Seus olhos fixaram-se nos meus e um sorriso muito envolvente apareceu em seus lábios avermelhados.
—Para mim tem total relevância. – abaixou a voz erguendo uma das mãos e pondo meu cabelo atrás da orelha.
Seu polegar resvalou em minha bochecha e um corrente elétrica percorreu meu corpo. Prendi o ar nos pulmões enquanto o via se aproximar lentamente. Seu olhar desafiador e hipnotizante, intercalava entre meus olhos e minha boca.
Seu hálito fresco bateu contra meu rosto e foi o eriçar dos meus pelinhos que me despertou daquele transe. Que merda eu estava fazendo? De novo? Porque eu era tão fácil?
—Para com isso. – pedi virando o rosto. —Sei muito bem o que está tentando fazer. – pigarrei ao soltar o cinto de segurança. —E já te asseguro que não vai dar certo comigo.
—Não estou fazendo nada. – se fez de inocente, mas o sorriso em seus lábios era um tanto quanto safado. —Ainda.
Rolei os olhos e bufei, tentando fingir indignação ou irritação, mas a verdade é que nenhum daqueles sentimentos existia dentro de mim. A única coisa que se espalhava por meu corpo e queimava cada célula do meu corpo, era a vontade de beijá-lo.
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