Reencontros
1 Capítulo 1
Caramba, não sei se prefiro elas vidradas assim na TV ou bagunçado a casa com esses brinquedos! Refletiu Rosa ao observar as duas meninas no sofá hipnotizadas e silenciosas com o filme Moana que passava na grande TV.
É melhor encerrar por hoje e pôr as bonecas na cama. Concluiu roendo o canto de seu polegar direito.
— Pessu! Hora de ir pra cama! – Bateu duas palmas afim de chamar a atenção das meninas, ainda em pé na entrada da sala.
Maria Flor, a mais velha de quatro anos, olhou rapidamente para a mãe e depois voltou sua atenção para o filme. A menorzinha ao seu lado, Clarice, de dois anos apenas percebendo a chamada logo disse “ah, não!”.
Rosa foi em direção a TV e se colocou em frente da tela.
— Meus amores, amanhã vocês continuam assistindo. Afinal, já estão de férias, não é? Andem, vamos logo, já está tarde.
— Mais um pouquinho, mãe – Disse Flor deitando no sofá de jeito preguiçoso.
— Simmmm – acrescentou a irmã batendo palminha.
— Não gente, já tá muito tarde.
Rosa olhou o relógio no pulso mais uma vez e já se passava das 23h. Percebeu que sua esposa chegaria a qualquer momento. E toda vez que as meninas as viam a essa hora da noite, ficavam agitadas e demoravam mais a dormir. Revirou os olhos se sentindo quase derrotada de cansaço do dia inteiro e mais ainda do restante da noite.
— Gente! Me ajudem, vamos! – Falou num tom mais sério. Pegou o controle remoto que estava afundado no sofá e desligou a TV.
As duas meninas lamentaram em tom de tristeza. A menor fez cara de irritada e cruzou os braços. Ambas seguiam caminhando até a escada. Rosa ia seguindo-as atrás. Até que o barulho da porta as fizeram parar.
— MAMÃE! – Flor e Clarice gritaram quando viram a mulher cruzar a porta.
— Eeeee, meus bebês – respondeu levemente assustada – ainda acordadas? – Se abaixou para receber o abraço delas. Olhou para cima e encontrou Rosa no pé da escada com uma mão na cintura com a feição séria e cansada olhando à ela. Desconfortável, beijou as duas garotas sorridentes nas bochechas e se levantou.
— Deixa eu adivinhar: vocês estavam indo para a cama, então por favor vamos logo mocinhas que já está tarde.
— Ah mamãe, pelo menos a gente te viu! – Disse encostando sua cabeça na cintura da mãe morena.
Rosa observou a reação de Helena. Apenas fez carinho nos cabelos castanhos de Flor, não disse nenhuma palavra. Assentiu para filha e sorriu gentilmente. Rosa notou o quanto os olhos de Helena estavam lentos e também cansados ao percorrer o olhar para cada canto do rosto da mais velha. Percebeu o zelo que Helena sempre teve pelas crianças. Apesar da frieza e distanciamento que Helena carregava nos últimos meses, seu olhar sempre entregava o oposto. Mesmo cansados, eles acendiam com o cuidado e atenção às filhas.
— Amanhã prometo ficar com vocês o dia todo – Disse Helena tentando soar animada.
As crianças assentiram e se viraram para a outra mãe que estava na escada na mesma posição. Foram em direção à ela, disseram boa noite à Helena e subiram rumo ao quarto. Rosa acompanhou os passos das duas até o quarto, ainda na escada.
— Já estou indo aí – Gritou.
Virou sua atenção para Helena que estava tirando seu scarpin preto dos pés, se segurando na parede.
— Helena. Não esquece de dar beijo de boa noite na cama das meninas.
A mulher de cabelos castanhos escuros soltou o coque e ajeitou o cabelo com seus dedos antes de olha-la, assentindo. Rosa subiu as escadas quase correndo, deixando a morena a observando lá em baixo.
***
Não podia negar que doeu em seu coração a fala da filha. Eram poucas vezes que conseguia ver as crianças durante a semana. Helena trabalha de 9h as 22h. As meninas acordam geralmente quando sai para o trabalho e dormem antes que pudesse chegar em casa. Uma vez ou outra tem oportunidade de tomar café com elas e chegar na hora de irem para cama como foi hoje. Sente pelas meninas a verem terrivelmente cansada chegando do trabalho. E sente mais ainda pelo olhar julgador de Rosa a qual já discutiu tantas vezes por não ficarem em algum equilíbrio naquela casa. Queria poder que tudo voltasse a ser como antes, mas o trabalho definitivamente a engoliu com a última promoção de ser a vice diretora de uma poderosa multinacional de telecomunicações, que aconteceu há seis meses.
E parece que ao invés de melhorar algo, só piorou. O tempo em casa reduziu e isso aumentou o estresse dentro de casa. Rosa no inicio a apoiou, fizeram planejamentos, contrataram uma babá, as coisas iriam dar certo.
Porém nos últimos meses, algo foi se perdendo; a relação das duas foi se esgotando. Elas malmente se relacionavam, a não ser nos finais de semana onde era folga para ambas nos trabalhos. Porém a maior parte do tempo tinha discussões sobre uma estar mais cansada que a outra e a ausência de Helena na participação da vida das filhas. Rosa chegou a pontuar isso na última briga que tiverem e isso deixou Helena no chão. Trocou poucas palavras com Rosa desde então e refletiu muito sobre. Doía demais concordar com a esposa nesse ponto especifico, mesmo que silenciosamente. Aquelas garotinhas eram tudo para ela.
Nunca imaginou que a vida dela fosse mudar depois do nascimento de Maria Flor do seu ventre. E dois anos depois veio Clarice, que nasceu espetacularmente numa piscina no meio da sala. Clarice veio de Rosa. Ela não merecia tamanho presente divino com essas três mulheres fazendo parte de sua vida.
Doía muito essa fase que estava passando, mas precisava. Rosa reclamava, questionava..., mas precisava trabalhar pelo futuro das filhas. O mundo tá tão horrendo para mulheres, precisava garantir o mínimo de conforto para as filhas que nunca teve quando criança.
— Helena.
Ouviu Rosa falar seu nome no tom forte próprio dela. Houve uma pausa, e nesses três segundos Helena fechou os olhos para tentar lembrar de seu nome na boca de Rosa novamente como um eco.
— Não esquece de dar beijo de boa noite na cama das meninas.
Ela soltou os cabelos e pensou em dizer várias coisas mas a mulher loura de cabelos curtos já havia sumido da sua frente.
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