Reencontro - One Shot
1 Welcome Home
Notas iniciais
Era uma noite fria do começo de agosto e a cidade de São Paulo ainda sim ostentava todo seu esplendor em meio aquele inverno rigoroso.
Escondida em um de seus tantos bairros, a garota saía de casa, já era tarde e não tinha mais ninguém na rua, ela não se importava, gostava mais até que assim fosse. A calmaria que escuridão fria da noite trazia consigo lhe dava ao mesmo tempo a sensação de conforto e vazio que ela aprendeu a gostar.
Caminhava sem muita pressa, as mãos enterradas nos bolsos do casaco velho que vestia, não esquentava mais como antes porém continuava a ser tão confortável como no dia em que o ganhou. Apesar de sua caminhada parecer sem rumo, a garota tinha destino certo e depois de uns 40min de caminhada e mais uns 15 de subir escadas, chegou onde tanto queria.
O teto do prédio dava vista pra todo o bairro e mais longe, dava pra ver 3 bairros ao todo se você desse um 360° no lugar, fora a vista da cidade havia ainda a vista do céu que era uma emoção a parte, emoção essa que a garota adorava e por isso mais uma vez estava ali.
Se deixou respirar fundo e soltar um pouco de tudo que estava preso em seu peito, enquanto se deitava no concreto da laje para admirar as estrelas. Sua mente andava fazendo tanto barulho ultimamente que era muito mais difícil do que ela queria e gostaria para se concentrar no céu. Desde algum tempo atrás aquele barulho estava piorando e, mesmo com remédios a melhora não havia sido como o esperado por ela, isso lhe frustrava e a fazia derramar lágrimas sentidas enquanto ali estava.
— Que sorte encontrar você aqui, de novo — a voz conhecida disse em sua mente de repente.
A garota levantou o troco ficando sentada e olhou através do escuro a sua volta até finalmente encontrar a dona daquela voz.
— Ah, é você... Olá de novo, não sei dizer se é tanta sorte assim ti ver por aqui — respondeu com seu tom de voz habitualmente vazio de emoções.
— Ora minha delicada flor, veja bem... — começou a falar, de voz mansa e doce se esgueirando pelo lugar até chegar mais perto da garota — o amanhecer que está por vir trás com ele a promessa de algo deliciosamente ruim, não é?
A garota riu de desdém e encarou a mulher a sua frente, marcava cada detalhe que foi tão fielmente copiado de todas as suas fantasias e moldado até formar aquilo que via.
— Você sempre dando uma de advinha não é? Até parece que sabe de todas as coisas do mundo, como se fosse a dona dele...
— Eu sei de todas as coisas do mundo minha criança. Não sou dona dele mas sim dona de todas as pessoas que nele vivem... — sorriu tenebrosa e fingiu olhar as horas em um relógio de pulso imaginário.
A garota apenas observou o ato mas foi capaz de entender o sentido da coisa, aquela conversa boba parecia ter tomado mais tempo do que ela mesmo imaginou e ao longe se tinha os primeiros fios de luz cortando a escuridão noturna.
— Pois bem — disse a mulher misteriosa e se levantou ficando a frente da garota e lhe estendendo a mão — seria a senhorita gentil com esta pobre mulher de coração partido? Me concederia uma última dança com meu mais novo amor? — sorriu.
A garota maneou a cabeça e segurou a mão da mulher aceitando o convite, foi ajudada a levantar e antes que a dança começasse de verdade, fones de ouvido e música foram devidamente colocados.
A música? Lovely, de dois artistas novos, música essa que tinha bastante significado para a garota e a tal mulher que ali estavam.
Se colocaram de prontidão, a mulher mais velha enlaçou a cintura da outra com um dos braços enquanto seu outro ia de encontro ao pescoço da mesma num enlace também gentil, as duas mãos agora faziam carinhos gelados na cintura e nuca da garota que sentia os arrepios daquilo decorridos correrem todo seu corpo.
De olhos fechados a garota se deixou ser conduzida ao som da música, elas iam dançando de uma forma tão íntima e amorosa que era lindo de se ver, a garota mais nova seguia fielmente o comando da outra demonstrando incomum confiança, no meio dos pequenos rodopios e dos corpos que agora colados exploravam todo o terraço a garota também cantava baixinho, acompanhando a música.
— De todas as danças, era será pra sempre a melhor de minha não vida, minha doce criança — sussurrou — Obrigada.
As duas continuaram dançando enquanto a sua volta o dia ia amanhecendo vagaroso, quase como se estivesse com "preguiça" de nascer.
Mais rodopios e passos de valsa ou algo parecido foram dados e a mulher mais velha a conduzia para junto do fim da música, a garota não se preocupava onde seus pés a levavam, mesmo de certa forma sabendo que o chão a sua volta estava acabando... Mas não se importava com isso, nunca o fez.
Aquela dança pra ela era apenas um bom e velho reencontro, apesar de seu humor inicial naquela coisa toda não ter sido dos melhores, ela sabia em seu âmago o quanto desejava aquilo e o quanto era gostoso reencontrar aquela mulher, se sentia aos poucos mais perto de sua própria liberdade, de seu caminho que tanto procurou.
As últimas notas da música estavam chegando então a mulher mais velha aproveitou e subiu com ela na beirada do terraço, a puxou pra perto e sussurrou:
— Welcome home... — terminou a frase com um suave beijo frio nos lábios da garota que caiu, de costas na imensidão do céu pintado de nascer do dia e ainda nos braços dela... A morte.
"É bom estar de volta, minha querida." — pensou em seu último fio de vida, antes de finalmente partir.
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