Reencontro
3 O Palácio de Azir
Notas iniciais
O sol já estava nascendo em Shurima. Com seu calor vinha aquecendo aos poucos as areias e moradias, levando para longe o frio da noite. Taliyah acordava todos os dias naquele horário, subia até os arredores da cidade e treinava sua habilidade com as pedras. Dia após dia. Mas hoje era diferente. Yasuo estava ali e antes de guia-lo pela enorme e movimentada cidade, Taliyah precisava ir até o castelo de Azir. Havia encontrado-se com Sivir no dia anterior e a mesma disse que o Imperador queria vê-la.
A tecelã abriu os olhos lentamente e sentindo um pouco de incômodo pela forte luz solar daquela manhã. Ela coçou os olhos e com muita preguiça, sentou-se em sua cama. Olhou para a frente e deparou-se com uma cena adorável. Yasuo, dormindo tranquilamente naquele sofá minúsculo para ele, seus pés ficavam para fora. Seus cabelos estavam soltos e a fita que havia dado para ele estava enrolada firmemente em seus dedos. Ela não conseguiu deixar de sorrir ao ver aquilo. Tentando fazer menos barulho possível, Taliyah levantou-se de sua cama e saiu de seu quarto.
Os pais estranharam o comportamento da garota mas resolveram não fazer perguntas já que ela não havia dito nada sobre. Taliyah sempre foi uma boa filha, colocando o bem estar de seus pais acima dos dela. Nunca foi de fazer coisas erradas, pelo contrário, era um motivo de orgulho de sua família por ser uma garota muito gentil e prestativa. Cerca de dez minutos depois, ela abriu a porta de seu quarto, já vendo que Yasuo havia acordado. Trazendo uma bandeja farta de comida e uma muda de roupas para o espadachim. Ele se encontrava na varanda, observando as ruas e curioso por estar num lugar onde a cultura completamente diferente da dele.
— Vejo que você acordou. — ela disse, colocando a bandeja em cima da mesa que se encontrava na frente do pequeno sofá. — Você dormiu bem? Eu esqueci o fato de que você era bem maior do que eu e que ficaria desconfortável ali...
— Dormi como uma criança, passarinho. — ele respondeu, terminando de analisar o local em que estava.
— Você deve estar com fome. Eu trouxe comida.
Yasuo sentiu o cheiro curioso e diferente das comidas Shurimanes, indo até onde ela estava. Na bandeja havia diversos tipos de comida. Pães, queijo, frutas e a cerveja especial de Shurima. Ela não gostava muito do sabor, mas trouxera para que o seu mentor provasse já que adorava beber. Como o esperado, ele pegou imediatamente a caneca cheia e deu vários goles.
— É bem mais adocicado do que os de Ionia. — ele respondeu, analisando o sabor e parecendo estar satisfeito.
— Como você consegue beber logo após acordar? — ela questionou, curiosa.
— É um estilo de vida. Seu dia começa bem melhor depois de tomar uma boa bebida.
— Mas o gosto é esquisito.
— Escute bem essas palavras que vou dizer, passarinho. — ele tomou mais um gole da bebida.- Existem três certezas na vida: honra, morte e ressacas. Mas a minha honra não existe mais, então só sobrou a morte e a ressaca.
Ele fez uma expressão triste e deu uma risada para cortar o clima. Taliyah franziu o cenho ao ouvir aquilo.
— Pra mim você é uma pessoa muito honrada. Não devia dizer essas coisas.
— Eu deixei pessoas importantes morrerem e minha espada já retirou vidas de
muitos inocentes. — ele fechou os olhos, envergonhado de si mesmo. — Honra é a última coisa que me pertence.
— E apesar de tudo, você ainda se arrepende e procura maneiras de arrumar os seus erros. Isso é algo honrado. — ela respondeu, dando um sorriso encorajador.
— Não é verdade. Eu só quero tirar esse peso das minhas costas através da vingança.
— Vingança nunca é o caminho certo.
— Eu não tenho opção.
— É claro que você tem. Esqueça isso, supere. — ela olhou sério para ele.
— A assassina de meu mestre não pode sair impune.
— ...Então você sabe quem é?
— Riven é o seu nome. É uma questão de tempo até eu encontra-la.
— ....Você não pode fazer isso.
— Eu preciso fazer.
— Se a matar, será como ela. — ela disse, preocupada. — Vingança só gera vingança, Yasuo.
— Ela causou a morte de meu mestre e do meu único irmão. — ele ficou de cabeça abaixa. — Isso não pode ser esquecido, não pode ser perdoado. Ela precisa pagar pelo o que fez.
— ....
Um silêncio desconfortável tomou conta do ambiente. Taliyah não sabia bem como reagir com toda aquela conversa. Ela sempre acreditou que Yasuo fosse um homem honrado e de bem. Mas era um assassino. Sua espada já havia tirado muitas vidas. Se continuasse em Noxus, seus poderes seriam usados para a guerra. Ela seria como ele. De certa forma, queria ajuda-lo a superar isso. Mas não sabia como.
— Eu quero estar com você quando a encontrar.
— ...Como? — ele questionou, não esperando ouvir aquilo — Você não pode se meter nisso, ela é perigosa.
''Ela nunca pode te encontrar. Não posso perder você também.'' Yasuo pensou, nervoso.
— E você pode morrer pra ela também! Eu não posso deixar isso acontecer!
— Não se meta nisso, não é da sua conta. Cuide dos seus afazeres aqui, em Shurima. — ele disse friamente, levantando-se e pegando seus equipamentos.- Eu vou procurar uma pousada para passar a noite de hoje, não vou trazer problemas aos seus pais.
— Mas Yasu--
— CHEGA! Esse assunto já acabou. Não se meta nos meus assuntos.- ele gritou e por fim, saiu pela varanda.
Taliyah sentiu um mal estar ao ouvir Yasuo falando daquela maneira. Era uma mistura de raiva com tristeza. Nunca tinha visto ele assim. Sabia agora que seu mentor tinha mais cicatrizes profundas do que pensava. Queria ajuda-lo a superar isso, mas suas mãos estavam vazias. Não podia fazer nada por ele e isso doía nela, mais do que esperava. Sentiu seus olhos marejarem um pouco mas logo manteve-se forte, trocando de roupa e indo até o palácio de Azir.
O sol já havia nascido e as ruas estavam movimentadas como sempre. O cheiro de pão fresco e das refeições recém-preparadas eram tentadoras para Taliyah. Se pudesse, compraria tudo ali e comia sozinha. Enquanto caminhava, a mente da jovem apenas lembrava-se da discussão que havia tido com Yasuo agora a pouco. Ela suspirou e continuou seguindo em frente. Alguns minutos se passaram e ela chegou no palácio. Nunca iria se acostumar com a beleza daquele lugar. As paredes eram feitas do ouro mais puro e fino de todo mundo, decorada e ornamentada com pedras preciosas. Nelas contavam toda a história de Shurima e seus ascendentes. O rosto de Sivir havia sido colocado ali recentemente. A mulher havia deixado de ser uma caçadora de recompensas e tornou-se uma guerreira honrada, conhecida por sua bondade e respeitada por todos. Por muita coincidência, a mesma estava passando ali por perto.
— Taliyah! — a morena a abraçou.
— Sivir. É bom te ver. — ela sorriu.
— Você está bem? Parece desanimada... — ela perguntou, preocupada.
— Eu estou bem... — respondeu.
— Sabe que não consegue esconder as coisas de mim, não é? — disse Sivir.
Após ter tido a sua vida salva por Taliyah e a mesma ter vindo para Shurima, as duas logo tornaram-se amigas próximas. Uma sempre preocupava-se e cuidava da outra.
— É, eu sei... — Taliyah admitiu.
— E então... o que aconteceu?
— Meu mestre, ele voltou. — ela disse, desanimada.
— Seu mestre... Yasuo? Oh... — ela deu um sorrisinho. — O que foi, ele te beijou?
Taliyah arregalou os olhos e ficou corada ao ouvir aquilo. Não entendia o que se passava pela cabeça de Sivir. Algo assim jamais aconteceria. Ele era o mentor dela e nada mais...
— C-CLARO QUE NÃO! Você enlouqueceu...
— Então o que foi...?
— Nós acabamos discutindo. Eu queria ajudar ele mas... acabamos brigando.
— Ah, querida... essas coisas acontecem. Em breve ele volta e pede desculpas. — ela deu um sorriso reconfortante. — Venha, Azir está te esperando.
— Certo...
Elas continuaram conversando sobre coisas bobas, Sivir chegou a tocar no assunto de que Taliyah talvez possa estar apaixonada. O que era um absurdo para a jovem. Isso jamais aconteceria, jamais. Alguns minutos passaram-se e logo chegaram até a grande porta dourada que levara até a sala do trono de Azir. Sivir a abriu e Taliyah andou pelo longo tapete até ficar próxima do trono, fazendo uma reverência ao seu imperador.
— Eu vim pelo seu chamado, Vossa Majestade. — ela ainda estava ajoelhada.
— Levante-se, minha criança. Eu tenho uma missão para você.
— Sim?
Como desejado, ela levantou-se.
— Eu venho recebendo noticias de que muitos Noxianos vêem deslocando-se para nossas terras. Não sabemos os seus motivos. Quero que você vá até a Selva de Kumungu e veja se há algo de estranho lá.
— Como desejado, Vossa Majestade. Partirei amanhã.
Taliyah fez outra reverência e saiu da sala. Ela ficou no palácio pelo resto do dia, ajudando Sivir com seus afazeres. Havia esquecido por alguns momentos da discussão que teve com Yasuo. Também viu Nasus e Renekton, eles pareciam bem.
Já era noite quando ela saiu do palácio. As ruas estavam estranhamente desertas, Taliyah estranhou aquilo e seguiu andando até em casa. Ela ouviu passos atrás dela. ''O que é isso..?'', ela pensou. Começou a andar mais rápido, nervosa. Mais passos. Ela parou de andar para correr. Até que se esbarrou numa pessoa. Era uma mulher. Alta e de cabelos brancos, segurando uma enorme espada.
— Taliyah, não é mesmo? — a mulher disse.
— ...O que você quer? — Taliyah perguntou, suando frio.
— Você vem comigo. — a mulher disse, pegando-a pelo braço e batendo em sua cabeça.
A visão de Taliyah escureceu e ela não entendia o que estava acontecendo.
Num sussurro, ela chamou pelo nome de Yasuo.
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