O vento uivava através dos salões de cristal do Palácio Glacial de Niflheim, mas dentro dos aposentos reais, a atmosfera era impregnada por um calor suave e reconfortante, sustentado por runas antigas que mantinham a neve do lado de fora. Vaelen, o Rei do Gelo, vestindo sua imponente armadura artesanal cravejada com fragmentos de geada e seu manto azul-profundo forrado de pele branca, permanecia em pé diante das grandes janelas de arco encimadas por estalactites. Seus cabelos tão brancos quanto a neve recém-caída fluíam sobre os ombros, enquanto seus olhos azuis como o gelo dos abismos observavam o vasto continente reunificado sob seu domínio.


Ele sentiu braços suaves se envolverem ao redor de sua cintura por trás. O aroma de lótus congelado e geada matinal preencheu seus sentidos instantaneamente. Vaelen relaxou a postura, cobrindo com suas mãos calejadas de batalhas as mãos pequenas e frias de sua esposa.


Sereia Nocturne, a Primeira Imperatriz de Gelo, encostou a cabeça entre as escápulas do marido. Ela era uma visão monumental: 1,78m de pura graciosidade elemental, cabelos branco-puro caindo em cascatas reluzentes até seus calcanhares, oscilando suavemente como se dançassem sob águas cristalinas. Sua pele possuía o brilho único da lua refletida sobre a neve fresca, e em sua cabeça repousava a coroa viva de gelo primordial — uma estrutura que nunca derretia, crescendo em simetria e poder conforme sua própria magia fluía. Ela vestia sua lendária armadura-vivo, uma fusão impecável de escamas reluzentes de dragão de gelo, tecidos de seda albina e placas do gelo ancestral que ela própria moldava.


— Você está distante esta noite, meu rei — murmurou Sereia, sua voz ressoando como o cristal mais puro ao ser tocado pela brisa. — O continente inteiro finalmente descansa em paz após a unificação. Nossos súditos não conhecem mais o medo da guerra ou da fome. O que ainda perturba o seu coração?


Vaelen virou-se devagar no abraço, tomando cuidado extremo para guiar Sereia com gentileza. Seus olhos baixaram até a curva proeminente do ventre dela. Sereia estava no nono mês de gestação. O herdeiro do trono de gelo estava prestes a vir ao mundo, um símbolo vivo da união entre o poder destrutivo e a preservação primordial.


O rei ajoelhou-se suavemente sobre o chão de mármore congelado, encostando a testa no ventre gravídico de Sereia. Ele fechou os olhos, sentindo a pulsação forte e o calor mágico da vida que crescia ali dentro.


— Eu sinto uma inquietação no ar, Sereia — confessou Vaelen com a voz grave, desprovida da frieza que usava contra os inimigos no campo de batalha. — Meu poder de congelar... ele destrói, estagna e paralisa. Se não fosse pelo seu poder de preservar, por essa bênção de manter a vida intacta e nutrir nossos exércitos, nós nunca teríamos chegado até aqui. Mas a ambição dos homens não é algo que o frio consiga exterminar completamente. Mesmo sob a paz que construímos, sinto sombras se movendo nas bordas da nossa corte.


Sereia sorriu com ternura, passando os dedos longos e delicados pelos fios albinos de Vaelen. Ela usou seu Lamento da Banshee Glacial em um sussurro quase inaudível, uma melodia suave que ressoou pela câmara real, dissipando qualquer vestígio de cansaço ou ansiedade no ambiente.


— Você se preocupa demais com as sombras porque é o pilar que sustenta o mundo, Vaelen — disse ela, olhando-o com seus olhos de um azul tempestuoso, capazes de acalmar as piores tempestades do norte. — Nossos quatro generais juraram lealdade eterna diante da pira de gelo. Vane, Lyra, Cassian e Gerald sangraram ao nosso lado. Eles ajudaram a construir este império. Você deu a eles terras, títulos e o respeito do povo. Eles são as colunas do nosso exército.


Vaelen levantou-se e encarou o horizonte gelado novamente.


— A lealdade forjada no fogo da guerra nem sempre sobrevive à abundância da paz, minha rainha. A ganância é um germe que cresce onde o dever termina. Cassian clama por mais territórios ao sul; Vane deseja o controle dos mares de vento; Gerald exige o comando irrestrito das cidadelas do leste, e Lyra... Lyra se esconde cada vez mais nas sombras da corte, sussurrando aos ouvidos dos nobres.


— Se houver qualquer dúvida no seu coração, nós conversaremos com eles amanhã na Grande Assembleia — disse Sereia, pegando as mãos dele e pressionando-as contra o próprio peito. — Mas agora, Vaelen, foque em nós. Em poucas horas, nosso filho nascerá. O gelo não será apenas o nosso domínio; será o berço de um novo amanhã.


Vaelen olhou para a esposa, e a frieza rígida do Imperador Tirano desmoronou completamente, dando lugar a uma afeição profunda e inabalável. Ele a puxou para um abraço apertado, mas cuidadoso, selando seus lábios com os dela sob a luz prateada que emanava da coroa viva de Sereia.


— Eu juro por minha própria alma e pelo gelo que corre em minhas veias, Sereia — declarou Vaelen, segurando o rosto dela. — Eu protegerei você e nosso filho até o fim de todas as eras. Nada neste mundo destruirá o que construímos.


No dia seguinte, o Salão do Trono Celestial estava preparado para receber a alta cúpula do império. Colunas colossais esculpidas em gelo eterno sustentavam o teto abobadado, onde estandartes com o brasão do Dragão da Geada pendiam com imponência. No entanto, o ar no salão não trazia a serenidade habitual, mas uma tensão sufocante e densa.


Aos pés do trono de gelo, onde Vaelen e Sereia aguardavam, os quatro generais de confiança do rei entraram em formação. Mas não havia saudações formais ou reverências. O silêncio do grupo era carregado de uma intenção macabra.


À esquerda estava Vane, o comandante das forças de vanguarda. Trajava vestes fluidas e nobres em tons de branco e azul, com longos cabelos albinos que se agitavam suavemente sob uma brisa cósmica artificial. Correntes de vento cortante giravam ao seu redor como tornados em miniatura. Seus olhos azuis, outrora límpidos, agora brilhavam com um desprezo arrogante.


Ao lado dele, emergindo de uma poça de escuridão amorfa, estava Lyra. Seus cabelos negros adornados com reflexos roxos emolduravam um rosto pálido e gélido. Ela vestia um vestido de renda negra trabalhado com detalhes sombrios que pareciam absorver a luz do próprio salão. Seus olhos lilases faiscavam com uma malícia antiga e faminta.


No centro, passos pesados faziam o chão tremer. Cassian, o general das tropas de choque, caminhava com sua armadura negra revestida por entalhes ornamentados de chamas incandescentes. Seus cabelos vermelhos como labaredas e seus olhos dourados brilhavam com uma fúria contida. Ao redor de seus ombros e braços, o fogo queimava sem consumir suas vestes, derretendo o gelo sagrado do piso a cada passo.


Por fim, Gerald avançou com a lança de combate em riste. Alto, de porte atlético e feição austera, o general trajava uma armadura imponente decorada com incrustações de ouro e símbolos de relâmpagos. Seus olhos brilhavam em um tom azul elétrico, cercados por faíscas de eletricidade que estalavam no ar com sons ensurdecedores.


Vaelen observou a aproximação dos quatro sem se mover do trono, mas sua mão repousou sobre o punho de sua espada de gelo ancestral. Sereia permaneceu ao seu lado, segurando o ventre com a mão esquerda enquanto a magia de preservação começava a fluir ao seu redor, formando uma barreira invisível de proteção.


— Vocês entram na presença do seu rei armados e sem prestar a reverência devida — disse Vaelen, a voz ressoando como o estalo de uma geleira se partindo no oceano. — O que significa este desrespeito, generais?


Cassian deu um passo à frente, um sorriso debochado cruzando seus lábios enquanto chamas cobriam seus punhos.


— Reverência? — cuspiu Cassian, a voz impregnada de escárnio. — Nós nos ajoelhamos diante de você por anos, Vaelen! Sangramos nas suas guerras para conquistar este continente miserável, e qual foi a nossa recompensa? Sermos chamados de "servos"? Ver você governar do topo do seu trono de gelo enquanto nos entrega apenas migalhas do império?


— Nós fomos aqueles que realmente executaram a sua vontade nos campos de batalha — interveio Vane, sua voz suave carregada de veneno enquanto correntes de ar cortante começavam a cercar as colunas do salão. — O continente está unificado. Os povos estão subjugados. O mundo não precisa mais de um "Tirano do Gelo" para governar... ele precisa de novos deuses. Deuses que tragam uma nova ordem.


— Vocês enlouqueceram? — retrucou Sereia, avançando meio passo com o olhar faiscando em indiganação. — Vaelen deu a cada um de vocês a liderança de regiões inteiras! O povo vive em prosperidade e paz! O que vocês chamam de ordem é apenas a sede cega pelo poder absoluto!


Lyra deu uma risada baixa e melodiosa, um som que fez as sombras do salão se esticarem como garras em direção ao trono.


— Ah, a querida Imperatriz... — debochou Lyra, ajustando os braceletes de escuridão que cobriam suas mãos. — Tão graciosa, tão cheia de virtude com sua magia de preservação. Você realmente acredita que o povo quer a paz? O povo quer liderança divina, quer temor, quer deuses a quem clamar! E nós seremos esses deuses. Não há espaço para o Rei do Gelo ou para a sua linhagem no mundo que vamos construir.


Gerald ergueu sua lança banhada em relâmpagos azuis, apontando-a diretamente para o peito de Vaelen.


— Sua era acabou, Vaelen — declarou Gerald com voz estrondosa. — O exército real já foi neutralizado fora das muralhas. Aqueles que não se curvaram a nós foram executados ou acorrentados. Você está sozinho.


Um silêncio sepulcral caiu sobre o salão por um breve segundo. Então, o olhar de Vaelen mudou. A humanidade que ele reservava para a esposa desapareceu completamente, dando lugar à aura aterradora do Tirano do Gelo.


— Traidores... — murmurou Vaelen.


O ar dentro do salão despencou centenas de graus em um fração de segundo. A geada cobriu instantaneamente as paredes, as janelas e o teto, congelando até mesmo a magia que os generais tentavam invocar.


— Vocês ousam conspirar contra a coroa que eu próprio ergui? — bradou Vaelen, levantando-se do trono. A espada de gelo em sua mão emitiu um brilho azul crio-mágico tão Intenso que fez os quatro generais recuarem um passo involuntariamente. — Se é a morte que vocês buscam, eu lhes darei o frio eterno!


Cassian foi o primeiro a atacar, rugindo de raiva enquanto projetava uma coluna gigantesca de chamas infernais em direção ao trono.


— Morra, Vaelen! — gritou o general do fogo.


Vaelen nem sequer desviou. Com um simples movimento de sua mão esquerda, ele ativou seu feitiço de congelamento primordial. As chamas de Cassian, em vez de queimarem ou derreterem o ambiente, foram congeladas no meio do ar, transformando-se em esculturas rígidas de gelo vermelho que se despedaçaram no chão como vidro barato.


— O quê?! Congelar o próprio fogo?! — exclamou Cassian, perplexo.


— Idiota! Não ataque sozinho! — alertou Vane, invocando múltiplos furacões de vento cortante que voaram em direção a Vaelen por todas as direções, tentando retalhar o rei.


Vaelen fincou sua espada no chão do salão.


— [DOMÍNIO: ZERO ABSOLUTO]!


Uma onda de choque translúcida de geada pura se expandiu a partir do ponto de impacto. Os furacões de Vane estancaram no ar, suas correntes de vento sendo paralisadas e cristalizadas como estruturas rígidas de gelo antes de caírem em pedaços. A onda continuou se alastrando, atingindo Vane no peito e arremessando-o contra uma das colunas de mármore.


Gerald aproveitou a brecha e saltou pelos ares, sua lança envolta por trovões devastadores apontada diretamente para a cabeça de Vaelen.


— Trovão Divino! — urrou Gerald, descendo com toda a velocidade.


Antes que o golpe atingisse o rei, Sereia deu um passo à frente e ergueu a mão direita. Sua coroa viva brilhou com uma intensidade celestial enquanto ela liberava a primeira arte do seu domínio primordial.


— [ESTASE ETERNA]! — cantou Sereia.


Um raio de luz prateada atingiu Gerald em pleno ar. A velocidade, o trovão e a própria força motriz do general foram congelados no tempo. Gerald ficou suspenso no vácuo, imóvel como uma estátua, preso na fraçaõ de segundo anterior ao seu golpe.


— Lyra, agora! A mulher! — gritou Cassian, percebendo que a imperatriz grávida era a chave para quebrar a defesa impecável do rei.


Lyra se dissolveu em sombras, reaparecendo instantaneamente atrás de Sereia com uma adaga revestida de veneno sombrio direcionada às costas da imperatriz.


— Sereia! — alertou Vaelen.


O rei girou o corpo e disparou uma lança de gelo maciço em direção a Lyra. A general das sombras foi atingida no ombro, sendo empurrada para trás enquanto seu feitiço de sombra se desfazia em fumaça roxa.


No entanto, o caos da batalha começou a cobrar seu preço. O esforço mágico e a agitação da luta desencadearam dores intensas no ventre de Sereia. Ela colocou a mão no abdômen e deixou escapar um gemido de dor, cambaleando ligeiramente para trás.


— Sereia! — Vaelen correu até a esposa, esquecendo por um segundo a guarda de combate. Ele a segurou nos braços, o pânico tomando conta de seus olhos azuis. — Você está bem?! O bebê...


— Vaelen... a hora chegou... — sussurrou Sereia, arfando de dor enquanto a magia em seu corpo oscilava descontroladamente. — O filho... ele quer nascer...


Vendo a vulnerabilidade do casal, Cassian, Vane e Lyra se reagruparam. Gerald, conseguindo quebrar a Estase Eterna devido à oscilação no poder de Sereia, caiu de pé ao lado dos outros traidores, arfando pesadamente.


— Eles estão fracos! A imperatriz está em trabalho de parto! — gritou Lyra, os olhos roxos brilhando com ganância e crueldade. — Unam seus poderes! Destruam os dois de uma vez!


Os quatro generais começaram a canalizar suas magias máximas simultaneamente. Vane criou um tornado colossal de vento cortante; Cassian ergueu uma esfera de fogo devastadora que derretia o teto da cidadela; Gerald acumulou todo o trovão dos céus em sua lança, e Lyra invocou as correntes da escuridão eterna para selar os movimentos do rei.


A energia combinada dos quatro traidores ameaçava desintegrar todo o Palácio Glacial.


Vaelen olhou para Sereia em seus braços. Ela sofria com as dores do parto, e a barreira de preservação que mantinha o palácio em ordem estava desmoronando. O pavor de perder sua família fez o Rei do Gelo perder o controle sobre a magnitude da sua própria magia.


— NINGUÉM... TOCARÁ... NA MINHA FAMÍLIA! — urrou Vaelen.


A mente do rei entrou em um estado de insanidade e desespero. Em um surto de poder desmedido, Vaelen liberou toda a energia congelante de sua alma de uma só vez, sem calcular as consequências ou direcionar a magia. O frio que emanou dele não era apenas feitiçaria; era a própria encarnação da morte por congelamento.


Uma onda gigantesca de gelo negro e cristalino explodiu do corpo de Vaelen em 360 graus.


A magia dos quatro generais foi esmagada instantaneamente pela força avassaladora do rei, arremessando os traidores longe, terrivelmente feridos e congelados em parte de seus corpos.


Porém, no centro da explosão indomável, a tragédia se consumou.


Sereia, que estava encostada no peito de Vaelen, foi atingida diretamente pelo surto descontrolado de poder do próprio marido. O frio absoluto perfurou suas defesas naturais, congelando o fluxo de sua vida no exato momento em que ela tentava proteger o bebê dentro de si.


O silêncio que se seguiu foi aterrorizante.


O surto de poder cessou. Vaelen piscou, respirando descontroladamente enquanto a névoa de geada se dissipava. Ao olhar para baixo, seu coração parou.


Sereia estava imóvel em seus braços. Sua pele brilhante como a lua agora estava pálida e sem vida. Seus olhos de azul tempestuoso estavam abertos, mas fixos, sem o brilho radiante de antes. O calor do seu ventre havia desaparecido completamente.


— Sereia...? — chamou Vaelen, a voz tremendo como uma folha ao vento. — Sereia... acorde... por favor...


Ele a balançou suavemente, mas ela não respondeu. A Primeira Imperatriz de Gelo estava morta. E fora o próprio poder dele que a tirara a vida.


— Não... não, não, NÃO! — gritou Vaelen, a voz ecoando pelas ruínas do salão como o lamento de um demônio derrotado. — SEREIA!


Lágrimas congeladas caíram dos olhos do rei, transformando-se em pequenos cristais ao tocarem o rosto pálido de sua esposa. Ele apertou o corpo inerte contra o seu peito, mergulhando em um abismo de desespero e culpa incomparáveis.


No entanto, nos últimos traços de consciência de Sereia antes de sua alma se afastar completamente do plano físico, o poder que fez o rei se ajoelhar no passado se manifestou pela última vez.


A coroa viva de gelo na cabeça de Sereia começou a derreter em uma luz dourada e prateada. A alma da imperatriz, carregando os restos de sua magia de preservação e a essência do filho que carregava, emergiu de seu peito na forma de um único floco de neve brilhante.


O floco de neve flutuou no ar, pairando diante do rosto devastado de Vaelen antes de sussurrar uma última mensagem mental que ressoou na alma do rei:


"Não se desespere, meu amor... Eu usei o meu último feitiço: a Reencarnação Glacial... Minha alma e a essência da nossa linhagem viajarão através do tempo... Nós nos reencontraremos daqui a 300 anos... Viva, Vaelen... e reconquiste o nosso lar..."


O floco de neve disparou em direção aos céus, atravessando o teto destruído do palácio e desaparecendo nas nuvens altas, viajando no tempo em busca do corpo de uma criança destinada a nascer três séculos depois: Lyseria.


Vaelen olhou para o céu por onde o floco de neve desaparecera. Ele não tinha mais lágrimas. O choque da perda de sua esposa e de seu filho não gerou mais raiva descontrolada, mas uma vacuidade fria, calculista e infinita.


Os quatro generais, levantando-se com dificuldade dos escombros, viram a cena. Eles perceberam que o rei estava devastado e desarmado emocionalmente.


— Ele matou a própria esposa! — exclamou Cassian, limpando o sangue que escorria de sua boca enquanto o fogo ao seu redor voltava a acender. — Ele enlouqueceu! Esta é a nossa chance!


— Ataquem juntos! Não deem tempo para ele se recuperar! — ordenou Gerald, erguendo sua lança de trovão.


Vane convocou uma lâmina de vento cortante de proporções colossais, enquanto Lyra estendeu suas correntes de escuridão para prender os membros de Vaelen.


O Rei do Gelo não tentou se defender. Ele permaneceu ajoelhado, segurando o corpo sem vida de Sereia contra o peito, os olhos fixos no nada. Ele já não se importava com a dor física, com a traição ou com a perda do império naquele momento. Sua alma já havia morrido junto com a de sua rainha.


— [EXECUÇÃO CELESTIAL]! — gritaram os quatro generais em uníssono.


A lâmina de vento de Vane decepou a guarda mágica do rei; o trovão de Gerald perfurou seu peito; as sombras de Lyra dilaceraram sua força vital, e as chamas de Cassian incineraram a armadura real de Vaelen, destruindo seu corpo físico.


A explosão de energia elemental reduziu o trono de gelo a pó e fez o Palácio Glacial desmoronar sobre as ruínas da antiga era.


Três séculos se passaram.


O mundo que Vaelen e Sereia construíram com amor e sacrifício fora completamente alterado e corrompido pela ganância dos quatro traidores.


Os generais Vane, Lyra, Cassian e Gerald não apenas tomaram o controle do continente, como também apagaram a história verdadeira dos livros e da memória dos povos. Eles se proclamaram os "Quatro Deuses Protetores da Nova Ordem Celestial": Vane, o Deus do Vento; Lyra, a Deusa das Sombras; Cassian, o Deus do Fogo; e Gerald, o Deus do Trovão.


Sob o domínio desses falsos deuses, o mundo foi mergulhado em uma era de escravidão, desigualdade e tirania. O lendário exército do Rei do Gelo foi caçado, exterminado ou vendido como escravos nas arenas de gladiadores. A magia do gelo, outrora o símbolo da proteção e da prosperidade da antiga era, foi estigmatizada, proibida e declarada uma heresia punível com a morte na fogueira ou na guilhotina.


Ninguém mais se lembrava de Vaelen como o soberano justo que unificou o continente, mas sim como um demônio lendário que fora destruído pela misericórdia dos Quatro Deuses.


No entanto, os laços da magia primordial não podem ser quebrados pelo tempo.


Em um vilarejo miserável localizado nas periferias do Império Celestial, um jovem plebeu de dezessete anos chamado Kael Shiryūka jazia moribundo em uma vala escura após ser espancado brutalmente pelos guardas do templo de Cassian por não conseguir pagar os tributos divinos.


Kael era uma figura franzina, de saúde frágil e corpo enfraquecido pela fome. Tinha cabelos negros desalinhados e roupas rasgadas cobertas de lama e sangue. Mas, enquanto sua vida terrena se esvaía na sarjeta, o último suspiro de sua alma plebeia abriu espaço para algo ancestral.


Do fundo do espaço e do tempo, o selo da alma do Rei do Gelo se rompeu.


De repente, os olhos fechados do jovem Kael se abriram abruptamente.


O tom castanho e apagado de suas íris desapareceu instantaneamente, sendo substituído por um azul eletrizante e cristalino — a marca inconfundível do Rei do Gelo Vaelen.


O corpo enfraquecido do plebeu tremeu quando a consciência de Vaelen despertou de um sono de 300 anos. O rei ergueu as mãos debilitadas de Kael, encarando os dedos finos e sujos de terra.


— Este corpo... é tão fraco... — murmurou Vaelen, sua voz saindo pela garganta de Kael, mas carregada com a solenidade e o peso de um imperador antigo. — Onde... onde eu estou?


As memórias dos últimos momentos da sua vida passada inundaram sua mente como uma avalanche: a traição de seus generais, o surto de poder descontrolado, o corpo frio de Sereia em seus braços, e a promessa do floco de neve que viajou pelo tempo.


Vaelen levantou-se devagar, apoiando-se na parede de pedra do beco. Ele olhou para o céu noturno, onde estátuas gigantescas dos Quatro Deuses — Vane, Lyra, Cassian e Gerald — brilhavam no topo das capitais, adoradas por multidões cegas e escravizadas.


Um sorriso frio e implacável despontou nos lábios de Vaelen no corpo de Kael.


— Trêscentos anos... — disse ele, o ar ao seu redor começando a esfriar drasticamente enquanto pequenos cristais de gelo se formavam no chão ao redor de seus pés machucados. — Vocês se coroaram deuses sobre as cinzas do meu império... Vocês escravizaram o meu povo e proibiram o meu poder...


Vaelen fechou o punho com força, sentindo uma centelha do gelo primordial reacender no fundo de sua alma renascida.


— Eu estou de volta. E desta vez, não haverá misericórdia. Eu destruirei cada altar, esmagarei cada templo e exporei a podridão da sua falsa ordem celestial... até que o meu trono de gelo seja reconquistado!