Reencarnação
19 Eren encantado e Levi paciente
Notas iniciais
Eren
Eu fui despertando aos pouquinhos. Abria os olhos com dificuldade por conta da claridade forte do lugar.
— Ele está acordando! – Ouvi uma voz bem abafada ao fundo. Parecia ser o Armin.
Quando minha visão foi se acostumando ao incômodo, abri totalmente os olhos, fitando um teto bem branco. Dei várias piscadas, recobrando a consciência, até olhar pra frente e ver várias cabeças com olhares curiosos sobre mim.
— Eren! Ei, você está bem agora? – A mestiça se inclinava ao meu lado na cama, preocupada. Espere! Cama? Onde eu estou?
— Mi... Mikasa...?
— Está doendo em algum lugar? – O loiro também se inclinou do outro lado.
— Armin... – Senti mesmo algumas dores no corpo ao me mexer. Especialmente no rosto e nas pernas. – Está doendo... mas é bem pouco.
— Ainda acho que devia descansar mais. – Agora ouvi a voz do sardento. Fui erguendo mais a cabeça para vê-los melhor. – Ah, Marco... Você também... Onde é que eu estou, hein?
— Na enfermaria do colégio. Você foi nocauteado. – Explicou Armin.
— Hã?! – Me pus sentado rapidamente. – O que disse?! E-eu apaguei? P-por quanto tempo?
— Há uma hora mais ou menos.
— Mas como que isso aconteceu? – Confesso que não me lembrava de nada depois de ter começado a luta com a Annie.
— Er... é uma história bem engraçada...! – Armin ia falar, mas fora interrompido.
— Ei, por que vocês me abandonaram?! – Ouvi um tom de voz irritante que eu bem conhecia vindo da maca ao lado.
— Ah, foi mal, Jean! Mas o Eren acordou, tínhamos que ver como ele estava. – Justificou Marco, na sua costumeira calma.
— Hunf. Esse perdedor... Durou menos tempo que eu no campo de batalha.
— Jean, vocês apagaram ao mesmo tempo. – Lembrou Armin.
— O quê?! Lógico que não, Armin!
— Espere aí, espere aí! – Desta vez, eu interrompi. – O que foi que aconteceu exatamente? Alguém me explique!
— É o seguinte... – Armin recomeçou. – Você e Jean duraram uns quase dois minutos lutando contra Annie e Mikasa. Hehe, até que foi bastante, eu esperava menos...
— Como é que é, loirinho?! Vem repetir isso na minha cara! – Jean falou de modo ameaçador.
— Calma, Jean. Deixa ele terminar, por favor. – Marco amenizava.
— Então... Annie te acertou com um chute na sua cabeça, e você apagou na hora. Aí no mesmo segundo, Mikasa conseguiu acertar um soco no queixo do Jean. Creio que ele tenha se distraído com o seu nocaute.
— Ahh... – Pisquei várias vezes depois de ouvir tudo. – Então eu... falhei no teste? – Fiz uma cara mais desanimada.
— Sinto muito, Eren... – Lamentou Armin.
— Mas se quer um apoio psicológico, o Jean também não conseguiu. – Falou o sardento.
— Marco! – Jean agora levantava-se de sua maca. Olhei de canto pra ele, logo dando um sorriso de deboche, internamente feliz por ele ao menos também não ter se dado bem.
— E-ei, espere Jean! – Armin se voltou para o mais alto. – Não precisa descansar mais?
— Não, eu já estou bem. Não ligo de apanhar se for da Mikasa... – Ele lançou seu olhar mais galanteador e charmoso para ela, que apenas ignorou.
— Ainda acho que deve descansar mais. – Armin falava e Jean o olhou estranho.
— Não precisa se preocupar. Eu estou bem! – Jean passou pelo loiro, dando-lhe uma bagunçada nos cabelos. Armin o olhou de forma apreensiva.
— Vai sair sem avisar a enfermeira?
— Ahh... Meu problema não foi nada, eu aviso na saída. Que horas são?
— Já são seis e meia da tarde. – Respondeu o próprio loiro.
— Ah, droga... Marco, posso dormir na sua casa hoje? Tô com preguiça de pegar o busão até a minha casa... – Pediu o cara de cavalo olhando o gentil sardento que logo fez que sim com a cabeça. Os dois se despediram de todos e foram saindo da sala. Quem também ficou desesperado de saber a hora imediatamente fui eu.
— Espere! Já são mais de seis horas?! Tenho que voltar pra casa antes que escureça! – Lembrei da condição que Levi me dera. Rapidamente fui me levantando da maca também, quando notei a presença de uma outra pessoa que estava conosco.
— Bom dia, bela adormecida. – A loira se pronunciou, encostada à parede.
— Annie? Você estava aqui?! – Perguntei surpreso, ela era tão sorrateira e silenciosa, como um gato.
— Estou aqui desde que te trouxeram. Só queria ver se eu não tinha te matado... Mas você parece bem. Sendo assim, estou de saída... – Ela desencostou da parede e foi indo para a saída também.
— Espera, Annie! Vamos lutar de novo alguma outra vez? – Pedi. Claro que não ia deixar isso assim! Tinha que ter uma revanche.
— Hunf, se tiver coragem... Claro. Será um prazer. – Ela deu um sorriso de canto.
— Annie! – Mikasa foi indo até agarrar a blusa da loira de forma ameaçadora. – Você passou dos limites! O nariz do Eren até sangrou.
— Sério?! – Arregalei os olhos. – Sério? – Me virei para Armin, que assentiu com a cabeça.
— E daí? Muay thai é assim mesmo. Ele é homem, por que eu pegaria leve?
— Argh... – Mikasa deu uma rosnada encarando a loira, que não se deixou ser intimidada. As duas ficaram se encarando de uma forma meio... assustadora. Armin também olhava a cena com receios, provavelmente tendo o mesmo pensamento. Já estava imaginando o estrago que podia ser se acontecesse uma briga entre aquelas duas aqui. – Olha como fala, nanica... Posso acabar com você aqui e agora.
— Hunf, quero ver você tentar...!
— Er... Mikasa! Annie! – Armin chamou atenção das duas. – P-por favor, aqui é a enfermaria, não façam nada de irresponsável...
— Tsc... – Mikasa rangeu os dentes.
— Solte minha blusa. – Annie deu tapa nas mãos de Mikasa e logo foi saindo da sala com as mãos no bolso. – Se cuide, fedelho. – Ela se despediu, atirando uma peça de roupa para mim. Era a bermuda que eu usara na luta! Logo olhei para meu baixo ventre.
— Eu estou nu?! Por que eu estou nu??!! Que tipo de exames fizeram em mim??! Cadê a enfermeira?
— Calma, Eren. Você não está nu! Está com a roupa íntima! – Armin novamente me amenizava. – É que quando você chegou, ela percebeu que você respirava com dificuldade e notou que sua bermuda estava meio... apertada demais. Então ela o tirou!
— Ahh... – Lembrei da maldita bermuda ao sentir uma leve dorzinha na região da minha virilha. Com certeza eu fui mais nocauteado pela bermuda do que pela Annie. – Bem, então eu vou sair e me trocar pra irmos embora logo!
~*~
Cheguei ao prédio o mais rápido que pude. O céu já havia escurecido e eu estava preocupado se o Levi ficaria muito bravo por eu voltar esse horário. Afinal, ele fora bem claro que queria que eu chegasse em casa enquanto o céu ainda estivesse claro. Acabei ficando tempo demais na escola, devido ao meu nocaute. Não demonstrei muito, pois estava na frente do pessoal, inclusive da Annie, mas eu fiquei mais frustrado do que nunca diante dessa derrota. Perdi para uma garota, baixinha ainda por cima... Se bem que era a Annie, né...? Tinha que reconhecer que ela se destacava dentre os outros nas habilidades físicas, tal como o Levi. Meu apoio psicológico foi saber que Jean também perdera. Apesar que sua oponente tenha sido Mikasa, que é tão amedrontadora quanto Annie. No final, as duas é que são anormais.
Respirei fundo várias vezes enquanto subia pelo elevador, encostado ao espelho do fundo. Neste momento estava mais preocupado era se Levi me daria alguma bronca... Quando ele começa a dar sermão era bem chato e em alguns momentos assustador. Seja como for, estarei preparado para ouvir o que fosse.
Chegando ao meu andar e adentrando meu apartamento, fui tomado por uma cena incomum. Levi sentado no sofá... tocando violão. Ele logo me fitou, ao ouvir o som da porta.
— Ah, até que enfim voltou! Eu estava quase indo te buscar!
— L-Levi, você... – Quando ele olhou pra mim que eu percebi. Óculos...? Ele estava usando óculos. Uma armação retangular e de aros finos. – P-por que está de óculos...? – Perguntei meio preocupado, mas estranhamente encantado com sua aparência.
— Ora... É óbvio que é porque eu tenho alguma deficiência visual. Mas não é nada grave. Eu não enxergo de perto. – Explicou. – Mas... Deixando isso de lado, como foi no teste?
Eu ainda continuei parado, olhando o Levi... Hipnotizado.
— Ei, Eren... Eren! – Ele deu um estalar de dedos diante de meus olhos, fazendo-me prestar atenção em sua fala.
— Ah, er... D-desculpe!
— Hunf... Francamente, você anda muito com a cabeça nas nuvens...
— A culpa não é minha.
— Oh... Entendo... – Levi deu uma ajeitada no aro. – Você gostou dos óculos em mim?
— Uh... Ahh... É... Ficou bonito. – Com “bonito” eu queria dizer “sensual”, que ele deve ter entendido pela cara que fez. Distraiu-me tanto que eu até parei de pensar no meu fracasso no teste por um momento. – Er... então... E-eu... Eu não passei no teste do treinador...
— Não passou? – Levi arqueou a sobrancelha. – Como? Que teste ele fez? Ele te colocou pra lutar com alguém?
— É...
— Com quem foi? Se foi um cara muito maior do que você, saiba que a avaliação está injusta...
— Não! Er... Pior que isso... Minha oponente foi uma garota da minha sala...
— Como é?! Você perdeu para uma menina? – Ele massageou as têmporas. Agora minha vergonha alheia voltava à tona. – Foi a Mikasa?
— Não... Foi a Annie, é uma baixinha que sabe lutar usando as pernas... que nem você.
— Oh... – Ele juntou as sobrancelhas. – Então... Conseguiu cair justo com o oponente que você tem dificuldade... – Fiz que sim com a cabeça, envergonhado. – Bem, de qualquer modo, perdeu, né?
— É... Desculpe, Levi... E-eu vou ganhar da próxima vez!
— Hunf. Veremos então... Saiba que já que não passou... não vai receber recompensa alguma.
— Ahhh... – Fiz um tom chateado.
— ... – Levi me olhou apreensivo. – Mas nunca desista, Eren. Quando quiser algo, vai fundo, ignore os obstáculos. Algum momento você passa.
— Ah... Sim, senhor! – Dei uma animada de novo diante das suas palavras de motivação. Quando vinham dele, mais rápido me fazia o efeito.
Resolvi mudar de assunto rapidamente para outro ponto que me deixara curioso.
— Er... Outra coisa... N-não sabia que tocava violão...
— Oh... Isto? Eu não toco... Aprendi uma música com a Hanji. – Explicou – Quer ouvir?
— Quero! Qual que é? – Já sentei logo ao seu lado, animado. Quer dizer que ele cantaria...?
— More than words... – Levi logo fez a posição com as mãos. Eu não entendia nada de violão então fiquei apenas olhando sem comentar. Quando ele começou a tocar, fiquei todo encantado... Vi que ele ainda é meio inexperiente nisso. Eu nunca vejo ele fazendo coisas que não saiba. Por isso, na minha visão, Levi era bom em tudo. Carrego essa imagem desde criança... Mas vê-lo dar umas desafinadas no violão agora, me fez rir. Achei um tanto gracioso para um cara sério e que não perde a postura como ele mostrar inexperiência assim. Ainda mais sendo aquela música lenta... Mas o ápice só aconteceu quando Levi soltou sua voz e começou a cantar. Acho que eu amoleci por dentro. Eu estava doido para ouvi-lo cantar depois de saber que ele teve uma banda na escola.
Levi cantava num tom agudo... ou o termo correto seria falsete, como Hanji dizia? Eu até que estava conseguindo perceber que sua voz estava harmônica com a melodia... Ahh... Ele tinha uma voz tão bonita... O tom impostado dele é tão...
— Gostoso.
— Hu? – Ele parou de tocar na hora pra me olhar com uma cara torta.
— N-n-não!! – Droga, falei alto demais! – Eu quis dizer q-que... o-ouvir seu tom de voz é gostoso!
— Mas que terminho que você foi achar... não tinha outra palavra não? – Ele apoiou o violão ao lado do sofá.
— P-perdão, acho que me distraí de novo...
— Hunf... Mas e então...? O que achou...? – Ele não fez muito contato visual enquanto perguntava.
— Eu adorei! Você tocou bem, foi sua primeira música mesmo? – Falei todo animado, como se fosse a Hanji.
— Mais ou menos... Eu pego o violão da Hanji emprestado de vez em quando... Na maioria das vezes, quando você dorme fora... – Ele coçou a nuca. – Fiquei treinando essa música. Hanji me ensinou a ler as cifras... – Ele ajeitou os óculos e pegou os papéis impressos. – Então...
— Levi...! – Minhas bochechas coraram. – Quer dizer que se sente solitário quando eu não estou em casa? Por isso toca violão...?
— Quê?! Eu nunca disse isso! – Ele me olhou torto.
— Mas foi o que quis dizer, não é?
— Hum... – Ele nada respondeu, apenas cruzou os braços e olhou para o outro lado.
— Levi sente minha falta assim...! – Por reflexo, já me joguei sobre ele e o abracei, fazendo-o até largar os papéis.
— Ei, para!
— Você consegue ser tão adorável quando quer! – Eu já estava meio falando sem pensar agora.
— Diga “adorável” de novo e você vai ver sua orelha na minha mão rapidinho. – Ele ameaçou, mas desta vez eu não o larguei. Continuei abraçando-o. – Ei, você está me ouvindo?
— Posso dormir com você esta noite?
— Hã...? Por quê?
— Eu posso? – Implorei com uma expressão que normalmente o convencia... quando eu era criança, pelo menos. – Por favor... Eu gosto de dormir com você! Mesmo naquela cama apertada...
— Tsc... – Ele deu um suspiro, mas logo fez cara de quem se lembrara de algo. – Oh... Falando nisso... Tenho uma surpresa. – Ele fez um ar todo misterioso.
— É? O que é? – Fiz um olhar curioso.
— Venha... – Ele foi indo para seu quarto, fazendo um sinal para que lhe seguisse. Quando acendeu as luzes, não demorou até eu notar algo bem diferente ali. Arregalei os olhos e rapidamente senti meu rosto ficar mais ruborizado.
— C-cama... de casal?
— Uhum... – Levi apoiou-se na porta e ficou olhando minhas expressões. – Eu já queria comprar há um tempo... É muito apertado quando você dorme comigo, não é?
Eu nem sabia o que dizer. Só fiquei olhando o móvel e pensando que... Levi gosta de dormir comigo a ponto de gastar com uma cama nova para dormirmos com mais conforto... Isso me deixou contente.
— Oww, Levi! – Abracei-o apertado, quase espremendo-o em meus braços. – Obrigado! Você se importa comigo e gosta quando dormimos juntos!
— Ahh, eu não disse isso! Você apenas... cresceu demais, precisávamos de mais espaço...! Você sempre acaba jogando a perna ou o braço em cima de mim no meio da noite.
— E ao invés de me mandar para o meu quarto, você comprou uma cama maior... pra que eu continuasse dormindo com você, né? – Eu adorava notar quando ele mostrava implicitamente seu afeto por mim.
— Garoto... Ei, ei! Garoto, está me sufocando! – Ele se remexia, tentando me afastar. Então afrouxei o abraço.
— Ah, desculpe! Mas bem, i-isso quer dizer que... – Fiz uma certa manha. – ... N-nós vamos fazer sexo?
— Hã?! – a veia em sua testa dera uma pulsada.
— Ah... Ué... Não vamos?
— Não. – Respondeu seco, com a expressão mais carrancuda que tinha. – Você queria dormir comigo, não é? Então vamos dormir! – Ele respondeu com bastante ênfase.
— Ehh! Tudo bem então! – Com ou sem sexo, não importa. Sorri alegremente. Eu agora estava animado era em saber que ele gostava de dormir junto a mim. Já não sentia mais tanto o peso da derrota humilhante que eu passara hoje no muay thai.
~*~
Levi
Ajeitei ambos os travesseiros e os edredons. Eu ainda não havia comprado um cobertor “de casal”. Apenas o lençol de forrar o colchão e as fronhas. Mas, no final, acho melhor manter cada um com sua própria coberta. Assim não teria risco de “roubos” no meio da noite.
Massageei minha testa por um momento pensando melhor nas coisas...
“Mas o que estou fazendo? Comprando um móvel ‘de casal’ para mim e para o Eren...” Sim, eu ainda sentia calafrios em nos imaginar como um casal. Não sei bem o porquê... Parecia ser estranho e um tanto inaceitável. Além de achar um termo meio forte para nos nomear. Mas quando eu parava para analisar nossa relação... mais semelhante me era à uma vida de casal mesmo.
Sentei-me no colchão e fui me acomodando ao meu lado da cama. Agora sim senti o lugar bem mais espaçoso e folgado do que a antiga. Caberia até três pessoas aqui... Sem falar que esse colchão novo se via super confortável. Nunca imaginei comprar uma cama de casal antes de... me casar... Será que posso dizer então que estou praticamente casado agora...? Só falta a minha esposa chegar...
— Oi Levi! Ah... Já arrumou a cama. – Oh, olha ela aí... No final eu já estava o considerando...
— Já... Venha dormir logo, Eren.
— Hã? Mas já vamos dormir? Achei que íamos ver TV ou conversar... sei lá. Tá muito cedo pra dormir...
— Então um pirralho que ainda frequenta escola está achando que é cedo vir pra cama dez horas da noite?
— Sim! Eu vou demorar um monte pra pegar no sono. Tô acostumado a deitar depois da meia-noite.
— Ah, só trate de dormir logo. – Me inclinei para alcançar o interruptor ao lado da cama e apagar a luz do quarto, deixando apenas o do abajur ligado. – Tente ao menos acostumar a dormir mais cedo... – Na verdade, quem estava cansado era eu, por isso já queria paz e tranquilidade para adormecer logo. Hoje eu havia feito muitas coisas depois do trabalho. Voltei mais cedo, então peguei o dia pra resolver uns afazeres tal como a compra desta cama, pagamento de contas no banco, fazer o jantar e lavar uma parte das roupas... por fim, enquanto esperava pelo Eren, fiquei tentando tocar violão. Por isso meu único desejo agora é ter uma boa noite de sono, afinal, era quinta-feira. Ainda tinha trabalho no dia seguinte... E Eren, escola.
Não demorou muito até o garoto literalmente se jogar de bruços sobre o colchão novo, fazendo-me subir uns cinco centímetros no ar.
— Ei, o que é isso? – Perguntei indiferente, sem olhá-lo.
— Waaa, esse colchão é tão bom...! – Eren afundava o rosto no travesseiro.
— Hunf. Teste a cama de outro jeito, não pulando sobre ela...
— Ah... Mas é um colchão de molas. Nós temos obrigação de pular nele!
— Moleque... Não estrague, acabei de comprá-la, lembra?
— Ahhh... – Ele deu mais umas remexidas até se cobrir com seu edredom, mas continuou deitado de bruços.
— Bem... boa noite, Eren. – Já estava fechando os olhos...
— Levi. – Abri-os novamente.
— O quê...?
— N-não vai me dar um beijo de “boa noite”?
Virei-me para ele, mostrando claramente minha expressão exausta. Ele ergueu a cabeça e já ficou esperando. Dei um longo suspiro... Mas não pensei duas vezes em me inclinar e dar-lhe um selinho nos lábios.
— Boa noite, Eren...
— B-boa noite, Levi. – Brotou-lhe um sorriso bobo no rosto logo após o beijo. Ele não deixava mesmo de agir como um pirralho.
Virei-me para o lado dele e assim fui fechando os olhos novamente. Agora sentia meu corpo relaxando... soltando todo o peso... o travesseiro e o edredom se viam tão aconchegantes e confortáveis... o sono logo viria...
...
Uns cinco minutos haviam se passado. E nesse curto intervalo de tempo, Eren ficou mudando de posição umas quinhentas vezes... isso fazia a cama balançar. Sentia aquela veia no canto de minha testa ameaçando pulsar intensamente. Resolvi virar para o meu canto e ficar de costas para o Eren. Mas continuava impossível não senti-lo... Ele se mexia mais do que peixe fora d’água.
— Eren! Você está acordado? Pare de se mexer assim! Parece que tem formigas nas calças. – Falei duro, sem sair de minha posição.
— Hum... Mas eu estou sem sono... É muito cedo ainda pra dormir... – Eren falou igualmente com o olhar cerrado, mas por dentro estava mais desperto do que nunca.
— Fica quietinho que o sono vem.
— Hum... Tá...
...
E assim, já passaram-se mais uns vinte minutos e Eren manteve-se quieto nesse meio tempo. Bem, isso provavelmente significava que já havia adormecido... Relaxei mais depois dessa. Quando Eren tem insônia, vira uma perturbação... se ele não dorme, ninguém da casa dorme...
Mais dez minutos se passaram e eu também já estava dormindo. Estava quase começando a sonhar... Mas novamente fui interrompido por um chute no meio das minhas costas. Ignorei de primeira... mas logo veio outro chute. Minha paciência estava prestes a morrer ali... Por que ele estava assim? Na minha antiga cama ele não se mexia tanto como agora. Será que o amplo espaço do colchão o estimule inconscientemente a se deitar de forma espalhada? Hunf. Dei um chute no Eren também, para ver se ele parava. Até que funcionou... mas apenas por alguns segundos.
Depois disso, Eren continuou se remexendo pra lá e pra cá até virar-se para o meu lado, quase colando seu corpo ao meu. Eu não via nada, pois continuava de costas para ele, mas senti o calor de seu corpo atrás de mim. Sua respiração batia contra minha nuca suavemente, coisa que me deu um arrepio, mas era algo suportável. O que era insuportável era ele se mexer...
De repente, senti sua perna pousar-se sobre as minhas. Abri os olhos e o fitei por cima do ombro. Agora estava passando do limite. Assim eu não dormiria tranquilo.
— Eren... – Vi como ele já estava em sono profundo. Também reparei no espação que havia atrás dele. Pra quê ficar colado comigo? – Eren! Pare de me encoxar e vai pro seu canto! – Empurrei a perna dele pra trás. O garoto não pareceu acordar totalmente, apenas se virou para o seu lado e continuou a dormir.
“Hunf. Reclamou tanto que não estava com sono... Agora está aí, dormindo mais pesado do que eu.”
Voltei à minha posição de lado e tentei dormir novamente... Tentei. Por mais cansado que eu estivesse, não conseguia deixar de me concentrar em como Eren ainda se mexia ao meu lado... Ficou um bom tempo pondo a perna ou o braço sobre mim. Em todas as vezes eu tirava e o empurrava para seu canto. Mas o garoto teimava em voltar mais pra perto e estranhamente pousava a mão boba em mim. Me pergunto se ele estava mesmo dormindo ou tirando uma com a minha cara, pois ele parecia saber muito bem o que estava fazendo.
Seus braços e pernas não paravam quietos. Era como se ele não relaxasse, ou pelo menos não encontrasse uma posição confortável, mesmo num colchão de alta qualidade. Numa última empurrada que dei nele, o garoto permaneceu virado para o seu lado da cama, mas continuava dando espreguiçadas. Resolvi tomar alguma atitude e de primeira me veio a ideia de me arrastar até suas costas e passar um braço pela sua cintura. Pensei como forma de imobilização.
Incrivelmente ele sossegou com isso. Ainda mexia as pernas, mas ficou mais quieto agora. Até soltou seu peso e relaxou os ombros. Penso se ele ainda tinha essa mania infantil de só sossegar quando se sentia protegido...
Eren, depois de mais cinco minutos, parou de vez de se mexer. Já pude até ouvir seu ronco. Desta vez ele embarcara mesmo no sono pesado. Dei um suspiro de alívio e cansaço. Poderei dormir em paz agora. Trouxe seu corpo para mais perto do meu até sentir o calor de suas costas em minha barriga. Apoiei minha testa em sua nuca e assim fiquei até finalmente pegar no sono de vez também...
~*~
No trabalho, eu sentia uma dor meio incômoda na região dos ombros e da curvatura do pescoço. Devo ter dormido de mau jeito. Sentia os músculos ficarem mais duros a cada minuto que eu passava olhando para a tela do computador. Eu ainda tinha que atualizar no sistema uns valores de convênios que Erwin me passou. Assim, continuei meu trabalho... até a porta da minha sala se abrir escancaradamente.
— Ooooi, Levi!! – Hanji já veio caminhando pra dentro da sala na maior folga. Eu apenas senti o tique em meu olho esquerdo.
— Petra! – Já chamei atenção da minha secretária num tom insatisfeito. Ela logo já se justificou sem nem entrar aqui.
— Ah, desculpe, senhor! A Hanji sempre já chega entrando na sala não importa o que eu diga... – Dei um breve suspiro. No fundo eu sei que é difícil segurar a Hanji, por isso sempre perdoava a ruiva.
— Hunf... Tudo bem então. Você já entrou aqui, então diga o que quer, quatro-olhos?
— Você não pode mais me chamar assim! Seu quatro-olhos versão mini...! – Ela deu um peteleco em minha testa. Eu senti outro tique depois de ouvir o apelido... mas agora deixei quieto, não estava com tempo para discutir. – Ah, eu queria pedir por mais luvas descartáveis pra ala do pronto-socorro. Só temos mais uma caixa pequena.
— O quê? Por que não me pediu antes?
— Er... É que só notamos agora, hehehe... – Ela coçou a cabeça, rindo sem graça.
— E como não estão controlando isso?! Ah... Ok então, vou encomendar agora. Nunca deixe isso faltando, pelo amor de Deus. Higiene em primeiro lugar! – Ajeitei meus óculos e abri minha agenda de telefones. Me deu um certo arrepio ver que Hanji continuava parada em frente a minha mesa, olhando-me com um olhar perturbador. – Hanji... Você já pode voltar ao seu trabalho.
— Hum... – Ela coçou o queixo, ainda me lançando seu olhar analítico.
— Tá olhando o quê?
— Você dormiu de mau jeito?
— Ué... Você percebeu...?!
— Claro, sou uma enfermeira, sei quando um corpo não está normal, especialmente se for do meu irmãozinho... Dá pra ver como seus músculos estão endurecidos, mesmo de longe. Você está com os ombros contraídos hoje. De que jeito você dormiu?
— Hum... Não é da sua conta... – Voltei minha atenção à lista telefônica, numa tentativa de cortar logo o papo furado e fazê-la voltar ao trabalho. E também não daria a ela o luxo de saber que eu dormira de conchinha com o Eren esta noite.
— Ahh, ok então. Eu ia te falar também uma ideia que o Eren me falou da escola dele... Maas... parece que você está muito ocupado, então já estou de saída.
— Ei, espere! – Abaixei a agenda na hora. – Que ideia? Que horas você conversou com ele?
— Ué, eu e o Eren sempre conversamos por chat no celular! – Ela mostrou no seu aparelho, a conversa que tinha com o Eren, porém não deu tempo de eu ler nada.
— Você... Você fica de conversinhas com ele assim? Toma teu rumo, garota! Você vai atrapalhar o desempenho dele nas aulas com essa... maldita tecnologia.
— Calma, ele não fala comigo todo dia não! E é durante o intervalo dele, relaxa aí, paizão. – Ela zombou.
— Hunf.
— Sobre a ideia... É que ele acabou de me dizer que começaram a falar de um festival que tem todo o fim de ano no colégio dele. – Hanji parecia medonhamente empolgada enquanto falava. Isso era meio perturbador. – Aí ele comentou que iria ter que arrumar uma grana pra ajudar a pagar um DJ pra tocar umas músicas num palco aberto...
O rumo dessa história estava ficando meio estranho, mas mantive minha compostura e olhar indiferente para ela.
— E daí...?
— Daí eu sugeri de irmos tocar lá, eu você e o Mike na escola do Eren, como “No Name”, o que acha? – Ela inclinou-se sobre minha mesa, quase colando a cara com a minha, exibindo seu largo sorriso.
Tenho certeza que minhas olheiras ficaram mais escuras depois dessa fala. Continuei olhando-a com cara de paisagem e mostrando-lhe claramente minha resposta em relação a essa proposta.
— Não.
— Ah, Levi vamos lá! É a escola do Eren!
— Eu não vou.
— Por favor, vamos só cantar um pouquinho e ir embora. Eu fiquei com tanta saudade daquela época depois que vi as fotos junto com o Eren. Tenho certeza que o Mike topa!
— O Mike pode até topar. Mas eu não.
— Ah, vamos, pare de ser tão ranzinza. Hunf, agindo que nem um velho assim...
— Hanji, eu não gosto de me expor.
— Ora, não foi isso que me pareceu lá no nosso colégio...
— Lá eu era mais jovem, Hanji.
— E daí? Olha pra você agora! – Ela me virou em direção ao espelho que havia em minha mesa. – Está exatamente como era naquele tempo! Deve até ter ficado mais baixo.
— Como é que é?
— Vai, pense nessa ideia! – Toda animadinha, como sempre, ela foi saindo de fininho da minha sala.
— Tsc... Cantar em colégio... Vai sonhando, lontra...
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