Reencarnado Como Galo em Outro Mundo

9 Capítulo 8 A Bonança e a Tempestade


Os dias passam. O plano de Rikko começa a mostrar resultados com os fazendeiros ao demonstrarem satisfação quanto a postura de ovos de Kohko, o que lhe deixava mais tranquilo. Por outro lado…


_Pako, você tem certeza disso?


_Claro que eu tenho, Goppa! Saiu de dentro de mim, e esta manhã não estava mais lá! Meu ovo sumiu! — Afirmava em prantos uma galinha.


_Não parece ter sido obra de raposas. Eu não vi nenhum sinal de patas seja aqui dentro ou lá fora. Seria uma cobra?


_QUE HORROR! Cobras? Isso não, isso não! A última vez em que uma apareceu aqui, foi como um pesadelo! — Afirmou outra galinha.


_Seja o que for, tem ovos sumindo aqui e ali, precisa tomar uma atitude, Goppa! O quanto antes! — Cobra Gelda energicamente.


_Eu sei, eu sei. Vamos ver o que consigo fazer com os outros galos. Kel, você notou algo?


_Não. Como você sabe, estou ficando velho, meus sentidos já não são como eram antes. — Kel afirmava, um tanto desanimado. — Mas ao menos vou tentar manter Rikko protegido o maior tempo possível.


_Ha, Ha, Ha, É um inútil, mesmo. — Debochou Gelda — Aproveitando a ocasião… Mas que milagre, Kohko tem botado ovos. Realmente um milagre!


_O que quer dizer com isso, Gelda? Explique-se! — Kel não gostava do tom estranho na voz da inquisidora.


_Oh, não é nada, apenas algo que me ocorreu, desculpe. Ignore o que eu disse e vá cuidar de seu filhinho.


Kel fitou Gelda por mais um tempo embora ela não desse sinais de mudança em sua atitude. A conhecia mais do que ninguém, mas os seus dias tem sido cansativos, então achou melhor encerrar o assunto, ao menos por enquanto.


_Está bem. Rikko! Vamos comer!


Rikko o acompanhou para fora do galinheiro, mas estava bem atento à conversa entre eles. Seu plano começava a dar sinais de que não iria muito longe.


“Mas que droga, pensei que não perceberiam tão rápido. Os subestimei demais por serem galinhas. Preciso ser mais cuidadoso, ou vão me pegar.”


Manteve-se pensativo naquele início de manhã. Engolia os caroços de milho um a um enquanto maquinava uma nova forma de garantir a sobrevivência de Kel e Kohko, e precisava ser rápido. Mas seus pensamentos tornaram-se dispersos quando seu olfato tomou a liderança.


_Func, func. “Que cheiro maravilhoso é esse que estou sentindo?” — O cheiro lhe parecia novidade, então decidiu que procuraria a sua fonte.


Kel havia ido parar do outro lado do galinheiro, comendo algo que não dava para se ver de longe. Talvez formigas, atraídas pelos restos de alimentos que o fazendeiro havia jogado no chão naquela manhã. Riko se aproveitou de sua distração para ir em direção à cerca. O cheiro inebriante parecia vir de fora.


_Uau, será que estou vendo coisas?


Não estava. Ao focar seus olhos em direção à casa principal, notou que a janela referente à cozinha estava aberta. E em seu parapeito de madeira, repousava um prato que parecia de cerâmica, e nele havia algo semelhante a uma apetitosa torta recém — assada. Saliva escorria do bico de Rikko.


_Uma torta! Meus olhos não me enganaram! — Sua memória voltou no tempo por um instante, no dia em que uma das garotas a quem cortejara lhe deu uma torta caseira feita por ela mesma. Sua barriga começou a roncar ferozmente não o deixando pensar corretamente.


_Não aguento mais comer milho picado e restos de legumes! Lamento, senhora fazendeira, mas esse lanche tem meu nome escrito nele.


Buscou a saída secreta da cerca. Suas asas ainda não eram grandes e fortes o suficiente para subir a cerca de um salto, então o buraco que Kel lhe ensinara dias atrás seria de bom uso agora. Ao passar para o lado de fora, observou se certificando que ninguém o vira.


_Perfeito, ninguém me viu. Agora é só ir devagarinho até lá e abocanhar aquela delícia.


Lentamente Rikko se aproximava da casa. Primeiro, se escondeu atrás de uma grande pedra, depois atrás uma árvore, uma tina de madeira e por fim, estava junto a janela. Mas naquela hora um problema surgiu perante ele: como ele alcançaria a janela?

Mesmo que batesse as asas, mal conseguiria metade da altura que precisava. Analisou a situação até o pescoço começar a doer.


_Ah, é isso! Eu sou um gênio!


Notou que a parede da casa era de madeira revestida com algum tipo de massa, e que grandes pregos tortos ficados aqui e ali eram o suficiente para alcançar a janela se os utilizasse como ganchos.

Com muito cuidado foi pulando em cada um deles usando as patas para segurar e abrindo as asas para manter o equilíbrio. Logo ele finalmente alcançou o parapeito.


_Ufa, consegui. Deu trabalho, mas essa belezinha vai valer a pena. E agora…


Observou pela canto da janela. Não conseguia ver o fazendeiro, mas podia ouvi-lo tomando banho nos fundos da casa. A esposa estava entretida preparando comida no fogão à lenha de costas para a janela. Precisava ser rápido, mas resolveu esperar por uma oportunidade melhor.


_Mulher, traz a minha roupa! E uma toalha!


_Ora, homem, toda vez é isso! Já vou buscar! — A esposa pôs as mãos na cintura com tom de desaprovação, mas saiu da cozinha logo em seguida.


Mesmo sem entender uma palavra, para Rikko essa era a chance que ele precisava. Avançou na torta e sem demora, começou a destrinchá-la com o bico. Uma explosão de sabores saudosos invadiu seu ser. Estava em êxtase.


_Noffa, ifu ta muifo bomm!


Seu paladar logo identificou o sabor da torta. AMORAS! Doces e tenras, e algum tipo de geléia do mesmo sabor. Estava no paraíso.


Estava, pois um imprevisto o fez voltar para a realidade:


Ah… olá, você sempre vem por aqui, grandão?


Era o cão do casal. Um cão enorme o bastante para conseguir alcançar o parapeito e dar uma cheirada no traseiro de Rikko. Análise feita, logicamente percebeu que aquele pequeno ser não deveria estar ali, então sua postura de curioso mudou para raivoso tão rápido quanto Rikko gostaria.


_Grrrrr…


_Epa, calminha aí…vira esses dentes afiados pra lá...


Precisava pensar rápido ou sua vida terminaria por causa de uma simples torta. Reuniu todas as suas forças e num átimo de segundo em que o cão abriu a boca, empurrou o prato de torta com tudo o que tinha.


A tentativa deu certo, fazendo com que a boca do cão ficasse ocupada por um instante e então Rikko pulou da janela batendo as asas incessantemente conseguindo pousar cerca de três metros à frente e correndo em disparada para a cerca.


O cão fez menção de ir atrás ao perceber que fora enganado. Mas uma lambida no canto da boca o fez mudar de ideia trocando seu alvo, um pintinho magrelo, para aquele belo prato de comida doce. Destruiu a torta em segundos restando apenas o prato.


_AHHHH, SEU MALDITO! VAI VER SÓ UMA COISA!


A fazendeira o pegou em flagrante com o focinho lambuzado de geléia. Perseguiu o pobre cão munida de uma vassoura de palha e palavrões a plenos pulmões. Enquanto isso, Riko entrava esbaforido pelo buraco da cerca quase sendo pego pelo pai.


_Rikko! Então estava aqui todo esse tempo?


_Arf, hã? Ah, é, é sim. Eu estava. Todo esse tempo, arf.



_O que houve com seu bico,? Que sujeira é essa? E que barulho foi aquele?


No desespero Rikko não percebera seu estado, com o bico e o peito lambuzados de roxo. Precisava inventar algo.


_Ah, isso? Eu… eu comi umas amoras que estavam caídas aqui no chão, o vento deve ter derrubado elas da árvore. Estavam ótimas! E eu não ouvi nada!


_Amoras? Ah, aquelas coisinhas escuras? Sim, são boas mesmo. Agora vá beber um pouco de água para limpar essa sujeira e depois vá brincar com os outros pintinhos.


_Sim, papai. Agora mesmo!


Aliviado por não ter sido descoberto, foi para o outro lado do galinheiro em disparada, a barriga estufada de torta e nem um pouco de pena pelo cão.


Enquanto isso em algum lugar da fazenda o cão se escondia. Se pudéssemos entender em que estaria pensando, talvez fosse:


“Maldito pequenino. Ele vai pagar por isso...”


Mais tarde, Rikko, voltava a pensar em outro plano para evitar que os pais virassem refeição, mas sem sucesso. O roubo de ovos era perigoso, poderia ser descoberto, mas não tinha outra escolha. Cogitou a ideia de diminuir um pouco a quantidade de ovos ao mínimo possível.


_Bom, vou tentar pegar mais um essa noite e deixar passar uns dois dias para pegar outro, Goppa deve ficar de vigia com os outros galos, mas sei que eles tem sono pesado, vai dar certo.


A noite cai, e Rikko aguardava o momento para mais uma empreitada. Como já está um pouco maior, Kel permitiu que saísse do ninho para dormir nos poleiros com os adultos, então ficaria um pouco mais fácil se mover.


As luas já iam bem alto no céu quando desceu do poleiro em silêncio e, como havia previsto, os galos estavam em sono profundo com suas cabeças pendidas. Se esgueirou pelo galinheiro em direção ao ninho mais próximo, quando sentiu alguém o puxar por trás.


_E-


_Shhh! — Quem o havia puxado no escuro sussurrou ao lado se sua cabeça enquanto lhe tapava o bico. — Venha comigo.



Foi descoberto, mas por quem? Sem escolha, aceitou ser levado em silêncio para fora do galinheiro e à luz das luas, conheceu seu descobridor.


_S-senhora Kakke, eu…


_Eu já entendi tudo, menino, não se dê ao trabalho de explicar. Está roubando ovos para salvar os seus pais. Entendo as suas ações, mas de nada adiantaria salvá-los se no final alguém tiver de ser sacrificado em seu lugar.


_E o que eu faço, então?


_Nada. Não faça nada.


_Mas assim eles vão morrer!


_Somos o alimento de alguém. Sejam nossos ovos, ou nós mesmos, é um destino do qual não podemos escapar, e assim sempre será. Seus pais já cumpriram os seus papéis, e você é a prova disso, e eu por testemunha.


_E de que isso vale?


_Você é o maior e único tesouro deles. E sei que dariam as suas vidas com orgulho se for para te proteger. Aceite esse destino de bom grado.


_E se eu não quiser? Não tem nada dizendo que sou obrigado a isso.


_Realmente, não há. Mas se não deseja isso para si, então fuja. Para longe daqui até onde suas patas o levarem. Deixe-nos cumprir com nossos destinos e vá criar o seu próprio. Você é jovem, você consegue.


_Vamos todos juntos! Fugir juntos!


_Nenhum de nós conseguiria sobreviver, estamos acostumados demais com essa vida. Exceto você.


_...Porque só eu?


_Desde que nasceu, eu sempre achei que você fosse diferente, e seus pais também devem achar isso. Se alguém entre nós é capaz de viver lá fora, esse alguém é você. Confie na velha Kakke, menino.


_...eu não sei….


_E nunca saberá se não tentar! Pense nisso. E se isso lhe fizer partir mais tranquilo, vou conversar com os outros, ver se aceitam continuar por mais algum tempo o que você vem fazendo. Bom, não conto nem um pouco com Gelda e as seguidoras dela, mas vamos dar um jeito, eu lhe prometo.


Ouviu aquilo deixou Rikko mais esperançoso. Era apenas uma promessa, mas saber que Kel e Kohko teriam alguma chance de viver com a ajuda das outras galinhas lhe deixava com o coração mais leve.


_Ok, eu vou pensar.


_...Ok? Bem, você realmente é bem diferente. Vamos para dentro antes que alguém acorde. E pode pegar meu ovo, aceite como uma promessa de dias melhores.


_Está bem, senhora Kakke.


_Huhuhu, você é um bom menino.


Antes da alvorada, Rikko já estava de volta a seu lugar no poleiro dormindo profundamente, e mais um ovo estava debaixo de Kohko para ser descoberto pela manhã. Do outro lado do galinheiro, Gelda observava Rikko com seus olhos entreabertos.