Reencarnado Como Galo em Outro Mundo
6 Capítulo 5 Inesperada Despedida
A dor que Ricardo sentiu foi instantânea, sequer tendo tempo para gritar. A caixa de frangos atingiu seu peito com tamanha força que não percebeu sua caixa torácica sendo esmagada feito uma caixa de papelão sendo estourada com um soco potente. Perdera os sentidos de imediato.
Nesse momento sua mente transbordou incontrolavelmente com memórias do passado. Estava vendo toda sua vida passar frente a seus olhos.
Viu a primeira vez em que se declarou sinceramente para uma colega de escola em seus onze anos:
_Namorar com você? Nem pensar!
Em uma festa ainda na mesma escola cerca de um ano depois, via as meninas de longe desdenhando de sua aparência após recusarem-se a dançar com ele:
_Aquele magrelo? Que fique ali parado, ninguém vai dançar com aquilo! — Disse uma delas.
_Só uma cega aceitaria esse frango depenado! — Afirmou outra.
Aos quinze anos, determinado a mudar de um fracassado para o mais desejado entre as garotas, buscou exercícios e receitas milagrosas:
_Garoto, tu é muito frango, não vai ter suplemento que dê conta disso. Desista. — Seu professor na academia deu o desagradável veredito.
“Essa gente vai ver só! Eu vou me tornar um garanhão e todas a mulheres vão brigar por mim!” — Disse a si mesmo enquanto malhava por conta própria em seu quarto, a mesa abarrotada de vitaminas e livros de exercícios comprados com sua mesada.
Haviam também memórias onde finalmente seus esforços começavam a dar certo e sendo notado pelas garotas. Com o ego inflado, não percebia que as tratava apenas como números em sua agenda de cafajestice. Suas últimas visões foram a perseguição e finalmente o dia em que pediu Júlia em namoro:
_Tá legal, eu topo. Vamos ver no que dá. — Sorriu.
Tudo novamente escureceu, o sorriso dela sendo a última coisa a sumir lentamente.
_Onde eu tô?
_Depressa! Tragam uma tesoura, cortem essa fantasia! — Ouviu uma voz.
Ricardo estava vendo a si mesmo sobre uma mesa de cirurgia. Vários médicos estavam sobre ele.
_Ô, pega leve com essa tesoura aí! _ Gritava, mas ninguém lhe dava atenção, era como se estivesse invisível.
Fantasia removida, seu peito estava afundado a um ponto que ele não imaginava que seria capaz, Abriram seu peito com o bisturi.
_ECA, que nojo! — Gritou a ver seu próprio interior, ou o que restou dele. O que via se assemelhava a uma tigela funda com uma sopa de tomate epleta de pedaços de seus ossos flutuando.
_Afundamento da caixa torácica, Várias costelas quebradas, pulmões perfurados.
_Doutor, o coração parou outra vez! — Avisou uma assistente.
_É a quarta vez! Desfibrilador! Vamos tentar direto no coração!
Tentaram uma. Duas. Três.
_Vai fundo, eu! Aguenta aí, pô! — Ricardo tentava torcer por si mesmo, mas o pior aconteceu.
_Doutor, não tem mais resposta. Está morto.
O médico responsável pela cirurgia parou por um momento, suspirou e estendeu os braços para que lhe removessem as luvas ensanguentadas.
_Uma pena, um rapaz tão novo. Hora da morte?
_13:52.
_Limpem e suturem o corpo. Vou comunicar o falecimento.
_É isso, eu morri mesmo. Acabou. — Ricardo suspirou. Decidiu acompanhar o médico para fora da sala de cirurgia. Antes de sair, olhou seu corpo mais uma vez na mesa de cirurgia sendo limpo, os restos da fantasia de galo ensanguentada no peito foram postos em uma caixa plástica no canto. Saiu.
Na sala de espera, além dos policiais estava quase o elenco inteiro do Deliciasas, exceto a esposa de Alberto e pelos funcionários do turno da tarde que ficaram na lanchonete aguardando notícias. Encabeçando a turma estava Alberto, que foi de encontro ao médico:
_E então, Doutor?
O médico fez uma expressão séria, juntou os dedos nas mãos e deu a notícia.
_Infelizmente o paciente veio a óbito. Múltiplas costelas quebradas. Perfurou os dois pulmões. Suspeitamos que o Fígado e baço estavam rompidos, mas não conseguimos estabilizar o coração para prosseguir o tratamento. Sinto muito.
_Obrigado, doutor, vou comunicar à família dele.
Enquanto o médico se retirava, Hermes se aproximou. Seus olhos estavam arregalados feito faróis, o suor escorrendo pela testa.
_E agora, Senhor Alberto?
_E agora você assume daqui.
_Eu o quê?
_Não se faça de surdo. Você assume o resto. Avisa pros pais dele e chame o serviço funerário mais barato que conseguir. Vou voltar pro restaurante ver se dá para tocar o negócio até de noite. Esse enterro vai me custar uma nota fora a indenização, prejuízo atrás de prejuízo. A reputação do restaurante foi pro brejo.
_Com esse climão todo? Não sei se vai dar certo.
_E daí? Morreu e pronto, acabou.
Ricardo não se espantou com a reação dos dois. Era o esperado de dois seres mesquinhos. Marcelo e Camila estavam sentados no sofá de espera, visivelmente tristes. Marilise, alheia a tudo, estava em outro canto mexendo no telefone verificando o inchaço do tapa com a câmera. Havia um curativo exagerado em seu rosto cobrindo a parte atingida. Mas faltava uma pessoa ali.
Júlia apareceu correndo no final do corredor. Ainda estava com o uniforme da loja, bagunçado e com marcas de sujeira.
_Cadê ele? Onde ele tá? Lágrimas corriam de seus olhos renovando as marcas anteriores. Foi amparada pelos policiais. Marilise achou melhor ficar mais afastada por precaução.
_Tá morto. E você tem outros problemas para resolver! — Respondeu Alberto, ríspido como sempre foi e apontando o dedo para ela.
Júlia desabou no chão. A sensação ruim que lhe corroía o peito desde que chegou à lanchonete e soube do acontecido finalmente teve sua conclusão. O desespero finalmente tomou conta dela.
_RICARDOOO! PORQUÊ VOCÊ FOI MORRER! AHHHHH!!!
Um dos policiais a ajudou a se sentar e tentava acalmá-la, mas Alberto ainda não estava satisfeito.
_Não adianta chorar agora! Até mais cedo você estava correndo atrás daquele idiota com uma faca! Bateu na minha filha que não tinha culpa nenhuma! Vai responder por tudo isso na delegacia, e espero que apodreça na cadeia! — Lançou a última pá de cal quando viu a própria filha virar o rosto com uma expressão estranha. Desconcertado pela reação, calou-se.
O policial encarregado da ocorrência, não conseguiu ficar em silêncio e se valendo de sua autoridade, intercedeu por Júlia.
_Senhor, vai com calma, modere o seu tom, estamos em um hospital. O que tiver de ser averiguado faremos na delegacia, e o depoimento do monto precisa ser respeitado.
_Como é? Vai ficar do lado dessa louca? É sua obrigação prendê-la, faça o seu trabalho! — Hermes queria muito concluir as palavras de seu patrão, mas ao ver os olhos do policial quase faiscando, deu um passo para trás.
_O senhor está falando com uma autoridade! Baixe sua voz enquanto pode, ou eu lhe prendo por desacato. Vamos todos à delegacia agora mesmo!
O plano que Alberto tinha para reabrir a lanchonete, se não estava decidido antes, agora estava completamente cancelado. Apenas Hermes ficou para contatar um serviço funerário e os pais de Ricardo, aliviado ao menos por não ter de passar o resto do dia enfurnado em uma delegacia.
Assistindo a tudo, Ricardo se condoía de Júlia, mas ela não era capaz de ouví-lo, e nem mesmo conseguiu acertar um soco na cara de Alberto quando tentou. Seu punho apenas atravessou a cabeça do ignorante ex-chefe. Resignado, se pôs a pensar.
_E agora, o que vai acontecer comigo?
A resposta veio logo a seguir. Sentiu sua visão escurecer e não sabendo como reagir a isso, apenas se entregou ao destino.
Quando se deu conta, o local havia mudado por completo, mas percebeu não se tratar mais do hospital, mas de uma sala um pouco grande para ser o cômodo de uma casa e haviam bancos compridos de madeira e flores espalhadas. Tentou puxar de suas memórias se já havia estado ali antes, mas ao ver o caixão com seu corpo logo atrás de si entendeu. Era seu próprio velório.
_Caramba, quanto tempo passou?
Naquele momento, várias pessoas entraram no local, uma a uma ou em pares. Logo reconheceu seus pais à frente, com expressões pesadas e lágrimas corriam dos olhos de sua mãe. Logo atrás, apareceram mais alguns parentes, ex-colegas de escola, quase todos os funcionários do Deliciasas — Hermes na frente, mas não querendo estar ali — com exceção de Alberto, sua esposa, Marilise e não por último, Júlia.
_Será que ela foi presa? Maldito Alberto!
Para sua surpresa, várias garotas com quem teve suas aventuras também compareceram, cerca de 12, mas nenhuma delas tinha sinais de choro apesar das caras tristes.
_Não sei se me orgulho por elas terem vindo até aqui ou se fico chateado porque não estão chorando. Bom, eu fiz por onde, afinal. Pena não poder me desculpar com elas. — Contentou-se.
Ritos feitos, Homenagens ditas — A de Hermes sendo a mais teatral possível para desgosto dos colegas de trabalho — As pessoas pouco a pouco deixavam o local e o corpo sozinho. Após todos terem saído, Ricardo notou que alguém entrara pela outra porta da capela. Era Júlia.
_Ela tá péssima, parece até mais magra. E é tudo minha culpa, eu sei disso e não vou ser capaz de consertar isso nunca mais.
Estava com uma roupa menos arrumada que as outras meninas, mas de preto como manda a ocasião. Ricardo não entendia porque não entrara junto das outras pessoas, Mas notou que estava com olheiras pesadas e marcas no rosto de quem tinha chorado há pouco tempo. Foi direto ao caixão que ainda estava aberto se debruçando sobre o corpo.
_Puxa, Ricardo… você se foi sem nem mesmo ter a chance de ver o presente que eu te dei. Mas eu consegui. Marcelo pegou no seu armário pra mim. Está aqui.
Tirou do embrulho um colar prateado no qual pendia adorno na forma de um pássaro estilizado de espécie indefinida. Abriu o gancho e passou o colar em volta do pescoço de Ricardo.
_Taí. A minha avó é dona de uma lojinha de artigos místicos, muitos ela mesma quem faz. Diz ela que traz proteção e sorte pra quem usa, mas agora nunca vamos saber, né? Leva ele com você, tá?
_…
_Eu queria que fosse tudo mentira, que estivesse ao meu lado. Queria te ver se desculpando com as outras meninas, pedindo perdão, tentando mudar… ainda que não ficasse mais comigo, eu preferia te ver vivo, e bem.
_…Desculpa. — Ainda que não pudesse ser ouvido, Ricardo respondeu.
_Mas agora você se foi. Seu corpo ainda tá aqui, mas daqui a pouco vão te levar pro crematório. Tudo que você foi um dia vai parar dentro de uma droga de caixinha.
_...Eu sinto muito.
_Mas, sabe? Se existir vida mesmo após essa, vou rezar para que você possa voltar e ser mais feliz, seja como for. Se tiver alguém lá encima, que ele seja mais gentil com você na próxima. Vai em paz, tá?
_Não queria que fosse assim.
_Ah, eu ia me esquecendo de te contar o que houve depois daquilo tudo. Fui demitida, mas Alberto voltou atrás e não me acusou da agressão. Camila contou tudo o que sabia de Marilise pra mãe dela então ele não tinha mais argumento pra me acusar.
_Dá-lhe, Camila! E bem feito pra Marilise!
_Seu Gilmar perdeu o caminhão, mas como tinha seguro ele já voltou a trabalhar e tá me ajudando a procurar outro emprego. Sabe os empanados que você ia fritar? Estavam estragados, um montão deles. A confusão e a explosão acabaram atraindo reportagem e a vigilância sanitária “de repente” resolveu aparecer.
Alberto teve de pagar uma multa daquelas e a lanchonete ficou mal-falada, vai levar um tempão pra se recuperar. Camila agora tá em outro emprego e bem mais tranquila. Bem, é isso. Você se foi, mas tudo se resolveu de alguma forma.
Júlia mais uma vez se debruçou sobre o caixão, desta vez seus lábios tocando os lábios frios de Ricado. Ainda que estivesse observando a tudo de fora, ele pôde sentir de alguma forma o calor dela.
_ Eu te amo, seu doido. Nunca vou te esquecer.
Sentiu toda a ternura que tinha por ele a qual nunca deu real valor. Não queria partir sem dizer a ela com suas próprias palavras, mesmo que não pudesse ouvi-las. Se aproximou de seu rosto tentando retribuir o beijo e seus lábios transparentes a tocaram.
Júlia teve um sobressalto e voltou seu olhar para onde não deveria haver ninguém. Uma lágrima percorreu seu rosto, um sorriso se abriu. Ela podia vê-lo!
_RICARDO!
Mas não havia mais tempo. Uma luz brilhante começava a puxá-lo para algum lugar. Em tempo, ela conseguiu ouvir suas últimas palavras:
_Seja feliz, Júlia. Eu também te amo!
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