Reencarnado Como Galo em Outro Mundo
10 Capítulo 9 O Ovo da Discórdia
_...EU VOU MOSTRAR PARA VOCÊS!!!
Rikko despertou de súbito em meio a gritos naquela manhã. Ainda tonto de sono, desceu do poleiro quase tropeçando em uma raiz exposta quando avistou a fonte do barulho. Era Gelda em mais um de seus escândalos cercada de outras galinhas, até então nenhuma novidade, mas…
_Ah, então o ladrãozinho decidiu acordar. Te perturbei, foi?
_Hã? — Rikko teve um mal pressentimento. — Me chamou de quê?
_Não se faça de desentendido! Eu já sei que é VOCÊ o responsável pelo roubo dos ovos! Não tente negar agora!
Kel e Kohko vieram de fora do galinheiro, ainda sem estarem a par do assunto.
_Mas que gritaria toda é essa? Gelda, o que foi agora? — Kel instintivamente tomou a frente de Rikko assim que o viu encurralado pelas outras galinhas enquanto Kohko o colocava debaixo da asa.
_Ah, Kel, você não sabe? Tem certeza? De que seu amado filho é o ladrão que esteve roubando os nossos ovos?
Kel ficou espantado, mas se sentindo ultrajado pela acusação, eriçou a penas e aguçou sem olhar em direção a Gelda.
_Como é? Pois eu exijo explicações!
_Mas com muito gosto! — Gelda estufa o peito orgulhosamente – Em momento algum engoli a história que o ladrão de ovos vinha de fora Tinha de ser alguém daqui e eu sabia que não poderia contar com um bando de galos imprestáveis para ficar de olho.
Goppa interrompe neste momento, seu semblante demonstrava extremo desgosto, diferente da seriedade de sempre.
_Nos poupe de seus comentários venenosos, Gelda. Vá direto ao ponto!
_Na última noite eu fingi estar dormindo quando percebi que aquele ladrãozinho havia acordado e estava perambulando pelos ninhos em busca de ovos. Foi quando vi Kakke o surpreender e levar para fora. Os segui e pude ouvir o que falavam.
_E o que diziam? — Uma das galinhas quis saber, mas logo foi silenciada por Goppa com um sinal de asas.
Gelda a esta altura já estava cansada de ser interrompida. Não esperando sinal de Goppa para que continuasse, declarou:
_Os ovos roubados estavam sendo colocados debaixo da mãe dele para fingir que ela ainda estava pondo e assim evitar que seja levada!
_OOOOHHH!!!
Parecia que o galinheiro estava prestes a ivr abaixo com a quantidade de gritos de desespero e desaprovação. O pandemônio acabava de ser instaurado e Rikko não tinha para onde fugir. Debaixo da asa da mãe, pensou que talvez só pudesse contar com a proteção de seus pais naquele momento.
_Essa é uma acusação muito grave que está fazendo a nosso filho, Gelda, meça as suas palavras. E meça-as muito bem! — Kel precisou levantar a voz para se fazer ouvir no meio da algazarra.
_Faço minhas as suas palavras, Kel, meu velho amigo. — Goppa toma a vez de falar e encarando Gelda no fundo dos olhos, perguntou:
_Espero que tenha provas de acordo com o que disse. Prove para todos a sua inquisição agora mesmo. Aliás, antes disso… Rikko, venha até aqui.
Rikko fez menção de sair do abraço da mãe, mas Gelda bateu a pata no chão.
_Nada disso! Sei que vai perguntar a ele se roubou os ovos, e é claro que ele não vai admitir! Não foi uma ou duas vezes apenas, foram várias! A minha prova é mais do que suficiente para mostrar a verdade. Venham comigo!
Gelda não esperou assentirem ao seu convite, indo direto para o ninho de Kohko e apontando para o ovo que lá estava. Agora novamente diante ao resto do grupo, voltou a declarar.
_Aqui está a prova!
_Gelda, é apenas um ovo da Kohko, isso não prova nada. — Goppa suspira em desânimo.
_Pois saiba, meu caro marido Goppa, que este ovo é da Kakke. Ela ofereceu o próprio ovo para que fosse colocado no ninho. Ela está de conluio com eles!
_Isso é um insulto! — Kakke gritou. — Eu-
_Silêncio! Sua vez de se explicar virá! — Goppa chamou-lhe a atenção. — Prossiga, Gelda, e seja breve!
_Assim que ouvi ela oferecer seu ovo, corri até o ninho dela e fiz duas marcas na casca com minhas garras. Essa será a prova! Podem ver com seus próprios olhos!
Todos ficaram em silêncio por um momento. Rikko suava frio. Seu plano havia sido desmascarado e o que viria a seguir não conseguia imaginar. Pôde ver o olhar de preocupação de Kohko e seu pai não mais eriçava as penas.
Goppa não disse mais nada. Foi até o ninho e, cuidadosamente, virou o ovo com suas afiadas garras. E lá estavam, para sua surpresa, duas linhas bem marcadas na casca.
_Marcas! Duas marcas. — Balançando a cabeça para os lados, Goppa direcionou seu olhar para Rikko. Apesar da raiva e desaprovação, suas palavras ainda continham alguma gentileza.
_Rikko. Venha aqui. É sua vez de se explicar. Diga a verdade e nada mais.
Kohko, triste, ainda tentava segurar seu filho em sua asa, mas Kel a impediu da maneira mais gentil que podia, igualmente triste. Rikko agora estava de frente para Goppa e tentando ignorar Gelda com seu olhar de satisfação.
_Fui eu.
_OOOOHHH!!!
Novos gritos ecoavam pelo galinheiro. Goppa fazia sinal com as asas tentando silenciar a balbúrdia, mas a persistência o levou a uma medida maios drástica, gritando a plenos pulmões:
_SILÊNCIO!!!
Com o grito, não se ouvia sequer um sussurro. Mesmo Gelda estremeceu, não por Goppa ser seu marido, mas por ser o Galo mais respeitado e temido do lugar. Havendo conseguido o silêncio que desejava, Prosseguiu.
_Por que fez isso, garoto?
_Porque eu sei que sem botar ovos, a minha mãe e meu pai seriam levados, e eu não quero que eles morram. — Rikko conseguiu dizer tudo sem desviar os olhos de Goppa, que ao ouvir a confissão, suspirou.
_Eu te entendo. Você ainda é jovem, mas precisa aprender que o que fez não só de nada adiantaria, como causou uma grande confusão. Todos aqui estão na mesma situação em que seus pais, não há qualquer privilégio ou mérito que nos proteja. Está me ouvindo?
_Sim, senhor.
_Mas, o que está feito, feito está. Você errou por roubar e enganar a todos. Kakke errou por te proteger. — E então se virou para Gelda — E você, Gelda, também errou.
_Eu? Eu errei?
_Sim, errou. Estava certa em denunciar, mas mesmo estando correta, se deixou levar por sua rusga pessoal, e como seu marido, não posso ignorar isso.
Indo para o centro do galinheiro levando Rikko consigo, goppa proclamou:
_Como líder, declaro que Rikko deve ser perdoado. Que não nos esqueçamos de seu feito, mas que todos se apiedem ao fato de que é apenas uma criança tentando proteger os pais. Teve decisões erradas, mas a pureza em seu desejo é sincera. Terminemos por aqui, e nem mais uma palavra.
Um novo falatório ocorreu, mas desta vez estava basicamente dividido, com aqueles que ainda desejavam a punição discutindo com os que que se comoveram com as ações de rikko e acataram a decisão de seu líder. Um novo grito de Goppa exigindo silêncio e finalmente o falatório encerrou.
_Rikko, meu filho. Nosso amado filho! — Kel e Kohko vieram para junto de seu filho o pressionando entre eles e juntando suas cabeças em sinal de alegria.
Goppa satisfeito deixou para que os pais lhe passassem o devido sermão e foi dispersar os demais. Pouco a pouco todos estavam novamente seguindo suas vidas, com exceção de uma. Gelda.
_Isso não vai ficar assim…
Kel levou Rikko para fora do galinheiro juntamente de Kohko procurando um lugar mais reservado para conversar. O sol já se mostrava por trás das árvores e uma brisa fresca soprava. Escolheram a sombra de uma árvore se acocorando sob ela. Até então em silêncio, Kel deu a palavra.
_Pois bem, meu filho… estamos felizes pela sua atitude, mas ao mesmo tempo muito desapontados pelo que fez. Não quero repetir as palavras de Goppa, mas esperamos que nunca mais faça isso, entendeu?
_Sim, papai, eu prometo não fazer mais isso.
_Mas tenho de admitir, foi engenhoso. Você ainda teve o cuidado de variar de quem apanharia os ovos, ninguém aqui teria a inteligência para fazer algo assim. Você é mesmo diferente.
_Mas eu ainda estou um pouco chateada! — retrucou Kohko — Haviam ovos aparecendo debaixo de mim sem nem mesmo sentir que os pus. Se por um lado estava feliz, por outro estava bastante preocupada com minha saúde.
_Desculpe, mamãe. — Rikko não conseguia olhar para os pais de vergonha, tentava disfarçar brincando com as pedrinhas do chão remexendo-as com seu bico.
_Está bem, eu te perdôo. Mas mais tarde temos de procurar as donas dos ovos e pedir desculpas corretamente, entendeu?
_Sim, senhora. E porque aquela… Senhora Gelda é tão ranzinza assim?
Seus pais ao ouvirem a pergunta fizeram uma breve pausa, pensando o que responderiam.
_Gelda sempre se gabou da quantidade de ovos que punha, mas quando eu comecei a minha postura, se sentiu ameaçada. Desde então sempre sentiu inveja de mim. — Respondeu Kohko.
_Por causa disso Goppa chegou a propor que Kohko fosse esposa dele, mas felizmente para Gelda, eu cheguei na frente, hahaha.
“Ah, são galinhas, o que mais eu esperava, uma grande trama? Me sinto um idiota por perguntar.” — Rikko parecia um tanto decepcionado quanto ao motivo.
_Mas que galinha ranzinza…
_Sim, é. Mas de forma alguma diga isso por aí, você já causou o suficiente para ainda por cima fazer dela sua inimiga, não compensa. — Kel advertiu de forma bem enfática.
_Sim, papai. Eu prometo.
_Ah, vejam! É a Kakke. Achou um punhado de minhocas. Vamos até ela para agradecer pela ajuda e comer algumas. — Kohko comentou, mas parecia mais interessada nas minhocas do que na conversa em si.
_Ah, é… vão na frente, vou ficar mais um pouquinho aqui na sombra. — Não queria chegar a tempo para lhe oferecem mais minhocas.
O resto do dia transcorria bem apesar do conflito inicial, mas ainda assim não deixou de surgirem focos aqui e ali remoendo o assunto e no fim surgiram duas “facções” que dividiam o galinheiro. Os que eram pró punição e os que desejavam perdoar, e não era muito difícil imaginar em que lado Gelda estava, afinal era a cabeça das reclamantes. A noite caiu e um novo amanhã chegou. Kel estava bebendo um pouco de água quando Rikko veio até ele.
_Papai, o que tem lá fora?
_Lá fora? Seja mais específico.
_Além destas terras onde vivemos.
_Ah, sim… não sabemos ao certo, nascemos e vivemos aqui
_Nada, nada mesmo?
_Não exatamente nada. Ao menos sabemos que tem monstros horríveis.
Ao ouvir a palavra “monstros”, Rikko teve um arrepio. Mas se um dia decidisse fugir da fazenda, precisava aprender o máximo que podia sobre aquele mundo.
_Que tipo de monstros?
_Só vimos um, faz algum tempo. Estava para invadir essas terras, mas então vieram outros como os donos daqui, só que mais jovens, eu acho. Carregavam coisas que cortavam e outras que faziam luzes e muito barulho. Mataram o monstro e depois levaram embora. Era grande, verde e tinha garras e dentes afiados, um horror. Espero nunca mais ver um.
“Hum… certo. Juntando tudo o que vi e ouvi até agora, realmente estou em outro mundo. E reencarnado como a droga de um pintinho. O que mais poderia dar errado?”
_Eu queria ver o mundo lá fora.
_Ficou louco, garoto? Tem monstros, e com certeza tem outras coisas que podem nos comer e chupar os ossos depois, nunca conseguiríamos viver lá. Somos o alimento dos donos daqui, é um fato inegável e imutável. Nunca mais pense nessa besteira! — Ralhou.
“Ficar aqui e virar comida de caipira? Nem pensar! Vou achar um meio de fugir nem que seja sozinho!”
_Sim, papai.
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