Reencarnação do Tirano Do Gelo

3 Capítulo 2: A Sombra da Geada e o Encontro com a Besta


A escuridão da noite caíra pesada sobre as colinas que cercavam Oakhaven, mas na floresta densa e antiga de espinhos que margeava a estrada do sul, a névoa subia com uma densidade sobrenatural. As árvores retorcidas pareciam espectros erguidos na penumbra, suas folhagens secas estalando levemente sob o vento gélido.


Vaelen avançava passos firmes, embora o corpo de Kael cobrasse um preço alto a cada metro percorrido. Suas pernas pesavam e o peito queimava com o ar frio que entrava por seus pulmões enfraquecidos, mas sua mente permanecia tão afiada quanto uma lâmina de cristal.


Ao seu lado, Rian mantinha a cabeça em constante movimento, os olhos castanhos arregalados enquanto observava cada sombra nas sombras das árvores. Ele carregava um saco de couro no ombro contendo as moedas de ouro e prata recolhidas dos guardas do templo de Cassian, além de manter a mão firme no cabo de uma das adagas de aço que conseguira ajustar à cintura.


— Kael... você tem certeza de que este é o caminho certo? — sussurrou Rian, ajustando o capuz de sua túnica gasta. — Esta é a Floresta dos Espinhos Glaciais. As lendas da cidade dizem que ninguém entra aqui durante a noite e sai vivo. Dizem que há criaturas antigas espreitando, bestas que foram banidas pelos Inquisidores do Fogo...


Vaelen nem sequer olhou para trás ao responder. Sua voz saiu serena, cortando o vento frio da noite.


— As lendas dos Inquisidores servem apenas para manter os fracos confinados dentro das muralhas, Rian — disse Vaelen, seus olhos azul-cristalinos brilhando suavemente no escuro. — O que eles chamam de 'bestas banidas' são, na verdade, os guardiões sobreviventes da antiga era. Se este continente deseja esquecer a geada, a natureza se encarrega de preservar aquilo que os homens tentam apagar.


Rian engoliu em seco, acelerando os passos para ficar lado a lado com o amigo.


— Mas o seu corpo... você mal consegue respirar sem sentir dor. As feridas do espancamento de mais cedo não sararam. Se nós encontrarmos guardas de patrulha das estradas reais ou algo pior, você não terá mana suficiente para lutar novamente.


— A mana é apenas um condutor, Rian. O verdadeiro poder reside no domínio absoluto do elemento — explicou Vaelen, parando por um instante e erguendo a palma da mão direita. Um pequeno floco de gelo perfeito formou-se no ar sobre sua pele, girando devagar sem derreter. — O corpo de Kael é fraco porque passou dezessete anos sendo privado de sustento e energia espiritual. Mas o gelo não exige apenas força física. Ele exige foco, Vontade e a compreensão de que o frio não é o fim da vida, mas a sua mais pura preservação.


Rian encarou a pequena estrutura de gelo com fascínio e tremor.


— Você fala como um nobre de alta linhagem ou como aqueles arquimagos dos livros antigos... É difícil acreditar que há poucas horas nós estávamos dividindo uma côdea de pão seco na lama.


— O tempo muda todas as coisas, meu amigo — murmurou Vaelen, os olhos voltando-se para a profundeza da floresta. — Mas há vínculos que nem mesmo trezentos anos de escuridão conseguem destruir.


Subitamente, o vento ao redor deles estancou.


A chuva leve que começara a cair congelou antes de tocar o solo, transformando-se em pequenos grãos de granizo que estalaram na folhagem seca. O ar dentro da floresta despencou dezenas de graus em uma fração de segundo.


Rian soltou um grito abafado, levando as mãos aos braços enquanto o vapor de sua respiração se condensava em nuvens densas.


— K-Kael... o ar... ficou gelado demais de repente! Isso é feitiço seu?!


Vaelen colocou o braço na frente de Rian, empurrando o garoto devagar para trás de uma árvore centenária. Sua expressão perdeu a serenidade, dando lugar a uma solenidade alerta e respeitosa.


— Não — disse Vaelen, o olhar fixo no nevoeiro esbranquiçado que emergia do interior da mata. — Não é a minha magia. Nós entramos no território de um antigo soberano das neves.


O som de passos pesados começou a fazer a terra tremer. Não eram passos de homens revestidos em armaduras metálicas, mas o impacto ritmado de garras colossais cravando-se no solo congelado. As árvores ao redor rangiam à medida que uma presença avassaladora se aproximava, trazendo consigo uma aura de geada tão intensa que a casca dos troncos começava a rachar sob o frio extremo.


Da névoa densa, ergueu-se uma silhueta monumental.


Saindo da escuridão, a besta revelou-se em toda a sua glória aterrorizante. Era um enorme Lobo da Geada — uma criatura lendária de quatro metros de altura, com pelagem alva como a neve mais pura e olhos vermelhos que brilhavam como brasas vivas na noite. Ombro e dorso eram recobertos por formações pontiagudas de cristais de gelo azulado, reluzindo sob a pouca luz celestial que atravessava as copas das árvores. Suas garras colossais, parecidas com estalactites afiadas, congelavam a terra e o sangue da vegetação a cada toque.


Era Voruk, o lendário Lobo da Geada, uma besta ancestral que marchara na linha de frente dos exércitos do Rei do Gelo três séculos atrás.


Rian caiu sentado na neve recém-formada, o rosto pálido como um cadáver, as mãos tremendo tanto que ele mal conseguia segurar o cabo da adaga.


— P-Pelo amor dos deuses... — sussurrou Rian, a voz cortada pelo terror absoluto. — O que... o que é essa coisa?! Isso é um monstro do mito! É gigantesco! Kael, nós vamos morrer!


Voruk ergueu a cabeça, soltando um rosnado grave que fez o ar vibrar no peito de Rian. A besta baixou o olhar vermelho, fixando suas pupilas na figura pequena e franzina de Kael, que permanecia no centro do caminho sem dar um único passo para trás.


A criatura mostrou as presas cobertas de estalactites de gelo, abrindo as mandíbulas em uma ameaça mortal. O calor do sangue daquelas duas vidas humanas parecia ser uma afronta ao seu domínio sagrado.


— Kael, corre! Corre! — gritou Rian, tentando levantar-se, mas suas pernas simplesmente recusavam-se a obedecer diante da pressão da aura da besta.


Vaelen, no entanto, deu um passo à frente.


Ele encarou os olhos vermelhos e famintos do Lobo da Geada sem vacilar. As memórias da sua vida passada vieram à tona com a clareza de um cristal: ele se lembrou do tempo em que as matilhas de Voruk corriam ao lado de sua cavalaria pesada através das planícies congeladas, quando o uivo do grande lobo era o sinal do triunfo nas batalhas contra as hordas inimigas.


— Você sobreviveu, velho amigo... — sussurrou Vaelen, sua voz ressoando com uma profundidade que fez a própria névoa oscilar ao seu redor.


Voruk soltou um rugido feroz e deu um salto devastador à frente. Com um movimento ágil de suas garras de cristal de quatro metros, ele investiu para esmagar e congelar o intruso de uma só vez.


— [CRIO-BARREIRA PRIMORDIAL]! — gritou Vaelen, fincando as duas mãos no solo.


A minúscula faísca de geada em seu coração expandiu-se com violência. Uma parede transparente de gelo maciço ergueu-se do chão, chocando-se diretamente contra as garras de Voruk. O impacto gerou uma onda de choque que despedaçou as árvores mais próximas em pedaços cobertos de geada.


A barreira de Vaelen trincou sob o peso de quatro metros da besta, mas resistiu ao golpe inicial.


Voruk recuou um passo, surpreso pela resistência de uma magia de geada em uma era onde o gelo fora banido. A besta ergueu a cabeça novamente, e as ranhuras de cristal em suas costas começaram a brilhar com um tom azul pulsante e ameaçador.


— Kael, a criatura vai atacar de novo! — gritou Rian, cobrindo a cabeça.


— Ele não está atacando com garras agora, Rian — disse Vaelen, estreitando os olhos ao reconhecer a postura da besta. — Ele vai usar a sua habilidade ancestral.


Voruk abriu as mandíbulas ao máximo. A aura de geada ao seu redor condensou-se em um ponto focal dentro de sua garganta.


A besta soltou seu uivo lendário.


Um som agudo, ensurdecedor e celestial ressoou por toda a floresta. Não era um rugido comum; era o uivo que dobrava a própria estrutura da magia elemental no ambiente. No exato segundo em que o som atingiu os ouvidos de Rian e Vaelen, o tempo pareceu parar.


A chuva caindo parou no ar. O vento congelou. As folhas que caíam das árvores ficaram suspensas no vácuo. Durante três segundos aterrorizantes, o próprio fluxo do tempo fora congelado pelo uivo de Voruk.


A besta avançou no espaço estagnado, sua boca aberta direcionada para abocanhar o corpo de Kael antes que a física do mundo retornasse ao normal.


Porém, três segundos de tempo congelado não eram uma surpresa para o soberano que reinara sobre o gelo primordial.


No segundo segundo da estase, a alma de Vaelen sobrepôs-se à fragilidade do corpo de Kael. Ele não tentou mover o corpo físico; ele usou o fluxo de sua própria alma antiga para ativar o feitiço que apenas o verdadeiro Rei do Gelo dominava.


No exato momento em que os três segundos de estase do tempo se esgotaram e o mundo voltou a se mover, Voruk fechou suas mandíbulas com força destrutiva no ponto onde Kael estava.


O som de dentes de cristal se chocando ressoou pela floresta, mas não houve sangue ou ossos quebrados.


O corpo de Kael havia se dissolvido em uma rajada de névoa esbranquiçada e cristais de neve no milésimo de segundo anterior.


Voruk olhou ao redor, os olhos vermelhos faiscando em confusão e alerta.


A névoa de neve se reconsolidou a poucos metros de distância, atrás da própria besta. Kael emergiu da névoa, caindo de joelhos e arfando pesadamente enquanto o sangue escorria de seu nariz devido ao esforço extremo que o feitiço exigira do seu receptáculo plebeu.


— K-Kael! — gritou Rian, conseguindo finalmente se mover quando o tempo voltou ao normal.


Vaelen limpou o sangue do rosto com a manga da túnica surrada, levantando-se devagar. Ele encarou as costas do grande Lobo da Geada, que girava o corpo massivo para enfrentá-lo novamente.


Em vez de erguer as mãos para atacar, Vaelen abriu os braços. Seus olhos azul-cristalinos brilharam com a aura pura e incontestável do Tirano do Gelo.


— Voruk! — chamou Vaelen, a voz soando não mais como a de um plebeu de dezessete anos, mas com o eco divino e majestoso que o grande lobo ouvira três séculos atrás nas guerras de unificação. — Você não reconhece a alma daquele que te liderou através do inverno?!


A besta parou o movimento bruscamente.


Suas garras de cristal, que estavam prontas para despedaçar o garoto, travaram no solo. As orelhas pontiagudas de Voruk ergueram-se, e o tom vermelho de seus olhos suavizou-se ligeiramente ao captar a frequência daquela aura mágica.


Nenhum humano comum conseguia invocar o gelo primordial daquela maneira. Nenhum gelomante comum conhecia o nome verdadeiro da besta guardiã.


Voruk deu um passo lento à frente, abaixando a cabeça gigantesca até que seu focinho ficasse a poucos centímetros do rosto de Kael. O hálito gélido da criatura soprava os cabelos negros desalinhados do jovem, cobrindo suas bochechas com uma fina camada de geada.


Vaelen estendeu a mão direita desarmada, sem tremer ou demonstrar o menor traço de medo. Ele encostou os dedos ásperos na pele dura do focinho do grande lobo.


Ao toque, o gelo primordial que fluía no corpo enfraquecido de Kael conectou-se com o núcleo mágico da besta. A memória da antiga lealdade ressoou na alma de Voruk como um trovão silencioso.


A grande besta fechou os olhos vermelhos, soltando um ganido baixo e reverente. Em um gesto de submissão e lealdade absoluta, Voruk ajoelhou as patas dianteiras na neve, dobrando seu corpo de quatro metros diante do plebeu franzino.


Rian assistia à cena com a boca aberta, sem conseguir processar o que seus olhos viam. A criatura que parecia capaz de destruir uma vila inteira com um único uivo estava ajoelhada diante do seu amigo de infância como um cão de guarda leal diante do seu dono.


— P-Pelo amor de Deus... — sussurrou Rian, caindo de joelhos novamente, desta vez não por terror, mas por um respeito avassalador pela figura que Kael se tornara. — Ele... ele fez o monstro se curvar...


Vaelen passou a mão suavemente pela pelagem alva do grande lobo, sentindo o calor do núcleo de geada que ainda queimava forte dentro da besta.


— Você esperou por mim por três séculos, Voruk — disse Vaelen, a voz impregnada de uma afeição profunda. — Os traidores pensaram que haviam exterminado a nossa raça e o nosso poder... mas a geada nunca morre. Ela apenas aguarda o momento certo para cobrir o mundo novamente.


Voruk soltou outro uivo baixo, desta vez harmonioso e repleto de alegria, levantando a cabeça e encostando a testa no peito de Vaelen.


Vaelen virou-se para Rian, que continuava paralisado no chão de pedra e neve.


— Levante-se, Rian — ordenou Vaelen com moderação. — Voruk não fará mal a você. Ele é o primeiro guardião do nosso novo exército.


Rian levantou-se com pernas trêmulas, aproximando-se com passos extremamente cautelosos. Ele olhou para as garras de cristal gigantescas e para os dentes afiados de Voruk, engolindo em seco antes de parar ao lado de Kael.


— Kael... eu... eu não sei mais o que pensar — confessou Rian, a voz falhada. — Isso é loucura. Você conversa com feras lendárias, usa magias proibidas e faz monstros se ajoelharem. Se os Inquisidores descobrirem que uma besta dessas está com você... eles enviarão os paladinos de elite do Deus Cassian!


— Que enviem — respondeu Vaelen, a expressão endurecendo-se como pedra congelada. — Os paladinos de Cassian aprenderão o mesmo destino que os guardas de Oakhaven. Mas para isso, nós precisamos sair do território controlado diretamente por aquela catedral.


Vaelen olhou para o dorso de Voruk. Com a ajuda da besta, que baixou ainda mais o corpo para facilitar o acesso, Vaelen subiu na selha natural de pelagem e formações de cristal das costas do grande lobo. Ele estendeu a mão para Rian.


— Venha, Rian. A viagem a pé através do sul seria demorada e arriscada para o corpo enfraquecido de Kael. Com Voruk, nós cruzaremos as províncias do sul em questão de dias.


Rian olhou para a mão de Kael e depois para o imponente Lobo da Geada. Ele hesitou por um segundo, mas a determinação que vira nos olhos do amigo ao longo de toda aquela noite o impulsionou a dar o salto. Rian segurou a mão de Vaelen e subiu no dorso de Voruk, segurando-se com força na pelagem densa e gélida da criatura.


— Onde nós vamos parar primeiro? — perguntou Rian, tentando manter o equilíbrio enquanto Voruk se erguia em toda a sua altura de quatro metros.


Vaelen olhou para as montanhas que se desenhavam no horizonte distante, cobertas por nuvens escuras que prenunciavam uma tempestade ancestral.


— Nós iremos para a região das Minas do Vale Congelado — declarou Vaelen. — Lá, milhares de antigos soldados do meu exército e crio-magos foram escravizados e forçados a escavar minerais divinos para os templos dos Quatro Deuses. Nós libertaremos o nosso povo e transformaremos aquelas minas no primeiro baluarte da nossa revolução.


Voruk soltou um rugido poderoso que fez as árvores da floresta tremerem, e com um salto gigantesco, disparou através da vegetação densa com uma velocidade aterradora, cortando a noite gélida como um raio de neve e geada.


Enquanto a besta avançava velozmente sob o céu estrelado, Vaelen mantinha o olhar fixo no horizonte distante, o vento gélido chicoteando seus cabelos negros.


Ele sabia que a jornada seria longa e manchada de sangue. Mas no fundo de sua alma, a chama do reencontro com sua rainha Lyseria continuava a queimar com uma luz inabalável.


Espere por mim, minha rosa de gelo... — pensou o Rei do Gelo, enquanto o mundo que o traíra começava a tremer diante do uivo do primeiro guardião que despertara para servi-lo novamente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.