Reencarnação do Tirano Do Gelo
2 Capítulo 1: O Despertar do Tirano e a Promessa de Sangue
Notas iniciais
O cheiro de mofo, terra molhada e sangue pisado inundou os sentidos de Kael Shiryūka antes mesmo que seus olhos pudessem se focar totalmente na escuridão do beco sem saída. A chuva fina caindo das calhas quebradas das casas de madeira empoeiradas da periferia de Oakhaven trazia consigo o odor fétido da lama e da pobreza. Era o extremo oposto do ar cristalino, puro e imaculado dos salões de Niflheim.
Apoiando as costas contra a parede de pedra úmida, Kael — ou melhor, Vaelen, o Rei do Gelo reencarnado — levantou lentamente as mãos.
Eram mãos pequenas, ásperas e calejadas não pelo cabo de uma espada divina de gelo ancestral, mas pelo trabalho braçal pesado de carregar sacos de grãos e pedras sob os chicotes dos supervisores do império. Os dedos estavam sujos de lama, com unhas quebradas e nódoas roxas de espancamento recente. Vestia apenas uma túnica marrom rústica, puída e rasgada nos ombros, amarrada por uma corda puída na cintura.
Vaelen piscou, tentando ajustar a visão. Ele podia sentir a fragilidade extrema daquele receptáculo humano. Os ossos das costelas estavam visíveis sob a pele pálida e desnutrida, o coração batia fraco e desgovernado no peito, e a respiração saía curta, trazendo uma dor aguda nos pulmões enfraquecidos.
— Um plebeu... — murmurei em voz baixa, minha voz saindo rouca e falhada, destituída do eco de comando que costumava fazer montanhas tremerem. — Três séculos se passaram... e minha alma despertou no corpo de um garoto miserável e moribundo.
Ele tentou acessar seu núcleo mágico interior. Na sua vida passada, o oceano de mana de crio-magia dentro de seu corpo era tão vasto que congelava até mesmo o fluxo da magia inimiga ao seu redor. Agora, no entanto, ao olhar para dentro de sua própria alma, encontrou apenas um riacho seco. Uma minúscula faísca de geada primordial flutuava no centro do seu ser, cercada por uma fraqueza mortal.
— Kael! Kael, pelo amor dos deuses, você está vivo?!
A voz desesperada ecoou pela entrada do beco, acompanhada por passos rápidos que pisavam na lama espessa.
Um garoto de dezesseis anos correu em sua direção. Ele usava uma túnica marrom surrada, idêntica à de Kael, com vestígios de remendos feitos à mão. Seus cabelos castanhos curtos estavam bagunçados pela chuva e pelo vento, e sardas cobriam suas bochechas pálidas. Seus olhos castanhos, cheios de uma preocupação genuína e pavor contido, varreram o corpo de Kael da cabeça aos pés.
Era Rian Alden. O único amigo leal que o antigo plebeu Kael possuía naquele mundo miserável.
Rian ajoelhou-se na lama sem hesitar, segurando os ombros de Kael com mãos trêmulas.
— Kael! Graças aos céus! Eu vi os guardas do Templo de Cassian te arrastando para cá depois que você caiu no chão... Eu pensei que eles tinham te matado de pancada! O inquisidor disse que se você não pagasse as dez moedas de bronze do tributo do fogo até o pôr do sol, ele te mandaria para as minas de escravos!
Vaelen encarou Rian em silêncio. Seus olhos azul-cristalinos, agora frios, profundos e desprovidos da ingenuidade que o antigo Kael possuía, fixaram-se no rosto do jovem.
Rian congelou por um instante ao encontrar aquele olhar. Ele recuou ligeiramente as mãos, sentindo um arrepio inexplicável subir por sua espinha. O olhar do seu amigo sempre fora tímido, assustado e subjugado pela severidade do mundo. Mas aqueles olhos... aqueles olhos pareciam olhar através de sua alma, carregando uma majestade antiga e uma autoridade aterrorizante.
— K-Kael...? — gaguejou Rian, piscando surpreso. — O que... o que aconteceu com os seus olhos? Eles estão... brilhando? E por que você está me olhando desse jeito? Sou eu, o Rian!
Vaelen fechou os olhos por um breve segundo, absorvendo as poucas memórias do antigo dono do corpo. Ele viu a infância miserável de Kael Shiryūka, a perda dos pais para a peste provocada pelos abusos dos clérigos do fogo, a fome diária e a única constante em sua vida: Rian Alden. Rian fora o único que dividira a última côdea de pão seco com Kael, o único que se colocara na frente dos guardas para levar chicotadas em seu lugar.
Apesar de ser um rei implacável, Vaelen honrava a lealdade acima de todas as coisas. Se este garoto fora leal à casca que abrigou sua alma, ele seria protegido sob a sombra da sua nova ascensão.
— Eu estou bem, Rian — disse Vaelen, a voz adquirindo um tom firme e pausado que fez Rian franzir a testa. — Os guardas... não vão mais me incomodar por hoje.
— Como não vão?! — exclamou Rian, ajeitando a túnica molhada e olhando ansiosamente para a rua principal. — Kael, eles disseram que vão voltar ao anoitecer! Nós não temos nem duas moedas de bronze, quanto mais dez! O coletor de impostos do Deus do Fogo Cassian é implacável! Se não pagarmos, eles vão nos queimar vivos no altar de sacrifício como "heréticos desacatadores"!
Ao ouvir o nome de Cassian, a faísca de geada dentro do peito de Vaelen oscilou, fazendo a temperatura do beco cair bruscamente em vários graus. A chuva que caía sobre os ombros de Rian congelou instantaneamente no ar, transformando-se em finas agulhas de gelo que caíram no chão de pedra.
Rian arregalou os olhos, olhando para as agulhas de gelo no chão e depois para as próprias mãos, que começaram a soltar vapor pelo frio repentino.
— O-O que é isso...? — murmurou Rian, tremendo de frio. — Kael... a sua pele está... saindo fumaça? Como se estivesse congelando? Pelo amor dos deuses, não faça isso! Se algum Inquisidor Celestial ver você manipulando qualquer traço de magia de geada, você será executado na guilhotina da cidadela! A magia do gelo é proibida sob pena de morte em todo o continente!
Vaelen levantou-se devagar. Cada músculo do corpo de Kael protestava com dores lancinantes, mas o rei ignorou a fraqueza física com a força de vontade de um conquistador que já havia marchado através de nevascas mortais.
Ele colocou a mão no ombro de Rian. O toque era incrivelmente frio, mas passou uma estranha sensação de estabilidade para o garoto assustado.
— Proibida...? — repetiu Vaelen com um sorriso amargo e desdenhoso nos lábios. — Eles proibiram o gelo porque têm medo dele. Eles sabem que foi a geada que ergueu o império que eles roubaram. Me diga, Rian... que ano é este? Quem governa estas terras agora?
Rian olhou para Kael como se ele estivesse delirando por causa das pancadas na cabeça.
— Ano? É o ano 300 da Era Celestial da Luz! Que pergunta é essa, Kael?! O continente inteiro é governado pelos Quatro Grandes Deuses Protetores! O Deus do Fogo Cassian domina o sul e as nossas terras; o Deus do Vento Vane governa os céus do oeste; a Deusa das Sombras Lyra controla a noite e os segredos do norte; e o Deus do Trovão Gerald comanda as grandes fortalezas do leste!
A confirmação das palavras de Rian ressoou na mente de Vaelen como o bater de um sino de guerra.
Três séculos.
Três longos séculos em que seus traidores transformaram suas tiranias e ambições em dogmas religiosos. Eles apagaram o nome de Vaelen dos livros de história, destruíram os monumentos da antiga era e escravizaram a humanidade sob a fachada de uma "Nova Ordem Celestial".
— E o Rei do Gelo? — perguntou Vaelen, a voz tão fria quanto a morte. — O que as escrituras dos seus "deuses" dizem sobre o imperador que governava antes deles?
Rian engoliu em seco, olhando ao redor com medo de que alguém os estivesse escutando no beco escuro.
— As escrituras do templo dizem que... que há trezentos anos existia um demônio terrível chamado Vaelen, o Tirano do Gelo — sussurrou Rian, aproximando-se do ouvido de Kael. — Dizem que ele tentou congelar todo o continente e incinerar as almas da humanidade no frio eterno. Mas os Quatro Deuses se levantaram misericordiosamente, uniram seus poderes sagrados e executaram o Tirano em seu próprio palácio, libertando o mundo da sua maldição. É por isso que o gelo é considerado a magia do demônio! Qualquer um que demonstre afinidade com a geada é visto como uma semente do Tirano!
Vaelen soltou uma risada baixa, uma risada seca e sem humor que fez os cabelos da nuca de Rian se arrepiarem.
— Misericordiosamente...? Libertando o mundo...? — Vaelen balançou a cabeça lentamente, os olhos azuis faiscando com uma raiva contida e calculista. — Eles reescreveram a história com o sangue dos inocentes. Eles chamam a traição de justiça e a escravidão de salvação.
— Kael, por favor, pare de falar essas coisas! — pediu Rian, desespero estampado em sua face. — Se um guarda ouvir você dizendo algo parecido com heresia, não haverá nada que eu possa fazer para te salvar! Nós precisamos ir para a nossa cabana, pegar as nossas poucas coisas e fugir da cidade antes que os coletores voltem!
Vaelen olhou para a entrada do beco. A chuva começava a engrossar, transformando a lama da rua em uma torrente marrom.
— Fugir? — perguntou o rei reencarnado, dando o primeiro passo para fora da sombra do beco. — Um rei não foge de ratos que usam coroas roubadas, Rian. Se eles querem o tributo do fogo, eles virão buscar... mas receberão a resposta do inverno.
— Kael, você enlouqueceu?! — Rian segurou o braço de Kael, tentando puxá-lo de volta. — Você é só um plebeu sem magia! Você mal consegue carregar um saco de trigo sem desmaiar de cansaço! Eles são paladinos abençoados pelo fogo de Cassian! Eles têm armas de aço reforçado e encantamentos de chamas!
Vaelen parou e olhou para o braço onde Rian o segurava. Lentamente, ele virou o rosto para o amigo.
— Eu posso estar no corpo enfraquecido de Kael Shiryūka agora, Rian — disse Vaelen com extrema serenidade —, mas a minha alma não pertence a esta era de servos. Você disse que foi o meu único amigo. Se quiser sobreviver ao que está por vir, fique atrás de mim.
Rian soltou o braço de Kael, paralizado pela autoridade absoluta que emanava daquele garoto que ele conhecia desde a infância. Não parecia mais o Kael vulnerável que chorava quando não havia comida na mesa. Havia uma presença esmagadora diante dele, algo que exigia obediência e respeito natural.
Eles saíram do beco e caminharam pelas ruas lamacentas do distrito pobre de Oakhaven. Ao redor deles, plebeus com roupas rasgadas, rostos magros e olhares mortos perambulavam sem rumo. Crianças choravam nas portas das cabanas de palha, enquanto patrulhas de guardas vestindo armaduras vermelhas e pretas — gravadas com a insignia da chama flamejante do Deus do Fogo Cassian — marchavam com opulência, chutando as tigelas dos pedintes e exigindo moedas a cada esquina.
Vaelen observava tudo em silêncio. Cada detalhe daquela cidade confirmava a podridão da Nova Ordem Celestial. Os traidores não trouxeram prosperidade; trouxeram apenas o medo estruturado.
Enquanto caminhavam em direção à pequena cabana de madeira caindo aos pedaços que servia de abrigo para Kael e Rian, Vaelen concentrou sua atenção no fundo do seu próprio ser, buscando qualquer traço da promessa que Sereia lhe fizera antes de morrer.
“Nós nos reencontraremos daqui a 300 anos... Viva, Vaelen... e reconquiste o nosso lar...”
A voz dela ainda ressoava na sua alma como um eco eterno. Sereia havia usado o feitiço primordial Reencarnação Glacial. Ela prometera que sua alma encontraria um corpo digno neste novo tempo.
Onde você está, minha rainha? — pensou Vaelen, fechando os punhos com força. — Se eu renasci neste corpo miserável, eu sei que você também está neste mundo. Eu irei até os confins da terra para te encontrar, nem que para isso eu precise congelar todos os falsos deuses deste continente.
Enquanto seus pensamentos se aprofundavam na busca por Sereia, uma lembrança tênue da sua alma antiga lhe revelou uma verdade dolorosa: o feitiço de Sereia dependia da maturação da nova alma do receptáculo. Ela não despertaria como uma criança. Suas memórias da vida passada e seu poder primordial de preservação só retornariam quando seu novo corpo atingisse a maioridade mágica — no seu aniversário de dezoito anos.
Vaelen não sabia qual era o nome atual de sua esposa, nem em qual canto do continente ela havia nascido. Ele apenas sabia que precisava se fortalecer, erguer um novo exército e recuperar o controle da magia antes que o momento do despertar de sua rainha chegasse.
— Chegamos... — sussurrou Rian, interrompendo os pensamentos de Vaelen ao parar diante de uma porta de madeira caindo aos pedaços.
A cabana de Kael e Rian era pequena, com teto de palha furado por onde a chuva gotejava em uma bacia de ferro amassada. No interior, havia apenas duas camas de palha seca, uma mesa de madeira manchada e uma lareira apagada e fria.
Rian correu até o canto do cômodo, ajoelhando-se para puxar uma tábua solta do assoalho. De lá, ele retirou um pequeno saco de pano encardido e o despejou sobre a mesa. Três moedas de bronze desgastadas e algumas migalhas de pão seco caíram sobre a madeira.
— É tudo o que nós temos, Kael — disse Rian, a voz embargada pelo desespero. — Três moedas de bronze... Nós trabalhamos o mês inteiro no moinho para conseguir isso, e o supervisor ainda descontou metade porque você desmaiou de fraqueza anteontem. Quando o Inquisidor chegar aqui com os guardas... nós seremos levados.
Vaelen aproximou-se da mesa de madeira. Ele pegou uma das moedas de bronze, observando o rosto esculpido nela: o perfil arrogante do general Cassian, coroado por chamas estilizadas e rodeado pelas palavras "Deus Protetor do Fogo Solitário".
A raiva no peito de Vaelen ameaçou transbordar. Com um simples aperto de seus dedos frágeis, sustentado pela minúscula faísca de geada que começara a fluir por suas veias, a moeda de bronze foi envolta por uma camada fina de gelo azul-escuro e se despedaçou em pó metálico congelado, caindo entre os vãos da mesa.
Rian deu um pulo para trás, tropeçando na própria cama de palha e caindo sentado.
— K-Kael! A moeda... você destruiu a moeda com geada! — Rian gaguejou, o rosto pálido como a neve. — Você realmente tem magia de gelo?! Mas como?! Você nunca demonstrou nenhum poder em toda a sua vida!
Vaelen virou-se para Rian, encarando-o com serenidade implacável.
— O Kael que você conhecia era apenas uma casca vazia aguardando o despertar da alma verdadeira — disse Vaelen, caminhando em direção à porta da cabana. — Rian, você me perguntou o que faremos quando os coletores chegarem. A resposta é simples: nós não vamos fugir. Nós vamos usar o sangue deles para batizar o início da minha reconquista.
— Você ficou louco! — gritou Rian, levantando-se de um salto e correndo para se colocar entre Kael e a porta. — São cinco guardas armados e um Inquisidor de nível três! Eles usam magia elemental de fogo real! Eles vão te incinerar antes mesmo que você consiga lançar um pedaço de gelo do tamanho de uma pedregulho! Kael, escute a razão! Nós fomos criados juntos neste distrito miserável! Eu prometi ao seu pai antes dele morrer que cuidaria de você! Eu não vou deixar você se suicidar!
Vaelen olhou para o jovem plebeu. Havia uma sinceridade tão pura nas palavras de Rian, uma lealdade desprovida de qualquer interesse político ou busca por poder, que o coração congelado do antigo rei sentiu um leve aquecimento.
— Seu compromisso de cuidar de Kael está cumprido, Rian — disse Vaelen, a voz tornando-se um pouco mais suave, embora ainda mantivesse o tom majestoso. — A partir de hoje, é você quem será protegido por mim. Se você confia na amizade que construiu com este corpo, sente-se naquela cama e observe.
Antes que Rian pudesse protestar novamente, o som pesados de botas de ferro marchando sobre a lama do do lado de fora fez a porta da cabana chacoalhar.
— ABRAM ESTA PORTA, Ratos DA PERIFERIA! — ordenou uma voz grave e autoritária do lado de fora. — O TEMPO DO TRIBUTO SAGRADO DO DEUS CASSIAN SE ESGOTOU!
Rian empalideceu instantaneamente, o corpo inteiro tremendo descontroladamente.
— Eles chegaram... — sussurrou Rian, o terror paralisando seus movimentos. — Os Inquisidores do Fogo...
Vaelen nem sequer piscou. Com uma calma aterradora, ele caminhou até a porta de madeira e a abriu de par em par.
Do lado de fora, sob a chuva incessante que caía na noite que começava a se formar, seis figuras permaneciam em formação. Cinco deles eram guardas do templo, vestindo armaduras pesadas de placas vermelhas com detalhes em bronze, empunhando lanças e espadas curtas cujas lâminas emitiam um brilho avermelhado de calor provocado por encantamentos simples de fogo.
No centro do grupo estava o Inquisidor. Um homem alto, de meia-idade, vestindo um túnica sacerdotal vermelha com dragonas de metal em formato de labaredas. Em sua mão direita, ele segurava um bastão de ferro encimado por uma gema de rubi inferior que queimava com uma chama fraca e constante. Seus olhos pequenos e gananciosos varreram a cabana miserável até pousarem em Kael.
— Olhe só... o plebeu doentio ainda está de pé — debochou o Inquisidor, uma gargalhada ríspida saindo de sua garganta. — Pensei que você já tivesse morrido na vala onde meus guardas te deixaram mais cedo. Mas vejo que a sua teimosia em viver é tão grande quanto a sua insolência em desafiar a igreja do Deus Cassian.
Os guardas riram alto, batendo o cabo de suas lanças no chão enlameado.
— Onde estão as dez moedas de bronze, garoto? — exigiu o Inquisidor, dando um passo à frente e apontando o bastão flamejante para o peito de Kael. — Entregue o tributo sagrado agora, ou eu farei questão de queimar os seus braços e pernas antes de te arrastar até as correntes das minas!
Rian, que estava atrás de Kael dentro da cabana, deu um passo à frente, juntando as poucas moedas de bronze que restavam na mesa e estendendo-as com mãos trêmulas.
— P-Por favor, Senhor Inquisidor! — suplicou Rian, a voz embargada. — Nós só temos estas duas moedas de bronze hoje! O meu amigo Kael esteve doente e não pôde trabalhar direito! Deixe-nos trabalhar mais duas semanas no moinho! Nós pagaremos o dobro do tributo! Eu juro pelo nome da luz!
O Inquisidor olhou para as duas moedas na mão de Rian com nojo. Com um movimento rápido do seu bastão, uma pequena faísca de fogo atingiu a mão de Rian, fazendo o garoto gritar de dor e soltar as moedas na lama.
— Duas moedas de bronze?! Você acha que a bênção do Deus do Fogo é uma caridade para pedintes miseráveis?! — urrou o Inquisidor, a face contorcida de raiva. — O tributo é sagrado! A tolerância acabou! Guardas, peguem os dois! O garoto doentio vai para as minas e o sardento será vendido para as arenas de combate do sul!
— Sim, Senhor Inquisidor! — responderam os dois guardas da frente, avançando com algemas de ferro e lanças em riste.
Rian fechou os olhos, esperando pelo pior, lágrimas de impotência misturando-se com a chuva em seu rosto.
Porém, o pior não veio para eles.
Vaelen deu um passo à frente, colocando-se exatamente no caminho dos guardas. Ele não ergueu as mãos, não assumiu uma postura de combate e não demonstrou qualquer traço de pânico. Ele apenas encarou os dois guardas que se aproximavam.
— Homens que se curvam a um falso deus de fogo não passam de escravos brincando de algozes — disse Vaelen, sua voz soar profunda, cortante e impregnada de um frio sobrenatural que fez a chuva ao redor da cabana estancar no meio do ar.
O Inquisidor piscou, surpreso com o tom de voz do plebeu.
— O que você disse, seu verme?! — gritou o Inquisidor.
— Eu disse — continuou Vaelen, erguendo lentamente a mão direita, com os dedos abertos em direção aos dois guardas — que o fogo de Cassian não passa de uma faísca insignificante diante do inverno verdadeiro.
A pequena faísca de geada primordial dentro do peito de Vaelen reviu com a raiva acumulada por três séculos de traição. Embora o corpo de Kael fosse terrivelmente fraco, a compreensão da crio-magia que a alma de Vaelen possuía era perfeita. Ele não precisava de um oceano de mana para matar homens medíocres; ele precisava apenas da precisão cirúrgica de um mestre da geada.
— [ARTE GLACIAL PRIMORDIAL: ESPINHO DE ESTALACTITE]!
Um estalo ecoou no ar.
A água da chuva que caía sobre os capacetes e peitorais dos dois guardas congelou em uma fração de segundo. Em vez de simplesmente virar gelo comum, a água transformou-se em dezenas de espinhos afiados de gelo azul-escuro que se expandiram para dentro, perfurando as frestas das armaduras de bronze e penetrando diretamente na carne e nos órgãos vitais dos dois homens.
— AAAAAAHHH! — os dois guardas soltaram um único grito sufocado antes de ficarem completamente rígidos.
O gelo se espalhou por dentro de suas veias a uma velocidade aterradora. Em menos de três segundos, os dois guardas do templo transformaram-se em duas estátuas congeladas de cabeça aos pés, paralisados no meio da lama com expressões de puro terror esculpidas em seus rostos.
O silêncio que caiu sobre a rua foi absoluto.
A chuva continuava a cair, mas estalava ao bater nas duas estátuas de gelo que antes eram homens armados.
Rian arregalou os olhos a um ponto em que pareciam prestes a saltar das órbitas. Ele olhou para as estátuas, depois para a mão estendida de Kael, a boca aberta sem conseguir emitir um único som.
Os outros três guardas recuaram dois passos instintivamente, o pavor estampado em suas faces enquanto apertavam o cabo de suas lanças com mãos trêmulas.
O Inquisidor deu um passo para trás, o bastão de fogo tremendo em sua mão. Suas pupilas dilataram-se enquanto ele encarava o gelo azul-escuro que não derretia mesmo sob a chuva.
— M-Magia de gelo... — gaguejou o Inquisidor, a voz sumindo na garganta. — Geada primordial... Não pode ser... Essa magia foi exterminada há três séculos! É a magia do demônio! A magia do Tirano Vaelen!
Vaelen deu mais um passo à frente, saindo da cobertura da cabana e pisando na lama. Onde seu pé tocava, a água e a lama congelavam instantaneamente, criando um caminho de gelo cristalino que estalava sob o peso do seu corpo fraco.
Seus cabelos negros desalinhados estavam molhados pela chuva, mas seus olhos azul-cristal brilhavam com a luz crio-mágica da morte.
— O demônio que você tanto teme nunca foi destruído, inquisidor — disse Vaelen, a voz ressoando como o uivo de uma nevasca nas montanhas do norte. — Vocês apenas tiveram trezentos anos de um sono ilusório.
— M-MATEM ELE! — gritou o Inquisidor em pânico absoluto, apontando o bastão para Kael. — ELE É UM HERÉTICO DO GELOMANTE! MATEM ELE EM NOME DO DEUS CASSIAN!
Os três guardas restantes, movidos pelo medo e pela doutrinação fanática, urraram de pânico e investiram contra Vaelen simultaneamente. As lâminas de suas lanças brilharam com chamas intensificadas pela magia de emergência que canalizavam, tentando incinerar o garoto de uma vez por todas.
— Queimar? — Vaelen sorriu desdenhosamente. — O fogo de vocês nem sequer merece o nome de magia.
Com um movimento fluido do braço esquerdo, Vaelen usou o princípio básico da preservação que aprendera ao lado de Sereia: ele não tentou desacelerar os ataques; ele congelou o ar diretamente nos pulmões e nos olhos dos guardas.
— [CRIO-ASFIXIA]!
Os três guardas pararam abruptamente a meio metro de distância de Vaelen. Suas armas caíram na lama enquanto eles levavam as mãos aos próprios pescoços, sufocando desesperadamente. A umidade dentro de suas gargantas e pulmões havia sido transformada em finos cristais de gelo, bloqueando completamente a passagem de ar e congelando suas cordas vocais por dentro.
Em questão de segundos, seus olhos congelaram sob uma camada esbranquiçada de geada. Um por um, os três guardas caíram de joelhos na lama e desabaram sem vida, seus corpos enrijecidos pelo frio que devorou sua força vital a partir de dentro.
O Inquisidor estava sozinho.
Ele caiu sentado na lama, soltando o bastão de rubi, que se apagou imediatamente ao tocar a poça de água congelada. Ele rastejou para trás desesperadamente, usando os calcanhares para se empurrar, as roupas vermelhas e luxuosas do templo cobertas de sujeira e lama.
— P-Por favor... misericórdia! — implorou o Inquisidor, as lágrimas de terror escorrendo por suas bochechas gordinhas. — Eu sou apenas um servo do templo! Eu apenas cumpria as ordens da hierarquia divina! Misericórdia, em nome da luz!
Vaelen caminhou calmamente até o Inquisidor paralisado de terror. Ele parou diante do homem, olhando-o de cima com um desprezo profundo.
— Misericórdia? — Vaelen ajoelhou-se lentamente diante do Inquisidor, segurando o queixo do homem com seus dedos frios. — Onde estava a sua misericórdia quando você espancou este corpo moribundo por dez moedas de bronze? Onde estava a sua misericórdia quando vocês queimaram famílias inteiras por não conseguirem pagar os tributos do falso deus Cassian?
— O Deus Cassian... ele destruirá você! — ameaçou o Inquisidor, a voz tremendo descontroladamente enquanto a geada começava a subir pelo seu queixo a partir do toque de Vaelen. — Os Quatro Deuses saberão que um gelomante despertou! As patrulhas celestiais virão! Você será caçado!
— Que venham — respondeu Vaelen, os olhos azuis faiscando com uma promessa aterradora. — Diga ao seu "deus" Cassian, quando sua alma chegar ao inferno congelado, que o seu antigo senhor voltou para tomar o que lhe pertence por direito.
Vaelen fechou o punho sobre a garganta do Inquisidor.
Um estalo de gelo seco ecoou pela rua vazia. O Inquisidor enrijeceu instantaneamente, o frio absoluto congelando o seu coração no mesmo segundo. Seu corpo transformou-se em mais uma estátua de gelo sem vida, caída na lama da periferia de Oakhaven.
Vaelen levantou-se devagar. O esforço mágico, embora minúsculo comparado ao seu poder passado, exaurira o corpo desnutrido de Kael. Ele cambaleou um passo para trás, a visão ficando ligeiramente turva enquanto a dor nas costelas voltava a queimar.
— Kael!
Rian correu para fora da cabana, segurando Vaelen antes que ele caísse no chão congelado. O garoto tremia inteiro, os olhos saltados enquanto olhava para as seis estátuas de gelo dos guardas e do Inquisidor espalhadas pela rua.
— Você... você matou todos eles... — sussurrou Rian, choque e pavor misturando-se em sua voz. — Os Inquisidores do Templo do Fogo... você os congelou em segundos...
Vaelen apoiou parte do seu peso sobre o ombro de Rian, respirando fundo para estabilizar o fluxo de mana em seu novo corpo.
— Eles eram apenas os primeiros, Rian — disse Vaelen, a voz séria e inabalável. — Este é apenas o início da limpeza que farei neste continente.
Rian olhou para os olhos de Vaelen. O terror que sentira ao ver os guardas morrerem começou a dar lugar a algo diferente: um sentimento de libertação e esperança reprimido por anos de opressão. Ele passara a vida inteira vendo os plebeus de sua cidade serem humilhados, espancados e mortos pela tirania dos sacerdotes de Cassian. Ninguém nunca ousara erguer a mão contra o templo.
E agora, o seu melhor amigo — aquele que todos chamavam de fraco e doentio — destruíra uma patrulha inteira sem sofrer um único arranhão.
— Kael... quem... quem é você de verdade? — perguntou Rian, a voz tremendo, mas sem soltar o ombro do amigo. — Você não é mais apenas o Kael Shiryūka que cresceu comigo, é?
Vaelen olhou para o horizonte, onde as luzes douradas e vermelhas da grande catedral do Deus Cassian brilhavam no centro da cidade, um símbolo de poder e dominação.
— Eu sou Vaelen, o Rei do Gelo — respondeu o rei reencarnado, olhando de volta para Rian com um aceno solene. — Mas para o mundo que vamos destruir e reconstruir, eu continuarei usando o nome de Kael Shiryūka. E você, Rian Alden... se decidir caminhar ao meu lado, deixará de ser um plebeu miserável para se tornar o primeiro general do meu novo império.
Rian engoliu em seco. A ideia parecia absurda, uma loucura completa diante do poder esmagador dos Quatro Deuses e de seus exércitos de milhões de paladinos. Mas ao olhar para a determinação nos olhos azuis de Vaelen e para o rastro de gelo que se estendia sob seus pés, Rian sentiu algo que nunca havia sentido em toda a sua vida miserável: um motivo para lutar.
Rian endireitou a postura, firmando o braço para apoiar Kael com mais força.
— Eu não sei nada sobre imperadores ou deuses, Kael... ou Rei do Gelo — disse Rian, um pequeno sorriso desafiador surgindo em seu rosto cheio de sardas. — Mas eu sei que você é a única pessoa neste mundo que nunca me abandonou. Se você vai lutar contra os deuses... eu vou carregar a sua espada.
Vaelen olhou para o garoto e assentiu devagar, selando a aliança entre o rei reencarnado e seu primeiro servo leal.
— Primeiro — disse Vaelen, apontando para os corpos congelados dos guardas —, precisamos recolher as armas e as moedas que eles carregavam. O corpo de Kael precisa de comida e descanso. Amanhã, nós deixaremos Oakhaven e iniciaremos a busca por recursos e aliados ocultos que ainda se lembram do verdadeiro poder do inverno.
Rian assentiu rapidamente, correndo até os corpos congelados para revistar as bolsas de couro dos guardas. Ele recolheu mais de trinta moedas de prata e duas de ouro que os Inquisidores haviam extorquido dos plebeus da região durante a semana, além de duas adagas de aço bem temperado.
Enquanto Rian recolhia os saques, Vaelen caminhou até a entrada da cabana e olhou para o céu noturno. A chuva começara a diminuir, dando lugar a uma brisa gélida que soprava do norte.
Ele ergueu a mão direita, permitindo que um único floco de neve cristalino se formasse na palma de sua mão. Ele observou a estrutura perfeita da geada, pensando na mulher que dera a própria vida para preservar a alma dele através dos séculos.
Sereia... — pensou Vaelen, a imagem do rosto pálido e divino de sua esposa preenchendo sua mente com uma saudade avassaladora. — Eu sei que você está viva em algum lugar deste continente. O seu novo corpo pode não se lembrar de mim ainda... mas o tempo do nosso reencontro está marcado. Eu reconstruirei o nosso reino de gelo, e quando você completar dezoito anos e suas memórias despertarem... você encontrará o seu rei esperando por você no topo de um novo império.
Naquele momento, em uma fortaleza distante localizada nas províncias geladas do norte do continente — a cidadela do Ducado de Frostgard —, uma jovem de dezoito anos recém-completados repousava em sua cama de dossel de veludo negro.
A Duquesa Lyseria von Frostgard — conhecida por toda a nobreza como a "Rosa de Gelo" por sua beleza impecável e frieza implacável — mexeu-se desconfortavelmente em seu sono.
Seus cabelos branco-neve com reflexos azul-glacial espalhavam-se pelo travesseiro de seda. Em sua mão direita, mesmo durante o sono, ela segurava com firmeza uma única rosa esculpida em gelo primordial — a única relíquia misteriosa que trazia consigo desde o dia em que fora encontrada ainda bebê no túmulo ancestral das montanhas congeladas.
De repente, as pálpebras de Lyseria tremeram.
Seus olhos azul-cristal abriram-se na penumbra do quarto luxuoso. Eles brilhavam com uma luz celestial congelante na escuridão.
Lyseria levou a mão esquerda ao peito, sentindo o coração bater com uma intensidade desordenada, como se um elo antigo e esquecido tivesse acabado de se reacender no fundo de sua alma.
Ela sentou-se na cama devagar, olhando para a rosa de gelo em sua mão. Uma sensação teimosa, possessiva e avassaladora de saudade inundou seu ser, acompanhada por um único nome que sussurrou em seus pensamentos com a clareza de um trovão mudo:
"Vael..."
Lyseria piscou, surpresa com a própria voz e com a palavra que nunca havia pronunciado em toda a sua vida atual. Ela olhou pela grande janela do seu aposento, encarando a tempestade de neve que rugia fora do castelo de Frostgard.
— Quem é... Vael...? — murmurou a duquesa, apertando a rosa de gelo contra o peito com uma elegância natural. — Por que o meu coração queima de saudade ao sentir o frio que sopra do sul...?
A promessa do passado começara a se movimentar. O Rei do Gelo havia despertado na lama da periferia, e o destino do continente estava prestes a ser reescrito com o sangue dos falsos deuses e o triunfo do inverno eterno.
De volta à cabana em Oakhaven, Vaelen fechou a mão, fazendo o floco de neve desaparecer.
Ele virou-se para Rian, que voltava com o saco de moedas e as adagas limpas da lama.
— Estamos prontos, Kael! — disse Rian, os olhos brilhando com uma nova determinação. — Para onde nós vamos primeiro?
Vaelen caminhou até a porta e olhou para o caminho de gelo que deixara para trás.
— Nós vamos para os territórios do sul — declarou Vaelen, a voz ressoando com autoridade indiscutível. — Onde as forças de Cassian são mais fortes. Se queremos erguer um império, começaremos destruindo o templo daquele que mais desejava ver o meu povo queimado. O jogo dos deuses acabou, Rian. O Tirano do Gelo voltou para reivindicar o seu trono.
E assim, sob a névoa fria da noite e o silêncio dos mortos congelados, o primeiro capítulo da reconquista do Rei do Gelo fora escrito na lama da história.
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