Redrum
8 Capítulo 07 - Origens
No dia seguinte, por volta de 9 da manhã, Sarah estava tomando café junto com algumas mulheres que ali trabalhavam. Lana estava a sua frente.
– Então, como funciona o orfanato? Vocês recebem doações? – Perguntou Sarah.
– Sim, às vezes, mas há também a ajuda de alguns dos jovens, os que já trabalham contribuem para manter a casa em pé.
– E os brinquedos? – Ela estava curiosa, era isso que ela queria saber, algo sobre os bonecos.
– Geralmente recebemos doações, algumas pessoas trazem caixas até aqui.
– E vocês mantém algum tipo de lista com os nomes dos doadores?
– Sim, mas porque está interessada?
– Eu queria descobrir de onde vieram os bonecos, acho que eram da minha irmã – Ela deu um sorriso falso.
– Eu posso te mostrar a lista, se quiser, então.
***
Minutos depois, na sala de Lana, Sarah estava sentada em uma cadeira de frente para a grande mesa, lendo uma folha de um caderno com nomes escritos. Finalmente encontrou dois nomes que haviam doado bonecos. Rebecca Walters era o primeiro nome, e Carrietta Lambert era o segundo. Alguma daquelas duas mulheres deveria ser a doadora dos sinistros bonecos. Felizmente, seus endereços estavam localizados ao lado dos nomes.
Sarah pegou seu celular e anotou os endereços, sem que Lana percebesse. Em seguida fechou o caderno e colocou sobre a mesa.
– Não é ela, infelizmente – Disse ela, guardando o celular no bolso.
– Ah, que pena.
– Eu posso jurar que já vi esses bonecos na casa dela.
As duas sorriram e saíram da sala.
***
Por volta das duas e meia da tarde, Sarah estava saindo do orfanato.
Digitou o primeiro endereço, de Rebecca Walters, no GPS e começou a dirigir em busca da resolução daquele mistério.
Enquanto dirigia, só pensava no que vira noite passada. Aqueles bonecos estavam vivos. Ela não estava sonolenta e nem mesmo tinha tomado nenhuma substância. Estava totalmente lúcida, ela viu quando eles estavam dançando e ouviu a música tocando. Lana também ouvira, não poderia ser alucinação.
***
Sarah havia dirigido por quase duas horas, mas finalmente havia chegado. Estava estacionada em uma rua ampla, cheia de belas casas, com belos jardins. Algumas crianças brincavam na rua e no parque que havia no lado esquerdo.
Ela verificou mais uma vez o GPS para conferir se aquele era mesmo o local e então saiu do carro.
Pegou o celular e olhou o endereço. O número da casa era 106. Ela caminhou pela calçada, quase esbarrando em uma criança que passou correndo, e ao chegar perto da esquina, a encontrou. Uma casa amarela, com grandes janelas e uma varanda. Havia um pequeno portão de meio metro na entrada, e depois, o jardim.
Ela não sabia como chamar a atenção, então bateu palmas. Esperou alguns instantes e ninguém veio, até que uma garotinha que estava brincando ali do lado com alguns amigos se aproximou.
– Você tá procurando a minha mãe? – Perguntou ela, com um doce sorriso. Era pequena e tinha cabelos loiros amarrados em duas tranças.
– Você mora aqui?
– Sim.
– Você poderia chamá-la?
– Posso, espere um pouquinho – Disse a garota quando abriu o portão e correu saltitando para dentro de casa.
Segundos depois, uma mulher saiu da porta, vestindo um vestido florido. Tinha cabelos curtos e negros.
A garotinha voltou para os seus amigos e a mulher caminhou até o portão.
– Em que posso ajudá-la? – Perguntou ela, com um simpático sorriso.
– Eu sou Sarah Ives... Sou psicóloga
– Prazer, Rebecca – A mulher estendeu a mão e Sarah a apertou – O que uma psicóloga está fazendo por aqui? – Perguntou, com um sorriso de estranheza.
– Eu atualmente trabalho no orfanato Overlook, estou acompanhando as crianças em um tratamento.
– Oh, sim – Ela tirou o sorriso do rosto – O acidente do Peter... É, eu soube, foi horrível.
– Pois é, eu estou ajudando as crianças a superarem.
– Ah... Vamos entrar, eu estava fazendo um café.
– Obrigada.
***
A sala de estar da casa de Rebecca era ampla. Tinha uma estante com livros e outra com uma TV e alguns outros aparelhos eletrônicos que Sarah não prestou atenção.
Havia dois sofás, um de frente para o outro. Sarah estava sentada em um, enquanto Rebecca acomodava-se no outro. Ambas estavam com xícaras de café nas mãos.
– Então, você tinha conhecimento do acidente? – Perguntou Sarah.
– Sim, eles me ligaram há alguns dias, eu sou muito próxima do pessoal e das crianças de lá.
– Ah, então você faz doações também?
– Sim, sempre que posso.
– Você já doou bonecos?
– Sim, minha filha tinha algumas Barbies e já não brincava mais.
– Ah, barbies? – Sarah percebeu que aquela era a mulher errada. Os brinquedos que havia no orfanato não eram essas bonecas, eram bonecos dos mais variados tipos e tamanhos.
Ela ficou em silêncio alguns instantes.
– Eh... Desculpa a grosseria, mas você não disse pra que veio – Disse ela, soando tudo menos grosseira.
– Ah, sim, é que eu queria falar com alguém próximo às crianças para ajudar no tratamento, então me sugeriram você. Eu queria saber se você está disposta a fazer uma visita aos garotos qualquer dia desses.
– Ah, claro, eu posso ir, vou levar a Ashley comigo, ela vai adorar vê-los.
– Então, apareça por lá, eles ficarão muito felizes.
– Pode deixar, eu vou.
Sarah sorriu, colocou a xícara e o pires sobre a mesinha de centro e levantou-se do sofá.
– Obrigada pelo café, mas eu preciso ir.
– Oh, por nada.
Rebecca a acompanhou através da sala até a porta.
***
Sarah dirigia por um bairro afastado da cidade, seguindo o endereço que havia copiado do livro de doações, onde, provavelmente, morava Carrietta Lambert.
Passava por uma rua estreita e cheia de prédios velhos, com pessoas sentadas na calçada, conversando ou observando ela passar.
Finalmente a rua acabou e ela entrou em outra estrada vazia. Do lado direito havia os prédios e do outro um lago, com uma cerca impedindo a entrada.
Continuou dirigindo.
Quando as casas já tinham sumido e só havia mato, floresta e a extensão do lago por todos os lados, ela quase havia perdido a esperança.
Passou mais algum tempo dirigindo até ver uma grande casa escondida no meio de várias árvores. Parecia uma grande mansão antiga, com grandes muros de pedra. Não havia portão, então ela entrou e estacionou o carro na beira da estrada praticamente.
Quando desceu do veículo, Sarah caminhou até a porta de madeira e tocou a campainha. Demorou alguns segundos até ela ouvir uma mulher dizendo do lado de dentro:
– Só um segundo.
Sarah ouviu um som metálico de chaves e a porta foi aberta com um rangido logo em seguida.
Quem a atendeu foi uma senhora, de estatura pequena e cabelos grisalhos. Ela deu um sorriso simpático.
– Em que posso ajudá-la? – Perguntou a doce velhinha.
– Você Carrietta Lambert?
– Eu mesma.
– Prazer, sou Sarah Ives, psicóloga, estou aqui para fazer algumas perguntas sobre sua relação com as crianças do orfanato Overlook.
– Eu estava esperando por você, vamos, entre...
A mulher entrou e Sarah a seguiu. O cômodo onde ela estava agora era amplo e com uma bela mobília antiga, com um sofá de estampa blasé no centro, alguns móveis de madeira e quadros espalhados pelas paredes.
– Sente-se – Disse ela, acomodando-se em uma cadeira de balanço.
– Obrigada – Sarah agradeceu e se sentou.
– Aceita um chá? – Perguntou a senhora, enchendo uma xícara de chá que estava na mesinha de centro. Havia duas delas, como se a mulher realmente esperasse por alguém.
– Não, obrigada.
– Bom, então é só para mim mesmo – Ela sorriu, levando a xícara à boca – Então, o que houve no orfanato? – Perguntou, mas parecia que já sabia a resposta.
– Não, nada, é que...
Neste momento, ouviu-se um ruído de vidro quebrando, vinha de algum cômodo à direita.
– Ah, desculpe-me, deve ser meu gato, ele adora derrubar pratos – Ela sorriu e se levantou. Em seguida, caminhou até uma sala à direita e depois sumiu no corredor.
Sarah ficou observando o lugar, em silêncio. Viu o luxuoso lustre no teto, as grandes janelas, por onde entrava a luz do sol, não tão intensa por conta do tecido fosco das cortinas que as cobriam.
Ela ouviu a voz da mulher. Não vinha de muito longe.
– Eu já disse para ficarem quietos, temos visita aqui, não a espantem ou ficarão de castigo – Dizia a mulher em um baixo tom de voz, mas mesmo assim era possível ouvir, afinal, a casa estava mergulhada em um profundo silêncio.
Quase dois minutos se passaram depois que a mulher parou de falar. Sarah estava começando a estranhar.
Estava a ponto de chamar o nome da mulher quando ouviu um grande som. Novamente era vidro quebrando, mas agora, em maior quantidade.
– Sra. Lambert? – Chamou ela, levantando-se do sofá.
Ninguém respondeu.
Sarah caminhou até a sala vizinha e depois entrou no corredor.
– Sra. Lambert, você está aí?
Caminhou mais um pouco, havia um cômodo no fim do corredor. A porta estava aberta.
Sarah entrou na pequena sala e se surpreendeu com a quantidade de bonecos que havia ali. Era ela, definitivamente era aquela a mulher quem ela procurava.
Era impressionante. Havia bonecos dos mais variados tamanhos. Todos pareciam encará-la com seus olhos falsos e intimidadores.
– É ela – Sarah ouviu alguém sussurrar. Era como a voz de criança.
– É a moça de quem a mamãe nos falou – Disse outra voz, também infantil.
Sarah se virou, mas não havia ninguém, apenas bonecos.
– Srta. Ives – Disse Carrietta. Estava parada na porta – Vejo que já conhece minha coleção.
– Ah, sim, são lindos.
– Vamos voltar para a sala, não devemos ficar aqui.
As duas caminharam pelo corredor até a sala. Ao chegar lá, sentaram-se. Sarah no sofá e Carrietta na cadeira de balanço.
– Eu os tenho desde a infância, são muito importantes para mim – Ela deu um gole no seu chá.
– Pois bem, é sobre isso que eu vim falar com a senhora.
– Meus bonecos?
– É, mas não esses, os que você doou ao orfanato.
– Finalmente, pensei que não tocaria no assunto.
– Então, me diga... Eles estão se comportando?
Sarah ficou estupefata. Como assim, se comportando? Ela pensou. Não são crianças, não podem se comportar, são bonecos, porra! Não têm vida.
A senhora tinha um sorriso no rosto enquanto observava a expressão de terror no rosto de Sarah. Ela sabia, sabia de tudo.
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