Redrum

7 Capítulo 06 - Sobrenatural


– Vá para o seu quarto! – Exclamou Lana, esfregando as têmporas.

Ele não questionou nada, apenas abaixou a cabeça e foi embora.

– Bonecos? – Perguntou ela, furiosa.

– Eu sei, eu também não entendo.

– Quem quer que esteja fazendo isso com eles, está assustando-os pra valer, porque eles não querem contar de nenhum jeito.

– Você permite que eu continue mais uma semana com eles, para tentar entendê-los?

– Com certeza.

– Que bom.

Sarah olhou seu relógio. Já passava das 8 horas da noite.

– Já está tarde, eu preciso ir – Concluiu ela.

Lana olhou para cima, verificando o seu relógio de parede.

– Já é tarde e a viagem é longa até Londres, você não deveria dirigir à essa hora.

– Não tem problemas... Sério.

– Acho que você deveria dormir aqui.

– Não, obrigado, mas eu não deveria – Disse ela, pegando sua bolsa.

– Eu insisto, por favor.

– Não tenho roupas para usar, e além do mais, seria estranho.

– Como assim? É claro que não seria estranho, e roupas não são problemas, você pode dormir com algo meu e amanhã veste as mesmas roupas para ir embora.

– Oh, não, obrigado, eu não tenho problemas para dirigir à noite.

– Srta. Ives, você está nos ajudando muito, por favor, aceite.

– Mas onde eu iria dormir?

– Nós temos quartos sobrando no andar de cima, na ala das assistentes.

Ela deu um leve sorriso. O correto seria ir para casa, passar mais uma noite sozinha, assistindo a algum filme, sem companhia, mas pensou bem e decidiu ficar, seria apenas por uma noite. E Lana tinha razão, estava tarde da noite e ela tinha medo de dirigir a essa hora.

– Então tá, eu ficarei, mas apenas por uma noite.

***

– Este é o quarto – Disse Lana, quando elas entraram no quarto espaçoso – Ali ao lado é o banheiro – Ela apontou para uma porta branca no lado esquerdo.

– Ok, obrigada – Agradeceu Sarah, com as roupas de Lana em mãos.

– Boa noite.

– Boa noite.

Lana saiu do quarto e Sarah colocou as roupas em cima da cama, observando o quarto. Era realmente lindo. Tinha um ar rústico, com móveis de madeira e uma simples cama com lençóis cor-de-rosa. As paredes eram de um azul bebê, com detalhes em gesso no encontro entre teto e paredes. O chão era de madeira como em todos os cômodos do orfanato. Havia também um ventilador de teto pintado de branco.

Ela pegou a roupa e caminhou em direção ao banheiro. Abriu a porta e deparou-se com um pequeno, mas bem cuidado, cômodo. A cor das paredes era o mesmo azul bebê do resto do quarto, a diferença era a cerâmica branca que cobria o chão e a metade de baixo da parede.

Sarah tirou suas roupas e entrou no chuveiro. Havia água quente e ela ficou aliviada por isso.

Enquanto a água morna descia pelo seu corpo, ela deixava que seu stress escorresse junto com ela.

***

Mais tarde, deitada sobre a pequena, porém confortável, cama, ela lia um livro de contos de Stephen King. Na verdade, lia os contos apenas para passar o tempo, já que eram pequenos. Segundos depois, sem conseguir prestar atenção no livro, inquieta ao pensar sobre Noah e as marcas em seu braço, ela decidiu que precisava de ar fresco.

***

Era tarde da noite e provavelmente ninguém mais estava acordado no lugar. Sarah descia as escadas e caminhava até a porta, segurando a chave que Lana havia lhe dado horas antes. Destrancou-a e abriu, sentindo o sopro de vento gelado em seu rosto.

Após fechar a porta, ela cruzou os braços, com um pouco de frio, e caminhou pela calçada de pedra entre as paredes da frente do casarão e o começo da grama do jardim. Em seguida, entrou no grande gramado da lateral, indo parar embaixo da grande árvore que havia ali. Parou no mesmo local que antes, no dia do funeral, e ficou observando a praia por entre as grades do muro, enquanto respirava o ar fresco da noite.

Por um momento, levou um susto com uma mão tocando seu ombro.

Virou-se rapidamente e viu que era Harry. Estava vestindo uma camiseta preta e calças jeans. Seus cabelos estavam molhados e penteados para cima de um jeito rebelde.

– Ah, é você – Disse ela, colocando a mão sobre o coração – Me assustou.

– Desculpe-me.

– O que faz aqui a uma hora dessas?

– O mesmo que você, só quero tomar um ar fresco.

– Deveria estar dormindo.

– Na verdade, eu venho aqui várias noites, eu gosto do silêncio.

– É tranquilizante.

Harry sacou de seu bolso um maço de cigarros e um isqueiro.

– Quer um? – Perguntou ele.

– Sim, obrigada.

Ele pegou um e entregou a Sarah, ela colocou entre os lábios e ele o acendeu. Em seguida, Harry pegou outro cigarro e pôs em sua boca, acendeu-o e colocou o isqueiro e o maço de volta no bolso. Deu uma longa tragada e em seguida soprou uma nuvem de fumaça no ar. Sarah fez o mesmo.

– No que está pensando? – Perguntou ele, com o cigarro entre os dedos.

– Em várias coisas, na verdade – Respondeu ela – Na vida, resumidamente.

– Eu também costumo pensar na vida quando estou aqui.

Eles não falaram nada por alguns segundos, aproveitando o silêncio que aquela noite os proporcionava, até que Sarah o quebrou.

– Por que ainda mora aqui? Digo, você já tem 18 anos, não é? – Perguntou ela, se dando conta da idiotice da pergunta alguns segundos depois.

– Eu gosto daqui, na verdade, eu até ajudo a cuidar das crianças.

– É um gesto lindo.

– É, eu faço porque eu vivi a mesma situação que elas e sei que é difícil – Ele disse, soltando mais uma nuvem de fumaça da boca.

O silêncio voltou a dominar quando o assunto acabou.

– Eu perdi meus pais há 5 anos – Disse Harry, segundos depois, olhando para o mar além das grades – Peter tinha apenas um ano de vida, foi tão difícil para nós.

Ela podia ver o brilho dos olhos dele aumentando, parecia que ele iria desabar em lágrimas a qualquer momento.

– Eu nem posso imaginar a sua dor.

– Eu perdi todos quem eu amava, primeiro meus pais e depois o Peter.

Ele olhou para cima, tentando disfarçar que estava a ponto de chorar.

– Ele era a única pessoa que havia sobrado, e agora, não há mais ninguém, apenas eu.

Sarah não tinha palavras para dizer.

Ele deu um sorriso e enxugou as poucas lágrimas que caiam de seus olhos.

– Ah, olha pra mim, interrompendo seus pensamentos.

– Não, não está.

– Eu já vou entrar, acho que vou tentar dormir, boa noite – Ele disse, jogando o cigarro em uma porção de terra ao redor da árvore e apagando-o com a sola do sapato.

– Boa noite, então.

Sarah observou caminhar até entrar pela porta da frente do orfanato, em seguida, voltou a olhar o mar.

E ali ficou por alguns minutos, terminando de fumar seu cigarro.

***

Pouco tempo se passou depois que Harry havia ido dormir. Sarah agora estava sentada sobre um pequeno banco de madeira que alguém havia colocado ali. Seu cigarro já estava apagado, no chão, ao lado do de Harry.

Ela olhava para cima, para as folhas das árvores, quando ouviu um doce som. Era uma música, com vocais agudos e uma melodia alegre. Ela olhou em volta, procurando de onde vinha e, por uma janela com as luzes acesas, ela percebeu que estava vindo da sala de brinquedos.

Sarah caminhou pela grama até a janela da sala e o que viu era assustador. Haviam bonecos. Estavam em pé, dançando e rodando como pessoas normais.

Ela deu um passo para trás e levou a mão à boca. Tentou fechar os olhos e bater de leve em sua cabeça, esperando acordar de um sonho ou qualquer coisa que pudesse comprová-la de que aquilo não era real. Mas era real.

Quando ela abriu os olhos, ainda ouvia a música e ainda via os bonecos, mas eles não estavam mais dançando, agora estavam parados, observando-a com sorrisos simpáticos e olhos vazios. Todos eles a olhavam pela janela, sem se movimentar.

Ela correu pelo gramado em direção à porta de entrada. Agora entendia o que Noah queria dizer. Os bonecos estavam vivos e estavam assustando as crianças. Ela finalmente descobriu a verdade. Ainda não conseguia acreditar, mas sabia que era real. Ela havia visto.

Correu pelo corredor de grandes janelas até chegar à porta da sala de brinquedos. Abriu-a e se surpreendeu com o que achou. Os bonecos estavam empilhados no canto da sala, como sempre. As luzes estavam apagadas e praticamente não havia sinal nenhum que eles estavam ali antes, exceto a música.

A doce melodia ainda tocava em um antigo tocador de vinis ali perto. Sarah correu até ele e desligou. Por um momento, perguntou-se porque diabos o orfanato tinha algo tão velho, mas isso era o menos importante. Tudo o que importava era ela descobrir o que havia acontecido ali.

Olhou para a pilha de bonecos. Sua mente e pernas recusaram-se a se aproximar. Ela apenas os observava, sentindo que eles também faziam o mesmo.

Lana entrou às pressas na sala de brinquedos, vestindo um pijama branco em forma de vestido. Ela acendeu a luz e se assustou ao ver Sarah.

– O que faz aqui?

– Ah... Nada, nada... Eu só... Esquece.

– Eu ouvi a música do meu quarto.

– Desculpa, foi sem querer – Ela disse, acreditando que não era nada sensato contar o que ela havia visto naquela noite.

Na verdade, ela ainda nem sabia se aquilo havia sido real.