Redenção - Um Novo Caminho
14 Capítulo 14 – Dor e Alegria
Notas iniciais
Os dias se passavam lentamente. Apesar de eu treinar constantemente com meus irmãos, e receber o apoio constante de Yumi, um mês já havia se passado e eu ainda estava fraco demais pra lutar, que fosse contra um dos soldados do castelo de Carrau. Eu estava sentado em um dos bancos do jardim e meditava, enquanto escutava a tesoura na mão de Ryu podar as roseiras. Em dado momento ouvi um grito de impaciência e ele finalmente explodiu, me fazendo sorrir.
- Aff! Não sei como você conseguia fazer isso o dia todo a cada semana mano! É difícil manter essas coisas no mesmo estilo por muito tempo!
- Essa é a graça irmãozinho. Elas continuam crescendo, não importa o quanto nós as podemos. Temos que cuidar delas e deixar que floresçam sem serem afeadas por pragas. É como se cuidássemos de nossos corpos. Sempre nos “podamos” para podermos crescer mais fortes. Sempre cuidamos de nossa saúde para que nada nos aconteça de ruim.
- He, parece até um daqueles velhos sábios ensinando um aluno.
- E não sou mesmo? Ele riu e ouvi que ele deixava a tesoura no chão. Ouvi seus passos pelo jardim em minha direção e o senti se sentar ao meu lado. Ele arfava um pouco, mas parecia feliz, pois o ouvi rir um pouco.
- Você deve amar muito a Yumi pra podar essas roseiras toda semana. Elas estão florescendo muito esse ano. Eu mesmo já me feri muito nesses espinhos.
- É bom ouvir isso irmãozinho. – retruquei meio triste. Sentia o aroma das rosas e imaginava que estavam mais floridas, mas não poder vê-las, me deixava melancólico – Sabe Ryu, estava pensando em...
Nesse momento alguém bateu ao portão e ele se levantou pra atender. De onde eu estava, podia ouvir seus passos, o abrir do portão e a exclamação de susto de Ryu. Me preocupei e me aproximei alguns passos pra poder ouvir a conversa.
- Eu te disse pra não aparecer aqui! Que que você tava pensando?
Pra minha surpresa uma voz feminina respondeu à pergunta de Ryu.
- Só queria ver você e o Garlock! Que coisa Ryu! Me deixa ver meu irmão! Isso me deixou ainda mais curioso. Me sentei em um banco próximo, pra poder ouvir melhor e descobrir o que pudesse.
- Sabe muito bem que só a Yumi pode permitir a entrada de alguém na casa! E o Garlock ele... não ta muito bom no momento. Mas vamos logo! Chispa daqui!
- Grosso! Saiba que eu achei o velho viu! Eu te disse que achava e foi só por isso que eu vim aqui!
- COMO! – Me assustei com o grito de Ryu e quase denunciei minha posição – Você só ta procurando faz uns dois dias!
- Sou assassina profissional meu querido irmão. Esqueceu-se disso? Hmm... Isso Ryu não tinha me contado a respeito de Ryoko.
- Não esqueci. Mas me fala logo! Onde mora o velho?
Decidi que já era hora de mostrar que eu ouvia cada palavra do que diziam e me ergui, andando devagar até o portão e o abri de todo assustando ambos.
- Pra começar, podem me dizer quem é o velho?
- Garlock!!?! Mas...! O que houve com você mano?
- Apenas uma luta que perdi irmã. Mas me diga, o que meu estúpido irmãozinho está tramando agora?
Ela riu disso e me contou que Ryu a havia pedido que encontrasse um paladino ancião a todo custo. E ela havia encontrado o mais antigo e o último da ordem. Um grão mestre que ainda tinha muitos poderes ocultos. Sorri. Então meu irmão queria mesmo me curar e pedira isso. Não pude deixar de me aproximar e sair da barreira que impedia a entrada de Ryoko. Estendi as mãos e ela as tomou, me enlaçando em um abraço apertado. Senti que ela chorava em meu ombro.
- Já sei de tudo irmão. Vamos juntos destroçar aquele maldito do Carrau! Não sabia que você tava cego, Ryu só me disse que você tinha perdido pra ele.
- Como se você precisasse disso na sua cabeça mana. — Ouvi Ryu dizer meio ofendido. Sorri e pedi pra ele ir pra casa e avisar Yumi que eu não iria almoçar com ela, mas que iria sair com ele e Ryoko. Ele foi e o ouvi voltar algum tempo depois, me dizendo que ela relutou um pouco, mas disse pra você tomar cuidado. Sorri e deixei que eles me guiassem por um tempo, até que Ryoko me fez entrar em um carro. Estranhei.
- Ué. Por quê Ryu não cria um portal pra casa do sujeito?
- Eu não posso. Nunca fui lá mano. E Ryo não sabe fazer isso ainda.
- Caraca. E demora muito chegar lá? – retruquei de novo me ajeitando no banco traseiro e tateando à procura dos cintos de segurança.
- Quase nada. Só umas duas horas. – Percebi um riso em sua voz e um engasgo de Ryu.
- Você disse que ele morava quase quinhentos quilômetros daqui!!
- E mora.
- Mas então..!
- Meu carro vence isso rapidinho. Se acalma Ryu.
O ronco do motor se elevou como um rugido de uma fera adormecida e logo o carro galopava como um corcel do inferno, me deixando colado ao banco. Ela não mentira, o carro era rápido. Porém, devo dizer que dormi a viagem toda. É muito entediante viajar de carro e não poder ver nada. Quando o carro-demônio finalmente começou a desacelerar, acordei. Bem a tempo de ouvir os pneus triturarem alguns pedregulhos e parar por completo. A porta do meu lado abriu e a mão suave de Ryoko me amparou. — Chegamos irmão. À casa do Paladino. Um cheiro de maresia enchia meus pulmões e um suave salpicar salgado respingava em meu rosto. Era óbvio que estávamos à beira mar, e então, realmente estávamos muito longe de casa.
— Ei mano, daqui até a casa são mais ou menos uns dez metros. Então toma cuidado que o caminho é cheio de brita.
Sorri diante da preocupação de Ryu e, ainda me amparando em Ryoko, continuei até a casa. Porém, algo me chamou a atenção. Parecia haver choro dentro da casa.
- Ryoko, tem certeza que a casa é essa? – Perguntei meio apreensivo.
- Claro irmão! Por quê?
- Parece que alguém está morrendo.
Entramos finalmente na casa. Estava mergulhada em sussurros e em uma pesada apreensão. Ouvi os cochichos de algumas pessoas e pude distiguir que éramos esperados. Gelei. Será que seríamos recebidos como inimigos em uma armadilha? Porém uma pessoa se aproximou e Ryoko parou. Ela falou e percebi que era uma mulher.
- Por favor, esperem aqui. Apenas Garlock tem permissão para passar. Ele precisa ver o ancião.
Senti duas delicadas mãos tocarem as minhas, apesar da tentativa que Ryoko fez de me manter agarrado a ela, me desvencilhei de seu abraço e segui, sendo guiado por aquela paladina. Ela me introduziu em um recinto onde os choros eram mais altos e pude sentir o fedor da morte. Ela então me fez ajoelhar e colocou uma mão muito velha e enrugada entra as minhas.
- Ah... Finalmente. Garlock Galahad, você chegou. — Aquela saudação me gelou a espinha. Mas fiquei feliz quando ele apertou minha mão e senti que ele a beijava. Sua voz era roufenha e pouco estridente, como a fala de um ancião muito, muito velho. Porém havia paz e serenidade em sua voz. – Previ sua chegada aqui há seis dias, quando me encontrei pela primeira vez com Carrau. — Fiquei apreensivo. Então Carrau já se movia por baixo dos panos. – Infelizmente não tenho boas novas pra você meu rapaz. Não posso curá-lo. — Ele disse isso em um tom triste, e novas lágrimas rolaram pela minha face. Quis me levantar, mas ele me segurou firme a mão e me manteve ajoelhado com uma força que me impressionou. – Mas me escute. Eu nasci cego. Sei o que é não conhecer a luz, e devo imaginar o que é perder a visão depois de ver tudo que há de lindo no mundo. Pois eu me curei apenas na velhice, e tenho experiência de sobra pra compartilhar com você. – Senti que sua mão aquecia e, contra minha vontade, toda a experiência do grande guerreiro passava para mim, me enchendo de confiança e instintos que eu desconhecia. Ele então riu. – Será pela sua mão que Ele tombará Galahad. Você recuperará sua antiga glória e força. Eu sei disso. EU vi. Adeus meu novo amigo. Espero velo um dia, tão velho como eu, a caminhar pelos Elíseos ao meu lado.
Sua mão pendeu e perdeu a força. Ouvi gemidos e choros. Ele morrera. Mas quando me preparava pra me erguer, eu vi algo que me fez ficar paralisado. Sim, na escuridão total da minha vida, um raio de luz iluminou uma cama a minha frente e, em cima dela, um homem velho jazia. Mas logo pude divisar seu espírito saindo do corpo, ainda jovem, ainda robusto, armado até os dentes, sorrindo para mim, e subindo pela luz. Antes de sumir, e levar a luz com ele, o espírito me dirigiu suas palavras uma última vez.
- Siga seus instintos Garlock. Eles o levarão mais longe que você jamais poderia imaginar.
E novamente a escuridão reinou. Me ergui e a garota me levou de volta pra Ryoko e Ryu. Saímos da casa e entramos no carro sem conversar. A viagem de volta se deu assim, todos calados, apesar de eu ouvir um soluço do banco de Ryoko. Sim, era triste perder a esperança recém adquirida. Mas para mim, isso ainda existia, uma réstia de luz me iluminava com as palavras do paladino. Eu mataria Carrau. Afinal, eu o venceria.
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Um mês se passou depois da ida ao paladino, e eu ainda ficava no jardim quase o dia todo. Foi num desses dias que, enquanto Ryu podava as roseiras e xingava um pouco, senti uma presença perto do portão e pedi que Ryu me levasse até lá. Quando abrimos o portão, percebi que era um ser de luz, tamanha era a bondade que emanava de seu ser. Ele então falou, e sua voz parecia o ressoar de um sino de bronze:
- Garlock Galahad, Ryuuku Galahad, venham comigo. Temos muito que fazer.
Aquela intimação nos pareceu meio agourenta a princípio, mas quando foi que os irmãos Galahad já rejeitaram uma confusão? Saímos sem dizer nada a Yumi e ele nos tocou nas mãos. Logo senti um vento tempestuoso se formar ao nosso redor e fomos deslocados no espaço. Quando recobrei os sentidos do corpo, percebi que era um lugar terroso. O homem novamente falou.
- Aqui muitos cristãos morreram, orando pelas suas almas. Muitos inocentes tiveram suas almas e orações enterradas aqui. E é aqui que você será curado Garlock Galahad. – Ele tocou minha cabeça, bem onde estariam meus olhos, e me fez ajoelhar. Logo senti uma energia se formar em suas mãos. – O paladino não poderia curá-lo pois não poderia curar apenas seus olhos. Teria que fazer tornar a crescer suas asas. – Nesse momento uma forte luz brilhou e senti um poder maior que qualquer outro penetrar meu corpo, percorrendo desde onde as mãos do homem tocava até a ponta dos pés, mas esse poder me queimava por dentro como brasa, e por mais que me debatesse, não podia me desgrudar das mãos dele. – Eu fui enviado com um dom, o dom de salvar apenas um homem. E ele é você Galahad. Você é o escolhido pra livrar os mundos da influência do mal. Agora, o poder divino irá purgar seus pecados, e redimir sua alma. — Num tremor involuntário, meu corpo moleou e, finalmente, caí por terra, ainda de olhos fechados. Mas senti um leve roçar de penas em meu rosto, o que me fez abrir as pálpebras rapidamente de susto, e perceber, ao meu redor, o coliseu de Roma tomar forma e cor, à luz de uma pálida lua cheia. Sorri e chorei, ao ver meu irmão me abraçando e, finalmente, em ver a identidade do homem que me curou. Era um arcanjo. Suas quatro asas alvas rebrilhavam com as luzes da lua. Ele me olhou com um sorriso. — Creio, que há uma mulher esperando por você meu amigo. Meu nome é Alexander. E estarei por perto sempre que precisar.
Ele se desfez em fumaça branca e eu me ergui, abrindo as asas de par em par. Maiores e mais brancas que as minhas asas originais. Balancei-as um pouco, e então, finalmente, abri um portal pra casa. Ryu, assim que se viu no jardim de novo, sorriu e me deu adeus, saindo pela noite da cidade. Eu, por minha vez, atei novamente a faixa nos olhos e entrei em casa, achando Yumi sentada no sofá a me esperar. Ela estava furiosa, e começou a me xingar. Mas logo parou.
- Garlock, suas asas cresceram de novo!
- Sim eu sei. – Me aproximei dela e fui retirando a faixa lentamente e abrindo meus novos olhos – E não é só isso meu amor.
E novamente eu vi. Novamente eu vi aquele sorriso que me iluminava os dias e me guiava de volta pra casa todas as vezes. Ela me abraçou e me deu um beijo. Um beijo apaixonado e molhado pelas lágrimas de felicidade. Minhas mãos já procuravam as curvas de seu corpo e as dela já subiam pelo meu tórax. Decidi que não poderíamos ser interrompidos mais, tomei-a no meu colo e abri as asas, fazendo que um portal se abrisse à minha frente. Iria levá-la para um lugar secreto, e lá, sem a interferência de ninguém, iria comemorar mais essa vitória, mas à sós, com minha noiva.
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