Redentor

43 Religare - Ato I: A Petição do Grande Pai


Notas iniciais
Ai, gente, desculpe pela demora! Sei nem o que dizer... quer dizer, sei, mas demoraria muito explicar. Prefiro dizer apenas ENJOY E obrigada pelos comentários anteriores, e por não desistirem da fic... bjs

Ao contrário do sugerido pela manhã escura e chuvosa, à tarde o tempo mostrou-se firme o suficiente para que Milo e Aldebaran arriscassem uma volta pelo parque perto do condomínio, aproveitando que Saori fora ao apartamento do policial para uma sessão com Camus.

− É só por uma horinha ou pouco mais, o bastante para fazermos uma caminhada, já que o Debão aqui não aguenta umas corridas − Disse o agente, em tom de brincadeira.

−Não tenho o hábito, como você, melhor começar de leve – O brasileiro riu, levando na esportiva.

Saori ergueu uma sobrancelha, ao provocar:

− Não se sinta constrangido, Antônio, esse aí vive dizendo que vai voltar para a musculação e, desde que chegou da missão no Vale da Aurora Dourada, não voltou para a academia coisa nenhuma.

− Anda reparando, é? Olha que o Kanon pode ficar com ciúmes...

− Hunf, de você? Como se ele tivesse motivos...

− Ouch, vai continuar desferindo seus golpes cruéis sobre minha sensível autoestima masculina? – Fez-se dramático, vestindo um casaco de moletom azul escuro por sobre a camiseta preta do Alice Cooper.

A psicóloga virou-se para Camus, atento a eles, embora quieto como de costume.

− Você prefere que eu venha em outra hora, Camus? Quem sabe, não prefere aproveitar para dar uma caminhada com eles, estava chovendo desde domingo, sem parar, e agora, finalmente...

Ele balançou a cabeça em uma negativa.

− Não, está tudo bem, a senhora veio até aqui, seria no mínimo rude de minha parte. De qualquer maneira... – O ruivo hesitou e, para disfarçar, voltou a abrir o grande livro sobre civilizações antigas do mundo que lia no sofá da sala. – eu queria mesmo falar com a... com você.

Milo engoliu em seco. Podia imaginar sobre O QUE o namorado queria falar com a psicóloga.

Sobre a estranha noite de sábado.

Uma intensa, pesada madrugada, de revelações perturbadoras e dolorosas, que culminou em atos sexuais que diferiam de todos que já haviam praticado.

Obviamente FIZERAM amor!

Mas... tinha sido tudo tão... ESTRANHO.

“Camus também deve querer contar a ela que descobri sobre as visões que ele tem com os irmãos”, pensou, o semblante já destituído da animação de minutos antes. Apressou-se em anunciar, em um tom quase forçado:

− Na volta, trago sorvete pra vocês!

− De morango para mim, Milo – Pediu o ex-Redentor, pois sabia que o companheiro tinha a tendência de só optar por chocolate.

− Claro, meu amor, você manda! Sao, alguma preferência?

− Não se preocupe comigo, eu gosto de qualquer sabor −Respondeu, simpática.

Após se despedirem, Milo e Aldebaran deixaram o apartamento. Chegando à rua, acharam o ar mais frio do que haviam esperado. Ao menos, parara de chover. Espaços brancos se insinuavam no céu cinza, de tonalidade chumbo pouco acima de conglomerados de nuvens suavemente prateadas. Aldebaran fechou o zíper de sua jaqueta até o pescoço, fazendo “brrrr, e nem é inverno!”; o loiro achou graça, mas tratou também de fechar o máximo que pôde de seu agasalho...

À medida que caminhavam, o vento deixou de ser um incômodo nos rostos para ser um alento.

− E, afinal, quando é que você pretende voltar aos seus treinos de musculação?

− Não quis falar pra não fazer o Camus se sentir culpado por eu não poder ir por ora... decidi voltar só depois que acabar o julgamento. Deixar passar uns dias de alvoroço para que ele possa se matricular e ir comigo. Será bom pra ele praticar atividades físicas também, além de, claro, estarmos juntos.

− Muito bem pensado – Antônio concordou. E, em seguida: − Hã... por falar em Camus... e você... JUNTOS... tem uma coisa que eu precisava te dizer, mas não dava enquanto ele estava por perto, logo, agora é a deixa!

− O que é? Fala logo, Debas, assim me deixa até ansioso!

− Hyoga sabe que você e o Camus... bem, ele já sabe do relacionamento de vocês.

Milo parou de andar subitamente, espantado.

− O quê? Como assim?!? Debas, você CONTOU pro meu filho que eu...

− QUÊ? NÃO! Eu lá seria capaz de fazer uma coisa dessas? – Retrucou indignado. – Ele descobriu, foi o que aconteceu... sacou tudo!

− Mas... como?...

− O garoto é esperto, Milo. Esperto demais!

− É, eu sei disso...

− E, vamos combinar, você e o Camus não foram exatamente DISCRETOS na noite de sábado, depois que fomos ao quarto de vocês.

− Vocês... por acaso... ouviram a gente...?

− Eu, não! Fui poupado, graças a Deus! – O brasileiro ergueu as mãos para o céu comicamente. – Mas o menino disse que escutou. Eu ainda tentei convencê-lo de que era o Camus tendo pesadelos de novo, mas não adiantou muito...

− Então ele falou contigo das desconfianças que tinha...

− Desconfianças nada, CERTEZA mesmo!

Nitidamente abalado com o revelado pelo amigo, o policial voltou a caminhar. Aldebaran pôs-se a acompanhá-lo.

− Ele ficou me fazendo perguntas, queria que eu confirmasse; eu não disse que sim nem que não. O que, segundo ele, foi “um sim”.

− Eu não te pediria pra mentir, nem me sentiria bem se você o fizesse −Alegou Milo, com voz arrastada.

− Falei pra ele que cabia a VOCÊ contar o que quer que esteja vivendo com Camus, não a mim.

Em meio a um suspiro, os olhos azuis cerraram-se, melancólicos.

− Ele deve ter ficado com raiva de mim, não? Tantas vezes que decepcionei o moleque... talvez... talvez ele tenha ficado até com NOJO.

Foi a vez de Aldebaran parar, e de frente para o loiro, mãos espalmadas para seu peito.

− Hyoga me garantiu que não sente NADA disso. Acha estranho, sim, não pelo tipo de relação em si, mas por ser VOCÊ. Ele nunca imaginou que o pai fosse “gay”. Bom, palavras dele, tá?

− Compreensível – Murmurou, enfiando as mãos nos bolsos do moletom.

− Mas, ouça: ele disse que sentiria raiva se você decidisse por esconder dele.

− Deus – Apertou a região entre os olhos com os dedos frios. – É um péssimo momento para Natassia ficar sabendo do meu relacionamento com o Camus.

− Quanto a isso, não se preocupe; Hyoga disse que não vai contar nada à mãe dele.

Em meio a um curto sorriso, o policial ponderou:

− Eu ia contar a ele. De verdade! Mas, não agora. Pretendia esperar mais um tempo, sabe...

− Sua ex-mulher de nada vai saber, não pelo Oguinha. E, por tabela, nem o futuro padrasto dele, porque com certeza ela iria contar ao Shura sobre você e Camus.

A expressão de quem se lembra subitamente de algo precedeu a fala de Milo:

− Shura desmanchou o noivado com Natassia.

− Hein? É sério?

Assentindo, o agente contou ao amigo como se dera a revelação no dia anterior...

Eram sete e meia da manhã e o interfone tocara. O porteiro anunciou a chegada do senhor Shura Hernandez. Milo sentiu a necessidade de recebê-lo com mais consideração, em lugar de simplesmente descer até o hall do prédio para entregar Hyoga ao noivo de Natassia.

− Pede a ele pra subir, por favor, senhor Diaz.

Com um sorriso amistoso, recebeu o espanhol, percebendo no semblante deste pesada seriedade. Será que Shura estava bravo com ele, por causa do ocorrido na casa de Saga? Preocupou-se, pois considerava de suma importância manter boas relações com o futuro padrasto de seu filho.

− Entra, Hyoga tá terminando de tomar o café com os rapazes, você aceita um café também? Ou um...

− Não, obrigado. – Shura lançou um rápido olhar na direção de onde vinha o som de conversas e risos. Tornou a encarar o policial. – É bom que não estejam aqui, queria mesmo falar contigo antes de partir.

Uma instintiva apreensão apagou o sorriso do rosto do loiro. Acreditando adivinhar o assunto, adiantou-se:

− Foi por isso que quis que subisse, pra gente falar com calma e eu poder me desculpar por aquela situação chata do sábado, afinal, a ideia de chamar vocês pra irem lá foi minha... não por você, claro!, não me entenda mal, por favor! Mas é que...

− Eu terminei com a Natassia.

Calando-se repentinamente, Milo arregalou os olhos, incerto de ter ouvido direito.

− Nós não vamos mais nos casar. Aliás, não vamos mais nos ver.

− C-como é que é? Shura... por causa do que aconteceu no churrasco? Olha, cara, ela só... só bebeu um pouco além da conta e acabou...

− Não é APENAS “por causa do que aconteceu no churrasco”. – O espanhol interrompeu-o, não sem certa aspereza. Abrandou o tom e acrescentou: − Você não tem nada por que se desculpar, até porque na verdade me fez um grande FAVOR.

Milo franziu as sobrancelhas sob uma súbita irritação ao retrucar:

− Um FAVOR? O que quer dizer? Tava querendo desmanchar o noivado com ela e EU te dei “a deixa”, é isso?

Como que exausto, Shura cerrou lentamente as pálpebras enquanto soltava um longo suspiro.

− Não, Milo. Eu tinha uma desconfiança, já há algum tempo. Seu convite proporcionou a oportunidade de tirar a prova.

− Uma desconfiança?

− Agora, uma CERTEZA.

− Shura, do que é que você tá falando?

Uma vez mais o espanhol suspirou; claramente era-lhe penoso proferir aquelas palavras:

− A Natassia ainda te ama, Milo.

Ante o silêncio estupefato do outro, Shura prosseguiu:

− Reconheço que ela tentou te esquecer nestes treze meses de relacionamento comigo, e principalmente ao aceitar meu pedido de casamento, mas... é inútil. Ela não consegue.

− Você tá confundindo as coisas – O loiro riu brevemente de nervoso; temeroso de que alguém ouvisse aquela conversa absurda, tomou a liberdade de levar o interlocutor pelo braço até a varanda, onde continuou, controlando a altura da voz. – Natassia não consegue superar o que houve de RUIM entre nós. Aliás, o que FIZ a ela. É puro rancor, não tem um caralho a ver com amor!

− Eu concordo que rancor não tem a ver com amor. Acontece que ELA acredita que o que sente por você é AMOR.

− Impossível! Shura, ela me odeia!!!

− Seja lá o nome que tenha o que quer que ela sinta por você... a verdade é que ela NÃO te esqueceu. E não está disposta a te esquecer, Milo.

− Não pode ser – Um incômodo real e palpável apoderou-se dele, pois, a despeito de suas réplicas, via sentido no que Shura dizia.

− Olha... não quero ser alarmista, mas... toma CUIDADO. Pelo Camus.

Algo comprimiu violentamente seu peito; antes que o policial pudesse responder, o filho apareceu na sala, seguido por Camus e Aldebaran.

− Oi, Shura! Desculpa a demora, meu pai fez ravanies, eu não conseguia parar de comer!

O espanhol sorriu para o menino; consternado, Milo viu tristeza naquele sorriso. Era nítido que Shura nutria sentimento paternal pela criança, da qual não mais seria padrasto.

− Sem problemas, Oga.

− Quer experimentar?

− Fica para uma próxima vez. – Mentiu, com pesar. E despediu-se dos três homens, acreditando para sempre...

Os latidos de um labrador que corria eufórico à frente de seu tutor, em trajes de corrida, atravessaram a última frase do relato de Milo a Aldebaran.

− Coitado, ele me pareceu ser gente boa – Comentou o brasileiro.

− Ele é sim. A melhor pessoa que Natassia e mesmo Hyoga poderiam encontrar. E agora, por minha...

− Pode parar! Não vem com essa de se sentir culpado!

− É um pouco difícil. Em todas reviravoltas negativas da vida de Natassia, eu tive participação ativa...

− Você disse que foi um péssimo marido para ela.

− É, no sábado à noite, acabei contando sobre isso pro Camus. A reação dele foi aquilo que você presenciou.

− Terá sido uma boa ideia?

Após hesitar um pouco, o agente respondeu:

− Ele quis saber por que Natassia agia com tanta hostilidade comigo. Perguntou por que ela me odiava. – Ergueu os ombros. – Não tive mais como esconder.

Mirou o rosto de Aldebaran, no qual se lia indisfarçável curiosidade.

− Embora você vá me considerar o maior dos filhos da puta, vou te contar.

− Não se sinta obrigado. Vejo que o que quer que tenha feito à sua ex-esposa, você se arrepende MUITO do que fez.

Expirou de tal forma antes de falar que o ar condensou mais demoradamente à frente de seu rosto desanimado:

− Debas... arrependimentos, remorsos... de pouco adiantam. Você vê, o resultado de todas as minhas ações... é independente de como eu me sinto em relação aos meus erros.

− Se vai ao menos aliviar um pouco o seu coração, sinta-se livre para me contar. Não me conte por “sermos amigos”, tão somente. – Pôs a mão no ombro do amigo, que se esforçou em sorrir em agradecimento.

− Eu vou te contar pelas duas razões, Debas...

O toque do celular no bolso traseiro da calça jeans interrompeu-o. Viu que era Saga; atendeu.

− Fala, Saga, beleza? Não, tô aqui no parque perto de casa, fazendo umas caminhadas com o Debas... não, ele tá em casa, com a Sao. Hã... hã, claro, pode sim. Claro, estaremos lá, mas é sobre o quê? Hum. OK então, a gente te espera. Até mais!

Desligou, com expressão tal no semblante que Aldebaran não resistiu a indagar:

− Tudo bem?

− Hã... espero que sim. Mas sei que NÃO.

− Por quê? Que houve?

Com as mãos na cintura, Milo ergueu a cabeça para o céu nublado.

− Saga perguntou se pode passar lá em casa daqui a algumas horas. Disse que tem “um negócio pra falar”.

− Mas ele não adiantou o assunto?

− Não. Isso que achei esquisito.

Foi a vez do brasileiro estampar apreensão no rosto intrigado.

− O que será que é?

− Não sei, Debas. Mas não tô com boa impressão não, sabe? Bom, vamos lá, de onde parei...

*************

Após ouvir o relato do ex-Redentor, a cada dia menos hermético durante aquelas sessões, o que a enchia de confiança como profissional e como amiga, Saori comentou, com um sorriso cúmplice:

− Por mais que tenha sido uma experiência incômoda para vocês dois, fico feliz que tenha decidido contar pro Milo sobre as alucinações com Radamanthys e Algol.

Sentado defronte à psicóloga, o ruivo uniu as mãos sobre os joelhos, sorrindo com condescendência.

− Bem, não foi exatamente uma “decisão”, já que ele me flagrou falando com... com “eles”. Então a confissão se fez inevitável.

− Mas Milo já presenciou “crises noturnas” antes e você escondeu o que via e ouvi durante os sonhos e alucinações.

− São MESMO alucinações, não? – Questionou timidamente.

− Você ainda acredita que poderia ser real? Ou alguma aparição sobrenatural?

Um tanto constrangido pela própria pergunta, que lhe escapara a despeito de convicções recém-adquiridas, o jovem meneou a cabeça em negativa.

− Não. Eu sei que não são meros sonhos... digo, às vezes são. Mas às vezes... é tudo tão real... embora eu entenda que não pode ser. Escapa à lógica – Evocou um conceito que havia pouco aprendera. – Digo, eles morreram. Foram enterrados. Como poderiam estar aqui?

Saori percebeu-lhe o discreto porém melancólico sorriso. Com bastante tato e, por que não acrescentar, paciência, pois que não era a primeira, segunda nem mesmo terceira vez que explicaria aquilo, a psicóloga elucidou:

− Ver e ouvir o que na verdade não está ali é um dos possíveis sintomas do estresse pós-traumático, efeito residual de experiências mais que dolorosas, atormentadoras. Você viveu dezessete anos sob situações de extremo estresse físico e psíquico. Por mais que acreditasse que era destinado a viver daquela forma, seu corpo e mente já se ressentiam dos graves danos que se acumulavam. Afinal de contas, você, antes de ser o “messias”, era um ser humano.

− E agora que eu comecei a tomar consciência do que “fizeram” comigo... e que aceitei a verdade... é como se as comportas de uma represa tivessem se arrebentado – Ele já ouvira tal analogia, e dela se apoderara, porque ilustrava perfeitamente o que vinha vivenciando. Mirou a moça com firmeza e um quê de súplica. – Eu NÃO quero mais ter essas “visões”. Se tomar os remédios pode me livrar delas... eu aceito fazer uso deles, doutora.

Ela o considerou cuidadosamente.

− A curto prazo, Camus, seria o único meio de abrandar esse quadro. Mas até agora, você se recusou a tomar a medicação. Precisamos ter certeza de que está fazendo isso por VOCÊ, e não por Milo ou por qualquer outra razão.

− Entendo que não é o momento de eu aparentar não estar em meu juízo perfeito. O julgamento se aproxima. Não posso parecer “fora de mim”. E... sim, não posso negar que me preocupo com Milo; ele se atormenta por saber que tenho essas visões, digo... essas alucinações.

− O principal é que seja por você, Camus – Repetiu.

− Eu não quero mais vê-los, Saori. Eles estão MORTOS. Como TUDO relacionado àquela vida. Exceto... – Quase enunciou “meu pai”. Deteve-se, ao sentir um súbito amargor na boca.

Sorrindo de um modo gentil que acalentou o ânimo do ex-Redentor, a psicóloga pontuou:

− Você não terá de tomar esses remédios para sempre. E certamente vão te trazer conforto. Noites de sono tranquilo, o que significa o repouso adequado de que você precisa para se restabelecer física e psiquicamente, antes do momento crucial.

Deu uma pausa para tomar generosos goles de água. Complementou:

− Além do mais, reviver constantemente pessoas e eventos que tanto te machucaram afeta terrivelmente a sua funcionalidade. A curto, médio, e, também, a longo prazo.

− “Funcionalidade”? – Ele franziu as sobrancelhas, sem compreender a palavra.

Ao invés de explicá-la de forma literal, Saori preferiu apresentar de modo amplo:

− Um dia, Camus, sua vida não será mais se desprender da vivência como “Redentor” e se preparar para o julgamento de Hades. Você é um rapaz ainda. Haverá coisas que poderá fazer depois que tudo isto finalmente tiver um fim. Estudar, viajar, conhecer o mundo e outras pessoas, trabalhar... um universo de possibilidades te esperam!

Ele arregalou os olhos cor de avelã, como se estivesse ouvindo as previsões mais insólitas.

− Para viver e efetuar tudo isso, não é adequado que existam amarras que te paralisem, que te deixem fora de ação, entende?

− A... a senhora acha mesmo que um dia... poderei fazer todas essas coisas? Ser como uma... uma pessoa... – Quase falou “normal”; preferiu dizer: − ser como o Milo, ou o Aiolia ou a senhora...?

− Ora, mas é claro! É como eu disse, você é um rapaz ainda! E, mesmo que não fosse, nunca é tarde para se fazer aquilo que se quer, para se buscar o que se almeja!

− Nesse caso... posso começar a tomar os remédios já? Se eles podem mesmo me ajudar a um dia ser apto a... a tudo isso...

­− Não são eles que vão te ajudar a ser apto a fazer todas essas coisas, mas podem ajudá-lo a atravessar este momento – Ela frisou, antes de pontuar: − Comecemos com as medicações que o doutor Finkler, ainda em Portland, deixou com Milo. O próximo passo será marcarmos uma consulta com um psiquiatra mais próximo, aqui em Red Meadow. Conheço alguns, mas indicaria Siegfried, um velho amigo, que inclusive já prestou serviços para a polícia federal. Entrarei em contato com ele e ver se consigo um horário ainda esta semana, se estiver tudo bem para você.

− Está sim, claro – Ele concordou de imediato.

− Aqueles que serviam ao seu pai diversas vezes te drogaram, te obrigaram a tomar quantidades enormes de remédios, com os mais variados fins. Precisamos considerar que o uso prolongado de tais substâncias, bem como sua repentina suspensão, certamente têm colaborado para a ocorrência de suas alucinações.

Ele apertou as unhas contra as palmas sem perceber.

− Justamente por isso, eu não queria mais usar remédios... nunca mais. Mas entendo agora que esses de que a senhora fala, os que o doutor Finkler receitou, os que Milo queria tanto que eu tomasse... fazem parte de uma situação diferente.

Saori tomou as mãos dele entre as suas e assegurou:

− Vai dar tudo certo, você vai ver!

Ouviram Milo e Aldebaran chegando da rua; ambos adentraram o apartamento, sobraçando caixas e sacolas de papel.

− Trouxemos comida chinesa, pessoal! – Anunciou o loiro, com vivacidade.

− Que bom, Milo, eu adorei a comida chinesa!

− Eu sei, meu anjo, por isso trouxe – Deu um rápido beijo estalado nos lábios do ruivo. Virou-se para a psicóloga. – Obviamente você está convidada, Sao, lembro que gostava de comida chinesa também.

− Agradeço o convite, Milo, mas já vou andando – Pôs-se de pé e pegou a bolsa de couro na mesa de centro.

− Fica, vai, que cerimônia é essa? – Aproximou-se dela para falar-lhe bem baixinho: − O Saga tá vindo aí. Disse que tem um negócio sério pra falar.

Os olhos violeta da nissei estreitaram-se, fixos nos azuis celeste.

− Vindo pra cá? Negócio sério? Não disse do que se tratava?

− Não. É isso que me preocupa.

− Te preocupa? Por quê?

− Não sei, ele parecia tão sério. E também não é de fazer esses mistérios, né? Não quis adiantar o assunto.

Ela ajeitou as mechas castanho claro para trás das espáduas e procurou não corresponder ao jeito preocupado do agente. Falou, afetando tranquilidade:

− Bom, talvez seja melhor mesmo eu ir, pode ser que seja pessoal.

− Não – Apontou discretamente para Camus, que, junto com Aldebaran, abria as caixas uma por uma, como quem verifica presentes debaixo de uma árvore de Natal. – eu aposto que é sobre ELE.

Ela deu de ombros. Largou a bolsa novamente sobre a mesa de centro.

− Não adianta ficar aí apavorado, fazendo conjecturas. Melhor esperar a chegada do Saga. Sendo assim, faço um esforço de filar sua comida. E nada de cerveja pra mim, certo? Pode me trazer um bom vinho branco.

*************

Milo começava a arrumar a mesa ao término da refeição quando o interfone tocou, sinalizando a chegada do promotor. Este vinha acompanhado do noivo, Aiolos.

− Acabamos de jantar, mas sobrou um bocado, comida chinesa, querem?

− Obrigado, Milo, fizemos um lanche antes de virmos. De mais a mais, será coisa rápida.

− Tá bom, vou fingir que não tô ansioso pra saber do que se trata. – Sentou-se no sofá de couro preto brilhoso, em uma velada instrução para que os recém-chegados se instalassem de uma vez. Assim fizeram. Empertigado como de costume, Saga enunciou:

− Eu vou direto ao assunto, não se preocupe.

− Podia ter adiantado algo ao telefone, né, ao invés desse suspense todo aí.

− É que não era com você que eu precisava falar e sim com Camus.

Todos imediatamente viraram-se para o jovem, que os fitou, surpreso.

− Camus – Saga encarou-o com firmeza. – recebemos uma petição de Armand por meio do advogado dele; a juíza concordou e vim aqui comunicar. Armand... Hades quer te ver antes do julgamento.

− COMO É QUE... – A mão de Saga, erguida de imediato, interrompeu a exclamação de Milo. Prosseguiu:

− Pede que você seja levado até onde ele está preso. Quer conversar contigo.

− Hades... quer conversar comigo? ­– O ex-Redentor balbuciou, como em um transe.

Erguendo-se do sofá, Milo vociferou:

− Isso só pode ser uma brincadeira, e de muito mau gosto!!!

− Eu já esperava essa sua reação, por isso que não dava pra adiantar pelo telefone...

− Que legal, Saga, esconder de mim pra vir aqui atirar essa MERDA pra ele???

− ELE é quem tem que decidir se atende o pedido do pai ou não.

− PEDIDO? ATENDER PEDIDO? Camus é algum Papai Noel pra atender pedidos, agora? Desde quando um CRIMINOSO ASSASSINO como aquele tem direito a fazer pedidos? E logo a quem ele mais prejudicou?!?

− Milo, acalme-se – Aldebaran procurou conter o amigo pelos ombros; procurou fazê-lo, em vão, voltar a se sentar.

Aiolos levantou-se, resoluto.

− Ouça o Antônio. ACALME-SE. Sua atitude não facilita nada para ninguém!

− Mas...! – Mordeu com força os lábios para não gritar de indignação.

− Por favor, Saga ­– Interpelou-o Saori. – Explique pra nós, o que significa isso tudo?

− Moses Stewart, o principal advogado de Armand, apresentou a solicitação à juíza Eileen, que também NÓS achamos absurda, mas que, infelizmente, não é ilegal. Armand foi condenado por vários crimes, mas NÃO pelos crimes contra os direitos humanos, não pelo que fez a Camus... não AINDA. E, mesmo que já tivesse sido declarado culpado... é com o FILHO dele que quer falar. Ele tem direito de pedir.

− Mas Camus NÃO tem obrigação de aceitar, suponho.

− Não, Antônio, em absoluto.

− Então nem sei por que vocês levaram isso adiante! – Milo bateu as palmas nas coxas, exasperado. – Se ele não tem obrigação de aceitar...

− Mas tem DIREITO de saber. Viemos sondar a RESPOSTA dele.

− E vocês acham que Camus iria querer ver aquele maldito filho de uma...

− Por que não ouvir o que CAMUS pensa a respeito? ­– Interveio Aiolos, enérgico.

­− Isso é loucura – Incapaz de permanecer ali, Milo retirou-se, furioso, para a varanda. Precisava de ar!

Fez-se um tenso silêncio. Minutos depois, calma e cuidadosamente, Saga apresentou a calado rapaz:

− Nós também achamos um absurdo esse pedido de Hades. No entanto, perante a lei, ele PODE solicitar um encontro com o próprio filho antes do julgamento. Vou ser sincero, Camus, ele poderá fazer isso mesmo DEPOIS de sentenciado, o que esperamos que seja.

− Por que ele quer me ver? O que quer falar comigo? – Questionou, com voz sumida, olhos fixos no chão acarpetado.

− Não sabemos. Mas, por mais que nos revoltemos com essa petição... cabe a VOCÊ decidir se aceitará ou não esse encontro.

− Isso é loucura – Repetiu Milo, voltando desarvorado da varanda. – Camus, você confia em mim, certo?

− C-claro.

− Então ME ESCUTA. NÃO ACEITE esse absurdo. Não vá encontrar Hades! Você não deve... não tem mais nada a tratar com aquele miserável! Por mim, você nunca mais sequer o veria! Sei que no dia do julgamento, isso será impossível, mas...

− Milo...

− Você NÃO PODE concordar com essa loucura!

− Milo, isso não cabe a você decidir – Saga revirou os olhos, cedendo à irritação que tentara bravamente ignorar. – Não há NADA nos laudos psiquiátricos de Camus que atestem sua incapacidade de tomar decisões, de agir em juízo próprio. Que crédito você dá ao rapaz se não permite que ELE tome a decisão???

Camus percebeu que tremores sacudiam o pobre namorado.

− Não é isso... é que... é que eu... – A voz de Milo embargou-se. Adiantando-se para ele, Saori pegou uma de suas mãos, em sinal de apoio. Ela argumentou, solidária:

− Entendemos perfeitamente que quer protegê-lo. Mas permitir que Camus comece a tomar decisões importantes como essa é ajuda-lo a encontrar o caminho para uma vida normal entre nós.

Para Camus, o mundo pareceu congelar, emudecer.

Viu-se novamente em uma cela de penitência... não era nem o “quarto branco” nem seu quarto humilde nos fundos do suntuoso Tabernáculo.

Podia sentir o frio e a aspereza do chão de pedra sobre o qual dobravam-se seus joelhos nus, à espera da figura cuja sombra tudo cobriria, assim que chegasse...

“Pai meu, pai meu, por que me desamparastes?”

Não, aquele questionamento não fora dele.

NUNCA havia sido.

Ele NUNCA havia sido o sucessor do Messias. Ele NUNCA havia sido Messias algum!

A Sombra.

Em seu manto.

Em seus olhos.

Em tudo tocado por seu alcance.

Ousou mirar seu rosto.

“Por quê, pai? Pai... meu pai... por quê?”

Por que um PAI teria sujeitado um FILHO a todo aquele Calvário, a todo aquele horror?

“E o que foi que Deus fez?”

“O... o quê?”

Os olhos negros estreitaram-se de frio descaso.

“Quem você pensa que entregou a Jesus o Fardo que Ele carregou?”

“Mas... mas eu NÃO sou Ele.”

“É Seu sucessor. Em VOCÊ Ele completará sua Obra.”

− Não... – Camus cobriu o rosto afogueado. – O senhor... VOCÊ NÃO É DEUS. Eu NUNCA fui...

Súbito, abaixou as mãos, quase ofegante. Encontrou diante de si as expressões desconcertadas de Milo, Aldebaran, Saori, Saga e Aiolos. De repente adquiriu um ar frio, sério e decidido.

− Eu quero saber. Eu EXIJO saber POR QUE ele fez TUDO o que fez comigo.

− Você já sabe a resposta! Por dinheiro, Camus! Por poder, prestígio, influência! – Respondeu Milo, impaciente.

− ELE disse isso?

− Ele NÃO vai dizer isso, nunca vai ADMITIR isso!

Sem que ninguém por aquilo esperasse, o ex-Redentor afirmou gravemente:

− Eu quero ouvir DELE a resposta.

− Você não acha que já se martirizou MUITO nesta vida? Deus, por que diabos quer MAIS?

− Eu nunca escutei DELE a resposta.

− E pra isso quer ir lá? Vai aceitar ir pra cova do leão, que nem fez o tal Davi?

− Daniel, Milo.

− QUE SE FODA O NOME DO...

− MILO! – Ralhou Saga, pois que o amigo principiava a sair de si.

Vendo que o companheiro novamente se afastara para recuperar a compostura, Camus perguntou a Saga:

− Quando poderei ir até ele?

− Então você aceita ir se encontrar com Armand? – Pelo desapontamento no tom, também o promotor esperava pela recusa do ex-messias.

− Sim.

− Bom. Amanhã mesmo. – Suspirou. – Mas você não irá sozinho.

− É claro que não! – Volveu Milo vivamente. – Eu...

− Aiolos vai te acompanhar – Saga atravessou mais aquela réplica insatisfeita.

− QUÊ? Por quê? Eu também vou!

− Você pode até ir com eles, Milo, mas não entrará na prisão. Camus tem que ser acompanhado pelo advogado, assim como o advogado de Armand estará presente durante essa... entrevista.

− Está certo. – Aquiesceu em um murmúrio mal-humorado. Aproximou-se do amado, para seus ombros levando as mãos que ali se apertaram. – Você tem certeza? Sabe que não precisa fazer isso.

− Eu sei que não preciso. Mas QUERO.

− É, deu pra perceber. – Deu um sorriso resignado. Voltou-se para Saga e Aiolos. – E então? Como é que vamos pra lá? A Pensilvânia não é exatamente ali na esquina...

− Poderíamos pegar a ponte aérea amanhã, mas pensei se Camus não iria gostar de aproveitar para conhecer o caminho de carro, é uma das estradas mais bonitas dos Estados Unidos.

− São mais de 3 horas de carro até lá – Resmungou Milo. Logo mudou a expressão para desanuviar o que possivelmente já estava sendo pesado para o parceiro. – É, é um trajeto bem bonito mesmo. Se é pra fazermos algo não tão agradável, por que não curtimos um pouco? Não acha, Camus? Hein, Debas?

− Oi?

− Vai ser legal pra você conhecer também.

− Eu posso ir?

− Claro, Antônio! – Disse Aiolos, simpático. – Assim você pode me ajudar a impedir o Milo de invadir a prisão.

Eles riram com gosto. Apenas para acompanha-los, o ex-Redentor tentou rir, sem qualquer vontade real.

Não pensava em caminhos bonitos, belas paisagens, estradas famosas, em curtir, nada daquilo.

Só pensava em que iria rever seu pai.

E que dele arrancaria RESPOSTAS.

Agira Hades de maneira fria, calculada, como a maioria acreditava? Ou, de fato, tivera visões em função de algum desequilíbrio mental, como alguns acreditavam? Milo e seus amigos afirmavam que se tratava da primeira opção. Certo, mesmo que fosse... por que com o PRÓPRIO FILHO?

Por que matara a própria esposa? Por que conduzira à loucura os próprios primeiro e último filhos? Por quê?

Por dinheiro, poder, prestígio, ouvira-o tantas e tantas vezes.

Mas COMO conseguira? Sacrificar seu próprio sangue, sua própria mulher... nada, NADA em seu coração fora capaz de hesitar em semear tantas desgraças, mesmo em nome do “dinheiro, poder, prestígio”?

− Estejam prontos às oito horas. Chegando à Pensilvânia, almoçamos e depois vamos para o presídio Holy Savior.

− Camus, lembre-se do que combinamos, acho que hoje à noite será ideal que você comece a usá-los. – Saori pediu, ao que ele balançou afirmativamente a cabeça. Milo logo soube do que se tratava. Esboçou um sorriso de alívio. Ao menos AQUILO estava sendo resolvido.

*************

Para coroar o esforço de Aiolos, o dia fazia-se radiante, o céu de profundo, nada tímido azul, a abraçar as altas montanhas que cerceavam a vista extasiante. O sol banhava com sua luz majestosa toda a paisagem que deleitava os olhos atentos, notadamente os de Aldebaran, que via aquela estrada pela primeira vez. Quanto a Camus, em quem o noivo de Saga pensara em primeiro lugar ao idealizar aquela viagem de carro...

− Pelo visto, ele vai dormir até lá. Que bom que pelo menos Antônio está conhecendo “uma das mais belas estradas da América” – Comentou Aiolos ao volante, bem-humorado.

− Não é pra menos. Pela primeira vez, ele tomou o ansiolítico e o tranquilizante prescritos pelo doutor Finkler. E já estava com umas boas noites de sono defasadas – Disse Milo, considerando com ternura o rosto adormecido do jovem apoiado em seu ombro e peito.

− Sinto muito, teria sido melhor termos vindo amanhã ou depois.

− Não se preocupe, Olos, isso NUNCA teria sido uma boa ideia, de qualquer forma. – Volveu Milo, com certa amargura, enquanto acariciava os cabelos do amante.

− Sei como se sente, mas é como Saga disse, se nenhum laudo atestou incapacidade de Camus por tomar decisões de modo consciente...

− Sim, sim, tô ligado, entendi já – Cortou, mais por cansaço do que por impaciência,

− Se serve de consolo, Milo, nada pro Camus pode ser pior do que tudo por que ele passou.

− Isso é óbvio, Debas, mas nem por isso ele precisa de mais experiências desagradáveis na vida – Respondeu ao amigo, que ia no banco do carona.

− Desagradável ou não, foi uma escolha dele – Reforçou Aiolos. – Devia estar feliz por ele poder fazer suas escolhas, ao que nem sempre teve direito.

O ruivo remexeu-se um pouco nos braços de Milo, que o envolveu com mais cuidado. Um beijo suave pousou em sua fronte, sem em nada afetar aquele sono profundo.

− Olos, eu NUNCA vou ficar feliz em saber que aquele filho da puta ficará perto de Camus outra vez.

O motorista e o ex-pastor trocaram um breve olhar. Decidiram se manter calados por um tempo. Milo seguia irredutível e não cessaria de manifestar sua justificável, porém vã indignação. A viagem seria menos penosa se não mais o contestassem.

*************

Cerca de uma hora e meia depois, Milo sentiu que Camus despertava. Sorriu para ele ao dizer:

− Bom dia, flor do dia!

− Milo... – Murmurou, sonolento. – Desculpe, dormi em cima de você, foi?

− Você dormiu bem umas duas horas, meu anjo, acho que enfim podemos dar uma paradinha pra esticar as pernas, tirar a água do joelho...

Intrigado, o ruivo falou:

− Tem água no seu joelho? Não parece molhado, está seco...

Aiolos e Aldebaran riram.

− Uma placa dizia que tem um posto a 3 km, podemos parar lá – Anunciou o motorista.

− E comprar umas cervejas! Não tô dirigindo mesmo, hehehe. – Milo aproveitou para se ajeitar no banco traseiro, uma vez que Camus saíra de cima dele.

− Enfim vejo um sorriso no seu rosto.

− O poder da birita, Antônio. O poder da birita – Disse Aiolos, revirando os olhos esverdeados.

*************

Cada um deles, munidos de suas respectivas bebidas em suas mãos – Milo, cerveja; Aiolos e Aldebaran, refrigerantes e Camus, um suco de laranja industrializado – contemplava as altas montanhas que adornavam a estrada que parecia infinda. Pinheiros erguiam-se imponentes ao claro firmamento, despido de nuvens.

− Realmente, é um lugar incrível, valeu a pena termos vindo de carro – Comentou Aldebaran, sentindo-se revigorado.

− Sim, é muito bonito. As montanhas me fazem lembrar do Vale – Camus ousou comparar, sem avaliar se Milo se aborreceria com aquela recordação. Ao cogitá-lo, preocupou-se por uns instantes. Porém, logo aliviou-se por ver o amado com expressão calma e contemplativa.

− Não dá pra negar, a coisa mais bonita que existia lá era a natureza que cercava aquele lugar. Claro, depois de você! – Puxou o ruivo para junto de si, dando-lhe beijos estalados pela face. Aiolos e Aldebaran riram daquele arroubo, possível pela total ausência de pessoas no local onde se encontravam, uma espécie de mirante próximo ao acostamento onde estava estacionado o automóvel.

− Olha só pra você, nem parece que antigamente ficava de piadinha pra cima de mim e do Saga... – Provocou Aiolos, sorridente.

− Aaahh, vocês nunca vão me perdoar?

O noivo de Saga terminou de beber e falou:

− Certo, rapazes, mais uma hora, uma hora e meia e chegamos à Pensilvânia, mais especificamente ao presídio. Prontos para seguir viagem?

*************

Passava um pouco das 13 horas quando os quatro se viram diante do imenso complexo prisional. Por cima dos altos muros brancos, cercas elétricas enrodilhavam-se como moitas em trilhas a perder de vista. Gramados bem cuidados pontilhados de flores amarelas rodeavam a edificação.

− Eis o resort do miserável – Bufou Milo, cruzando os braços. – E aí? Como fazemos? Debas e eu esperamos no carro?

− Isso certamente levará mais que uma hora, pode ser tedioso para vocês ficarem ali. – Respondeu Aiolos.

− Por que não damos uma volta pelos arredores? – Sugeriu Aldebaran. – Vi que havia uma bela praça, um pouco antes de chegarmos.

− Não sei não. Acho que deveríamos ficar por perto. Olha, tem carros de emissoras de TV pelos arredores, deve ter um monte de repórteres lá perto da entrada.

Aiolos pegou seu celular enquanto explicava:

− Qual a surpresa? O “inimigo número um” dos Estados Unidos, que irá a julgamento dentro de alguns dias, está nesta prisão. Mas já tenho tudo acertado. – Fez uma ligação. – Senhor Murray? Já estamos aqui. Certo, obrigado.

Antes que fosse interpelado por Milo, explicou:

− O assistente do diretor vem nos receber. Vai nos levar até uma entrada alternativa, pelos fundos do hospital do presídio. Não há equipes de reportagem lá. Mesmo assim – Virou-se para Camus, devidamente protegido pelo capuz da jaqueta cinza chumbo que usava. – Continue desse jeito até chegarmos lá dentro.

− Pode deixar – E o ruivo fechou o zíper até ocultar a parte inferior do rosto.

− Isso não vai ser pra sempre, tá? Eu prometo – Milo apertou-lhe os dedos frios por entre os seus.

− Está tudo bem, estou tranquilo.

Ao perceberem a aproximação de um homem calvo e corpulento, acompanhado de dois guardas, uma tensão que até então não se instalara entre eles não pôde deixar de ser sentida.

− Camus...

− Milo – O ex-Redentor cortou-o com amabilidade e segurança. – Você sempre pede que eu confie em você. Desta vez, sou eu que peço: confie em mim.

O policial, com os olhos marejados, lutou com todas forças para não ceder ao ímpeto de abraçar o amado. Limitou-se a assentir, dizendo em voz baixa:

− Eu confio. Eu te amo.

− Eu também te amo – Volveu o ruivo, em um sussurro.

− Senhor Aiolos, senhor De La Faure.

− Senhor Murray. Como vai? Muito prazer.

O homem apertou-lhes as mãos, com vigor autêntico.

− O prazer é todo meu. Acompanhem-nos, por favor. Hã... apenas vocês dois, certo? ­– Lançou um olhar desconfiado a Milo e Aldebaran.

− Sim, esses nossos amigos vão esperar por nós aqui fora.

− Compreendo – Falou Murray, reconhecendo o famoso policial Hatzis, contudo, optando por nada comentar. – Bem, por aqui.

Com o coração estranhamente pesado, Milo viu Camus e Aiolos se afastarem, seguindo de perto o assistente do diretor do presídio e sendo escoltados pelos dois guardas. Sentiu a mão cúmplice de Aldebaran sobre seu ombro tenso.

− Vamos, eu te acompanho em uma cerveja.

Sem nada responder, Milo deixou-se guiar pelo brasileiro, pois, caso contrário, não sairia dali.

*************

Em ritmo constante e sem chamar a atenção, os cinco homens avançavam pelo caminho oposto à alameda que conduzia à entrada principal. Alguns guardas pelo trajeto meneavam a cabeça com discrição ante a passagem do grupo, que, após certo tempo de caminhada, chegou aos portões do estacionamento do hospital do complexo. Entraram sob intensa vigilância. No entanto, ninguém percebeu que um dos guardas afastou-se para um canto para digitar uma mensagem em seu celular, cujo conteúdo era:

“Eles estão entrando”.

No pavilhão 3, concentravam-se os presos aguardando julgamento, que ali eram mantidos ora por terem sido pegos em flagrante, ora por questões de segurança pública ou por já estarem cumprindo pena por outros delitos.

Hades se encaixava em todos quesitos.

E foi de uma antessala contígua ao recinto em que se encontravam o Grande Pai e seu advogado Moses Stewart que o destinatário da tal mensagem a leu, assentindo instintivamente. Caminhou até uma tela que mostrava imagens do circuito interno.

O scanner por onde todos eram revistados antes de entrarem naquela ala.

Uma boa soma cuidou para que o desligassem no momento em que ele por ali passara. Amarrados em seu corpo, agora bem mais robusto que há algumas semanas, aparelhos de escuta e gravadores profissionais, os mesmos que utilizara em reportagens arriscadas no Golfo Pérsico, no Afeganistão, na Faixa de Gaza, no Iraque... ele ajeitou o bigode postiço, preto como suas lentes de contato, e cuidou de não manter o rosto nem abaixado demais, nem erguido em demasia. Ao ver Camus e Aiolos nas imagens, tratou de se retirar, adentrando a sala em que se daria o tão esperado encontro. Esperado por Hades, por Moses, por ELE mesmo.

A reportagem de sua vida.

Arriscava-se, decerto.

Mas para quem já se arriscara, literalmente, em campos minados... o que era aquela conversa entre “o inimigo número 1 da América” e o filho, o “falso Messias”, que, se não ostentava título tão malfadado quanto o do pai, de forma alguma era uma unanimidade. Não, de fato, o “Redentor” dividia opiniões.

E Moses lhe prometera que, daquela entrevista, sairiam grandes verdades sobre Camus de La Faure... verdades que poderiam mudar os rumos da opinião pública do país, que tendia a pintar o ruivo como VÍTIMA...

Mudar os rumos do caso que parara o país!

Depois lidaria com as consequências. Se é que elas o alcançariam.

Sabia que viriam. Mas daí a alcançá-lo...

Até lá, já teria conquistado fama e prestígio. E MAIS dinheiro.

Porque o que já havia conseguido topando aquele esquema poderia lhe garantir a aposentadoria, ora se não poderia...

À mesa de fibra de vidro, Hades e seu advogado aguardavam a chegada de Camus e do advogado Aiolos. Sem ao menos olhar para seus novos benfeitores, Adam Wright posicionou-se junto à parede branca, mãos para trás e postura altiva, inabalável, como havia de ter sido a adotada pelo homem com quem ele trocara de lugar, o guarda Richard Bailey. Que, àquele momento, já se encontrava em um avião rumo à sua terra natal, na Irlanda. Cofiando o farto bigode negro, Bailey sorria antegozando as benesses de finalmente ter um negócio próprio, graças à fortuna que recebera do renomado repórter Adam Wright.

Não se importava com o que o jornalista e o Grande Pai tencionavam, não se comovia com o drama do Redentor, exaustivamente exposto na mídia. Para ele, um falso Messias era um falso Messias, e, portanto, um pecador que merecia pagar das piores maneiras possíveis.

Não poderia se esquecer de que, no final das contas, era um cristão fervoroso, pensou, segurando com afeto o crucifixo, presente de sua falecida mãe.

*************

O som dos passos dele, de Aiolos e dos três homens que os acompanhavam pelos corredores ofuscantemente claros reverberava de modo magnificado aos ouvidos de Camus. Percebendo-lhe o olhar extático, Aiolos quis saber:

− Está tudo bem?

− Está sim – Respondeu, sem hesitar.

Entraram em uma sala ainda mais clara que o corredor.

− Senhores, peço que tirem paletó e jaqueta e deixem nesta bandeja chaves, celulares, o que de metal tiverem, por gentileza. – Ordenou um dos funcionários ao lado da máquina que escanearia seus corpos. Aiolos fez conforme o orientado. Dirigiu-se ao aparelho de raio-X. Camus tirou de si a jaqueta e imitou os passos de Aiolos.

Quando se viram completamente liberados para prosseguirem, ouviram:

− Vocês têm até duas horas com ELE. – Disse o assistente do diretor da prisão. – O supervisor da ala 3, Lloyd Collins, vai acompanhá-los.

− Muito obrigado, senhor Murray. Vamos, Camus?

O jovem teve um perceptível sobressalto.

− Vamos – Respondeu de pronto.

Seguiram o supervisor; saíram da sala e acessaram um corredor mais estreito, porém dotado de irritante claridade. Algumas vozes passaram a ser ouvidas, de início abafadas, depois, à medida que avançavam, cada vez mais altas.

Portas e mais portas gradeadas adiante. Em suas barras metálicas ora pousavam ora se agarravam mãos de variadas cores...

− Vejam quem tá aqui, pessoal! – Anunciou uma das vozes, bem alto. – O “Redentor”!!!

− É ele mesmo? O Messias da TV?!?

− Aaah, ele veio visitar o papaizinho! – Berrou um dos prisioneiros jogando-se contra as barras para presenciar melhor a passagem do notório personagem,

Camus deteve-se, assustado. Ao perceber Aiolos preocupado com ele, esforçou-se por se mostrar indiferente e continuou a andar.

− Ei, Redentor, que tal um milagre pra este pobre pecador aqui? Eu sou inocente!

− Eu também, me tira daqui com o seu poder!

− É, transforma estas barras de ferro em pão!

Gargalhadas ecoaram ruidosamente. Irritado, o supervisor Collins gritou:

− Calem as bocas! Deixem o garoto em paz!

− Ele não é nada mau, hein? Não mesmo! Bonitinho, o desgraçado.

− Bonitinho meu pau, o filho da puta é bem gostoso...

− Não é à toa que o pai botava geral pra comer ele!

− Ganhou a maior grana assim...

− Os dois, né? Um santo puteiro, lá nas montanhas!

Os pés de Camus imobilizaram-se. Todo seu corpo gelou, como se tivesse sido levado de volta para uma sala de penitência, na qual tivesse sido despido e brutalmente atingido por água fria... como seu pai fizera quando...

− Camus?

Sentindo o coração disparar de repente, não se via capaz de responder Aiolos.

− EU JÁ MANDEI VOCÊS CALAREM AS BOCAS! – Gritou o supervisor.

Aiolos pôs as mãos sobre os ombros do ex-Redentor, forçando contato visual.

− Não tem que fazer isso se não se sente bem. Não temos que continuar, Camus!

− Mas... – Seus lábios tremiam. De onde vinha aquele frio?

Tanto frio.

− Vamos voltar – Propôs Aiolos, em voz baixa.

− Não, eu quero...

“Quero ver meu pai”, foi o que pensou. E a esse pensamento tremeu sob inexplicável emoção.

− Os senhores vêm ou não? – Indagou Collins.

− Camus...

− Eu PRECISO, Aiolos. Preciso vê-lo. Vim até aqui. Fiz vocês todos virem. Não vou retroceder.

− Você não é obrigado!...

− Eu QUERO.

− Ele quer ver o papai anticristo, moço, deixa – zombou um dos prisioneiros, seguido de uma chuva de risos e imprecações.

− Ele também é um anticristo!

− Não falem assim! – Manifestou-se um dos presos, em alto som. – Coitado, o pai explora o cara, faz tudo o que fez com o coitado e vocês ficam falando essas merdas?

− Ah, fica na tua, Mark...

− Ele tá certo – Gritou outro. – O Redentor foi usado pelo pai, e se fosse um filho ou irmão de vocês?

− Vai à merda, Lewis, eles combinaram tudo!...

Decidido a ignorar o falatório que se intensificava, Camus retomou a caminhada atrás do supervisor. Aiolos suspirou, sem encontrar escolha que não segui-los.

Deixaram o longo corredor e chegaram à frente de outra porta gradeada. Por entre suas barras de ferro, viram-no.

As mãos brancas, algemadas, unidas por sobre a mesa, sob a mirada fixa de seus olhos negros. Os longos cabelos pretos presos em um imenso rabo de cavalo jogado para a frente do corpo emagrecido abrigado pelo uniforme laranja. Ao seu lado, trajando, como Aiolos, roupas sociais, Moses Stewart, que foi quem primeiramente percebeu – ou assim fez parecer – a chegada do filho do seu cliente.

Defronte à cela, Camus estacou; e teve a nítida impressão de que paralisava ao ter sobre si os olhos escuros de seu pai, que prontamente sorriu ao vê-lo:

− Olá, Camus. Então você veio mesmo... meu filho.

*************

Notas finais
Obrigada por prestigiarem. Até o próximo capítulo! E desculpem pela demora.