Redentor
5 Messias - Ato V : Projeto Êxodo 2018 - Parte I
Notas iniciais
— Você está preparado para uma vida dedicada unicamente à causa do nosso Redentor? À causa de Deus? Se está, diga comigo, bem alto, “eu estou preparado”!
— Eu estou preparado! – Os fiéis repetem, em uníssono.
— Diga mais alto, não tenha medo, Deus não quer que você tenha medo, MAIS ALTO!
— EU ESTOU PREPARADO!
— DIGA “SIM, EU ESTOU PREPARADO”! – O pastor Ephraim brada, erguendo a Bíblia.
— SIM, EU ESTOU PREPARADO!
— GRITE PARA O MUNDO OUVIR, “EU DAREI TUDO DE MIM PARA A OBRA SANTA”!
— EU DAREI TUDO DE MIM PARA A OBRA SANTA!!!
— É ASSIM que vocês têm que ser, irmãos! Devem deixar claro para o mundo que estão resolutos na fé, prontos para uma guerra santa! O mundo não quer vê-los bravos, fortes, firmes! O mundo quer vê-los débeis, fracos, retraídos, à mercê de todas as imundícies que há nele, de sua tirania pecaminosa, rumo ao caminho da perdição eterna! – O reverendo caminha pelo púlpito como uma fera enjaulada. Seus olhos faiscam ante as luzes do templo, seu fervor religioso crepita-lhe nas órbitas. – Vocês vão fazer o que o mundo quer?
— NÃÃÃO!!!
— Vocês vão fazer o que o diabo quer?!?
— NÃÃÃÃO!!!
— Então, meus irmãos, só há um caminho... é Jesus, mas não o Jesus “deles”, invisível e ausente! Não o Jesus “deles”, morto e imóvel em blasfemos crucifixos, em infames imagens e esculturas! E sim o NOSSO Redentor, que veio para preparar nosso caminho rumo à Glória! O NOSSO Redentor, que está presente, vivo, conosco...
— Aleluia!
— Glória a Deus!
— Ele quer te salvar! Ele voltou para isso! Você crê nisso de todo seu coração e de toda sua alma???
— SIIIIM!!!
— Vocês entregam suas vidas ao Messias?
— SIIIIIM!!!
— Vocês entregam tudo que são e TUDO O QUE TÊM para a Obra Dele???
— SIIIIIM!!!
“Certo, chegamos ao ponto almejado, hein, senhor pastor?”, pensou Milo, gesticulando alucinado para seguir o padrão dos presentes. Uma desagradável dor de cabeça brotara, em função dos gritos estridentes vindos de todos os lados. Sabia que as pessoas se entregavam àquela espécie de transe coletivo. Ele, que se mantinha no controle de sua mente, sujeitava-se aos efeitos daquele esforço: sentia-se quase desnorteado.
— Repita comigo agora, mas repita bem BEM alto, para o demônio tremer aos teus pés: “Eu entrego a minha vida à Obra”!
— EU ENTREGO A MINHA VIDA À OBRA!
— “Eu entrego minha alma à Obra”!
— EU ENTREGO MINHA ALMA À OBRA!
— “Eu entrego tudo que sou à Obra!”
— EU ENTREGO TUDO QUE SOU À OBRA!
— “Eu entrego tudo que tenho à Obra!”
— EU ENTREGO TUDO QUE TENHO À OBRA!
Milo cogitava seriamente se retirar. Estava cansado, física e mentalmente. O culto se arrastava desde as 18 horas, e já passavam das onze. E ele havia trabalhado naquela quarta-feira: reunira-se com os participantes da Operação Vésper, cujo objetivo era desmascarar a Igreja Aurora do Novo Porvir, suspeita de variados crimes – queriam principalmente averiguar a ocorrência de crimes contra os direitos humanos. Era o que, efetivamente, conduziria a seita à queda. Quase cinco meses haviam se passado desde que Milo começara a frequentar a congregação de Red Meadow.
No início, comparecia às quartas e aos domingos. Com o passar do tempo, passou a ir às segundas e, eventualmente, em alguns sábados, quando realizavam eventos de socialização. O agente sabia de casos extremos, pessoas que iam à igreja praticamente todos os dias, que largavam trabalho e demais afazeres. Essa “imersão” fazia parte do estabelecimento da dependência tão cara aos doutrinadores.
Nem sempre o processo se escorava em cultos. Por vezes, era efetuado através de jantares beneficentes, palestras, workshops, apresentações artísticas, bazares, festas... a todos eventos Milo comparecia, mostrando-se cordial, solícito e ansioso por fomentar as relações com os “irmãos”. Da parte destes, não se furtavam a prestar atenciosa assistência ao “novato”, pois que ele ascendia como uma espécie de patrono das atividades. Nas peças infantis, “o senhor Segerson” ajudava a montar cenários, comprar roupas e tudo que fosse necessário para compor as cenas. Nas feiras beneficentes não somente contribuía com generosas doações, como também trabalhava nas barraquinhas. Nas festas auxiliava na decoração, na compra de comes e bebes, prendas para gincanas...
Àquele desprendimento estavam atentos os líderes da igreja.
De natureza sagaz, desconfiada até, Milo questionava à psicóloga Saori Kido se aquela abnegada generosidade do “senhor Segerson” não poderia suscintar suspeitas aos superiores da seita. Em uma reunião na sede da Polícia Federal, ouvira dela:
—O comportamento de “Michael Segerson” nem de longe é inédito a esses homens, muito pelo contrário. Eles não organizam suas estratégias de domínio emocional e psíquico com um eficiente staff de profissionais em vão: têm ao seu dispor psicólogos, psiquiatras, hipnotizadores, magnetizadores, fonoaudiólogos, neurologistas... todo um plano é delineado justamente para criar vários Michaels Segersons para sustentar sua milionária indústria da fé.
— Se você diz, quem sou eu para negar... até porque, eu confesso – Ele apertou a base do nariz com o polegar e o indicador, cerrando os olhos, demonstrando certo cansaço. – É de enlouquecer. Acho que as pessoas se deixam levar de uma vez para não serem tão atormentadas como EU estou sendo.
Ela mirou-o com simpatia. Tinha consciência de que o policial realizava um trabalho mais extenuante do que provavelmente julgara que seria.
— Um novo convertido em geral possui um grande entusiasmo, até por conta da novidade. Imagine-se perdido em um deserto e encontrar um oásis com um banquete à sua espera...
— E lindas odaliscas.
— O que mais for de especial para esse viajante alquebrado e desamparado. Há uma categoria de novo convertido, porém, que pode se entregar de tal forma à comunidade que o acolheu, que atos como o de nosso novato são vistos como algo normal... esperado até.
— E esses mais obcecados é que são os ideais para se juntarem ao Vale da Aurora Dourada, pelo que você disse.
— Exatamente. São milhares e milhares de fiéis. Apenas uma pequena parcela é escolhida para fazer parte do que VOCÊ vai fazer... se for bem sucedido, claro.
— TUDO que faço é bem sucedido, senhorita Kido. – Gabou-se, dirigindo à psicóloga um sorriso presunçoso.
A nissei limitou-se a semicerrar os olhos violetas, mal disfarçando o enfado. Pelo bem da missão à qual fora chamada para prestar assessoria, preferiu ignorar mais aquela tirada de Milo. Como estava fazendo quase sempre, desde o início daquela reunião com o agente infiltrado.
— E como você seria um desses escolhidos? Sendo a “presa padrão”. Sendo visto como aquela pessoa que seria capaz de abrir mão de tudo para ingressar em um mundo à parte. O desprendimento, por mais que te pareça exagerado e antinatural, é a porta para que creiam que “Michael” está apto para viver no paraíso particular deles.
— Eles estão gostando “de mim”, os imbecis.
— Eu não duvido. Você é pretensioso como ninguém, mas tem lá o seu charme.
Ele ergueu uma sobrancelha, irônico.
— Você pode atestar isso, hã?
— Posso sim, embora hoje, felizmente, seja imune a ele. Quando o Dohko cogitou seu nome para o papel de “Michael Segerson’, apoiei a escolha. Confirmei junto a ele e a Saga o quanto você pode seduzir as pessoas... e enganá-las com maestria. – Declarou, imitando-lhe o gesto facial.
— Achei que tivéssemos nos separado sem ressentimentos.
— Não leve para o lado pessoal.
— Vou tentar.
— Continuando... tem que fazer mais do que ser simpático, entusiasmado e dar ofertas generosas, Milo. Tem que se ENTREGAR à causa deles.
— Mais do que estou fazendo? – Replicou, erguendo as mãos, dramático. – Porra, só se eu me oferecer pra ser crucificado no lugar do Messias deles!
— Tem que SER a causa deles. – Saori fingiu ignorar a interrupção. – Mostrar que PRECISA estar ali, não porque encontrou uma religião com a qual se identificou. Não porque quer ser um crente fiel e exemplar. NÃO. É muito mais.
Fez uma pausa, encarando-o de forma a exigir seriedade total. Milo correspondeu ao que a doutora queria, e ela concluiu:
— “Michael Segerson” tem que mostrar que encontrou SEU LUGAR na Terra. Que viu a chance de ser ESPECIAL, de fazer parte de algo realmente grande, único. Que achou a família que perdeu. Os seus olhos têm que brilhar. Mantenha-os sempre muito abertos. Deixe os lábios entreabertos, respire pela boca, como se seu coração palpitasse de tal forma que não lhe basta respirar pelo nariz. Mostre-se mais que entusiasmado, mostre-se extasiado, arrebatado. Pelo que ouve, pelo que vê.
— Estou entendendo, Saori.
— Ajude. Ajude sempre. Prontifique-se a auxiliar em tudo que precisarem, seja fazendo donativos, trabalhando nas instalações deles, dando todo e qualquer suporte antes mesmo que peçam. É essencial que nosso empresário rico e solitário se mostre sempre disponível.
— Eu tenho feito cada coisa! Já ajudei a cortar bandeirinhas para a Festa das Missões, comprei roupas típicas de vários países, fiquei vendendo comida na barraca da Grécia... – Riu, lembrando-se do insólito dia. – Participei da gincana... até os prêmios fui eu que comprei. Também participei do mutirão para ampliação do galpão anexo ao ginásio. Doei tinta, cimento...
— E quanto mais você faz, mais eles pedem, não?
— Hum... no início nem pediam diretamente a mim. Faziam o apelo durante os cultos. Agora... sim, têm pedido algumas coisas. Mas não chegam a insistir...
— AINDA. Pode ser que nem cheguem a fazer isso, já que o “generoso empresário” nunca se nega a nada.
A psicóloga ergueu-se da mesa e dirigiu-se ao telefone da sala, em uma escrivaninha. Tirou-o do gancho e pediu, polidamente:
—Olá, Eiri, poderia nos trazer café e água, por favor? Obrigada.
Milo fitou-a, apreciando-lhe a elegante figura. Saori possivelmente era a mulher mais bonita que já vira na vida, fazendo valente frente à Natassia. Malgrado reconhecesse o valor das duas, não somente estético, mas, principalmente, no intelecto e nas maneiras refinadas, não fora capaz de se apaixonar por nenhuma. Nunca pensara a fundo sobre isso, e perguntava-se por que aquilo vinha-lhe à cabeça em um momento como aquele. Desviou o olhar quando a jovem retornou à mesa para retomar o assento de frente a ele.
— Milo, eu sei que você não é o tipo que espera o melhor das pessoas. Você é egoísta e nunca entenderia o desprendimento de um novo fervoroso convertido, mas, mantenha sempre em mente: nada do que fizer, simulando essa condição, levantará suspeitas.
— Seis meses de relacionamento e já deu para me decifrar assim?
— Chama aquilo que tivemos de “relacionamento”?
O loiro arregalou os olhos muito azuis. Quase disse um “ouch...”.
— Aliado ao fato de que sou psicóloga e inferir certos padrões de comportamento nas pessoas faz parte do meu ofício... você não é nem de longe uma pessoa imprevisível, Milo.
— Isso também não é para levar para o lado pessoal?
Ela deu de ombros, cínica.
— Nada aqui é.
Assobiando, ele recostou-se mais à cadeira estofada, fingindo estar magoado. Na verdade, sentia-se tão à vontade que quase colocou os pés cruzados sobre a mesa.
— Outra coisa... eu sei que você se acha o máximo, acima de tudo e de todos...
— Continua NÃO sendo pessoal, né?
— ... e que considera que apenas gente fraca e ignorante cai na lábia e nos truques desses pretensos religiosos, saiba, desde já, que NÃO é bem assim.
Algo naquela afirmação apagou o sorriso de Milo. Alguém bateu à porta.
— Pode entrar, por gentileza. – Autorizou Saori; agradeceu educadamente pelas bebidas. A copeira se retirou. A nissei prosseguiu:– Já falamos sobre o staff de especialistas deles. Faz parte de orientações deles a modulação da voz, certas inflexões, música, ruídos, ritmo das palmas, o erguer os braços...
— Espera. Você tá insinuando que EU devo ter cuidado pra não ser convencido pelos malucos que conduzem esses cultos? Que existe alguma chance de eu cair naqueles truquezinhos baratos de...
— EXISTE. – A resposta foi tão imediata e firme que Milo se assustou. – VOCÊ PRECISA ME OUVIR. É por ISSO que Dohko e Saga me trouxeram para a equipe. Não apenas para assessorá-los a respeito dos aspectos psíquicos e emocionais que permeiam toda a questão de que a investigação trata... como para orientar o infiltrado acerca de como proceder... e de como SE DEFENDER.
— Hah, agora você tá me ofendendo! Escuta, eu NUNCA...
— Vai me deixar fazer meu trabalho ou não?
— Desculpe. – Tentou parar de rir. – Continue.
Saori escolheu fingir que não percebia o ar de pouco caso do agente. Fez seu trabalho:
—Precisa seguir uma série de procedimentos para permanecer na missão focado e ileso. Mantenha uma alimentação saudável. Não abuse dos açúcares e não deixe de consumir proteínas em todas refeições. O organismo precisa estar sempre hidratado e descansado. De forma alguma durma menos de seis horas por dia, Milo, é de SUMA IMPORTÂNCIA que não esteja cansado. Continue com suas atividades físicas, elas oxigenam o cérebro, reforçam defesas imunológicas e...
— Mas... cara. Isso é sério?!? – Agora mais do que simplesmente zombar da intenção da psicóloga, Milo se espantava de ela COGITAR MESMO que ele corria algum risco de sucumbir a alguma lavagem cerebral!
— ... durante os cultos, tente não deixar seus olhos fechados por muito tempo. E se precisar mantê-los assim, concentre-se em outra coisa. Pense em seus jogos de videogame, suas mulheres, qualquer coisa. Distraia sua mente. Não se concentre na voz do pastor, ele a trabalha de modo a conduzir a certos estados, um deles, o próprio alfa... não balance o corpo. Isso afeta o equilíbrio e aumenta a suscetibilidade inerente que todos...
— Saori... pelo amor de Deus! Eu NÃO vou virar um maldito zumbi e abandonar a missão! Cara, você está SE ouvindo? Tá mesmo achando isso de MIM?
Calando-se, a jovem encarou-o com uma gravidade intimidante.
— Milo, sabe qual o outro motivo de terem considerado minha assessoria importante neste caso?
— Diz aí.
— Eu digo. Das duas últimas vezes em que tentaram enviar policiais para fazerem o que você está fazendo... ELES NÃO VOLTARAM.
— C-como é que é?!?
—Eles se CONVERTERAM, Milo. Eles se converteram à Aurora do Novo Porvir e deixaram a Polícia. – Ela suspirou, relaxando os punhos que inconscientemente apertara. – Provavelmente contaram que outros tentariam o mesmo, espionar a “igreja”...
— Caralho... – murmurou o agente, aturdido. – A coisa é séria mesmo...
— Em algum momento você achou que não fosse?
Boquiaberto, sequer pôde articular alguma resposta.– Foi por isso que desta vez resolveram integrar à equipe de investigação alguém que entendesse a fundo dos meandros que uma mente percorre até o estado de desligamento... e como se dá esse processo. Todas demais estratégias foram alteradas, é um plano totalmente novo, eu diria audacioso.
— E... de onde eram esses policiais?
— Um era de Ohio, o outro de Minessota. O primeiro conseguiu arrastar toda a família para a seita. Tornou-se pastor e lidera uma congregação em Seattle. O segundo largou a família e foi ser missionário na América do Sul. Dizem que está no Brasil...
— É... é inacreditável – exclamou, passando a mão pelos cabelos. Genuinamente impressionado com que tudo que ouvira.
Nem tanto.
Passadas semanas depois daquela conversa com Saori, ele constatava que aquelas considerações não foram exacerbadas.
As pregações, louvores, cânticos, tudo seguia um padrão fixo de desestabilização das emoções. O que se fazia ali não era monopólio de instituições religiosas: políticos, militares, publicitários, megaempresários, e tantos outros serviram-se de artifícios similares para quebrantar e convencer, há muito, muito tempo.
Se naquele dia escarnecera da preocupação da psicóloga, agora seguia fielmente suas instruções. Deixava sua mente longe dali. Será por isso que a cabeça lhe doía tanto? Porque resistia?
Não aguentava mais gritaria. Choradeira. Palmas. Gritos. Convulsões. Desmaios.
Qualquer pessoa frágil emocionalmente sucumbiria, cedo ou tarde, pensara, a princípio. Saori fizera-o ver que não necessariamente. Não havia um ditado...? “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.”
Exatamente.
EXATAMENTE.
— Porque Deus amou o mundo de tal maneira que enviou Seu Filho, não apenas uma vez, mas DUAS! DUAS VEZES!
“Parece mesmo que tem uma broca furando o meu cérebro!”, pensava, perturbado.
— E Ele sofreu por VOCÊ! Sim, o Messias sofreu por VOCÊ! Sangrou por VOCÊ! Morreu por VOCÊ! ELE VOLTOOOOUUU POR VOCÊÊÊ!!!!
Gritos enlouquecidos de “Aleluia!” martelam a cabeça do agente. Fechando um dos olhos por conta da cefaleia insistente, ele finge se juntar àquele frenesi.
— E ELE está ENTRE NÓS, meus irmãos... na terra que a todos nós receberá no devido tempo, quando chegar a hora de ascendermos com Ele aos céus... o nosso Redentor, junto com o Grande Pai Hades, sofre por nós, vivencia todo o martírio de seu Antecessor em prol de uma nova chance para os que foram destituídos da Graça de Deus... MAIS UMA VEZ, ELE ESTÁ EXPIANDO SEUS PECADOS!
Berros, lamentos, tremores.
Milo se sacode um pouco, pois se acha muito parado e quer fazer como os demais, a bem da autenticidade... só não deve fazê-lo em demasia, lembra das orientações de Saori.
O fim de SEU martírio pessoal deu-se às onze e quarenta e cinco da noite. Quase quinta-feira. Pensa nas pessoas que hão de trabalhar cedo no dia seguinte, mas sabe que elas mesmas não se preocupam grandemente com isso.
“Amanhã eu durmo até MEIO DIA, e que Deus ajude o infeliz que me acordar antes disso!”, planejava, enquanto cumprimentava os membros da congregação, sempre estampando um animado sorriso no rosto. Já tratava a maioria por seus nomes. Para sua própria surpresa e, mais ainda, de seus parceiros de investigação, chegava a gostar de alguns...
Uma semana depois, o Natal.
Por sorte, Natassia e Hyoga foram passar as festas de fim de ano na Espanha com a família de Shura – pelo visto, o namoro da ex-mulher caminhava para algo sério no futuro... – teria sido desagradável abdicar de passar o dia de Natal com o filho em função de seu disfarce. Nos últimos dois anos fizera-lhe visitas no dia 25 para levar-lhes presentes. Certo, no último, amargara um belo sermão de Natal ofertado por Natassia, já que ele cometera a desfaçatez de aparecer na casa da ex-esposa embriagado e todo marcado de batom e chupões. Em suma, não muito adequado para lidar com uma criança que o aguardava ansiosamente.
Bem, este ano, ele passaria a auspiciosa data em meio aos fiéis da Igreja Aurora do Novo Porvir!
Não podia dizer que estava empolgado. Oh, não.
Na véspera, desde cedo os preparativos seguiam a todo vapor. Como em eventos anteriores, “Michael Segerson” prestava atenciosa assistência, auxiliando na decoração do templo, na compra de presentinhos para as crianças, e até na contratação de um fino buffet para a Ceia! Encontrava-se comandando os “irmãos” quando alguém foi lhe dizer que o pastor Ephraim queria falar-lhe.
— Senhor Segerson, sente-se, por favor! – Saudou-o o reverendo, dando espaço para que entrasse no confortável escritório acarpetado. – Posso chamá-lo de Michael?
— Claro, pastor! – Anuiu cordialmente, tomando assento em uma cadeira estofada à grande mesa.
— Você aceita um chá? Um café?
— Um café estaria ótimo.
O próprio Ephraim cuidou de servir o rapaz, e a si mesmo. Sentou-se de frente para o recém chegado; ostentava bom humor.
— Michael, quero agradecer pela sua valiosa colaboração. Não apenas hoje, mas nestes últimos meses... desde que chegou à nossa congregação, você tem se mostrado um irmão dedicado como poucos. Quero que se lembre sempre de que Deus não está alheio a isso... e nem eu...
A natureza desconfiada de Milo – Saori estava certa! – ligou o alarme em seu espírito. Esboçando um contagiante sorriso, ele retorquiu:
— Pastor, eu estou vivendo os melhores dias da minha existência. Nestes cinco meses, eu tive mais alegrias do que em todos meus 28 anos de vida. Eu é que devo agradecer por terem me acolhido. E, claro, sempre agradecer a Deus por todas as bênçãos recebidas.
— Fico muito feliz em ouvir tais palavras, meu filho. Este Natal será particularmente fenomenal, graças às suas doações. E mais essa agora, um buffet de classe em nossa confraternização... nunca tivemos algo assim!
Milo sorveu o café, desgostoso por ele estar menos forte do que esperava. Ao menos, estava quente.
— Sim, eu soube que as irmãs repetem na Ceia de Natal a tradição dos demais eventos, sendo cada uma responsável por um prato... quis dar um descanso a elas, pelo menos nessa noite especial. Afinal, têm me alimentado tão bem estes meses! O senhor sabe que aumentei em uma hora o tempo diário de treino na academia por conta disso?
Ephraim deu uma sonora gargalhada, dando a impressão de que alguns botões sairiam voando do terno apertado. A propósito, o agente não faltara com a verdade ao dar aquela informação; não estava disposto a engordar por conta daquelas carolas!
— Todos estão muito felizes com sua gentileza, Michael. Saiba que o que está fazendo lhe será devolvido, e em dobro, pelo Nosso Senhor.
“Ainda bem que o dinheiro não é meu, eu que não iria confiar nesse credor...”, não traiu no doce sorriso o sarcasmo que trazia nos pensamentos.
— Poucos são como você. Desprendidos. Abnegados até. Um rapaz jovem, bem apessoado, com tantas posses, dificilmente partilharia do que possui dessa forma com a Obra de Deus. Sabe, mesmo pessoas que estão na Missão há muito mais tempo que você não o fazem...
“Que mentiroso!”, lembrava-se dos inúmeros relatos de iludidos que entregaram tudo o que tinham para a igreja.
— Eu não sou digno de tanta consideração, pastor. Como eu disse ao senhor, estou vivendo meus melhores momentos aqui. Não tenho filhos, esposa, não tenho mais minha família, nada que demande meu dinheiro. Emprego-o com prazer na Obra do Senhor.
Jurou ter vislumbrado um rútilo fugaz, mas intenso, nas íris azuladas do reverendo. Este limpou a garganta, e comentou, pretensamente neutro:
— Suponho que os negócios estejam indo bem, Michael. Obviamente, apenas uma das muitas formas de Deus retribuir pelas suas recentes ações...
Terminando de tomar o café, o policial pousou a xícara no pires prateado, lambendo rapidamente os lábios adocicados antes de confirmar:
— De fato, não tenho do que reclamar, muito pelo contrário. Creio que seja realmente uma compensação divina. Sabe, meu irmão realizava operações mal sucedidas... aplicações e investimentos que estavam trazendo prejuízos, e não os lucros esperados. Sempre achávamos que era questão de tempo que o jogo virasse... mas o jogo poucas vezes virou... depois que ele se foi, e que tive que ficar responsável por tudo, ficou mais fácil de perceber o que vinha acontecendo. Não sei se é pecado dizer isso. – Fingiu uma hesitação constrangida.
— Não, meu filho! – Ephraim caprichou no tom condescendente. – É apenas a constatação de um fato. Antes você não tinha Deus na sua vida. Estava cego para muitas coisas, e essa era apenas uma delas.
Insistindo no papel servil, Milo assentiu. Em seguida, adquiriu feição animada:
— Deus seja louvado... de mais a mais, pastor, estou esperando notícias melhores ainda. Meu pai possuía alguns imóveis na Grécia, os quais alugava em sociedade com um irmão dele que ficou lá, precisamente em Patras.
— Oh sim? – Ephraim tentou disfarçar a euforia despertada por aquela informação, o que foi em vão para um profissional atento como o loiro à sua frente.
Milo fez-se “subitamente apreensivo”, chegando a torcer as mãos:
— Inclusive, eu peço operações nesse sentido... esse meu tio... quer ficar com tudo. Eu já acionei a justiça para tomar a parte que me cabe, mas...
— Não se preocupe, Michael. Você pode ter acionado a justiça dos homens, que é a que vai legalizar tudo. Mas tem aos seu lado a infalível Justiça de Deus. Eu, desde já, decreto a sua vitória! Vamos fazer uma oração. – Conclamou, já pegando o pulso do jovem, que concordou em um gesto aflito e fechou os olhos. Ephraim proferiu uma prece por aquela causa.
Ao término da oração, o “religioso”, matreiro, encarou Milo com profunda atenção. Em tom profético, declarou:
— Nos tempos bíblicos, homens entregavam ao Senhor ofertas e sacrifícios no afã de obterem graças, bênçãos e vitórias. Durante nossa prece, Michael, eu senti no coração que essa é a chave de sua vitória neste processo: dar-se em sacrifício e receber, em troca, a derrocada de seu tio ganancioso. Deus acabou de me revelar!...
“Chamando alguém de ‘ganancioso’, vejam só, esse porco...”, revoltou-se, internamente. Simulou ansiedade em saber:
—Como posso me dar em sacrifício, pastor?
— Como tem feito até agora, só que com mais... propriedade.
O loiro logo desvendou o real significado de “propriedade”...
— ... mais boa vontade. Lembre-se do menino que entregou todo seu alimento a Jesus... cinco pães e dois peixes... no que se tornou aquele humilde lanche? Alimento para cinco mil pessoas... sem contar mulheres e crianças... e ainda sobraram doze cestos cheios de comida! É assim a lógica da fé. A dádiva de Deus é proporcional ao desprendimento que Ele constata no coração de Seus filhos. Desapegar-se do mundano é apegar-se ao espiritual.
A despeito da crescente repulsa que chegava a lhe dar um gosto amargo na boca, Milo não deixava de admirar a sagacidade daquele homem, infelizmente utilizada para fins escusos. Que discurso sutil... o tanto que estudava, que pesquisava, para selecionar as passagens mais adequadas, mais concernentes ao que ele queria dos fiéis extrair.
E Ephraim era apenas um dos que procediam daquela forma...
— Entendo, pastor. O que devo fazer, exatamente?
— Uma oferta consagrada exclusivamente a essa causa, Michael, é o que eu sugiro. Mostre a Deus que está disposto a tudo para conseguir a vitória na justiça.
Por uns instantes Milo experimentou uma expectativa atordoante. Sua boca chegou a ficar seca. Seria enfim convidado para a comunidade Vale da Aurora Dourada?...
— Sou todo ouvidos, pastor Ephraim.
O reverendo fitou-o gravemente. Abriu uma gaveta da escrivaninha ao lado da mesa e pegou um grande envelope vermelho com motivos dourados. Elucidou:
—Uma oferta acima de 50 mil dólares. Creio que os imóveis de seu pai valem algumas dezenas de milhões. O que doar agora será poeira perto da bênção através da qual Deus recompensará a sua prova de fé.
Mesmo para um mestre na dissimulação como Milo ocultar a estupefação ante a sórdida proposta.
Então era assim que milhares e milhares de pessoas entregavam tudo o que tinham para as ditas “igrejas”. Um verdadeiro comércio de bênçãos! O retorno às indulgências. Apurou o que ouvira: aquele caso assemelhava-se antes a um leilão!...
— O senhor disse... acima de 50 mil dólares... – Simulou hesitação.
— Uma estimativa do que separa a generosidade do autêntico sacrifício.
— Eu entendo.
Unindo as mãos sobre a mesa, Ephraim argumentou, insidioso:
— Sonde em seu coração. Converse com Deus, Michael. Amanhã é a Vigília de Natal. Dando esse presente a Cristo certamente você será presenteado por Seu Pai.
O policial pareceu pensativo aos olhos do religioso. Então ergueu-se da cadeira e estendeu a mão para seu interlocutor, garantindo:
— Farei isso, pastor. Estarei aqui.
Sorrindo com esperança, Ephraim apertou a mão de “Michael” em um cumprimento vigoroso.
— Eu o esperarei, meu filho. Lembre-se, foi Deus quem me disse que você deve fazer isso... se deseja obter seu quinhão.
“Mas que maldito cara de pau...”, o agente conseguia se impressionar.
Na noite seguinte, lá estava “Michael Segerson” com 100 mil dólares em espécie para a Igreja Aurora do Novo Porvir. Entregou-os diretamente ao pastor, cujos olhos brilharam de alegria. Deixou o escritório do reverendo, após uma oração, e foi se juntar aos “irmãos” na celebração do Aniversário do Filho de Deus. O culto começaria às 18 horas e às 22 horas teria início a faustosa ceia, justamente patrocinada pelo generoso novato.
Assim que a porta se fechou, Ephraim pegou seu celular. Dirigindo-se a um anexo da sala, efetuou uma chamada.
— Olá, como vai? Eu tenho um nome pra você. Michael Makantonis Segerson. Verifique os dados referentes a esse cara... – Sentou-se à mesinha, sobre a qual um notebook estava ligado. – Vou enviar o que tenho aqui, cedido por ele mesmo, mas adianto que se a gente comprovar tudo, é um excelente CANDIDATO.
Apalpava o envelope estufado entregue pelo rapaz.
— Certo, pra você também. Um Feliz Natal. – Despediu-se, nervoso por manusear mais uma vez algumas daquelas notas.
Mais do que manusear.
Acariciar.
Que bom que o rapaz entregara um bom excedente... seria a sua justa gorjeta pelos eficientes serviços prestados aos “grandões”...
*************
“... neste dia, o meu Antecessor veio a este mundo. Gerado em um ventre imaculado, fez-se carne para que, 33 anos depois, se oferecesse em sacrifício por vocês. Jesus nasceu em um lugar humilde, despojado de conforto e riquezas. É o que gostam de dizer. Mas que conforto maior poderia ter aquele bebê senão junto ao seio da Virgem escolhida por Deus? Que riquezas maiores poderia Ele ter senão o amor de seu pai José, o reconhecimento da Natureza, as ofertas dos reis magos que o visitaram e o adoraram, oferecendo-lhe presentes dignos de nobres? Assim são vocês, reunidos neste lugar: sob o conforto do convívio em uma comunidade santa e abençoada; ricos em bênçãos e em dádivas, com que a Natureza lhes provê...”, eu lhes digo, em tom manso, auxiliado pelo microfone de orelha, ou então dificilmente seria ouvido por tantos e tantos fiéis. Meu pai terreno diz que são mais de dois mil. Além de minha voz, não se escuta outro som neste grande templo, salvo as eventuais exclamações de “Aleluia”. No geral, procuram ouvir-me em um silêncio reverente. Prossigo, agora sorrindo para eles: “Celebrar o nascimento de Cristo é celebrar a Sua Vida. Celebrar a Sua Vida é celebrar uma nova chance para os filhos de Deus. Ele, o Cristo, o Messias... voltou EM MIM. Ele está AQUI, pois que estou convosco, ‘até o Dia Final’, como foi dito nas Escrituras.”
Murmúrios de “Aleluia”, “Amém”, “Deus seja louvado” correm pela plateia. Fico feliz em vê-los felizes. Eles me olham com tanto amor... uma amor que me faz ver que tudo, TUDO vale a pena. Olham-me com amor, com esperança. Meu olhar vagueia ao redor, parando pelo púlpito: os quarto Vigias estão assentados em seus tronos, bem como meus irmãos e meu pai terreno, que me presenteia com um olhar amoroso, repleto de aceitação. Aprovação.
Eu estaria mais confortável não fossem as luzes intensas com que me banham objetos no alto do teto. Há homens logo no início da plateia atrás de máquinas cujo nome desconheço. Não sei o que fazem, mas eles não as largas; desaparecem detrás delas. Acho um tanto lamentável que esses homens tenham escolhido ficar alheios a esta sublime comunhão. Contudo, não posso reprovar-lhes a atitude, uma vez que foi permitida pelo meu pai terreno. Ele sabe o que faz.
Conclamo a todos que fechem seus olhos. Faço uma oração, minhas mãos erguidas na direção das “ovelhas”.
Concluída a prece, encerra-se o culto. Então vem o banquete de Natal, seguramente um dos momentos mais aguardados do ano. Não posso negar que me agrado sobremaneira dele.
Neva bastante esta noite.
Centenas de mesas foram dispostas no imenso auditório, repletas de iguarias preparadas para a grande celebração. Há perus assados, uma infinidade de peixes, pães doces e salgados, guisado de carne, purê de batatas, ervilhas, codornas, frutas, tortas, bolos, carne assada com repolho e maçãs... é muito, muito mais do que os que aqui vivem comem usualmente. Não raro, várias das “ovelhas” passam mal no dia seguinte. Algumas são castigadas por terem cometido o pecado da gula. Sabendo disto, nos Natais seguintes elas se tornam mais comedidas, porém sempre há neófitos... e também aqueles que se esquecem do que acontece aos que se entregam à glutonaria.
Se é que “esquecem”.
Às vezes penso se não o fazem de livre e espontânea vontade, assumindo o risco da punição, em troca da satisfação de um raro prazer... bom, não deixa de ser um... pecado.
Aqui no Vale, uma vida estoica, regrada, é requerida pelo bem do espírito. Nossa alimentação é frugal, e presta-se prioritariamente à subsistência. Em seguida, à manutenção de um corpo forte para os trabalhos que sustentam a nossa comunidade. Não se deve amar a comida. Ela é antes uma necessidade do que um deleite.
Preceito que, percebo, ignorado por muitos neste momento...
Assentado ao lado de meu pai terreno, limito-me a sorrir, condescendente. Dirijo uma oração silenciosa ao Pai Celestial: “Por favor, perdoai-lhes a avidez desta noite. Fazei com que eles não sejam acometidos de nenhum mal estar posterior que possa atestar-lhes o pecado. Perdoai-me por pedir-Vos isto, é que entristece-me tanto vê-los sofrendo sob o chicote, ou aprisionados, ou ainda, privados do alimento como castigo... sei que é necessário, e para o bem deles, mas...”
“Está tudo bem, meu filho?”
Faço que sim com a cabeça, levemente sobressaltado por ter tido minha comunicação com o Divino interrompida.
“Parece pensativo demais, Camus.”
“Eu orava.”, sou incapaz de ocultar a verdade.
Satisfeito com o que obtém, ele sorri. Afaga-me o ombro, em um gesto paternal e amistoso. Agradeço a Deus por não ser inquirido acerca do TEOR de minhas preces...
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24 de dezembro de 2017.
Milo conta cada segundo, não apenas para se esbaldar com as iguarias do buffet por ele contratado, como também para deixar de ouvir aquelas irritantes cantatas de Natal...
“Pelo meu estômago, que tá roncando, e pelos meus ouvidos... chega!”
O culto caminha para o seu fim
Ele está prestes a se animar, no entanto, o amainar das luzes e o foco no telão detrás do regente do coro logo mostram-lhe que ainda há mais por vir...
Espera que surjam as estonteantes vistas aéreas da natureza, talvez, contudo, o que surge diante de todos não são tomadas de oceanos ou montanhas, e sim um homem muito pálido, de longos cabelos negros, trajando uma longa túnica negra com cruzes douradas.
“Hades!”, o agente prontamente reconhece o mentor da seita. Ajeitou a caneta no bolso da camisa de linho azul marinho; tratava-se de uma caneta com uma microcâmera. Torcia para que tudo pudesse ser captado de forma minimamente satisfatória. Celulares eram proibidos durante os cultos, e em grande parte dos eventos da igreja. Milo sequer se lembrava de ter visto algum dos “irmãos” portando o aparelho nas instalações “santas”. A voz do grande líder começou a sair pelas potentes caixas de som do salão:
“Que a paz do Nosso Senhor Deus seja com cada um de vós, não apenas nesta noite auspiciosa, como também em todos os dias de suas vidas consagradas à nossa igreja. O Messias voltou para dar-lhes mais uma chance de Salvação, pois que, conforme diz a Palavra, ‘Todos pecaram e destituídos foram da Graça de Deus’. Sim, todos, mas Ele está aqui, entre nós, para levar sobre Si, novamente, todos os pecados dos que a Ele se entregarem. Todos os seus pecados, faltas, crimes, dores...”
Em meio à comoção despertada pela transmissão, Milo percebe – e precisa controlar uma careta de repulsa – que o homem, assim como Ephraim e os demais líderes, JAMAIS SE INCLUEM nos emissários das mensagens. Sempre “seus” pecados, “suas” faltas, “seus” crimes, nunca “nossos” pecados, “nossas” faltas, “nossos” crimes, como julgaria mais lógico. Não estava escrito na própria Bíblia, que os safados gostavam tanto de citar, que TODOS haviam pecado, e que TODOS estavam destituídos da graça divina? O próprio Hades canalha não acabara de repetir isso naquela filmagem? Por que as pessoas não conseguiam atinar para algo tão simples...?
“É uma forma de eles semearem nos fiéis a convicção de que seus líderes são ‘diferentes’, ‘especiais’. Que precisam deles para receberem os ensinamentos e a merda toda. Que dependem deles para...”
Seu raciocínio é interrompido pelo anúncio de Ephraim ao microfone; neste meio tempo, a imagem no telão é congelada:
— Meus amados, o grande senhor Hades enviou-nos um presente de Natal. Ainda mais especial do que o esperado, que é sempre a mensagem proferida pelo Redentor em pessoa, que temos o privilégio de ouvir todos os anos, no Natal e na Páscoa... desta vez, seremos abençoados dez vezes mais...
Milo nota uma vívida empolgação, um crescente de euforia.
— ...pela primeira vez, não apenas ouviremos Sua voz, como também veremos SUA IMAGEM. O senhor Hades, líder máximo de nossa igreja, permitiu que filmassem o Messias dando-nos a bênção por ocasião da Celebração de Seu Aniversário, para que todas as congregações de nosso país pudessem vê-lo...”
“Caralho. Isso sim, é uma novidade, e bem quando estou aqui investigando. Porra, canetinha, registra isso...”, roga, mentalmente, quase tenso. Felizmente, isso pode passar despercebido, em meio à exaltação que vai se avolumando ao seu redor.
Quando a imagem muda de Hades para um jovem desconhecido, todos se calam. Os fiéis tentam conter a excitação em prol do silêncio crucial para o grande momento. Alguns choram, outros tremem, outros parecem até suspender a respiração.
É uma gravação feita poucos minutos antes, diretamente do Vale da Aurora Dourada.
Apertando os olhos, o agente não sabe precisar se é em um templo ou em um ginásio... há um número impressivo de pessoas reunidas, um palco largo e bem iluminado. A imagem vai se aproximando. O agente pensa “isso é ridículo!”, diante da constatação de que há TRONOS ali, e homens sentados neles... sete, para ser mais preciso, nos menores, e um maior ao fundo... ele quase pode imaginar para quem seja...
“Para o famoso ‘Redentor’, claro.”, morde o lábio inferior, de ansiedade e raiva. Esses calhordas!...
No centro do telão... para onde todas as atenções se convergem...
“É ELE”, o policial arregala os olhos.
Lá estão os longos cabelos vermelhos... em verdade, são longos demais! Milo tem a impressão de que podem chegar à metade das coxas... talvez aos joelhos... seria mais fácil de analisar se o farsante não estivesse de “camisola”, analisa.
Mas nãããão.
O filho da puta deve estar todo paramentado, vestido como um autêntico santo.
Ele tem o semblante sereno.
A pele clara parece se fundir na alvura das vestes brancas ricamente ornadas de dourado no peito, nas mangas e na barra. Seus olhos são de um tom indefinido entre o castanho mel e o vermelho... tornam-se verdadeiramente rubros graças aos refletores que o bombardeiam. Usando um microfone de ouvido, ele discorre, gesticulando pouco, de quando em quando alternando o tom de sua voz entre suave e profundo:
“Que a Paz do Senhor Deus Todo Poderoso, Rei dos Céus e da Terra, esteja convosco. Muito embora o dia 25 de dezembro seja uma mera convenção mundana para rememorar a data em que o Verbo se fez carne, nós a aceitamos, a bem de prestar-lhe tributos... neste dia, o meu Antecessor veio a este mundo. Gerado em um ventre imaculado, fez-se carne para que, 33 anos depois, se oferecesse em sacrifício por vocês. Jesus nasceu em um lugar humilde, despojado de conforto e riquezas. É o que gostam de dizer. Mas que conforto maior poderia ter aquele bebê senão junto ao seio da Virgem escolhida por Deus? Que riquezas maiores poderia Ele ter senão o amor de seu pai José, o reconhecimento da Natureza, as ofertas dos reis magos que o visitaram e o adoraram, oferecendo-lhe presentes dignos de nobres? Assim são vocês, reunidos neste lugar...”
A audiência vai ao delírio.
Milo fica perplexo. E ele nem tem mais motivos para ficar perplexo neste lugar...
A pregação segue por uns vinte minutos. Algo na imagem do “Redentor” parece sugar a todos, absorvê-los para seu centro.
Ao término da transmissão, o pastor Ephraim, fungando ao microfone como quem segura o pranto com galhardia, anuncia o fim do culto:
— Com esta mensagem, vinda do Salvador em pessoa, encerramos este cerimonial. Faremos uma oração...
E lá vem uma longa, longa prece, durante a qual Milo procura processar o que viu.
Até então a equipe de investigação considerava a existência do tal “Redentor” incerta. Ele mesmo acrescentou às teorias a possibilidade de todas as descrições acerca do “Messias” pessoal de Hades terem sido combinadas entre os habitantes do Vale. Ou “reveladas” a eles, tão somente, pelo suposto líder visionário.
Bom, agora sabia que de fato havia um homem se fazendo passar por um messias...
— Queridos irmãos, procederemos a partir de agora à nossa ceia de Natal, gentilmente cedida pelo nosso amado Michael Segerson. O buffet será servido no Grande Salão de Festas de nossa igreja. Uma salva de palmas para o senhor Segerson, um jovem indubitavelmente usado por Deus, desde sua chegada à nossa congregação... à nossa família santa!
Aplausos reverberam pela plateia. Sem saber o que fazer, Milo também aplaude, surpreendentemente constrangido. É incomum que se sinta constrangido. Felizmente não é necessário que o disfarce. Qualquer indivíduo humilde – que é como os filhos de Deus devem ser, aliás... – demonstraria modéstia ao ser ovacionado daquela forma. Sorri, tímido, parecendo ainda mais atraente para os “irmãos”, e, notadamente, as “irmãs”...
Ordeiros como de hábito, os fiéis se dirigem para o local de confraternização.
Ephraim deixa o púlpito pelos fundos, saindo por uma porta larga e encimada por belos vitrais, seguido por alguns obreiros e auxiliares. Caminhando pelo corredor, sente o celular vibrando no bolso da calça.
Vai até seu escritório, fechando a porta detrás de si.
Pega o aparelho: uma mensagem via WhatsApp.
Ele a abre; destituída de nome de contato, há apenas o número do qual foi enviada. Sorri, satisfeito, ao ler:
“Dados confirmados. M.S. está na lista dos candidatos para o Projeto Êxodo 2018. Bom trabalho, pastor Ephraim.”
O sorriso torna-se um riso de orelha a orelha.
Da última vez em que foi bem sucedido em enviar “uma ovelha” como Michael para o Vale, ele comprou uma bela casa na Região dos Grandes Lagos.
Desta vez seria na Califórnia, já planejava.
Porque sabia-o: não havia como o devoto senhor Segerson NÃO aceitar o honroso convite do grande Hades em pessoa...
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