Redentor
4 Messias - Ato IV : Pais e Filhos
Notas iniciais
Radamanthys diz que estou chorando.
Ele não mente.
Sou eu que não sinto.
O que MAIS eu não sinto?
Ele não mente.
Ao enxugar meu rosto, comprovo-o.
Sangue.
Mas por que não sinto?
O que mais eu não...
Eu sequer sinto que estou chorando.
Deve haver muitas outras coisas que não sinto.
Tento não parecer surpreso. Acho que dá certo, porque mais intrigado que eu está meu irmão.
“Camus, não chore. Olhe. Já passou.” Ele tenta sorrir, enquanto passa os dedos por sobre minhas faces frias. Eles ficam manchados de vermelho vivo. “Pense que o seu sacrifício trouxe muito para nossa comunidade. O pai poderá fazer muitas coisas com o generoso pagamento de Babel.”
Sim, eu sei.
Foi tudo pela Obra.
Sempre é.
Eu balanço a cabeça afirmativamente.
“Descanse. O pai disse que você ficará descansando o dia todo. Não é bom?”
“Eu quero ver o sol”, ouso dizer.
“Amanhã, que tal? Fique hoje de repouso. Será melhor.” Ele se levanta de minha cama e vai até o banheiro. Traz uma bacia com água e alguns panos. Começa a limpar meu rosto. Sei que ele limpou meu corpo enquanto eu dormia. Vejo que estou com outra roupa, uma túnica clara, não sei se verde ou azul.
“Você falava do seu sonho. Do anjo. Não conte nada para Argol. Ele não vai gostar de saber que você sonhava com um homem...”
Não era um homem, eu quero corrigir.
Era um anjo.
Eu vi as asas.
Sua face resplandecente, seus olhos da cor do céu de verão, seus cabelos que traziam os raios de sol.
Seus braços estendidos para mim... prontos para me amparar. Prontos para me... me...
“O que é que Camus não pode me contar, Radamanthys?”
Reparo, apreensivo, na presença do outro, perto da porta. Os olhos ambarinos reviram-se, desdenhosos.
“Sua presença aqui não é necessária, Argol.”, fala, desinteressado.
“E a SUA, é?”
“Pergunte a Hades. Foi ELE quem mandou que eu velasse o sono de Camus. Que o observasse até que despertasse.
Isso atinge Argol, sem dúvida, pois enrubesce, irritado:
“Observar é uma coisa. Tocar é OUTRA. Você está TOCANDO nele!”, acusa, raivoso.
“E de que outra maneira posso limpar o rosto dele?”
“Hunf. E essa agora?”, Argol cruza os braços, encostando-se na porta. Sorri de modo petulante. “Por que ele está chorando?”
“Não é da sua conta.”, solta o mais velho, sem interromper o que faz.
“Aposto que VOCÊ fez alguma coisa com ele, não tente me enganar.”
Abro a boca para refutar. Radamanthys sinaliza para que eu não o faça.
“Só se foi isso.”, insiste o mais novo. “Porque ele não teria outro motivo para chorar.”
Ele se aproxima do meu leito.
“Afinal, ele gostou, não?”
Permaneço imóvel. Ante o olhar sombrio de Radamanthys, Argol expõe sua lógica: “Ora, ele gozou, não foi? Você viu, Rada... gozou como uma cadela no cio! Viu o quanto de semente expeliu? Parecia que nunca ia parar!”, ri, ri...
Em um gesto tão repentino que nem ao menos percebo, Radamanthys empurra-o com força. Argol cai no chão como um boneco de pano.
“Seu miserável”, rosna o mais velho, “Ele chegou ao ápice por causa da DROGA, você sabe MUITO BEM disso!”
“Quem você pensa que é para me atirar ao chão como se eu fosse um lixo?”
“Você É um lixo!”
Com os olhos injetados de cólera, Argol se ergue.
“Eu vou contar ao nosso pai que...”
“Por que você acha que ele mandou que EU ficasse com Camus e NÃO você?!”
Argol paralisa ante o apontamento. Encarando-o friamente, o mais velho prossegue: “Nem Hades confia em você.”
Lágrimas grossas rolam pesadamente pelo rosto lívido de Argol.
“Você acha que é melhor que eu, só por ser mais velho, Rada?”
“Essa é apenas UMA das razões.”, ele termina de limpar meu rosto, descarta um dos panos. Com o outro seca-me a pele. O menor não se dá por vencido. Arma-se com o mais pernicioso dos sorrisos e acusa:
“Aposto que aproveitou BEM o tempo que Camus estava inconsciente... limpou o corpo dele também? Tocou-lhe as partes? Talvez tenha acariciado elas bem gostoso… bem devagar… para consolar nosso irmãozinho... talvez você tenha usado até a boca para...”
Antes que eu peça a Argol para que pare, nosso irmão mais velho desfere-lhe um potente soco. Argol choca-se com força contra a porta. Segura o nariz, de onde o sangue desce, denso e escuro.
“MALDITO! ISSO NÃO FICA ASSIM! NOSSO PAI VAI SABER DISTO!”
Radamanthys mais uma vez impede que eu fale alguma coisa. Encara o mais novo com profundo desprezo ao retrucar, despreocupado: “Fique à vontade. O que quer que ele faça comigo, terá valido a pena, só pra ver a tua cara assim.”
Injuriado, porém consciente de que jamais poderia enfrentar nosso irmão mais velho de igual para igual, Argol se retira às pressas do quarto.
Ao notar minha preocupação, Radamanthys assegura, sem perder a fleuma: “Fica sossegado. O pai não vai fazer nada comigo. Quando eu contar o que aconteceu aqui, ele vai me dar razão.”
“E se ele não der?”, murmuro, apreensivo.
Quero acreditar.
Ele parece acreditar.
Ele sorri brevemente e responde: “Se ele não der... certamente me castigará. E daí? Tantas vezes o fez e veja… aqui estou. Eu posso aguentar firme qualquer coisa. Mas... há algo que me fará enfrentar a punição com mais coragem... mais força... que vai me compensar pelas chibatadas que levei ontem...”, vai até a porta e não apenas a fecha, como passa o trinco. Engulo em seco. Vejo-o certificando-se de que a porta está trancada. Minha respiração se acelera quando ele se vira para mim, seus olhos estranhamente turvos. Volta a se sentar no colchão. Em um reflexo, ergo-me um pouco, encostando na parede fria. “Camus, vou tirar a lembrança de Babel de seu corpo. E você vai tirar de mim qualquer receio pelo que pode me acontecer. Vai me dar força para enfrentar meu castigo...”
Abro a boca para recusar seu gentil oferecimento.
Alego que estou bem. Que não me ressinto do Cerimonial da Sagrada Semente. Que nem me lembro mais de Babel, do que me fez, do que houve.
Ele acaricia meu rosto. Eu prometo interceder por ele junto ao pai terreno. Ele põe o indicador sobre os meus lábios. “Não tema, meu irmão”, sussurra. “Sabe que não sou brutal como Argol. Farei você se sentir bem... vai relaxar, você vai ver...” Insisto em negar, mas ele se inclina sobre mim e toma meus lábios com os seus. Tento me desvencilhar. Ele me segura firme, contendo-me, uma das mãos em minha nuca, a outra em minha cintura. Abro a boca para dizer que não quero, e recebo sua língua ávida contra a minha, calando-me. Efetuo um movimento brusco, libertando-me momentaneamente. Radamanthys afirma, em meio ao estranho sorriso reinante: “Seus lábios são tão doces, Camus... tão macios...” passa seus dedos trêmulos sobre eles. “Parecem um sonho. Os lábios de Pandora não se comparam aos seus...”
Eu não entendo por que Radamanthys está fazendo isso.
Ele nunca procedeu desta forma, a não ser por algum Cerimonial. Ou por um Suplício Cerimonial. Ou por uma Punição. Ou uma Penitência.
Ou...
Ou...
Não, ele nunca procedeu desta forma...
... nunca...
... nunca?
Nunca?
Eu me perco nas minhas próprias lembranças e impressões.
Vejo-o tirar alguma coisa do bolso da calça.
Estremeço ao reconhecer o que é.
Ele rompe o lacre plástico. Insere a agulha no vidrinho. Prepara-a.
Em um sobressalto involuntário tento me afastar. Meu irmão me agarra pelo meu braço, contendo-me com facilidade. Faz “shhhhh” e injeta o conteúdo na região do braço ainda roxa. Desta vez permito-me um gemido de dor. Ele me abraça, abafando com o próprio peito largo e aquecido o som que emito, sentidamente.
“Shhh. Relaxe. Não resista.”, sussurra-me a voz macia ao ouvido. “Será bom para você, meu irmão. Eu serei bom para você...”
Meu corpo fica mole, parece que meus ossos se dissolvem, que minha carne evapora. Meu coração desgoverna-se em desembestado desequilíbrio, minha visão é tomada por cores tremidas e intensas. Um calor anormal consome minhas entranhas. Eu quero gritar.
Eu quero gritar.
Eu preciso gritar.
Eu tento gritar.
Uma sombra me cobre, as nuvens negras ocultam o sol.
Seu corpo sobre o meu.
Sua boca sobre minha boca.
Suas mãos rompem os limites de minhas vestes.
Eu quero gritar.
Eu preciso gritar.
Eu tento gritar.
O som morre dentro de mim.
A invasão ocorre sem delongas.
Eu ainda balbucio em seus lábios ansiosos um patético “não”, quase tão audível quanto o bater das asas de um inseto moribundo.
A dor me consome como estilhaços incandescentes fluindo para dentro de mim.
Suas lágrimas são pérolas que se desprendem de um colar, precipitando-se sobre as que verto.
Grito.
Grito trancado no cativeiro de minha consciência.
Ninguém pode me ouvir.
Ninguém pode me...
Ninguém pode...
Ninguém.
Jamais.
*************
"Nossa família tentou tirá-la de lá. Mas todas nossas tentativas falharam miseravelmente. Nas primeiras vezes em que tentamos, indo até lá... eles nos diziam que ela não queria falar conosco. Que não queria sequer nos ver...!", Dizia a mulher, chorando. Até aquele instante, ela tentara conter o pranto diante das câmeras. No entanto, uma vez que cedera a ele, não mais conseguiria parar. "Depois conseguimos que policiais nos acompanhassem até a entrada do Vale da Aurora Dourada. Levavam uma ordem judicial para que meu pai e eu pelo menos conseguíssemos vê-la... que pelo menos pudéssemos falar com ela. Quando ela chegou... meu Deus... ela... estava tão diferente! Tão magra, tão abatida! Estava muito queimada de sol, sua pele tinha manchas, estava repuxada... era outra pessoa... tão diferente da mulher elegante... bonita que era! Tinha um olhar doentio, perdido, mas não parava de sorrir... de dizer o quanto era feliz naquele lugar... de dizer como a amavam e como ela era feliz ali! Disse que só lá havia encontrado a paz que nunca havia encontrado conosco... e que... eu e meu pai deveríamos ir embora... que queríamos separá-la do Messias que vivia lá com ela... isso... ela dizia que o Messias ESTAVA LÁ com eles... e que NINGUÉM a tiraria de onde o Messias estava... e... e... d-desculpe..."
A pobre entrevistada não pôde continuar. A emoção a engolfara, impossibilitando-a.
Milo pausou o vídeo, anotando o nome “Ellen Schmidt” abaixo do quadro escrito “Messias”.
Estivera nos últimos dias assistindo a tantos vídeos quanto conseguisse, relacionados à Igreja Aurora do Novo Porvir, notadamente os documentários, matérias televisivas, arquivos da polícia, noticiários, gravações de inquéritos e de interrogatórios.
Abriu outro arquivo de vídeo em seu notebook. Pousou o papel em que estivera a rabiscar em cima de outros espalhados sobre a mesa. Agora na tela surgia um casal de quase idosos. A mulher mantinha o olhar baixo. Torcia as mãos acima dos joelhos durante a filmagem. Já tinha visto aquele; avançou o vídeo até os 9 minutos, quando surgiu a imagem de um jovem em seus 25 anos. Sorridente, cabelos curtos loiros, olhos azuis pálidos, com piercing no septo.Verificou o nome. Anotou-o. Continuou.
“... ele era a luz da nossa vida, entende? Eu… eu me sinto mal em dizer ‘era’. Fica parecendo que ele morreu. E... e embora sequer saibamos... acreditamos que não. Mas é que faz tanto tempo... ele não voltou mais para nós. Não depois de ter fugido de volta para aquele lugar amaldiçoado...”, contava a senhora, valentemente segurando as lágrimas que faziam seus olhos azuis cintilarem.
“Você entende, ele é homem crescido. Tem 32 anos hoje... o que a polícia pode fazer, arrancá-lo de lá à força? Quando ele mesmo retirou a queixa e... e... manifestou apoio à causa de Hades? E quis voltar para o Vale?”, relatava o senhor, entre triste e indignado. “Tivemos sorte em ficar com esta casa. A dele... o carro... tudo... tudo ele entregou a ELES...”. Fotos do rapaz com os pais menos envelhecidos em uma festa de Natal, outra com todos participando de um churrasco em um belo jardim, à mesa com outras pessoas, outras na praia, cenas de uma extinta vida familiar passavam, à medida que a narração do programa prosseguia: “Em 2012, Harold Reynolds, então com 27 anos, é encontrado por guardas rodoviários em uma estrada a caminho do Maine. Estava desorientado e ferido, mal coberto por andrajos malcheirosos. Desnutrido e desidratado, foi levado ao Hospital Central do Maine. Harold contou acerca da comunidade religiosa na qual ingressara dois anos antes. Havia fugido de lá, e os médicos divulgaram um laudo, atestando que o rapaz sofrera torturas. Harold relatou ter sofrido privação do sono, espancamentos punitivos, confinamento por dias, além de ter sido obrigado a trabalhar como escravo. Um inquérito policial foi instaurado, representantes da Aurora do Novo Porvir foram chamados a depor. Surpreendentemente, semanas depois, Harold retirou todas as queixas, alegando ter tido surtos psicóticos. Os pais confirmaram que o rapaz havia passado por tratamento contra depressão pouco antes de se converter à igreja. Dois meses, Harold deixou a casa dos pais e voltou para Grayville, província onde se localiza a comunidade Vale Aurora Dourada. Deixou apenas uma carta, explicando que o ‘Redentor’ lhe chamava de volta ‘ao verdadeiro lar’...”
Novamente, Milo pausou o vídeo. Fez mais algumas anotações. Colocou as mechas caídas pelas laterais do rosto atrás das orelhas. Maximizou um arquivo, uma transcrição de uma audiência de 2015, onde, em um dos parágrafos selecionados, se lia “Mencionam a presença de um jovem tido pelos moradores da comunidade como “um novo Messias”, ou simplesmente, “o Messias”, sobre o qual é falado nas igrejas da Aurora do Novo Porvir. De acordo com a doutrina criada pelo líder Hades, ele seria a reencarnação do Cristo bíblico, que nesta era escolheu a dita igreja para empreender o plano divino de salvação.”
— Que loucura – murmurou, finalmente escolhendo prender os cabelos em um rabo de cavalo. Continuou a leitura. “Sob assessoria de Hades, o dito “Redentor” jamais deixa a comunidade onde vive, e sobre ele não há maiores detalhes. Não se conhece nem a idade nem a real identidade do suposto ‘messias’. Informações convergem para as mesmas e escassas descrições; tratar-se-ia de um homem jovem, sereno, pacato, de longos cabelos vermelhos, que chora sangue durante algumas das raras aparições diante dos fiéis...”
“Bem, as ‘fábricas de messias’ quase sempre nos mandam caras cabeludos, agora, que choram sangue... essa é nova. Um truque cretino e pra lá de amador, por certo.”, pensava. Sentiu-se tentado a pegar uma cerveja na geladeira... contudo, são apenas nove da manhã daquele sábado especial... e ele espera a chegada de alguém ainda mais especial.
Não vai botar tudo a perder. Hoje não.
Ele volta às filmagens.
Uma mulher negra de turbante colorido, com um sorriso luminoso, diz para a câmera: “O Redentor prepara neste momento o paraíso para o qual nós, que nele cremos, iremos muito em breve. Vocês, que se apegam a este mundo corrupto, riem de nós. Mas quando estivermos lá, com ele, com o senhor Hades e todos os irmãos que compartilham da fé e do amor por Ele abençoado... vocês estarão chorando. Eu cedi à tentação do demônio, e estive prestes a trair o Redentor, mas ele me chamou de volta. Ele é só amor, paz, pureza, quando ele surge, é como se a Terra ficasse mais próxima do Céu. Rezarei por vocês, todos os dias...”.
Sharon Luback. Deixara emprego, família, filhos. Deixara tudo na vida... em busca de outra vida... em vida.
Outra que escapara da comunidade, mas que, pouco tempo depois, para lá retornara.
Milo coçou o queixo... devia ter feito a barba. Bem, depois. Refletia em como suas impressões sobre o terreno que sondava há algumas semanas tornavam-se menos fixas.
Quando começou a frequentar os cultos na igreja, considerava os frequentadores apenas uns cidadãos patéticos, pelo menos a esmagadora maioria. Pessoas que se deixavam levar por arroubos sentimentais de uma fé a seu ver, “idiotizadora”. Julgavam-se “os escolhidos”, acreditavam piamente naquele teatro de alegria e entusiasmo, tão decididos a fazer daquele local um “lar” no qual suas crenças ferrenhas constituíam os únicos laços.
Somente ali encontravam o real, verdadeiro e necessário abrigo para a vida “no mundo”.
Os vídeos, as conversas com Saori, as leituras e pesquisas, mostravam-lhe uma faceta diferente. Embora nada mudasse substancialmente... HAVIA diferenças.
Pessoas estavam a sofrer por conta de manipuladores mentais.
Estes tinham o trabalho de mudar a mente daquelas pessoas de tal forma que, mesmo longe do alcance da seita, continuavam sob seu irremediável poder.
“O ‘messias’, pela lógica, deveria ser Hades. O padrão costuma ser esse... se ELE é mentor espiritual da seita, porque deixaria outro ser o ‘Redentor’? E quem é esse calhorda que se faz passar pelo novo ‘Jesus’?”, o loiro encostava o dedo mindinho nos lábios, intrigado. “Geralmente o cara que inventa a seita é que se proclama o ‘Salvador’ da porra toda. Hades obviamente vê mais vantagem em fazer outro cara ser o reverenciado. Agora POR QUÊ... vejamos... descrito como calmo, pacato... fala pouco... cabelos longos vermelhos, chora sangue... caralho, parece personagem de filme de terror. ".
Que não existissem fotos era bastante compreensível.
Já se fazia notória a proibição de quaisquer aparelhos eletrônicos por parte dos fiéis. TV, rádio, computador, celulares, máquinas fotográficas. Isso sim, era bem padrão. Mas a polícia não conseguir obter um retrato falado sequer... as testemunhas simplesmente travavam.
Bem, as descrições eram o de menos.
“Lá eu vou saber quem é o filho da puta.”
Isso era certo.
Escrevia em um papel:
“Harold Richards, programador visual; fugiu da comunidade e voltou para lá.
Sharon Luback, engenheira química; fugiu da comunidade e voltou para lá.
Maria Hernandez, professora universitária; fugiu da comunidade e deixou o país. Paradeiro atualmente desconhecido.
Anthony Oliver, vendedor de carros. Sob ordem judicial, deixou a comunidade e deixou o país. Paradeiro atualmente desconhecido.
Alicia Yamamoto, diretora de uma galeria de artes. Fugiu da comunidade. Em tratamento psiquiátrico, não dá entrevistas. Retornou ao país de seus pais, Japão.
Kevin Armstrong, fazendeiro. Sob ordem judicial, deixou a comunidade. Cometeu suicídio na noite em que depôs contra a comunidade. Pedia perdão ‘pela traição’ na carta de despedida. Repleta de símbolos...”
Diferentes vidas.
Diferentes ocupações.
Diferentes realidades.
Cada um proveniente de uma parte do país. E suas descrições acerca do “messias” coincidiam, como que combinadas.
Combinadas...
“Talvez esse cara nem exista. Uma estratégia de Hades de tirar ‘o dele da reta’. Se entrassem em contradição, daria merda, a historinha dele seria desacreditada nas filiais de sua igrejinha. Combinaram algo fácil de ser lembrado. Tanto pela simplicidade quanto pelo exotismo da figura, o que é paradoxal... por isso mesmo, fácil de ser lembrado... e principalmente por essa...”
O som da campainha quase fez o loiro ter um ataque do coração! Levou a mão ao peito, praguejando “porra...”, pelo susto. Levantou-se da escrivaninha, irritado. Fechou a porta do escritório girando a chave duas vezes. Foi atender, sem ter dúvida de quem era.
— Oi, Natassia! Oi, filhão!
— Oi, Milo, bom dia...
— Por que o porteiro não interfonou anunciando a chegada de vocês?
A ex-mulher fuzilou-o com o olhar ao responder:
— Talvez porque considere desnecessário avisar a um pai da chegada do FILHO. Atrapalhamos?
—Quê? Não! – Ele riu, nervoso. – Não é isso... é só que eu tava ocupado no escritório, tão concentrado no trabalho que acabei me assustando com a campainha!
Hyoga mantinha-se quieto, ora olhava para o pai risonho, ora para a mãe séria.
— Você, trabalhando em um sábado? E a esta hora da manhã? E sem cheirar a bebida? É... milagres acontecem... frequentando alguma igreja?
Natassia achou que Milo riu mais do que o necessário. Quando ele conseguiu parar, suspirou:
— Aaaah, o salutar sarcasmo da ex-senhora Hatzis! E aí, querem entrar? Tomar um café? Faço umas panquecas...
— Não, obrigada. Shura está me esperando no carro.
— Certo. – Milo resistiu ao ímpeto de perguntar aonde iam. Seria uma pergunta casual, contudo a russa poderia não entender dessa forma.
— Milo, por favor, não fique entupindo o menino de açúcar, sim?
— Beleza... – tentou não dar importância àquela ridícula recomendação. Preferiu afagar os cabelos loiros do garotinho, delicadamente anelados até os ombros. – E aí, rapaz? Pronto pro sabadão?
O pequeno deu de ombros, fazendo-se de desinteressado. Natassia abaixou-se, deu-lhe um beijo no rosto e ajeitou-lhe a mochilinha. Pôs-se ereta e dirigiu-se um tanto seca ao agente:
— Bem, eu passo pra pegar ele amanhã à noite e...
— AMANHÃ à noite? Você diz... domingo à noite?
Fitando-o longamente, como que perplexa, demorou a confirmar:
— Sim. Domingo. Algum problema? Ou devo acreditar que você se esqueceu de que dia é amanhã?
— Eu... ah... Natassia. Amanhã... eu tenho um compromisso amanhã. Começa meio cedo mas vai até... droga, não posso ficar com o Hyoga amanhã.
— Milo, você se prontificou a ficar com o Hyoga neste final de semana. Pelo que me lembre, finais de semana são compostos de SÁBADOS e DOMINGOS.
— Eu sei! Mas é que...
— Se nós te incomodamos tanto assim, podemos...
— ESPERA! Para. – O tom de súplica fê-la parar. – Para... deixa eu explicar. Eu vou ter que TRABALHAR em alguns domingos... – Achou por bem omitir que seriam TODOS.
— Trabalhar aos domingos? – Inquiriu, em voz baixa, para que o filho não escutasse. – Alguma investigação?
— Coisa do tipo. – Lançou um olhar ao garotinho, que adentrara o apartamento, indo diretamente para o grande sofá vermelho. Ali se espalhou e pôs-se a jogar, o que já estava fazendo no caminho, dentro do carro.
Desde os tempos de casados, Milo e Natassia haviam decidido não contar nada sobre a verdadeira profissão do pai ao menino. Pelo menos, até que fosse maiorzinho. Era o tipo de ocupação que demandava sigilo, e temiam que Hyoga partilhasse com coleguinhas de escola acerca da mesma.
Mais por resignação do que por compreensão, a loira ofereceu:
— Tudo bem, posso vir buscá-lo à tardinha... umas 17 horas, pode ser?
— Não precisa ser hoje, deixa ele passar a noite aqui. Faz tanto tempo que não passamos a noite juntos...! Vamos fazer uma sessão de pizza e filmes de ação.
— Nada de terror, Milo, Hyoga fica tendo pesadelos depois. E vê se ao menos pede uma pizzas sem tantas porcarias.
— Que porcarias?
—Cheddar, bacon, linguiças fritas, essas coisas. – Suavizou a expressão. – E vê se não bebe demais perto dele. Fumar, nem pensar.
— Eu parei de fumar tem mais de três anos, você sabe disso!
Ela deu de ombros, sequer cogitando em se desculpar.
— Venho amanhã cedo.
— Nove horas está bom. – Sugeriu o agente.
— Combinado.
Eles se olharam, incertos sobre como deveriam se despedir. Por fim, Natassia acenou para o filho, concentrado no jogo:
— Tchau, meu amor, comporte-se, viu?
Sem tirar os olhinhos da tela por mais que dois segundos, o menino acenou de volta. Natassia virou-se para partir.
— Até amanhã. Qualquer coisa, me liga.
— Até amanhã. – Milo quase falou “divirta-se”. Escolheu algo menos pessoal: – Tenha um bom sábado.
Fechou a porta de mogno escuro, trancando-a. Foi até o pequeno, entretido com o game.
— E então, filho? Que tal umas panquecas de chocolate com leite?
— Eu tomei café da manhã antes de sair de casa. – Respondeu, compenetrado no que fazia.
Sentando-se ao lado da criança, Milo tentou não se incomodar com aquele “pouco caso”.
— Legal, então podemos decidir pra onde vamos. Tá um dia lindo lá fora.
— Não precisamos sair.
— Como assim? – Riu Milo, disfarçando o estupor. – É um crime desperdiçar um dia de verão em Red Meadow. A cidade tá cheia de coisas legais pra se fazer.
— Hum. – Fez o loirinho, desinteressado.
— Que tal irmos ao parque de diversões que montaram no Lansing Park?
— Shura me levou lá no domingo passado.
— Ahn. E você gostou?
Hyoga balançou a cabeça em uma afirmativa obstinada. Continuava sem mirar o pai. Este, que não era homem de desistir facilmente, pretextou animação:
— Bem, se você gostou tanto, quem sabe não queira ir de novo...
— Não.
— OK. – O sorriso permanecia, firme e forte. – Hã... eu soube que chegou um panda no zoológico municipal. Quem sabe...
— Isso tem tempo. Shura me levou no dia em que o panda chegou. Teve festa e tudo.
— Shura está me saindo um excelente padrasto! – Brincou.
Os olhos claríssimos do garotinho abandonaram a tela, cravando-se, críticos, nos turquesas do pai.
— Ele é legal.
Milo sentiu-se estapeado. Forçou novo sorriso:
—Eu sei! E isso é ótimo, né?
Sem esboçar reação, Hyoga voltou a mirar seu game. Coçando a cabeça, o agente prosseguiu na empreitada à qual se lançara:
— Hãã... podemos ir ao Centro Esportivo jogar futebol...
— Eu não jogo futebol.
— Não?!?
— Não.
— Não sabe jogar? Ora, por isso não, eu posso começar a te ensinar a...
— Não. Eu NÃO GOSTO de futebol. – Hyoga interrompeu, franzindo o cenho.
— Não gosta de futebol?!? Desde quando?
—Desde sempre.
—Isso pra um guri de 8 anos não é muito tempo. – Riu; ao notar que o filho mantinha-se sério, eliminou o riso. Cruzando as pernas e com ar displicente, o policial quis saber:
— Tá legal, de que esporte você gosta... ATUALMENTE?
O pequeno considerou-o, com ar maduro demais para seus oito anos.
— Patinação no gelo.
— QUÊ? – Milo tentou prender o riso, sem muita efetividade. – Tipo aquelas coisas de “Disney On Ice”? “Holiday On Ice”?
—Não! – Hyoga franziu as sobrancelhas, enfastiado. – Patinação no gelo “normal”. Nunca viu?
—Confesso que não... taí algo difícil de se fazer a esta época... hehehe...
— No início do ano, patinei bastante com a mamãe e com o Shura em Nova York.
— Puxa, deve ter sido divertido – Comentou, ocultando a amargura. No início do ano, ele estivera em Las Vegas, bebendo, jogando, e pegando tantas mulheres quanto podia. Foi sorte não ter se casado com nenhuma delas, dada a quantidade de vezes em que perdeu o limite...
— Foi sim... – um discreto sorriso enfim surgiu no rostinho rechonchudo. – Foi engraçado... Shura tava morrendo de frio! Ele é friorento como uma velhinha doente! Tá, tava frio pra caramba mesmo, mas eu e a mamãe nos viramos bem. Fazíamos bolas de neve e jogávamos no Shura. Ele fingia que tinha morrido congelado. Eu ria tanto que a minha barriga doía!
Tornou-se REALMENTE custoso a Milo sustentar o sorriso. Este arrefecia a cada demonstração de alegria do filho, despertada por lembranças das quais não participara...
— Que legal, filho. Imagino que deva ter se divertido bastante na Espanha também, com ele e com sua mãe...
— Lá é bonito. – Foi tudo que disse.
— Outra hora você me conta. – Erguendo-se de súbito, o policial decidiu, estalando os dedos: – Já sei, vamos à praia!
— Eu não trouxe sunga.
—A gente compra em alguma loja no caminho. Vamos lá?
Hyoga assentiu, sem vontade alguma.
— Legal! – Animou-se Milo. – Vou me trocar e a gente já sai, tá bom?
O menino não respondeu mais. Voltou a prestar atenção no jogo. Preferia continuar ali, jogando, no ar condicionado, mas...
Suspirou, pensando em como seria bom se começasse a chover de repente…
*************
Milo não era homem de passar despercebido em algum lugar. Seus 1,85m de altura, 84kg distribuídos em um corpo proporcionalmente forte e vigoroso, bronzeado que contrastava com os olhos muito azuis e os longos cabelos loiros que iam-lhe até a cintura cuidavam de grande parte das atenções que despertava.
Tanto mais na praia, trajando sungão preto, corpo molhado dos recentes mergulhos. Não havia quem não dispensasse uma olhada no belo jovem, mas, a despeito dos olhares provocantes que vez ou outra trocava com lindas moças que passavam, sorrindo para ele, naquele dia sua atenção concentrava-se na presença do filho, que enchia-o de alegria.
Haviam acabado de voltar das límpidas águas da praia de Red Meadow. Tinham nadado juntos; o agente levara-o para o fundo, a fim de fazê-lo praticar em um ambiente mais autêntico que a piscina do clube onde Hyoga fazia natação duas vezes por semana. A princípio sustentando a pretensa indiferença que dispensara ao pai desde que o encontrara, pouco a pouco o menino foi substituindo as falas lacônicas por exclamações mais empolgadas... risos até. Acabou por render-se a conversas mais longas com o pai. Assessorado por este, dava braçadas nas variadas modalidades de nado, extasiado com o céu sem nuvens, povoado de gaivotas graciosas. Era tão boa aquela sensação de liberdade, ser recepcionado pelo mar, pela natureza ... sua mãe nunca lhe permitia que fosse nadar no fundo, mas seu pai estava ali, a seu lado, enunciando palavras de apoio, somente sendo segurado por ele quando manifestava necessidade. Assim que tomou confiança, o menino permitia-se adentrar em um mundo masculino ancestral, diferente do companheirismo pacato que experimentava com o namorado da mãe. Começou a querer impressionar o pai, a mostrar que podia! Por sua vez, Milo maravilhava-se por estar a sós com o filho, por vê-lo animado, determinado, cheio de vida... desde a separação experimentara poucos momentos semelhantes. Ultimamente, nem mais ocorriam... ambos riam, de deliciavam, nadando cada vez mais distante da costa.
— Agora chega de moleza! Vamos ver se essas suas aulas de natação estão valendo de alguma coisa... sabe o que quero dizer, né, moleque?
— CORRIDA DE NADO! – Gritou o loirinho, eufórico.
— Mas escuta bem: sentiu o pé ou a perna formigar, sentiu qualquer coisa esquisita, grita a palavra-chave.
— E qual é a palavra-chave?
— “PAI”!
Combinadas as regras, eles se lançaram à divertida disputa.
Obviamente, Milo nadava bem mais devagar do que realmente poderia... mas a criança não precisava saber daquilo.
Brincaram a valer; o policial achou que o filho resistia bem àquela prova física. Seria um grande nadador! Até que ouviu-o gritar:
—PAI! PAAAI!!!
Alarmado, Milo lançou-se como um torpedo na direção do menino; agarrou-o com firmeza, controlando o pavor, sentindo os bracinhos de Hyoga lhe envolverem prontamente o pescoço. Indagou, apavorado:
—Que foi? Sentiu alguma coisa?
Hyoga encarou o pai e, enrubescendo, sorriu, levado, ao responder:
— Senti. Vontade “disto”.
Milo piscou seguidamente, processando o significado do ato. Emocionou-se quase às lágrimas. Riu, feliz, brincando com o garoto:
—Ah, seu sem vergonha!
— Você que é. Nadando devagar só pra fingir que não me vencia. – Gargalhou maroto.
O agente fez-se de ofendido:
— Quê? Posso saber o que te faz duvidar do seu pai, hein, moleque?
— Pô, tu tava nadando que nem uma tartaruga velha, daí eu grito “pai” e tu vem nadando que nem um tubarão branco... – Ria, agarrado ao pescoço do pai.
— Só por causa dessa insubordinação, você será rebocado até a areia, marujo. Tá condenado a comer o que quiser, porque tô com fome de tubarão branco agora...
Ao deixar a água, pôs Hyoga sobre os ombros, segurou-o bem pelos antebraços e correu pela areia, grunhindo:
— GRAAAAAUU, GRAAAAAU...
O menino dava tantas risadas que as emendava em risinhos. Milo rodopiava-o, fingia que o deixaria cair, voltava a levantá-lo no ar...
Há quanto tempo não via o filho rir tanto com ele... e para ele!
Sentaram-se nas cadeiras protegidas pelo grande guarda-sol, fincado na mesa onde haviam deixado seus pertences. Milo fez sinal a um dos funcionários do restaurante ao qual pertenciam as mesas e cadeiras.
— Rapazinho, salvar sua vida realmente me deu fome...
— Eu posso pedir o que eu quiser mesmo?
— Se for cerveja, só daqui a 13 anos.
— Eu quero um cheeseburguer triplo com bacon, ovo, picles e molho picante.
Impressionado, Milo ergueu uma sobrancelha. Hyoga logo explicou, erguendo os ombros e fazendo bico:
— A mamãe não me deixa eu comer essas coisas...
— Então é melhor não comer. – Não lhe pareceu adequado burlar ordens de Natassia. – Vamos pedir algo mais leve e...
— Aaaaaaaah, PAAAI, POR FAVOOOR...
— OK, OK, só desta vez! Até porque ouvir você falar disso me deu vontade...
— Eu não conto nada pra ela.
— Eu não te pedi nada. – Malgrado considerasse uma infração, orgulhou-se de ser digno daquela cumplicidade.
Milo fez o pedido; enquanto aguardava, abriu uma soda – resistira ao ímpeto de pedir uma cerveja. Afinal, estava dirigindo. E com o filho. Já havia dado a Hyoga estoque de maus exemplos para toda uma vida...
— Aqui. – Deu um refrigerante ao garotinho.
— Valeu. Pai...
— Hum.
— Eu gosto muito do Shura...
Pego de surpresa com aquela declaração, o policial chegou a parar de sorver a bebida.
— ... mas você também é legal. Que pena que parou de gostar da mamãe.
O coração de Milo comprimiu-se no peito.
— Por que os adultos param de gostar das pessoas? – Não havia qualquer ressentimento no tom, apenas curiosidade infantil. Pelo menos... aparentemente. – Aconteceu a mesma coisa com os pais do Bryan, lá da escola. E com os pais da Kate também...
— Não posso afirmar pelos pais dos seus coleguinhas. Mas imagino que tenha acontecido o mesmo que aconteceu comigo e com a sua mãe. A gente... a gente não se gostava mais do mesmo jeito que se gostava no início do casamento, sabe... – Preferiu omitir a informação de que nunca amara Natassia.
Talvez um dia revelasse. Por ora, considerava Hyoga novo demais para saber como tudo se deu.
— E de mim? Você deixou de gostar também?
— Hyoga...! Não! Não, não! Você é a coisa que eu mais amo no mundo! Você é MEU FILHO! Como é que um pai deixa de amar um filho?
— Deve ter pai que não gosta do filho.
— Pois NÃO é o meu caso, ouviu bem, rapazinho?
O loirinho deu um sorriso tímido. Milo ajeitou-lhe as mechas úmidas para trás, e pôs sobre sua cabeça um boné do Batman.
— Escuta, filho. Talvez você não se lembre. Mas a sua mãe e eu... a gente tava brigando todo dia. Não era um ambiente legal pra você crescer, entende? O marido e a esposa... quando chegam a esse ponto… preferem viver separados. É triste para os filhos ficarem vendo briga, confusão todo dia.
— A mamãe dizia que você fazia muita coisa errada.
— Dizia, é? Como o quê?
— Que você bebia muito. Que passava noites fora de casa. Que tinha outras mulheres.
— Ela te disse isso? – Sentiu-se pesaroso.
— Não pra mim. – Puxou a soda pelo canudinho. Terminando de beber, lambeu os lábios e prosseguiu, neutro. – Eu ouvia ela falar isso pras pessoas. Pro vovô e pra vovó. Pro Shura também. O Shura é legal. Ele não faz essas coisas com ela. Acho que é por isso que ela parou de falar dessas coisas.
— Verdade. Ela finalmente está feliz. E quando as pessoas estão felizes, não falam mais do que as deixava tristes. – Esboçou um meio sorriso, disfarçando seu remorso.
— Agora você vai trabalhar domingo, é? Nunca vi ninguém trabalhar domingo.
Sem saber se o filho mudava de assunto por perda de interesse no tópico de então, limitou-se a responder:
— Vou sim... mas tem muita gente que trabalha aos domingos, Hyoga. Os caras aqui do restaurante, por exemplo. Do parque a que você foi. Do zoológico...
— Ah, é mesmo.
— Tem outra coisa... se tudo der certo no que estou fazendo... eu... eu vou ter que ficar um tempo fora, Hyoga. – Pensou rapidamente – Viajando.
— Vai viajar? Pra onde?
—Viagem de negócios. Ainda não sei, vai depender de como tudo vai se sair lá na empresa. A gente vai ficar um tempo sem se ver.
— Por quanto tempo?
—Não sei. Mas eu vou fazer o possível pra resolver as coisas bem rapidinho e voltar logo.
— Deve ser legal! Eu adoro viajar. Queria voltar lá “na” Espanha!
— Queria, é?
— Olha, pai, a comida tá chegando! – Animou-se, vendo o garçom se aproximar trazendo uma bandeja com os sanduíches enormes.
Milo pediu mais duas sodas para acompanharem o lanche.
Ter adiantado a Hyoga a provável ausência futura semeou nele uma estranha apreensão.
Supondo que conseguisse receber o chamado para se juntar aos habitantes do Vale da Aurora Dourada... por quanto tempo ficaria lá?
E o que presenciaria?
Lembrou-se das pessoas que estiveram na comunidade.
O que relataram. O que lhes acontecera.
— Huum! Tá gostoso, pai!
— Não come muito rápido que faz mal.
Pensou nos últimos dias, em que vinha frequentando a igreja, sob a identidade de “Michael Segerson”.
Pensou no dia seguinte.
Precisava ser um excelente candidato. Precisava ser um dos “escolhidos”.
E certamente, se dependesse de sua determinação... ele seria.
*************
Faz calor.
Tanto calor que a natureza se reserva ao direito de estar preguiçosa, lassa.
Não há borboletas pousando nas flores, cujas pétalas assemelham-se a pinturas: imóveis, estáticas.
As folhas das árvores igualmente recusam-se a se mover, banhadas pela claridade inclemente do meio-dia.
Eu acho que é meio-dia.
Sei que quando o sol situa-se no centro do firmamento é meio-dia.
E as sombras escasseiam-se.
Debaixo de um frondoso carvalho contemplo com admiração as maravilhas criadas pelo meu Pai Celestial. Algumas libélulas travessas desafiam a morosidade que impera. O canto de uma cigarra desata, absoluto, rompendo o silêncio desta tarde quente.
Fecho meus olhos.
Entrego-me a uma prece.
Por um tempo, não ouço mais nada.
E assim entro pelas horas vespertinas.
Até que sinto uma presença. O partir de uma folha seca sob o pé de quem se aproxima.
Abro meus olhos.
Vejo meu pai terreno diante de mim.
A despeito de sua pele clara e de suas vestes escuras, ele parece não se incomodar com o sol forte sob o qual se detém, me observando. Calmo, ele diz: “Fiquei sabendo que você não se alimentou de novo.” “Não tive fome.”, tento me justificar.
“Alguma razão específica para recusar a comida?”
Não lhe entendo a pergunta. Percebendo-o, ele se faz mais claro: “Alguma coisa lhe tirou o apetite? Porque hoje não é dia de você fazer jejum. Você só deve ficar sem comer em dia de jejum, Camus. Achei que isso fosse óbvio.”
Há uma discreta reprimenda na fala pausada, tranquila.
Em seu semblante amoroso.
Eu não posso mentir.
Mas como explicar o que não entendo?
Quando tento pensar... é como se tudo se misturasse. Sinto as pálpebras pesadas.
“Por acaso você se ressente de algo, Camus?”
Estremeço de leve. Mas acho que ele não percebe. Miro-o, sem saber como responder.
Temo que ele desvende meu mutismo.
“Ressente-se do Cerimonial de ontem?”
Contraio os lábios.
Eu não posso mentir.
Meu pai terreno não desistirá com minha evasão.
Minha cabeça move-se em uma breve afirmativa.
Ao contrário do que imagino, ele não me repreende, nem me estapeia. Antes sorri. Estende a mão para mim, conclamando a que eu me levante.
“Venha.”
Obedeço.
De pé, sou por ele encarado de modo enigmático. O pai terreno se vira para Capella, que me vigiava a uma certa distância. “Desligue. Ele vai dar uma volta comigo."
Seu auxiliar manuseia um pequeno aparelho, cuja função conheço bem. Cuidadoso com o dever, Capella não se furta a indagar: “Senhor Hades, quer que eu os acompanhe ou...”
“Não, não é preciso. Não iremos longe.”
Em um volteio elegante, meu pai terreno retira-se, tomando o caminho que devo seguir. Acompanho-o, tentando não mancar. Aprumo a postura, ignorando a dor residual, ocupando-me em inspirar o ar puro.
Caminhamos silenciosamente por um bom tempo. As clareiras dão lugar a espaços cerrados. O terreno vai se elevando. Continuamos, gravetos esmagam-se ruidosamente sob nossas sandálias de couro.
Subimos, subimos e subimos.
O suor desce abundante pelo meu rosto. Quando passo a mão sobre ele, arde bastante.
Levanto a barra da túnica.
Facilita e refresca.
Subimos até que não há mais o que subir.
Do cume, uma estonteante vista se descortina. Montanhas cor de musgo cerceam a floresta, que se abre em um vale tomado pela luz dourada do sol. Pode-se ver, mescladas ao verde dominante das planícies, inúmeras pessoas trabalhando no campo. Ofegando, enxugo o suor de minha fronte, faces, pescoço. Curiosamente, não há uma única gota de suor por sobre o rosto do meu pai. Sua respiração não está nada alterada, sequer suas narinas abrem-se mais que o normal.
“Está vendo lá, Camus? Sabe o que as `ovelhas` estão fazendo?”
Faço que sim com um gesto.
“Nesta vasta propriedade há variadas lavouras. Cultivam arroz, milho, feijão, batata, abóbora, ervilha, nabo, cebola, cenoura, repolho... os fiéis passam o dia todo trabalhando, dando o seu melhor, muitas vezes debaixo de sol escaldante, como agora, ou da chuva intermitente... para produzirem o alimento que VOCÊ tem se recusado a consumir.”
Envergonhado, abaixo o olhar. Ele continua: “Todos trabalham em prol da comunidade. E é ASSIM que você os ama. É ASSIM que você se importa com eles. Rejeitando a oferta de seu suor.”
Ergo o olhar do chão e dirijo-o a eles, distinguindo-lhes parcos movimentos, orquestrados como de um bando de aves no céu.
“Há também os que neste momento cuidam dos animais que serão abatidos para abastecerem o SEU prato. Tiram-lhes o leite. A carne. Ovos. Tudo que puderem. Para que VOCÊ se recuse a comer."
A culpa impede-me de proferir qualquer coisa.
Eis que tanto seu olhar como tom tornam-se abertamente severos: “Há consequências desfavoráveis dessa sua egoísta recusa. Uma delas verificou-se ontem mesmo: a fraqueza, acarretada por esses jejuns não prescritos, fez você perder a consciência durante o Cerimonial da Sagrada Semente. Está se debilitando dia após dia, e por um capricho infantil.”
Lembro-me da ordem dada a Radamanthys.
Lembro-me das palavras de Radamanthys em meu quarto.
Eu nem percebo quando digo: “Senhor meu pai, creio que meu desmaio tenha sido decorrente do aumento da dosagem do remédio que Radamanthys me deu para...”; sou impedido de continuar, pois a mão direita de meu pai fecha-se firmemente em meu pescoço. Aperta-me. Ele franze o cenho, colérico. “Não ouse me contestar, Camus!”, vocifera, suas íris evocando profundezas que temo.
Abro a boca em busca do ar que me é retido. Instintivamente, levo minhas mãos ao braço de meu pai, porém consigo refrear o impulso de segurá-lo.
De impedi-lo.
De afastá-lo.
“Mesmo JESUS CRISTO prestou respeito e obediência ao Seu pai José! Você não tem por que ser diferente, Camus!”
Ele me solta, bruscamente. Cambaleante, ofego, mantendo-me em pé com dificuldade. Levo minhas mãos ao pescoço, buscando por ar. Começo a tossir, sentindo o ardor das lágrimas que luto para prender.
Quero dizer-lhe que não tive a intenção de afrontá-lo.
Só que meus lábios ficam selados.
Estou confuso.
Tão confuso.
Tão cansado.
Escolho o silêncio.
O silêncio é sempre o melhor abrigo.
Agora ele acaricia os meus cabelos. Puxa-me para um abraço. Murmura, docemente, ainda me acariciando: “Nem mesmo o seu Antecessor foi deixado sem a assistência de um pai em sua primeira vinda. Que teria sido Dele sem a presença do bom, sábio e virtuoso José? Foi de Seu pai que recebeu os ensinamentos primeiros... só então saiu pelo mundo, para cumprir sua Missão. Para empreender a Obra pela qual ele veio a esta terra.”
Com um murmúrio abafado, mostro que concordo.
Sei que ele não falará sobre Maria.
Ele nunca fala sobre a mãe de Jesus.
Maria...
Maria.
Tanto para mudar de assunto quanto para sanar uma dúvida que me rondava, enuncio, tímido:
“Senhor meu pai... hoje pela manhã, Argol... por um acaso...”, ele antecipa o que eu ia perguntar e sorri, afagando-me pelos ombros tensos. “Sim, ele veio até mim, reclamar de Radamanthys. Não lhe dei ouvidos. Fui EU quem mandou Radamanthys cuidar de você. Se Argol, que não tinha nenhuma ordem de ir até os teus aposentos, saiu de lá daquele jeito, é porque mereceu. Radamanthys te defendeu.”
Mordo o lábio inferior, concentrando-me na sentença “Radamanthys te defendeu.”
Meu coração é carcomido por uma tristeza profunda.
Olho para os fiéis que trabalham na terra. Respiro fundo.
Talvez seja castigado novamente.
“Eu tenho um pedido a fazer.”
“Um pedido, meu filho?”, noto sua surpresa. Ele sabe que quase nunca peço nada. “O que seria?”
“Eu gostaria de ajudá-los.”
Meu pai terreno parece não compreender.
“Gostaria de ajudá-los.”, repito, controlando o tom. Nem suplicante nem mandatório demais. “Eles estão sempre trabalhando por mim. Quero me juntar a eles, trabalhar na terra também, dela colher o sustento oferecido pelo Pai Celestial.”
Ele fita-me estupefato. Incrédulo até. Então ri. Ri de um jeito que me permite atestar o avançar de sua idade. Seu rosto mantém-se sempre tão liso, jovial... abraça-me novamente e recita um trecho de Mateus 17: “Este é o meu filho amado, em quem me comprazo.”. Afasta-se o suficiente para mirar-me e declarar, com ar satisfeito: “De fato, não poderia ser outro, senão você. Você é tão nobre, meu Camus...”.
Que há de nobre em mim?
Sim, pela missão que detenho, deveria ser nobre...
... mas...
“Cada um tem o seu papel a ser desempenhado na Obra, meu filho. Sua função ajuda-os muito mais sendo desempenhada da maneira como tem feito até agora do que se fosse até lá ajudá-los na lavoura. Você lhes dá esperança. Serenidade. Alento. Eles trabalham com alegria...”
“Em um sol tão forte...?”
“Não é melhor que debaixo de chuva ou neve?”
Calo-me.
Saberia o que responder.
Mas eu já fui longe demais.
Mais do que jamais fui.
“De mais a mais, daqui a seis meses receberemos uma nova leva de ‘ovelhas’.”, lembra, em um derradeiro argumento. “Como em todos anos, na primavera novos escolhidos vêm engrossar o contingente de moradores de nosso Vale. Atualmente há 2371 pessoas aqui conosco. Com as aquisições de terras dos últimos três anos, temos capacidade para receber pelo menos mais 200 fiéis. Serão de muita ajuda para eles.”, aponta para os que labutam sob o sol tórrido.
Tento assentir.
Sem muito sucesso.
“Por isso os Cerimoniais que demandam ‘doações’ são tão importantes. Tem ideia do quanto vai ajudar o cedido por Babel ontem à noite?”
Estremeço.
Sinto uma estranha dormência nas mãos. Nas pernas.
“Insumos. Mantimentos. Tecidos. São milhares a vestir, a alimentar. Suporte aos evangelizadores, aos missionários...”
Eu compreendo.
Eu compreendo.
Eu compreendo.
“Venha.”
“Para onde?”, desta vez pergunto.
Percebo que ele se surpreende de leve. Contudo, apenas me responde:
“Não está preocupado com as ‘ovelhas’? Fale com elas. Vai lhes dar alívio. E isso vai TE dar alívio”
Descemos pelo monte, rumo à lavoura. Quando nos notam, apontam para nós, maravilhados.
“Vejam! É o Messias!”
“O Messias!”
“O Redentor!”
De pronto, interrompem o que fazem.
Meu pai terreno e eu ganhamos o campo,caminhando até o grande grupo. Alguns começam a cair de joelhos. Estendo minhas mãos e peço que não o façam. Eles ficam mudos de reverência.
Não sei quantos são. Parecem tantos... homens, mulheres, velhos, crianças. Suas roupas puídas, rasgadas, colam-se a seus corpos, devido ao suor abundante. Não sei se todos me ouvirão. Mesmo assim, tento falar o mais alto que consigo: “Agradeço o esforço de todos vocês. Cada um que aqui está é uma importante peça para o Plano de meu Pai Celestial.”
Seus semblantes resplandecem de alegria.
Parecem refletir o próprio sol que os castiga.
“Que Deus continue dando a todos a saúde e a força necessárias para que sigam fazendo o que estão a fazer: um bom serviço pela causa de nosso Criador. Pela salvação das almas.”
Meu pai terreno sorri, satisfeito.
Seu olhar transmite aprovação.
Diante de olhares atônitos, eu me ajoelho.
“Poderiam me acompanhar em uma prece?”
Preciso sentir que há uma razão.
Eles largam suas ferramentas.
Preciso sentir que há um motivo.
Eles dobram seus joelhos no solo.
Fecho os meus olhos.
Sei que eles fecham os seus.
Não sei se meu pai terreno fecha os dele.
Imagino que não.
Começo a entoar a prece.
O vento não mais sopra em uma corrente quente e opressiva.
Torna-se em uma brisa fresca, acalentadora.
Não sei por que mas penso no anjo.
O anjo que visita-me os sonhos.
Sei que ele quer dizer algo.
Sei que ele quer me mostrar algo.
O que será?
Qual será sua mensagem?
Prostrados na terra, oramos todos.
*************
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