Redentor
18 Gólgota - Ato IV : A "Santa Ceia"
Notas iniciais
June sabia que aquilo aconteceria mais cedo ou mais tarde. Por isso mesmo, não se surpreendeu vivamente quando o marido irrompeu pelo quarto de dormir com detestável ar vitorioso.
— Passou bem o dia, meu amor? – Indagou ele, fechando a porta detrás de si.
Aquele sorriso causou arrepios de temor na jovem. Controlou-se como pôde, consciente de que tudo valeria a pena.
— Muitíssimo bem, como sempre na graça de Nosso Senhor. – Respondeu, escovando displicentemente os longos cabelos dourados.
Algol aproximou-se da penteadeira, fitando-a sem parar.
— Soube que fez uma visita esta tarde.
Ela estremeceu, contudo, fez-se de despreocupada.
— É claro que sabe. Do que é que você não sabe a meu respeito? – Disse, sem parar de pentear a cabeleira brilhosa.
— Não poderia ser diferente, poderia? – Ele tomou-lhe a escova da mão. Pôs-se a penteá-la, gesto que semeou receio na mulher. – É MINHA esposa. A escolhida dentre centenas. Que homem não cuidaria de um tesouro que possui?
Por uns instantes, o silêncio reinou no recinto. Sobre o carpete branco como as paredes, móveis de estilo vitoriano compunham o ambiente requintado que cabia à habitação de um dos filhos do líder da seita Aurora do Novo Porvir. Colunetas douradas quebravam a fina austeridade do aposento.
Os dedos de Algol deslizavam pelas sedosas madeixas, a arrumar as compridas mechas. June escolheu manter-se firme, seria corajosa por Albior. Por Camus. Por ela mesma e por seu filhinho.
Deus lhe dizia que Mikael poderia conduzi-los à libertação.
Camus não haveria de tê-lo visto como um anjo em sonhos de revelação em vão.
Agora sabia por quê.
Mikael era um policial.
E que ela morresse na empreitada, mas ajudá-lo-ia, em nome de tudo em que ainda acreditava.
— Por que foi até a cabana dele, brigar como uma rameira por seu macho? – Algol perguntou calmamente, repartindo o penteado.
— Ora, porque foi por culpa dele que vocês vão matar Albior.
— Preocupa-me ver você querendo inocentar um pecador em detrimento a um anjo...
— Nem você nem eu acreditamos que Mikael seja um anjo. – Retrucou secamente a loira.
— A maioria acredita. Até mesmo o Redentor.
— Eu odeio esse tal Mikael. Se Albior não resistir, eu vou matá-lo com minhas próprias mãos, prometo.
Seus olhares cruzaram-se através do reflexo emoldurado. O sorriso de Algol não arrefecia, o que fazia o coração de June palpitar ainda mais dolorosamente. Ela via naquela expressão álacre o refulgir sinistro de um temporal que se derrama detrás das montanhas.
— O próprio Hades ordenou que ninguém se metesse com o novato. Se lançaria à perdição por causa de um traidor como Albior?
— Albior não traiu ninguém. Mikael aproveitou-se do fascínio que exerce sobre Camus e o convenceu a querer entrar na cachoeira. Albior tirou a tornozeleira unicamente por isso. Por causa da influência nefasta desse... desse homem.
— É, você realmente não se importa em disfarçar que ainda se arde todinha por Albior... isso não é novidade. – Riu-se, ficando sério em seguida. – A novidade é essa percepção acerca de Camus. Disse que Mikael exerce “fascínio” sobre ele.
— Camus acredita que ele é um anjo que traz alguma mensagem do Pai Celestial.
— E... e você acha que... – A fala do marido tornou-se hesitante. – que esse... “fascínio”... se deve apenas a isso?
— O que mais seria?
— Vocês passam muito tempo juntos. Talvez ele tenha dito algo sobre isso.
June notou-lhe a mudança no tom, no rosto preocupado. De repente, fez uma careta de dor.
— Aai! Algol... meu cabelo... está puxando demais!
— Camus lhe diz alguma coisa sobre Mikael? Diz? Diz o que sente por ele? Fale!
— Ai! D-do que está falando? Para com… ah!
O rapaz a penteava de forma a machucar-lhe o couro cabeludo.
— Aposto que ficam os dois trocando confidências imorais... ele sobre Mikael, você sobre seu amado Albior... – Rosnou entre dentes.
Desvencilhando-se dele, June ergueu-se da cadeira estofada, mirando-o com desprezo. Muito mais que temor agora.
— Você está louco. Essa sua obsessão por Camus vai te levar para o INFERNO!
— Você acabou de revelar a intenção de cometer um assassinato, e EU é que vou para o inferno? – Gargalhou. – Se há alguém obcecado por outro aqui é você, minha querida... obcecada por um homem que NÃO é teu marido.
— Não sou obcecada por ele. – Murmurou June, no afã de fazê-lo acreditar no que alegava como razão para ter ido à cabana de Mikael. Algol mordia a isca, como o imaginado:
— Não? Então por que foi desafiar o “anjo”, culpando-o pela punição de seu amado traidor? Soube que gritava como uma cadela brigando por um cão!
— Mikael é o culpado por Albior estar naquela prisão!
— Cuidado, June... posso te mandar para aquela “prisão”... não é isso que quer? Ficar junto do amor de sua vida? Do MACHO que nunca conseguiu esquecer? Hein? – Começou a se despir, rindo loucamente. – Venha. Você pode imaginar que eu sou ele. É indigno para mim, mas se faz você ficar menos fria do que costuma ficar...
— Hoje não – Balbuciou ela, amedrontada, enojada. – Eu estou nos dias impuros.
— Não importa. Você é TODA impura. – Avançou lentamente para ela.
— Mas... você não... não gosta quando eu...
Ela foi brutalmente agarrada pelo esposo, ensaiando uma patética escapada. Inútil contra a superioridade física e, sobretudo, a covardia do consorte. Jogada no chão como um trapo qualquer, não teve escapatória de mais um ato tenebroso cometido por aquele homem.
— Algol, por favor... n-não... aí não...AAHH!
— Aqui SIM – Urrou, penetrando-a sem qualquer gentileza. – É menos sujo que na frente, AAAAHHH... oh, Deus! Que cheiro terrível! Sua imunda... porca, cadela, vaca imunda!!!
Os gritos de dor e prazer mesclaram-se na noite, que a June pareceria interminável como o padecimento dos condenados no inferno...
*************
Domingo.
Mais um domingo que o Redentor não aparecia diante de seus seguidores. O Grande Pai alegava que o Messias estava em semanas de meditação.
Milo sabia bem a razão.
Ao lado de Aldebaran, ao término do culto noturno, fingia orar, quando em verdade recapitulava o plano em sua mente.
Era chegada a noite da Santa Ceia. Sabia-o, porém, nada ainda da tal chave prometida por June. Teria ela desistido...?
As Ovelhas estavam a par que era época da “Santa Ceia”, malgrado desconhecessem a essência do Cerimonial. Sabiam apenas que era destinado aos mais altos membros de sua “religião”, e que, mediante isso, angariavam vultuosas somas para a Obra e para a comunidade.
O órgão conduzia o devocional, vozes do coral anunciavam o desfecho apoteótico daquele momento de consagração.
Os fiéis puseram-se de pé. Cumprimentaram-se uns aos outros, entre beijos, abraços, apertos de mão, em um cálido acolhimento.
June olhou para o palco, onde, junto com o Grande Pai e os Arautos e Vigias, o marido estava. Em alguns minutos, iriam descer pelas escadas. Procurou “Mikael” com o olhar atento; não foi difícil encontrá-lo, invariavelmente o rapaz ficava nas primeiras fileiras do centro. Pegou uma pequena Bíblia no compartimento do banco à sua frente. Erguendo-se juntamente com os demais, que principiavam as efusivas despedidas. Procurou não perder o policial de vista. Aproveitando o burburinho, abaixou-se e afagou o filho. Pegou-o no colo. Há tanto tempo mamãe não fazia isso, pois que ele, agora, já era um rapagão! Abraçou-a pelo pescoço.
— Jacó, é a hora. Lembre-se direitinho do que deve fazer. – Disse-lhe ao ouvido, fazendo de conta que o beijava ternamente nos cabelos anelados. Pôs a Bíblia nas mãozinhas rechonchudas do filho.
O menino apenas assentiu. Não estava habituado a questionar os pais ou quem quer que fosse. Criança ali tinha mais do que obedecer, tinha que servir. De mais a mais, a mãe já havia lhe dito como proceder, ao final daquele culto. Enquanto o arrumava em casa, orientou-o de maneira rápida e objetiva.
Ela o pôs no chão. A criança prontamente saiu correndo. Embrenhou-se na floresta de pernas. Avistou “Mikael”, quase sempre nas primeiras fileiras. Correu até ele, trombando em seus joelhos.
— Uff! Mas o que... ah, oi! É você! – Milo reconheceu de imediato o filho de June. O garotinho sorriu-lhe ao entregar-lhe o livro sagrado. Disse apressadamente:
— É um pedido de desculpas de minha mãe, por ter desafiado o Anjo do Redentor.
Alarmado, Milo considerou ao redor. Afagou os cabelos dourados do menininho.
— Obrigado, Jacó. Diga a ela que agradeço muito.
Sem nada responder, a criança saiu correndo. Um dos seguranças que acompanhavam June notou o ocorrido. Teria de reportá-lo a Algol. Por mais que lhe doesse o coração... não era segredo para ninguém próximo à família de Hades os maus tratos sofridos pela moça, e qualquer um que tivesse o mínimo de compaixão real em seu coração condoía-se por ela. Ele era um desses, a bem dizer... poucos. Viu o filho da patroa voltar esbaforido, trombando com algumas pessoas. Notando-lhe o semblante curioso, June virou-se para o capanga do marido e disse em voz baixa:
— Desrespeitei gravemente o enviado de Deus, não é segredo para ninguém, tanto é que fui severamente castigada por isso. Como pode ver, mandei Jacó entregar uma Bíblia ao senhor Mikael, como um pedido de desculpas. Não quis fazê-lo pessoalmente porque poderia desagradar Algol. Obviamente, é seu dever contar ao meu marido, já que percebeu...
Ela ergueu a manga do vestido de cetim azul claro, mostrando equimoses pavorosamente escuras. Havia também cortes com sangue ressequido. O homem, um tipo franco de irlandês de rosto e cabelos avermelhados, arrepiou-se ao ver aquelas feridas. Teve genuína pena da bela garota... sim, a esposa de seu chefe não era mais que uma garota! Talvez tivesse a mesma idade que sua querida filha Anna, igualmente maltratada pelo esposo...
— Não, senhora, não vou dizer nada. – Balançou a cabeça, reforçando o que prometia. – A senhora já está tão machucada!
— Que é que fala você tanto com esse serviçal, June? – Quis saber Pandora, fazendo-a cessar a conversa suspeita antes da chegada dos homens da família. Não admitiria, mas preocupava-se com a cunhada.
— Obrigada. – Agradeceu a loira, consciente da intenção velada da outra.
— Hunf. Não sei por quê. – Pandora olhou de esguelha para os lados. – Você é uma tola. Nunca que eu deixaria Rada encostar um dedo em mim desse jeito. Ele estaria morto só de levantar o braço para me agredir.
— Rada não é impiedoso como Algol. Você apenas deu mais sorte do que eu. – Replicou, suavemente.
— Sorte... – A morena fez um muxoxo. – Eu sei me defender, é tudo.
“Garantindo proteção entregando-se ao próprio sogro...”, pensou June, sem disposição para continuar aquela conversa.
Cautelosamente afastando-se dali, Milo segurou a pequena Bíblia, sob o olhar intrigado de Aldebaran. O livro possuía uma capa de couro branco, com uma linda cruz bordada em fios dourados, confeccionada artesanalmente. Conquanto percebesse que o ato fora clandestino, o brasileiro nada comentou. Recebeu uma olhada do novato, na qual se lia “te explico mais tarde”.
E, se o amigo não o fizesse, ele certamente iria cobrar.
*************
De volta à cabana do ex pastor, Milo apressou-se em explicar:
— Foi um pedido de desculpas.
— Hum.
— Naquele dia que veio aqui, me acusou de estar ficando muito próximo do Messias, de o estar desvirtuando. Que eu não era digno de me meter na família do Grande...
— Sim, eu me lembro de você ter contado a razão do escândalo dela.
— Não só isso. Reclamou que o Arauto Albior foi punido por minha causa. – Acrescentou, sem fornecer maiores detalhes.
Aldebaran meneou a cabeça. Tirou o capote de pele, pendurando-o em uma haste de carvalho afixada na parede. Milo fez o mesmo.
— Foi um gesto bonito, o da senhora June...
— Verdade. – O agente mostrou a Bíblia. – Puxa... é linda, não?
— Mika.
— Hum.
O moreno considerou-o com uma seriedade quase perturbadora.
— Não creio que Algol vá gostar de saber que você anda recebendo PRESENTES da esposa dele. Já percebeu que ele é um tanto... iracundo.
— O que te faz pensar que ele não sabe?
Dando de ombros, o brasileiro finalizou:
— Só não quero te ver em problemas novamente. Você parece ter um gosto especial por isso.
Milo deu um riso de genuína surpresa. Ora... Aldebaran por acaso estava a desconfiar de que... bem, servir-lhe-ia de disfarce adicional.
— Bem, vou me banhar. A comida já está pronta, só precisamos esquentar.
— Vá, vá, eu cuido disso. – Ofereceu-se o novato.
Tão logo Aldebaran fechou a porta do banheiro, Milo foi até a cozinha acender o fogão a lenha. Verificou o caldeirão que continha a refeição da noite, um substancioso cozido de lentilhas com pedaços de cervo de cabeça branca. Quando o fogo começou a crepitar, correu até seu quarto. Manuseou a Bíblia, sondando seus segredos.
Abriu-a, folheou-a, cheirou-a, até.
Tateou a superfície lisa do couro...
“A capa!”
Voltou à cozinha para pegar uma faca. No reservado de seu aposento, pôs-se a rasgar a linda capa da Bíblia. Fez um talho vertical. Com a lâmina, procurou por dentro do invólucro ricamente trabalhado e encontrou...
“A chave! Puta merda!”, percebeu que havia algo mais. “Um bilhete”.
As coordenadas do depósito... já havia decorado, mas a moça era cuidadosa mesmo! Falava também sobre uma porta nos fundos do depósito que dava para o subsolo...
“Preciso ser rápido”, pensava, enfiando a chave no bolso da calça de brim cáqui. Retornou à cozinha, abriu os armários de madeira um por um, certo de que se lembrava onde estavam...
Ah.
A despensa do canto. Perto das garrafas e dos cestos.
Abriu-a, ao mesmo tempo em que abria um sorriso esperançoso.
Os potes de ervas secas medicinais.
Dias antes, sondara o caderno de receitas da falecida mulher de Aldebaran, sempre acessível, sobre a lareira junto com livros e bíblias. Indígena, profundamente conhecedora de plantas e remédios naturais. Do que precisava?...
Lúpulo, verbasco, tília, papoula. Tinha tudo, tudinho ali... certo. Foi até a cesta de ovos e pegou alguns. Tomou também de uma parte de farinha, de leite, de manteiga...
E se não misturasse direito? E se o sabor das ervas se sobressaísse ao dos ingredientes do acepipe que estava prestes a preparar?
“Vou ter que arriscar. Não preciso dopá-lo, apenas fazer com que seu sono fique mais pesado...”
*************
—Aaaah, nada como um banho quentinho ao final de um dia cheio, não? – Comentava Aldebaran, que vinha alegremente pelo corredor. – Você não vem, Mika?
— Depois do jantar, tô meio ocupado aqui!
Aldebaran ia responder com uma piadinha sobre os hábitos de higiene do amigo quando viu a mesa posta na sala. Um aroma doce encheu-lhe as narinas. Na cozinha, “Mikael” preparava algo no fogareiro rudimentar.
— Hum... o que está fazendo? O cheiro está ótimo!
— Panquecas de maçã.
— Parece delicioso, mas... não é uma sobremesa muito pesada para o jantar?
— Desde quando ficou “fitness”? Já sei, quer ficar esbelto como eu. – brincou o loiro.
— Pra ficar fracote como você eu teria de me alimentar de vento, e fazer dieta de vez em quanto!
— Eeei, olha a ofensa!!!
O brasileiro deu uma sonora gargalhada. Minutos depois, dirigiam-se para a mesa. Milo deixou as panquecas já separadas. Empilhadas em pratinhos para si e para o amigo…
— Vamos orar? – Conclamou o dono da casa, as mãos já unidas e os olhos fechados.
— Vamos sim.
— Pai Nosso que estais no céu...
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Não foi preciso nem sair do quarto para averiguar: os roncos que varavam a humilde residência iluminada com parcimônia por uns poucos círios conferiram a Milo a certeza de que Aldebaran mergulhara em sono profundo.
“Plantinhas milagrosas. Essa receita vou guardar para as noites de insônia que me esperam em Red Meadow.”, pensou o policial, prendendo os bastos cabelos. Devidamente enrolados e aprisionados em rígido coque rente à nuca, rememorava as distantes madrugadas em que o sono esnobara-lhe a existência. Agora, encontrava-se sempre tão exausto da rigorosa rotina no Vale, que dificilmente passava alguma noite em claro.
Das últimas vezes em que isso acontecera foi porque pensava em Camus.
Não exatamente em Camus Redentor, mas no Camus “ser humano”, no horror àquela vida fora submetida...
“Pode ser que depois de hoje eu NUNCA mais volte a ter uma noite inteira de sono neste manicômio.”, conjecturava ao tirar de dentro de uma pesada manta, que retirara da última prateleira de madeira rústica, roupas previamente escurecidas com terra. Vestiu-as com a pulsação acelerada. Nem quando, infiltrado em alguma perigosa quadrilha, se via em alguma situação extremamente arriscada, seus batimentos cardíacos desordenaram-se daquela maneira!
Abriu a janela e saiu para a escuridão. A lamparina acesa na varanda fê-lo distinguir a casa de defumação. Na verdade, uma cabaninha estreita de madeira tosca, onde Aldebaran deixava os maiores cortes de caça, ora pendurados para secar no sal, ora em latões com banha de porco. Ali estava a maior parte do cervo que haviam comido no almoço e no jantar... com o facão que surrupiara da cozinha, o policial fatiou vários pedaços, acondicionando-os em uma bolsinha de couro que trazia a tiracolo. Caso desse de cara com um cão de guarda, um petisco inesperado poderia poupá-lo, ou, ao menos, dar-lhe tempo de reagir. E, se não funcionasse... o facão daria conta.
“Tomara que aceitem meu ‘suborno’”, pensava apreensivo. Odiaria ter de matar um cachorro. Era seu animal preferido. Já tivera alguns. “Quando eu voltar, vou arrumar um galgo. Me amarro em galgos.” Ultimamente, sonhava bastante com a “volta ao seu mundo”. Fazia planos com frequência: estava farto daquele lugar. Daquela opressão. Daquela loucura. Daquele sofrimento.
Quando sentiu a bolsinha pesar, julgou ter o suficiente.
Agora, era tomar o caminho. O longo caminho. Calculava estar no Tabernáculo em duas horas de caminhada contínua. Tinha duas opções: ir pela mata adentro, mais escura e mais segura, porém caminho mais demorado e fácil de se perder... ou ir seguindo a estradinha de chão batido, ao longo da qual algumas tochas ardiam em improvisados postes de iluminação. Este segundo caminho era mais rápido e certo de ser seguido, porém muito mais perigoso. Seria visto com facilidade pelos guardas noturnos que faziam a ronda pela comunidade.
Decidiu pelo meio termo; ir mais junto às encostas e ao matagal, sem se afastar demais da estradinha, guiando-se inclusive por ela. Embrenhou-se na vegetação e tomou o caminho rumo ao seu destino.
Pelos seus cálculos, já deveria estar prestes a começar o Cerimonial.
A Santa Ceia.
Estremeceu ao tentar imaginar o que viria a presenciar.
“CAMUS é a Santa Ceia”.
Sacudiu a cabeça. Parasse de pensar. Primeiro teria que ENTRAR no Tabernáculo. Que se preocupasse DEPOIS com o que iria testemunhar.
Caminhou bem uns vinte minutos sem nenhuma surpresa. Se ao menos tivesse um luar razoável, não precisaria ficar perto da estradinha. Não se sentia nada seguro ali, e logo viu que tinha razão. Ouviu um motor de carro ao longe. Abaixou-se até ficar de cara com a terra. Viu passar um carro de luxo.
“Convidados do Cerimonial”, raciocinou, vendo outros três se aproximando. Nem as árvores ficaram tão imóveis quanto ele. Quando o silêncio voltou a reinar, ergueu-se lentamente e continuou a andar. Acompanhavam seus passos na relva o cantar contínuo dos grilos e o piar sinistro das corujas. À sua frente, o breu. Ao lado, apenas relances da estradinha de terra, patrocinados pelas tremulantes chamas dos postes. A noite estava fresca, bem fresca. O esforço e a tensão, no entanto, semeavam gotas de suor no rosto do policial. Ele esfregava-o com as mãos sujas, escurecendo-se mais ainda. Milo agora era um borrão na noite escura.
Para homens, algo difícil de ser notado.
Para cães... nem tanto...
“Latidos”, pensou, tentando conter seu ânimo sobressaltado.
Havia um cão por perto. Já ouvia seu resfolegar ansioso.
“Sabe que estou aqui. A questão é... de onde ele vem?”
Tomou do chão um comprido graveto e ali espetou um pedaço de carne. Parou de andar e abaixou-se novamente. Ficando no mesmo nível do animal, aumentaria suas chances de sucesso; esticou o anzol improvisado na horizontal e esperou... foi quando ouviu o rosnado, aumentando à medida que o brilho nos olhos se destacavam na escuridão à sua frente.
“Colabore... aceite meu presente...”, suplicou em pensamento.
A vara foi puxada com violência.
“Você gostou? Quer mais?”
Milo pegou mais um pedaço, desta vez oferecendo-o com a mão.
“Venha, não tenha medo. Não vou machucá-lo. Bem... na verdade... não quero TER de machucá—lo, amigo”.
O bafo quente precedeu a umidade, deixada na palma, pela aceitação.
— É gostoso, não é? – Sussurrou, ousando acariciar a cabeça do bicho. Um rotweiller. Com a outra mão, deu mais um pedaço, intensificando o carinho à medida que tomava confiança.
— Pelo jeito, não te alimentam muito bem, não é mesmo, amigo? Está pele e osso.
O cão ganiu, arrepiando Milo até a alma. Mas não parecia de hostilidade...
— Toma mais um. Aí você me deixa seguir meu caminho. Tá?
Afinal, não poderia esvaziar todo seu bornal com um único cachorro, não?
Espantou-se ao sentir a lambida em sua mão. Fantasiou que era um agradecimento, a fim de não deixar o medo tomar conta. Afagou-lhe mais uma vez, já ensaiando andar. O cachorro continuou parado no lugar. Milo avançou vagarosamente alguns metros, quando sentiu que o cão o seguia de perto.
“Ai, caralho...”
Bem, se quisesse atacá-lo, já o teria feito. Mas o pensamento não o aliviava totalmente, claro. Andou com o cachorro ao seu lado que, incrivelmente, parecia fazer-lhe “festinha”.
— Seu interesseiro, não posso te dar mais...
Ao primeiro latido, a alma do policial quase saiu-lhe do corpo! Apressou-se em dar uma sobremesa ao esfomeado...
“Pelo visto, você vai levar todo meu estoque antes mesmo de eu chegar a um terço do caminho”, desolou-se o jovem, afagando o animal.
Súbito, latidos por trás.
“Puta merda”, virou-se, preparando o anzol. A questão é que seu “novo amigo” também queria aquele “suborno”. Tentou pegar.
— Não, cara, esse não é pra você! Por favor...
Eis que surge um outro rotweiller, aparentemente mais “profissional” que o primeiro. Latiu furiosamente, sem sair do lugar.
“Está dando o alarma”, percebeu. Tratou de atirar-lhe um grande naco de carne, desprezando o a vara, cuja extremidade já havia sido esvaziada pelo “pele e osso”. Ambos cães atiraram-se sobre a carne.
Se queria discrição, já podia despedir-se dela. Os animais fizeram um tremendo estardalhaço, brigando entre si.
Milo decidiu correr. Sabia que eles correriam atrás dele logo em seguida, mas considerou que uns minutos de vantagem podiam ajudar-lhe. Infelizmente a briga não durou muito; em questão de segundos, os cachorros dispararam no seu encalço.
“Puta que pariu. Não vai ter jeito...”
Parou a corrida e virou-se para eles, esperando-os. Quando o primeiro atirou-se contra o agente, recebeu um chute certeiro no focinho. Rapidamente, puxou o facão e cravou no peito do cão. O outro continuou latindo feroz, em cautelosa hesitação. Ganindo dolorosamente, o animal ferido ainda tentou atacar, o que fez com que Milo rodopiasse a lâmina com destreza, intentando seu rápido fim. Assustado, tratou de voltar-se para o outro, que rosnava ameaçadoramente. Pela parca luz de uma tocha próxima, percebeu que era Pele e Osso.
— Por favor... não me faça te matar também...
Latidos de medo e fúria precederam a investida final de Pele e Osso. Com semelhante destreza, Milo abateu o animal, ganhando alguns arranhões nos braços. Malgrado fosse menor e menos robusto que o outro cão, Pele e Osso resistiu mais para morrer. O loiro trincou os dentes e cortou a garganta do animal que há poucos acariciara. O monte de carne sem vida tombou aos seus pés.
“Merda, merda, merda!”, praguejou, consternado. Agora, além de sujo de terra, estava sujo de sangue. E tinha feito uma bagunça dos diabos. Respirava ruidosamente, ofegando com os olhos quase marejados. Sentia muito por ter matado os cães. Esperava sinceramente não encontrar outros pelo caminho.
Atirou os corpos inanimados em um rio próximo. Aproveitou para limpar-se. Por mais que lamentasse tirar de si a útil camuflagem da terra, o sangue logo secaria e deixaria terrível cheiro. Nenhum disfarce funcionaria com tal fedentina. Retornou ao caminho, tiritando de frio. Trôpego, seguia de longe a estradinha mal iluminada. Seus braços doíam terrivelmente. Por sorte, não chegara a ser mordido, mas as unhas do bicho fizeram um bom estrago. Começou a sangrar novamente. Praguejando, usou o facão para rasgar pedaços da calça; com os trapos, improvisou um curativo. Machucado como estava, não tinha certeza de poder enfrentar novamente o que acabara de enfrentar...
Capengou por vários minutos, sem ouvir nenhum ruído que não fosse da própria natureza. O número de tochas aumentava à medida que avançava. Precisou recolher-se mais pelas beiradas da estrada. Alguns furgões passaram. Teve a impressão de que estava perto...
Mais latidos ao longe.
“Essa não...”, já com o facão em punho, resolveu dispensar o truque da vara. Percebera que agora era matar ou...
— ... não há nada de errado por aqui. Na certa os cães viram algum urso, ou uma suçuarana.
Milo abaixou-se ao ouvir aquela voz. Continuou a escutá-la:
— Eu e os rapazes estamos verificando, mas até agora, não vimos nada. De qualquer maneira, tomem cuidado aí. Antes de os latidos pararem, eles ganiram como condenados. Acho que foi urso, sim.
Um facho de luz percorreu as vegetações. O policial escondeu-se atrás de uma árvore.
— Deixa de ser medroso, se for mesmo urso, é só esperar ele se aproximar bem. Se atirar de longe, não vai adiantar muito, o maldito continua vivo e te mata com uma patada.
“Não ouço outra voz... esse cara... está usando um comunicador, decerto.”, pensou o agente, encolhido. Viu a luz alta da lanterna incidir nas copas das árvores. Uma ave noturna soltou um grito e alçou voo, visivelmente perturbada.
— Está bem, vou continuar a ronda. Diga aos que terminaram o turno para entrarem pelos fundos do Tabernáculo. Precisam de homens por lá também.
A voz rascante, sem emoção, sem idade, aproximava-se. Dando a volta pelo troco, Milo viu de relance o vulto contra a luz amarela. E viu também o que tinha na mão. O que usava para se comunicar.
Um celular.
Os olhos azuis arregalaram-se ante aquela descoberta. Um celular!
Com aquilo, quem sabe não conseguisse filmar o ritual, e, melhor... entrar em contato com Saga, sem mais esperar!
Desta vez já não lhe importaria matar. Uma morte por seu sucesso.
Que Deus o perdoasse...
Riu de seus próprios pensamentos. Em pensamentos, claro.
Esperou o homem passar por sua frente. Covardia, sabia. Contudo... necessário... preparou-se para golpear-lhe o pescoço com o facão. Em qualquer outro lugar, o vigia emitiria um grito. Se pegasse no lugar certo, ruído nenhum seria ouvido.
E assim foi feito.
O sangue jorrou como cascata pelo corpo trêmulo. Não houve tempo sequer de defesa. E se esta ocorresse, seria um tiro de espingarda. Esta caiu ao solo tão logo a sombra da morte se abatesse sobre ele. Milo ajoelhou-se sobre o segurança e estocou-o certeiramente no coração, a fim de proporcionar-lhe uma morte piedosamente mais rápida. Ergueu-se, apoderando-se de uma pistola e do celular.
73% de bateria.
Não era tão mau. Se fosse rápido...
Resolveu atirar o corpo no rio que corria ali... o Rio Jordão.
O Rio em que Camus o batizaria dentro de alguns dias.
“Não vai acontecer”, pensou, triunfante. Encheu de pedras a roupa do defunto para que ele afundasse logo. Enterrou a espingarda. Terminadas as ações, digitou a mensagem de texto:
“Scorpio para Gemini. Venha imediatamente para o Vale. Pessoas”
Parou, de repente. E se por um supremo azar fosse pego? A mensagem no aparelho comprovaria que ele era um agente infiltrado. Teria uma morte horrível, lenta e dolorosa. Se torturavam com tanto gosto o próprio “deus” daquele lugar!...
Apagou-a logo.
Usaria o celular para filmar o Cerimonial. Depois, longe do maldito antro, mandaria a mensagem para o superior. Sim, era o mais acertado. Não o mais fácil, mas o mais acertado. A menos...
“A menos que eu NÃO vá para o Tabernáculo. Volto AGORA MESMO correndo para a casa de Aldebaran e envio a mensagem...”
Mas... e quanto a June? Todos seus esforços para que ele estivesse LÁ, para presenciar o mais importante – e pelo que pode inferir no semblante do próprio Camus – e o mais temível dos rituais daquela seita infame. Ademais, agora dispunha de meios para registrar a palhaçada toda... fácil não seria, mas ele não era um dos melhores homens de Saga à toa. Não fora por acaso escolhido para aquela tortuosa missão.
Revigorado, pôs-se de volta ao caminho. Evitou de pensar no homem a quem acabara de subtrair a vida. Não era a primeira vez que fora obrigado a matar, e, embora não se vangloriasse nem um pouco do ato, lamentava bem mais pelos cães...
E... por falar em cães...
“Puta que pariu”, praguejou em pensamento, ao ouvir novos latidos não muito distante de onde estava. Vasculhou a bolsa com os nacos de carne. Já não tinha tantos... na hora em que se preparava para a incursão, julgou-se misericordioso por não ter envenenado a carne; agora, condenava-se por esta falha. Por causa de seu sentimentalismo, arriscava-se a ser pego antes de alcançar seu destino. E de que adiantara? Terminara por matar dois cachorros assim mesmo... ah, sim, e um homem.
“É, só que se eu tivesse feito isso, poderia chamar a atenção dos vigias que estão espalhados por aí, pois os bichos iriam fazer um barulho dos diabos, ganindo e uivando de dor.”. Sim. E que fim angustiante para os pobres animais...
O som dos latidos aproximava-se. Não tinha certeza de ser mais de um cachorro. Mesmo assim, nada propício. Decidiu correr. Deixaria para atirar os petiscos no último momento. Tomou a diagonal e entrou mais um pouco pelo mato, parcamente iluminado pelo número maior de postes ao largo. A adrenalina eliminou qualquer cansaço e dor que se insinuava antes. Correu, sendo atingido vez ou outra por galhos e arbustos dos quais não tivera tempo ou capacidade para se desviar. Um facho de luz atravessou as árvores, fazendo-o parar, apavorado. Alto demais para ser uma lanterna.
Então soube do que se tratava.
Próximo a uns castanheiros, uma camionete parada. O que estaria fazendo ali, fora da estrada de terra?
Aproximou-se, sorrateiramente, tomando extremo cuidado para não fazer barulho. Escutou vozes.
— Não precisava encostar, eu não tenho medo de escuro.
— Imbecil, não fiz isso por você, fiz por mim. Também quero me aliviar, e não podia deixar o carro parado na estrada, né?
— É, ainda mais esburacada como está, não iria passar outro... levaríamos uma bronca.
Por tanto que Milo procurasse os donos das vozes cansadas, não os encontrava. Espere... um deles falara em “se aliviar”...
— Aaahh! Será que tinha algo estragado no jantar?
— Não sei... depois vamos perguntar se mais alguém passou mal. Agora cale a boca. É horrível cagar com alguém falando com a gente.
Cautelosamente, o policial aproximou-se do veículo. Transportava caixas de madeira... decerto ia para o Tabernáculo. Para onde mais estariam transportando o que quer que fosse àquela hora da noite?
Resolveu arriscar.
Vindo por trás, emergindo da vegetação protetora, o loiro entrou na carroceria. Ficou com o facão a postos, abaixado entre a carga. E nada dos homens voltarem! Só ouvia-lhes as lamentosas conversas, vindas do mato.
— Aaah, meu Deus! Tinha coisa estragada na comida, só pode...
— Cala a boca. Tem algo aí pra limpar?
— Ora, olha o tanto de planta à nossa volta...
Milo fez uma careta de nojo. Certamente, um dia riria daquilo, sentado em sua sala de estar, contando a peripécia a uma linda morena de corpo escultural, durante um drink pós sexo...
— Vamos logo, Aaron, já nos atrasamos muito por conta disso.
— Não tenho culpa da comida do refeitório estar estragada, raios.
— Não pragueje, que é pecado, homem.
Encolhido entre as caixas, o agente percebeu que os homens voltaram para o carro. Eles bateram a porta e ligaram o motor, que demorou um pouco a pegar. Ao passar por partes iluminadas da estrada, Milo pôde ver que eram caixas de vinho e champanhe. Franziu as sobrancelhas, intrigado com a quantidade de bebida, e a necessidade dela em um cerimonial supostamente... religioso.
Pelo menos, teve a reconfortante certeza de que era para o Tabernáculo que se dirigiam.
O furgão adentrou uma área mais iluminada; Milo encolheu-se o máximo que pôde. Cobriu-se com uma lona que avistou no canto da caçamba. Sabia que estava perto... se por um lado tinha se adiantado, e isso era muito bom, por outro não sabia como sairia dali sem ser notado... e isso era péssimo.
A camionete ainda deu um solavanco, fazendo Milo bater com o ombro em uma caixa. Segurou-o bem firmemente, no afã de evitar a irradiação daquela dor. O carro parou segundos depois. Estavam em um lugar mais claro. As portas bateram-se, em um indicativo que os homens deixavam o veículo.
— Vamos pegar os carrinhos de transporte.
— OK, mas antes preciso ir ao banheiro...
— Não melhorou, Aaron?!?
—Droga, o que acha? – Os passos apressados, a voz se distanciando – Já volto! Se encontrar alguém, mando vir te ajudar!
— Que remédio... vai, vai, vou pegar um carrinho.
A julgar pelos sons de passadas e de resmungos que se afastavam, o policial inferiu que o outro homem também havia deixado o lugar. O silêncio reinava. Contudo, poderia garantir que era seguro sair da caçamba? Tirando um pouco a lona de cima da cabeça, Milo supôs que estivesse em um galpão de descarga. Levantou-se bem devagar, ocultando-se entre os caixotes empilhados. Olhou de um lado a outro: estava certo… furgões e camionetes estacionados, caixas e embrulhos pelos cantos. Não parecia ter ninguém por perto... resolveu arriscar. Esgueirou-se para deixar a carroceria. Agachado, percorreu rapidamente por entre os veículos, até que vozes ao longe e encostou na parede, deixando-se escorregar. Penduradas bem na coluna em frente dele, roupas... roupas de trabalho, presumiu. Pareciam bem grandes.
“Mas isso caiu do céu!”, pensou, já esticando a mão para se apoderar de uma delas. Escolheu um macacão verde escuro bem largo e uma espécie de jaqueta de mesma cor. Por mais estranho que pudesse ficar, era melhor do que andar pelo Tabernáculo com roupas sujas de sangue. “Tem uns chapéus esquisitos também...”. Sequer foi necessário trocar de roupa; compridos que eram, pôs os trajes por cima do que usava. Afinal, não poderia abandonar suas vestes por ali... achegou-se de novo à parede, sonhando em ser uma das aranhas que dos cantos o observavam. Viu duas portas... por qual deveria seguir?
Abriu uma delas. Deu de encontro com um homem moreno com uma cerrada barba negra. Seu coração disparou. O desconhecido olhou-o da cabeça aos pés.
— Por que está com trajes de apicultor a uma hora dessas, irmão?
Pela voz, Milo soube quem era.
— Fui avisado de que estava tendo problemas em uma das colmeias, fui lá verificar...
— Tsc, com tanto trabalho por aqui? Vem, me ajuda com as bebidas que acabei de trazer.
— Com prazer, irmão.
— Os outros já devem estar vindo, mas é melhor adiantarmos o que pudermos.
— Claro. – Assentiu Milo, mantendo a frieza. Acompanhou o homem até a camionete em que vieram.
— O rapaz que veio comigo está passando mal. Comeu algo no jantar que não lhe caiu bem. Veio cagando desde a cidade até aqui. – Contou, entre risos. – Tem gente que é muito fraca do estômago. Eu não. Sou resistente como um urso das montanhas, graças a Deus!
— Graças a Deus. – Fingiu que acreditava naquele grande mentiroso.
Posicionaram o carrinho diante da carroceria.
— Vamos começar pelas caixas de champanhe... er... não estou lembrando do irmão...
— Eu sou Eliaquim. – O agente pensou em um nome bíblico não tão comum, retirado da genealogia de Jesus. – Não costumava aparecer muito porque estive com uma doença que me deixou de cama por anos.
— Oh! Por isso não o vi... – conversavam descarregando o carro. – E como ficou curado, irmão?
— Pela fé... e pelos cuidados incessantes de minha mãezinha, idosa, mas ainda muito prestimosa.
— Deus seja louvado! Bem, acho que está bom. Pode levar para a cozinha.
— O irmão não vem? – Indagou Milo.
— Vou esperar o imprestável do Aaron. E os outros rapazes.
— Ah, claro...
— Algum problema?
—É que... eu nunca fui até a cozinha do Tabernáculo...
— Ah, sim, você esteve sem poder trabalhar por muito tempo. Basta virar à direita no final do corredor por onde vim e seguir reto à esquerda. Mas espere... você estava aqui e não conhece o Tabernáculo?
A agilidade de pensamento era um dos trunfos do policial Milo Hatzis:
— Conforme eu te disse, fui verificar um problema nas colmeias. Entrei aqui só para guardar o material. Mas não me incomodo em ajudá-lo com isto aqui, meu serviço já acabou mesmo.
— Eu agradeço, irmão. Bem, pode ir na frente, vou logo depois que eles chegarem com mais carrinhos.
— Certo. – Sentindo-se um passarinho libertado da gaiola, o jovem apressou-se em sair dali. Empurrando o pesado carrinho com vigor, seguiu pelo caminho indicado. Suava de nervoso e também pela quantidade de roupa que usava.
Saindo do comprido corredor, deu com uma ampla área iluminada. Pessoas circulavam de um lado a outro: nitidamente serviçais. Avistou a cozinha. Levantou mais a gola do capote, abaixou mais o chapéu, bem como o rosto. Entrou no frenético lugar, e lá deixou as caixas de champanhe – francês, e do melhor, percebeu.
Caixas empilhadas, hora de seguir...
— Irmão!
Ele virou-se, quase surpreso.
Uma jovem de tez delicada e fulgurantes olhos verdes disse-lhe:
— Não vai levar o carrinho de volta? Não pode deixá-lo aqui.
— Oh, claro, que cabeça, a minha! – Sorriu, pegando o transporte.
Visivelmente encantada com o pouco que vislumbrava do rosto desconhecido, ela comentou:
— Sabe, você... me lembra alguém.
— Verdade? Hehehe, sempre me dizem isso. Devo ter uma cara muito comum!
A moça corou, considerando que o homem era bem mais atraente do que “comum”... abaixou o olhar, pois teve medo de pecar. Estava ali para trabalhar pela Obra do Grande Pai, não para ficar admirando semblantes de serviçais, como, aliás, ela o era.
— Com licença... – O agente falou, retirando-se dali em meio a sorrisos pretensamente tímidos.
Empurrou o carrinho pelo corredor, traçando o caminho orientado por June.
Avistou uma porta que, pela posição, deveria ser o depósito cuja chave estava em seu poder. Aproximou-se, sem deixar de olhar cuidadosamente em torno. Quando viu que ninguém passava por ali, enfiou a chave na fechadura, com pressa e o coração aos pulos.
A porta cedeu em um clique que o fez suspirar.
Meteu-se no cômodo, fechando a porta detrás de si e trancando-a com duas voltas. Suspirou novamente. A luz já estava acesa. Como se fosse uma grande novidade para uma criança, o policial contemplou a lâmpada fria, dando-se conta de que o Tabernáculo realmente não era como os demais lugares da comunidade. Assim como as áreas administrativas e os locais de culto da cidadela, “a casa do Messias” dispunha de luxos como luz elétrica... e, pensando na quantidade de bebidas finas e importadas que vira na camionete, sabe-se lá de que outras regalias desfrutavam Hades e sua SANTA família...
“Camus deve viver como um príncipe.”, imaginou. Bem, algo como o cão gordo e bem tratado da “fábula do cão e do lobo”: cercado de riquezas, despojado da própria liberdade.
Não valia a pena.
Nem um pouco.
Levou menos de dois segundos para os olhos azuis celestes do jovem pousarem sobre o balde coberto por um pano vermelho.
Descobriu-o.
Ali estava o traje cerimonial, cuidadosamente dobrado, alvo como algodão. Tomou-o entre as mãos, sentindo-lhe a maciez. Desdobrou-o: tão comprido! Será que não ficaria grande demais nele? Tirou as roupas verdes de apicultor, conservando apenas as vestes com que viera.
“O celular!”, lembrou-se, ao senti-lo pesar no bolso da calça de tecido cru. Empurrou-o mais para o fundo.
Vestiu por cima das humildes e sujas roupas que usava o traje cerimonial...
Realmente lembrava as infames vestes dos integrantes da Ku Klux Klan, com exceção do capuz, que dispunha de um zíper na parte inferior do rosto. Assim os convidados poder-se-iam servir daquelas finas bebidas, pensou. Que precavidos. Devidamente paramentado, notou que havia uma porta na parte dos fundos do depósito. Olhou para ela e para a chave que tinha. Poderia ser...?
Tentou abri-la. Trancada. Então experimentou a chave na fechadura metálica.
Após uma breve resistência, conseguiu.
Eis que o que havia diante de si não era outro corredor, e sim uma escada estreita e mal iluminada.
“Vai dar no subsolo, obviamente”, trancou a porta e começou a descer os degraus. “Certo, vamos nessa.” Já planejava o que iria dizer caso o encontrassem ali. O que estaria fazendo um importante “convidado da Santa Ceia” em um acesso de serviço? Dizer que tinha se perdido não convenceria o mais tapado dos seres!
“Bem, não tenho outra escolha no momento, tenho?”, monologava mentalmente, quase irritado.
Não escutava nada a não ser o som mínimo de seus passos cautelosos. No fim da escadaria, outra porta. Estaria trancada? A mesma chave abrira duas portas, quem sabe… não foi preciso: percebeu que estava destrancada. Abriu-a vagarosamente, não sem antes ter ascultado através da madeira clara. O silêncio dera-lhe segurança de sair. Pôs o rosto na fresta, pensando em milhares de desculpas mirabolantes. Ganhou o novo corredor.
Nada.
Ninguém.
Do teto alto, pendiam lâmpadas frias. Olhou ao redor. Deparava-se somente com piso e paredes de ardósia negra. Um mal estar apoderou-se do jovem, cujo coração parecia prestes a explodir. Respirou fundo e seguiu, até que um som indefinido começou a se sobressair à mudez vigente. Engolindo em seco, prosseguiu, consciente de que o tal antro não estava longe... virou à esquerda e viu algumas portas das quais pessoas vestidas como ele saíam. Quando o movimento amainou, entrou por uma delas.
Apenas um banheiro coletivo, elegantemente ornado, aos moldes dos mais suntuosos shoppings centers.
Foi lavar as mãos para disfarçar. Não poderia saber se tratavam-se de sanitários femininos ou masculinos, não havia qualquer placa que o indicasse.
Como fantasmas, os frequentadores entravam e saíam... nada falavam. Nada.
Bem, etapa vencida.
Ele estava ali e ninguém estranhara sua presença.
Deixou o sanitário coletivo (não sem antes mirar-se, perturbado, ao espelho. Nem seus olhos apareciam, perfeito!). A passos lentos, seguiu algumas pessoas que deixavam aquele e outros banheiros. Sob uma imensa ogiva repleta de símbolos estranhos, as funestas figuras desapareciam.
Atravessando-a, o agente soube que estava no famigerado Salão da Santa Ceia.
A luz era baixa, suavemente avermelhada. Dezenas de pessoas espalhavam-se pelo ambiente sombrio, conversando em vozes extremamente baixas. Uma dúzia de vitrais com cenas bíblicas, notadamente da vida de Cristo consistiam no único e espetacular adorno daquele vasto ambiente. O maior deles, para o qual Milo olhou impressionado, retratava justamente a Santa Ceia. Estavam ali com Jesus os doze discípulos à mesa, celebrando o último encontro com o Salvador...
Milo estremeceu. Um arrepio gélido eriçou seus pelos, seu desconforto aumentando a cada segundo. Que atmosfera vil e pesada! No entanto... nada acontecia...
Serviçais igualmente disfarçados serviam taças de vinho e champanhe aos presentes. Os que aceitavam abriam o zíper da máscara para poderem beber. Nem todos aceitavam, o que deu segurança ao policial para recusar também, com um breve gesto.
“Deve ter umas cinquenta pessoas aqui... talvez mais, talvez menos... será que Camus é um destes ‘Gasparzinhos’?”, cogitava, sem perder nada de vista.
Avançou pelo salão, o temor por baixo de sua ousadia jamais se dissipando de vez. Sentia-se preso em algum sonho induzido por uma droga lisérgica.
“Santa Ceia. Pressupõe-se que haveria uma mesa, ou algo parecido... só vejo um balcão vazio.”, observou, intrigado com a aglomeração ao redor daquele grande bloco de mármore de cor opala.
— Irmãos e irmãs da Suprema Ordem. Ovelhas consagradas, escolhidas pelo Supremo Pai Celestial. Abençoadas sejam, sejam bem vindas...
“Hades!”, a respiração do policial extinguiu-se sob a ira que a mera voz daquele homem lhe despertava. À sua entrada, todos se curvaram, no que imitou-os Milo.
O fundador da Igreja Aurora do Novo Porvir apareceu diante de todos, igualmente vestido de branco até os pés, mas com o rosto comprido e pálido descoberto. Sobre os longos e fartos cabelos negros, uma coisa que muito lembrava as coroas usadas por faraós do Antigo Egito: esta era alta, reluzente, com um pequeno disco no topo. Milo não saberia dizer se era prateada ou dourada, aquela iluminação escarlate confundia-o... desta vez, Hades usava enigmáticas pinturas sobre os olhos, evidenciando-lhes o sinistro negror. Era a primeira vez que o pai do Redentor apresentava-se de forma verdadeiramente... perturbadora. Se até agora, Hades se mostrara frio e calculista, agora de fato assombrava a sensibilidade do agente.
“ESSE é o verdadeiro Hades? Ele é, então, um louco?”
Não.
Não deveria se deixar ser ludibriado.
Cada um daqueles “convidados” desembolsara FORTUNAS para estarem ali. Mas para fazerem o QUÊ, exatamente?
E Camus?
Onde estava Camus?
“CAMUS é a Santa Ceia.”
“Inferno, o que isso quer dizer?”, perguntava-se, aflito.
— Abençoados sejam pelo sacrifício por intermédio do qual foram selecionados para estarem aqui nesta noite. Receberão o Pão da Vida, o Sangue de Cristo, revivido entre nós nesta era de trevas e iniquidade, graças à Aliança restituída. – O sacerdote declamou, abrindo os braços como se fosse um grande pássaro prestes a alçar voo.
Os exaltados améns e aleluias que seguiram causaram nauseante impressão no agente federal. Hades caminhou entre os convidados, lenta e sinistramente. Ao sentir seu manto roçar-lhe as mãos, Milo sufocou um aflito resfolegar.
— “O povo que andava em trevas viu uma grande luz, e sobre os que habitavam na região da sombra da morte resplandeceu a luz...” – O Grande Pai recitava gravemente o primeiro versículo do capítulo 9 do livro de Isaías. Às suas palavras, todos ergueram-se em auspicioso silêncio.
Em um único ponto do salão, um ponto iluminou-se por um feixe de luz branca. Incidia no alto de uma pequena escadaria de mármore clara. Para ele todos os olhos se voltaram. Incluindo os atentos olhos azuis de Milo Hatzis... que, de pronto, se arregalaram ao ver Camus totalmente nu sob a luz branca, seu corpo níveo parcialmente coberto apenas pelas compridíssimas mechas vermelho fogo.
“Santo Deus”, exclamou o policial atônito, em pensamento. Procurou no semblante do “messias” qualquer emoção que denotasse o que lhe ia na alma. Contudo, expressão alguma lia-se no rosto impassível do ruivo. Em vão Milo buscou a doçura e a nobreza que um dia vislumbrara nos olhos de excêntrico castanho avermelhado, tampouco havia neles medo ou mesmo constrangimento; mortiços, apagados, fitava, o nada, a ausência, nada além...
“Camus”, pensou, impressionado, como se pudesse ser ouvido pelo rapaz.
Mas não... Camus não dava mostras de ouvir qualquer coisa que fosse. Não ouvia o pai declamando versículos bíblicos, nem as vozes de um canto em estilo gregoriano principiado por um coral localizado na galeria. Cantavam em uma língua que não era inglês, nem latim, tampouco hebraico... o agente não conseguia reconhecer.
Em passos tão lentos que dir-se-ia flutuar, desceu os degraus de mármore. Malgrado não piscasse ou olhasse uma única vez sequer para baixo ou para os lados, não vacilou. Parecia um autômato... um zumbi... um... NÃO PARECIA O CAMUS QUE CONHECERA!
Eis que, ao vê-lo se aproximar de “seu povo”, o policial percebeu as marcas nos braços do Redentor...
“Ele foi drogado...”, intuiu, com mais horror do que estupefação.
Com que sórdida intenção haviam feito aquilo com o jovem?
“CAMUS é a Santa Ceia.”
Santa Ceia.
Mas onde DIABOS estava a tal mesa com a tal ceia?
“CAMUS é a Santa Ceia.”
Tudo que havia era aquele balcão... aquele altar... aquele... o que era aquilo, afinal? E POR QUE Camus se dirigia justamente para ele?
“Não, não pode ser!”
Queria arrancar da mente as palavras incompreensíveis de June, cujo significado começava a ser delineado...
“NÃO PODE SER!”
“CAMUS é a Santa Ceia.”
“Não é possível!!!”
Auxiliado pelo próprio pai, o Redentor deitou-se no topo do altar. A luz branca ainda incidia sobre ele, que mantinha os braços ao longo do corpo, perfeitamente imóvel, estirado, seu rosto a tudo alheio voltado para cima. Hades posicionou-se detrás do altar. Lançou um olhar enigmático ao filho, que agora assemelhava-se a uma bela escultura tumular. Camus sequer olhou-o de volta. Apenas esperava. Apenas... jazia...
Os convivas acercaram-se dele como sombras de um sonho nefasto. Sem ver-lhes os rostos, era impossível afirmar categoricamente que se serviam visualmente da nudez do “messias”, no entanto, Milo podia-o inferir...
“NÃO É POSSÍVEL! Não é possível que Hades chegue a ESSE PONTO...!”, Milo experimentava uma sensação inédita de ódio, revolta, asco, medo, indignação... seu coração retumbava furiosamente, a ponto de doer.
O Grande Pai impôs a mão sobre o filho, tal qual Jesus fizera há séculos com o alimento que partilhou com seus discípulos, pouco antes de ser ser aprisionado:
— Tomai, comei; este pão é o meu corpo. Tomai, bebei; este vinho é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado por muitos para remissão de pecados. Eis que é chegada a hora, e o Filho do homem está sendo entregue nas mãos dos pecadores...
E quando a primeira mão tocou o corpo do “messias”, tudo escureceu dentro de Milo.
Mergulharia no mais sórdido nível do que era capaz a humanidade.
*************
Os cânticos elevavam-se pelas cúpulas daquele infame santuário. Aturdido, Milo presenciou lábios percorrendo o torso do Redentor. Lábios umedecendo cada um dos dedos de seus pés muito brancos. Lábios sobre sua fronte, suas faces, seus cabelos, suas mãos. Presenciou mãos que sondavam seus braços, seu peito, seu ventre, suas pernas. Os “selecionados” revezavam-se, mas sempre havia vários deles por sobre o corpo do falso messias; este apenas semicerrava as pálpebras, o olhar vazio ainda perdido nas alturas.
“Meu Deus”, Milo sentia uma intensa náusea invadi-lo, “que devo fazer?!?”
Não havia NADA que pudesse fazer.
June advertira sobre isso.
Não havia nada que pudesse fazer, a não ser continuar no papel de “comensal”.
“Não, eu não posso! Jamais poderia...!”
Lábios sobrepostos aos lábios do Redentor, longos dedos passeando sobre suas níveas coxas, antes de novos lábios ali aportarem. O policial desviava o olhar, enojado. Aquilo NÃO PODIA estar acontecendo!
Mas estava...
Percebeu rastros úmidos nos mamilos róseos do jovem subjugado. Em seu pescoço, já havia marcas de chupões, bem como em seus flancos. Viu as pernas de Camus sendo afastadas... cada uma delas foi provada por miríades de mãos e bocas.
“Hades maldito... que filho da puta! QUE FILHO DA PUTA”, espumava de ódio, convencido de que a pena de morte seria o mais indicado para o líder da seita.
Para sua sorte, viu que nem todos tocavam o pobre rapaz; satisfaziam-se tão somente em presenciar o rito. Sentiu-se seguro para agir como eles. Nem por sua VIDA seria capaz de tocar naquele homem daquele jeito...
“Meu Deus”, novamente gritou em pensamento.
O que EM NOME DE DEUS estavam fazendo a Camus?
Foi quando uma luz nova chamou-lhe a atenção. E outra. E outra.
Alguns comensais começaram a FILMAR o ritual com seus celulares. Embasbacado, Milo viu uma oportunidade que não imaginava ter.
— Aonde vai LOGO AGORA, irmão? – Ouviu alguém lhe perguntar, bem no instante em que fez menção de sair.
— Ao banheiro... preciso me... preciso me aliviar...
Entendendo outra coisa, o desconhecido levou a mão para o interior da própria vestimenta. Milo viu-o manipular o membro já endurecido.
— Pode fazer isso AQUI mesmo, oras. – Disse-lhe o homem, masturbando-se sem o menor pudor.
E por que o teria? Outros já faziam o mesmo...
Trêmulo de angústia e pavor, o agente explicou-se:
— Ah... não... não, falo de urinar mesmo...
— Oh, entendi.
Quase tropeçando na túnica, o policial ali se evadiu rapidamente. Ao chegar ao toalete, vomitou antes mesmo de conseguir levantar a tampa do vaso, fazendo aquela sujeira. Felizmente sujara o chão e a privada, não sua roupa. Só então percebeu que chorava. Gemeu, sentindo-se mal como se tivesse bebido duas garrafas de uísque ruim.
“O celular... o celular... concentre-se, Milo! Nada de desabar, porra”, ralhava consigo mesmo.
Certificando-se de que a porta estava trancada, enfiou a mão por baixo da túnica. Retirou o celular de seu esconderijo, o elástico terminando por bater dolorosamente na pele. Verificou o aparelho.
49% de carga.
Mordeu o lábio com violência. Estavam salgados de lágrimas.
Se registrasse aquele ritual hediondo... se aquelas imagens fossem parar nas mãos da Polícia Federal... da Justiça...
Hades estaria finalmente liquidado.
Teria que ser forte!
O que era seu desconforto perto do que vivia o Redentor?
“Foco, Milo. Não se deixe envolver. É desumano, mas fica frio...”
Ao voltar para o salão, viu que tudo havia piorado.
Era a própria visão de um pesadelo infernal.
Esforçando-se por controlar a tremedeira das mãos, o policial começou a filmar.
Agora abocanhavam sem qualquer cerimônia o sexo do “messias”, aspergindo-o com saliva brilhante e viscosa. Alguém levantou-lhe uma das pernas, e uma nova região se fez acessível àquelas mãos e bocas profanas...
“CAMUS é a Santa Ceia.”
Um sino ecoando dolorosamente na cabeça de Milo.
Os capuzes quase saindo das cabeças pecaminosas deixavam entrever atos que continuavam a revolver o estômago de Milo. Um homem gemeu alto, claramente em êxtase por lamber o membro do nobre “Salvador” da Aurora do Novo Porvir, já avermelhado de tantas sucções brutais. Outros a ele se seguiram. Vozes masculinas. Vozes femininas. Vozes de todos que se SERVIAM.
O Redentor continuava imóvel, seu corpo simplesmente sacudindo pelas manipulações em seu corpo. Milo perguntava-se se ele ainda estava vivo. Discretos tremores dos cílios rubros mostravam-lhe que sim...
Os comensais profanos possuíram o pobre jovem de todas as maneiras possíveis. As pernas de Milo tremiam, e seu enjoo chegava a níveis quase insuportáveis. Teve que engolir o vômito que lhe viera à boca.
Voltou a olhar para o repugnante cenário.. Desfeito sobre a base marmórea, os longos cabelos ruivos espalhados pelo chão e pelas palmas ávidas que os agarravam. Camus emitiu um som baixo, angustioso. Seu rosto começou a se modificar, a estátua tumular ganhava contornos e movimentos de um ser humano, o rosto impassível agora contorcia-se em clara agonia. Sentia dor, era evidente! Dor física, e muito mais... a mesma dor que trespassava o espírito humano do policial.
“O efeito da droga deve estar passando”, supôs Milo, lamentando o fato. Porque agora Camus estava CONSCIENTE do que lhe acontecia. E podia SENTIR...
Investidas mais eufóricas de seus violadores fizeram o ruivo gritar. Por baixo da máscara, Milo cerrou os olhos com força, mais lágrimas sendo libertadas pelo seu rosto também contorcido, mas de ira.
Por cima de Camus, marcas de chupões, mordidas, arranhões, batom, vestígios de sêmen... em seu rosto, trilhas de sangue desciam-lhe até a base de seu pescoço.
Estremecendo, Milo percebeu o que era aquele sangue.
Não era proveniente de nenhuma ferida.
Eram LÁGRIMAS.
“As lágrimas de sangue!”
Se meses antes havia julgado que aquilo se tratasse de meros efeitos visuais,essa crença arrebentou-se ante a constatação de que Camus legitimamente pranteava, sob a dor e a humilhação... e que esse pranto constituía-se de sangue legítimo!
Aproximando-se ao mesmo tempo que suspendia a respiração, Milo levou uma das mãos até o rosto do “messias”; interceptou uma das trilhas de lágrimas, inconscientemente (ou conscientemente?) acariciando-o...
De repente, os olhos do ruivo se arregalaram assustadoramente para o agente, como se o estivesse reconhecendo. Milo estacou, terrificado. Mas isso seria impossível, certo? Estava com o rosto TOTALMENTE coberto!
O loiro retirou rapidamente a mão da face do jovem. Viu os lábios de Camus tremerem antes de articularem, quase sem som:
— ... por que me desamparaste?...
Golpeado por aquelas palavras, Milo temeu vomitar ali mesmo. Afastou-se, resistindo ao impulso de correr. Caminhou tão calmamente quanto podia até o banheiro. Precipitou-se com tudo ao toalete, esvaziando o estômago outra vez. Tudo que saiu foi uma gosma verde e borbulhante.
— Oi, você está bem aí?
A pergunta fez o agente gelar.
— S-sim... – Desligou o celular e o guardou no bolso da calça por baixo da veste cerimonial. – A-acho que foi algo que comi hoje...
— Pode ser a emoção – Opinou a voz, aparentemente de uma senhora. – Muitos passam por isso, da primeira vez.
“Primeira vez”, Milo cerrou os punhos ao mesmo tempo que travou a mandíbula. Fervia de revolta. O mal estar duplicava.
— Quer que te traga uma água?
— Não se preocupe, irmã, já me sinto melhor, obrigado.
— Está bem. Se prefere assim... melhoras, irmão.
Ele ouviu o som dos passos distanciando-se. Demorou alguns minutos até que se sentisse disposto a sair do toalete. Parou diante da pia. Antes de abrir a torneira, olhou para sua mão direita.
O sangue de Camus.
Limpou a mão por dentro da camisa com que viera da casa de Aldebaran. Se conservasse aquela peça até a chegada de Saga, poderia, posteriormente, levá-la para análises.
Percebeu que ninguém mais parecia entrar no banheiro. Claro! Entretidos como estavam com o abjeto cerimonial, só mesmo em casos bem emergenciais alguém se dirigiria aos sanitários! Rangeu os dentes só de pensar nisso. Entretanto, não era hora de se enfurecer, e sim, de manter a calma e ESCAPAR dali.
O melhor seria evadir-se por onde viera.
Saiu para o corredor. Ninguém. Milo tomou logo a direita, apressando o passo ao ouvir vozes à distância. Rumou para o caminho de ardósia negra. Pareceu mais longe do que antes! Os cânticos também se distanciaram, até desaparecerem de seus ouvidos. Isso aumentou a esperança de escapar ileso.
Encontrou a porta que levava até o depósito através da escada estreita. Segundos depois, encontrava-se no caótico recinto no qual se paramentara. June dera-lhe a certeza de que apenas ela tinha as chaves daquele depósito, logo, ele não viu problemas em deixar as vestes cerimoniais no local; levá-las consigo era inviável! Pôs de volta o largo macacão e a jaqueta verde. Trocou o chamativo chapéu de apicultor por gorro de lã que estava pendurado junto com algumas toucas.
Apesar de alguns sustos aqui e ali, conseguiu chegar ao galpão de descarga. Não havia mais ninguém ali. Toda mercadoria destinada ao sórdido evento já havia sido despachada. O portão estava fechado; nada impossível de ser escalado por alguém como ele. Teve o cuidado de pegar dentre algumas ferramentas encontradas uma pá média, que poderia lhe servir como bastão, caso precisasse... rápido como um gato, e como treinara em Israel anos antes, galgou o portão de ferro, com a pá presa à cintura, e saltou. Chegara ao Tabernáculo percorrendo mais de meio caminho dentro de um carro. Agora teria de ser tudo a pé... com sorte, chegaria à cabana pouco antes do final da madrugada. E que nada nem ninguém lhe atravessasse o caminho... certamente descontaria no infeliz o ódio que a “Santa Ceia” semeara-lhe no âmago.
“Agora é tudo ou nada. Nem que eu perca a minha VIDA, eu VOU tirar Camus deste inferno. Eu juro PELA MINHA VIDA!”
Acreditava piamente que não fazia o juramento por Camus em especial, mas sim por não poder conceber que qualquer ser humano fosse submetido a uma existência tão desgraçada, tão indigna, tão cruel... sim, não era exatamente pelo falso messias... era por um inocente explorado pelo próprio pai do modo mais atroz de que jamais tivera conhecimento.
Mas rememorava o sorriso de Camus, a proximidade de Camus, a confiança de Camus, a inocência de Camus, a altivez de Camus, a pureza de Camus... lágrimas voltaram a nublar-lhe a visão. Enxugou-as com impaciência.
“Preciso me concentrar. Andar por essas matas escuras sem enxergar direito pode me matar antes que algum troglodita do Vale o faça!”, decidiu, resoluto. Embrenhou-se logo pelos arbustos ao lado da cerca e afastou-se do maldito Tabernáculo.
Ainda olhou para trás, contemplando com ardente ódio a edificação pretensamente santa, sonhando com o dia em que a veria abaixo, coberta por névoas de terra e poeira.
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